Ttulo: Um Homem com Sorte.
Autor: Nicholas Sparks.
Ttulo original: The Lucky One.
Dados da edio: Editorial Presena, Barcarena, 2008.
Gnero: romance.
Digitalizao e correco: Dores Cunha.
Estado da obra: corrigida.
Numerao de pgina: rodap.

Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destina-se unicamente
 leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei
de direitos de autor, este ficheiro no pode ser distribudo para
outros fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente.

Contracapa: Durante a maior parte da sua vida, Logan Thibault foi um
homem que em tudo se podia considerar comum. Porm, nada de comum havia
naquilo que estava prestes a acontecer-lhe. Quando encontra uma
fotografia de uma mulher durante a guerra do Iraque, Logan Thibault
passa, inexplicavelmente, a ser um homem com a sorte do seu lado, que
sobrevive, com ferimentos graves, a situaes de indescritvel perigo.
A fotografia, que nunca ningum chegou a reclamar, comea a ser
encarada como um talism e, de regresso aos EUA, Thibault no consegue
deixar de pensar na mulher que lhe salvou a vida. Decidido a encontr-
la, percorre o pas  sua procura, mas, assim que a encontra, o
desenrolar dos acontecimentos foge rapidamente ao seu controlo, e o
segredo que transporta consigo poder custar-lhe tudo aquilo que lhe 
querido.
Nicholas Sparks traz-nos neste romance uma sublime histria sobre a
fora avassaladora do destino que se sobrepe a tudo e d sentido at
aos momentos mais inexplicveis da vida (fim da contracapa).

FICHA TCNICA
Ttulo: Um Homem com Sorte
Ttulo original: The Lucky One
Autor: Nicholas Sparks
Copyright (c) 2008 by Nicholas Sparks
Traduo (c) Editorial Presena, Lisboa, 2008
Traduo: Saul Barata
Capa: Ana Espadinha
Composio, impresso e acabamento: Multitipo - Artes Grficas,
1 edio, Lisboa, Outubro, 2008
Depsito legal n 283 086 08
Reservados todos os direitos
para Portugal  EDITORIAL PRESENA Estrada das Palmeiras, 59 Queluz de
Baixo 2730-132 BARCARENA
Email: info@presenca.pt

Dedicado a Jamie Raab e a Dennis Dalrymple
Um ano para recordar...
e um ano para esquecer.
Estou convosco em pensamento.

AGRADECIMENTOS

Escrever nunca  um esforo solitrio e, como sempre, h muitas pessoas
a quem devo agradecer por ter tido a energia e a capacidade para
completar este romance. Existem,  evidente, inmeras formas de
homenagear os esforos destas pessoas, pelo que pensei dizer-lhes
obrigado de diversas maneiras - pelo menos segundo a lista que googlei
antes de escrever isto. (Sem olhar para uma lista, consegue nomear
todas as lnguas de improviso?)
No topo da lista est,  claro, a minha mulher, Cathy. Mais do que
tudo, mantm-me atento e concentrado em todos os aspectos realmente
importantes da vida. Aconselho os meus filhos a casarem com mulheres
como ela, quando chegar a altura deles. Thank you!
Os meus filhos vm a seguir: Miles, Ryan, Landon, Lexie e Savannah,
tenho imortalizado cada um deles (pouco, muito poucochinho), dando os
seus nomes a personagens dos meus romances anteriores. Ser abraado por
eles  a maior de todas as ddivas. Muchas gracias!
E a seguir? A minha agente literria, Theresa Park, merece a minha
eterna gratido. A relao agente autor pode, por vezes, ser difcil -
pelo menos  o que tenho ouvido acerca de outros agentes e escritores.
Para mim, digo-o com toda a sinceridade, desde o nosso primeiro
telefonema, em 1995, tem sido sempre fantstico trabalhar com a
Theresa.  a melhor; no  s lcida e paciente, foi tambm dotada com
uma dose de bom senso superior  da maioria das pessoas que conheo.
Danke schon!
Denise DiNovi, amiga e companheira de projectos cinematogrficos, 
outra das muitas bnos na minha vida. Produziu trs dos meus filmes,
O Sorriso das Estrelas, As Palavras que Nunca te Direi e Um Amor para
Recordar (este ltimo baseado no livro Um Momento Inesquecvel), o que
faz de mim um dos mais afortunados escritores do mundo. Merci beaucoup!
 .
David Young, o fabuloso director da Grand Central Publishing, tem-me
apoiado sempre,  uma sorte poder trabalhar com ele. Arigato gozaimasu!
Jennifer Romanello, publicitria e amiga, durante os ltimos treze anos
transformou a publicidade numa experincia eternamente interessante e
agradvel. Grazie!
Edna Farley, minha secretria, programa quase tudo e trata de qualquer
problema que surja durante as minhas viagens. No  apenas fantstica,
 tambm dotada de um optimismo infindo, um pormenor que me habituei a
tratar com carinho. Tapadb leibh!
Howie Sanders, meu agente cinematogrfico e amigo,  outro dos membros
do clube dos que dizem trabalho h muito tempo com o autor. E a minha
vida tem beneficiado com isso. Toda raba!
Keya Khayatian, outra das minhas agentes de cinema,  fantstica e
sempre generosa com o seu tempo. Merci, a menos que prefiras Mamnoon!
Harvey-Jane Kowal e Sona Vogel, minhas editoras de texto, so
incrivelmente pacientes, considerando que ando sempre muito atrasado.
Tm de detectar todos os pequenos erros dos meus romances (bom, s
vezes tambm os grandes) e, infelizmente, no lhes atribuam as culpas.
A culpa  minha. Elas so fantsticas no que fazem. Para ambas: Spasibo!
Scott Achwimer, o meu advogado,  um desses homens que nos fazem
franzir o cenho ao ouvir anedotas de advogados. Lieis paldies!
Muitos agradecimentos tambm para Marty Bowen, Courtenay Valenti, Abby
Koons, Sharon Krassney, Lynn Harris e Mark Johnson. Efharisto poli!
Alice Arthur, a minha fotgrafa, est sempre pronta para emergncias e
para tirar uma fotografia fantstica. Toa chie! Ou  Xie xie?
Uma vez mais, Flag desenhou uma capa maravilhosa. Shukran gazilan!
tom McLaughlin, reitor da Epiphany School, uma escola que eu e a minha
mulher ajudmos a fundar, tem-me enriquecido a vida desde que
trabalhamos juntos. Obrigado!
E, finalmente, David Simpson, meu colega treinador da escola New Bern
High. Mahalo nui loa!
PS - As lnguas que usei para dizer obrigado so: ingls, espanhol,
alemo, francs, japons, italiano, galico-escocs, hebreu, farsi
(persa), russo, lituano, grego, chins, arbico, portugus e havaiano.
Pelo menos segundo o portal que consultei na Internet. Mas quem  que
acredita em tudo o que l est?
10

CLAYTON E THIBAULT
O ajudante Keith Clayton no os ouvira aproximarem-se e agora, assim de
perto, no lhe agradavam mais do que na primeira vez que os vira. O co
includo. No gostava de pastores alemes e este, embora se mantivesse
calmo sobre as quatro patas, fazia-lhe lembrar Panther, o co que
acompanhava o ajudante Kenny Moore nas patrulhas, e que,  mais breve
ordem, estava sempre pronto a morder os suspeitos na zona entre as
pernas. Durante a maior parte do tempo considerava Moore um idiota mas,
ainda assim, era o que mais parecido tinha com um amigo entre o pessoal
do departamento, tendo de admitir que a forma como Moore contava
aquelas histrias de mordeduras de braguilhas o fazia chorar a rir. E
Moore teria certamente apreciado o pequeno grupo de peles engelhadas
que Clayton acabara de trazer, aps ter estado a espiar duas alunas da
escola mista a bronzearem-se com o glorioso sol da manh. S l
estivera uns minutos, apenas tirara um par de fotografias com a cmara
digital, quando viu uma terceira rapariga a espreitar por detrs de um
canteiro de hortnsias. Ocultara rapidamente a mquina fotogrfica nuns
arbustos que tinha atrs de si, sara do esconderijo da rvore e,
momentos depois, ele e a rapariga encontravam-se frente a frente.
- Ora bem, o que  que se passa aqui? - perguntou com voz arrastada, a
tentar p-la na defensiva.
No gostara de ter sido apanhado, nem ficou satisfeito com a sua
pergunta inicial. Costumava ser mais delicado. Bastante mais.
Felizmente, a rapariga estava demasiado embaraada para avaliar a
situao e quase caiu ao tentar recuar. Gaguejou qualquer coisa
enquanto tentava cobrir-se com as mos. Era como observar algum a
tentar jogar Twister consigo mesma. .... .. t -
11
Clayton no se esforou para desviar os olhos. Em vez disso sorriu, a
fingir que no lhe reparava no corpo, como se estivesse constantemente
a encontrar mulheres nuas na mata. Agora tinha a certeza de que ela no
sabia da mquina fotogrfica.
- Calma, o que  que se passa? - perguntou.

Sabia perfeitamente o que se passava. Acontecia umas quantas vezes em
cada Vero, especialmente em Agosto: alunas de Chapel Hill ou da NC
State deslocavam-se  praia para um ltimo fim-de-semana prolongado em
Emerald Isle, antes de comear o perodo escolar de Outono; faziam por
vezes um desvio por uma velha estrada, uma sucesso de curvas com
buracos, que penetrava quase dois quilmetros na mata nacional, antes
de atingir o ponto em que a ribeira Swan Creek descrevia uma curva
apertada para South River. Era uma praia de seixos que acabara por ser
conhecida como o lugar para banhos de sol em pelota - no sabia o que
originara aquele hbito - e Clayton passava por ali amide,  espera de
ter sorte. Duas semanas antes, vira seis midas giras; naquele dia,
contudo, havia apenas trs. E as duas que estavam estendidas ao sol j
procuravam vestir as blusas. Embora uma delas fosse um tanto pesada, as
outras duas, incluindo a moreninha que estava  frente dele, tinham
corpos capazes de enlouquecer os colegas da faculdade. E tambm os
ajudantes do xerife.
- No sabamos que andaria algum por aqui! Pensmos que no houvesse
problemas!
O rosto dela revelava inocncia apenas suficiente para o fazer pensar
o pap no ficaria orgulhoso se soubesse o que a sua menina andava a
fazer?. Divertia-o imaginar a resposta que ela daria  pergunta mas,
como estava fardado, sabia que tinha de ser mais formal. Alm disso,
sabia que estava a tentar a sorte; se chegasse a saber-se que o
gabinete do xerife patrulhava efectivamente aquela zona, nunca mais
haveria alunas por ali, uma ideia que Clayton nem queria encarar.
- Vamos falar com as suas amigas.
Seguiu-a em direco  praia, a observar as vs tentativas que ela
fazia para esconder o traseiro, a gozar o espectculo. Na altura em que
saram da mata e desembocaram na praia as amigas j tinham vestido as
blusas. A moreninha correu para junto das outras e no tardou a pegar
numa toalha, embora o gesto a obrigasse a derrubar duas latas de
cerveja. Clayton apontou para um aviso pregado numa rvore prxima.
- No viram o aviso?
Todas viraram os olhos na direco indicada. As pessoas so como
carneiros, sempre  espera de ordens, pensou. O aviso, pequeno e
parcialmente encoberto pelos ramos mais baixos de um velho carvalho,
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fora ali colocado por ordem do juiz Kendrick Clayton, que, por acaso,
era tio dele. A ideia do aviso fora de Keith; sabia que a proibio
oficial s aumentaria o atractivo do lugar.
- No o vimos! - respondeu a moreninha, virando-se para ele.
- No sabamos! - continuou, ainda a debater-se com a toalha; as
outras, demasiado aterradas para pensar, pouco mais faziam do que
tentar enfiar os biquinis. - Foi a primeira vez que viemos aqui!
Disse-o como se choramingasse, como se estivesse a lamentar-se perante
uma irmandade de mulheres mimadas, que provavelmente eram. Tinham todo
o ar disso.
- Sabiam que o nudismo em pblico  proibido neste pas?
Notou que os rostos jovens ficavam mais plidos, sabendo que elas
estariam a imaginar aquela pequena transgresso registada nos seus
processos. Engraado, mas recordou a si mesmo que no devia ir to
longe.

- Como  que se chama?
A moreninha engoliu em seco. - Amy. Amy White.
- De onde ?
- De Chapel Hill. Mas nasci em Charlotte.
- Estou a ver umas bebidas alcolicas. Todas tm vinte e um anos? As
outras tambm responderam, pela primeira vez: - Sim, senhor ajudante.
- Muito bem, Amy. vou dizer-lhe o que vou fazer. vou aceitar a vossa
palavra de que no viram o aviso e de que tm idade para beber
legalmente, no vou dar grande importncia a isto. vou fingir que no
estive aqui. Desde que no contem ao meu chefe que deixei as trs 
solta.
As raparigas no tinham a certeza de poderem acreditar nele.
- De verdade?
- De verdade. Tambm andei na universidade - respondeu. No andara, mas
sabia que soava bem. - E agora devem querer vestir-se. Nunca se sabe,
pode andar gente por a - acrescentou, sorridente.
- No se esqueam de deixar isto limpo, est bem?
- Sim, senhor ajudante. Voltou-se, preparando-se para as deixar. -
Obrigado.
-  tudo?
Virando-se, voltou a sorrir. -  tudo. A partir de agora tenham cuidado.
A caminho do carro, Clayton foi afastando os arbustos mais rasteiros,
dobrando-se para passar por debaixo de alguns ramos, a pensar que agira
bem. Agira mesmo muito bem. Na verdade, Amy at lhe sorrira e ainda lhe
passara pela cabea voltar atrs e pedir-lhe o nmero
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de telefone. No, decidiu, talvez fosse melhor no mexer mais no
assunto. O mais provvel era elas irem contar s amigas que, embora
tivessem sido apanhadas pelo xerife, no lhes acontecera o que quer que
fosse. Espalhar-se-ia a ideia de que os ajudantes da zona eram fixes.
Ainda assim, enquanto caminhava pelo bosque, alimentava a esperana de
que as fotografias estivessem boas. Seriam um acrescento agradvel da
sua pequena coleco.
Fora, de modo geral, um excelente dia. Quando se preparava para
recolher a mquina fotogrfica ouviu um assobio. Seguiu o som que viera
da estrada florestal e viu o estranho com o co, a caminhar lentamente
estrada fora, parecendo uma espcie de hippie dos anos 60.
O estranho no estava com as raparigas. Clayton tinha a certeza disso.
Primeiro, o tipo era demasiado velho para estudante universitrio;
estaria, pelo menos, no final da casa dos vinte. A longa cabeleira
parecia um ninho de ratazanas e Clayton reparou no volume do saco de
dormir que levava na mochila. No se tratava de um passante a caminho
da praia; o tipo tinha todo o aspecto de quem andava em excurso,
talvez a acampar. No fazia ideia do tempo que ele estivera ali ou
daquilo que o homem vira.
Tal como Clayton a tirar fotografias ?
De forma alguma. No era possvel. No estivera visvel a partir da
estrada principal, os arbustos rasteiros eram espessos e ele no teria
deixado de ouvir quem andasse pelo bosque. Certo? Mesmo assim, aquele
era um lugar estranho para caminhadas. No havia por ali o que quer que
fosse e a ltima coisa que Clayton desejava era o aparecimento de um
monte de hippies que estragassem o lugar preferido das estudantes.
Entretanto, o estranho passara por ele. Estava perto do carro-patrulha
e dirigia-se para o jipe das raparigas. Clayton saltou para a estrada e
pigarreou. Ao ouvirem o som, tanto o estranho como o co se voltaram.
Clayton continuou a analis-los de longe. O estranho no parecia
afectado pelo sbito aparecimento do ajudante, o mesmo sucedendo com o
co, mas o olhar do caminhante era esquisito. Parecia estar  espera
que Clayton se mostrasse. O que tambm sucedia com o pastor alemo. O
co mostrava-se distrado e alerta ao mesmo tempo, um ar quase
inteligente, o mesmo que o Panther mostrava antes de Moore o soltar. O
estmago do ajudante contraiu-se. Teve de fazer um esforo para no
cobrir as partes privadas.
Continuaram a olhar-se durante um bom bocado. Desde h muito que
Clayton sabia que o uniforme intimidava a maioria das pessoas.
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Toda a gente, mesmo os inocentes, ficam nervosos quando vem
autoridades, aquele tipo no seria diferente. Era uma das razes por
que adorava ser ajudante.
- No tem uma trela para o co? - inquiriu, dando o seu melhor para que
a pergunta parecesse uma ordem.
- Tenho-a na mochila.
Clayton no distinguiu qualquer sotaque. Ingls de Johnny Carson,
como a me dele descrevia aquela maneira de falar. - Prenda o co.
- No se preocupe. O co no se mexe sem eu o mandar.
- Mesmo assim, prenda-o.
O estranho pousou a mochila no cho e ps-se  procura; Clayton esticou
o pescoo, com a esperana de ver qualquer coisa parecida com drogas ou
armas. Momentos depois a trela estava presa  coleira do co e o
estranho encarou-o com uma expresso que parecia perguntar: E agora?
- O que  que anda a fazer por aqui? - perguntou Clayton.
- A caminhar.
- Para um caminheiro arranjou uma grande mochila. O estranho no
respondeu.
- Ou talvez ande s voltas por a, a tentar ver as paisagens? ??
-  isso que as pessoas vm fazer aqui? ? Clayton no gostou do tom, ou
do que implicava. - Gostaria que
se identificasse.
O estranho debruou-se uma vez mais sobre a mochila e tirou de l o
passaporte. Colocou a mo aberta  frente do co, ordenando-lhe que
ficasse quieto, e deu um passo em direco a Clayton para lhe entregar
o documento.
- No tem carta de conduo?
- No tenho.
O ajudante analisou o nome, movendo os lbios lentamente.
- Logan Thibault? O estranho assentiu.
- De onde ?
- Colorado.
- Grande viagem. - No obteve resposta.
- Vai a qualquer lugar especial?,
- vou a caminho de Arden. - O que  que h em Arden? - No sei. Nunca
l estive. ? Clayton recebeu mal a resposta. Demasiado seca.
Demasiado...
provocadora? Demasiado qualquer coisa. Fosse o que fosse. De 15
repente, reconheceu que no gostava do tipo. - Espere aqui - ordenou.
- No se importa que confirme isto, pois no?
- Esteja  vontade.
Ao encaminhar-se para o carro, Clayton olhou por cima do ombro e viu
Thibault meter a mo no saco, tirar de l uma tigelinha, onde despejou
gua de uma garrafa. Como se nada o preocupasse neste mundo.
Vamos ver, no  assim? Do carro-patrulha enviou o nome pela rdio,
leu letra a letra, antes de ser interrompido pela recepcionista.
-  Thibault, como Ti-bt, no Ti-bolt.  francs.
- Por que  que tenho de me preocupar com a pronncia? --Eu estava
apenas a dizer...
- Deixa l, Marge. Limitas-te a confirmar, se fazes favor?
- Ele tem ar de francs?
- Como diabo queres que eu conhea o aspecto de um francs?
-  apenas curiosidade. No te irrites. Tenho aqui bastante que fazer.
Pois, tinha sempre, pensou Clayton. Provavelmente tinha de comer os
donuts. Marge engolia uma boa dzia de bolos com creme por dia. Devia
pesar uns 150 quilos, pelo menos.
Pela janela do carro via o estrangeiro a dar palmadinhas nos flancos do
co, a falar-lhe baixinho enquanto o animal bebia gua. Abanou a
cabea. A falar com animais. Maluco. Como se o co pudesse compreender
fosse o que fosse para alm de ordens simples. A ex-mulher dele
costumava fazer o mesmo. A mulher tratava os ces como pessoas, o que,
numa primeira anlise, devia t-lo mantido afastado dela.
- No encontro nada - ouviu Marge dizer. Pareceu-lhe que ela estava a
mascar qualquer coisa. - Nada de estranho, tanto quanto posso ver.
- Tens a certeza?
- Sim, tenho a certeza. Sei o que fao.
Como se estivesse a ouvir a conversa, o estranho recolheu a tigela e
guardou-a, voltando a pr a mochila s costas.
- Houve alguns telefonemas fora do habitual? A denunciar pessoas que
andam por a a vaguear, coisas desse gnero?
- No. Tem sido uma manh calma. E, a propsito, onde  que ests? O
teu pai tem andado  tua procura.
O pai de Clayton era o xerife do distrito.
- Diz-lhe que no me demoro.
-Parece zangado.
- Diz-lhe apenas que ando em patrulha, est bem?
No se preocupou a acrescentar: Para ele saber que tenho estado a
trabalhar. 16
- Eu digo-lhe. Melhor.
- Tenho de desligar.
Colocou o aparelho no lugar e deixou-se ficar sentado, imvel, sentindo
um ligeiro desapontamento. Seria engraado ver como o tipo encararia a
priso, com aquela cabeleira feminina e tudo. Os irmos Landry teriam
um dia em cheio com ele presente. Eram clientes habituais da cadeia nas
noites de sbado: bbados e desordeiros, perturbadores da ordem, sempre
em lutas, quase sempre um com o outro. Excepto quando estavam atrs das
grades. Nesse caso, metiam-se com qualquer outra pessoa.
Afagou o puxador da porta do carro. E qual seria daquela vez o motivo
da zanga do pai? O pai enervava-o. Faz isto. Faz aquilo. J preencheste
os relatrios? Por que  que te atrasaste? Onde estiveste? Em metade
das ocasies gostaria de responder ao velhote que tratasse da vida. O
velhote ainda pensava que controlava tudo  sua volta.
No interessava. Supunha que acabaria por descobrir, mais cedo ou mais
tarde. Era tempo de pr o hippie dali para fora, antes de as raparigas
aparecerem. Presumia-se que aquele era um stio especial, no era
verdade? Hippies esquisitos poderiam arruin-lo.
Clayton saiu do carro e fechou a porta. O co inclinou a cabea para um
lado ao v-lo aproximar-se. - Peo desculpa pelo incmodo, Mr. Thibault
- justificou-se ao devolver o passaporte. Desta vez acentuou
propositadamente o sotaque. - Estou apenas a fazer o meu trabalho. A
menos,  claro, que transporte drogas ou armas na mochila.
- No trago.
- Importa-se que eu veja? 
- No,  vontade. Existe a Quarta Emenda e tudo isso.
- Vejo a um saco de dormir. Tem andado a acampar?
- Na noite passada estive em Burke Camp. . Clayton analisou o homem, a
pensar na resposta.
- No existem parques de campismo nas redondezas.
O tipo ficou calado.
Foi Clayton quem desviou os olhos. - Seria prefervel manter o co
preso pela trela.
- No sabia que havia neste pas uma lei sobre as trelas. - No existe.
 para segurana do seu co. A estrada principal tem grande movimento
de automveis.
- Terei isso em ateno.
- Muito bem, ento - concluiu Clayton. Mas parou uma vez mais.
- Se no se importa que pergunte, h quanto tempo  que est aqui?
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- Ia de passagem. Porqu?
Algo na maneira como o outro respondeu ps Clayton a magicar,
hesitante, antes de recordar a si mesmo que no havia maneira de o tipo
ter visto o que ele andara a fazer. - Por nada.
- Posso ir?
- Sim, claro.
Ficou a observar o estranho mais o co comearem a percorrer a estrada
florestal, antes de virarem para um pequeno trilho que entrava pelo
bosque. Logo que deixou de os ver, Clayton voltou ao seu ponto original
de observao para procurar a mquina fotogrfica. Espreitou por entre
os arbustos, afastou as carumas com o p e voltou a percorrer o mesmo
caminho por duas vezes, queria ter a certeza de estar no lugar exacto.
Acabou de joelhos, sentindo o pnico comear a invadi-lo. Trazia a
mquina por emprstimo, s para aquelas diligncias especiais, e
teria de responder a muitas perguntas do pai se a perdesse. Pior,
descobrir-se-ia um carto cheio de fotografias de nudistas. O pai era
rigoroso em questes de protocolo e de responsabilidade.
Entretanto, tinham passado vrios minutos.  distncia, ouviu o som
roufenho de um motor a pegar. Julgou que as estudantes iam partir; por
um breve instante analisou o que elas poderiam pensar quando vissem que
o carro-patrulha continuava parado no mesmo stio. Tinha outras
preocupaes.
A mquina fotogrfica desaparecera.
No a perdera. Desaparecera. E aquela coisa no sairia certamente dali
pelo seu prprio p. Tambm no havia maneira de ter sido encontrada
pelas raparigas. O que significava que o Tibolt tinha estado a gozar
com ele o tempo todo. Ele, a ser gozado por um Tibolt. Inacreditvel.
Reparara que o tipo agia com demasiada descontraco, parecia-lhe estar
a ver o filme Ainda Sei o Que Fizeste no Vero Passado.
No, o homem no podia safar-se assim. Um sebento, um hippie, um maluco
que falava com ces no ia fazer pouco de Keith Clayton. E continuar
vivo, claro.
Apartou os arbustos, a abrir caminho para voltar  estrada, esperando
ainda apanhar o Logan Tibolt e dar uma ligeira vista de olhos. E isso
seria apenas o comeo. Haveria mais, disso podia o outro ter a certeza.
Um tipo a goz-lo? No era de todo possvel. Pelo menos naquela cidade.
Tambm se estava nas tintas para o co. O co ficaria perturbado?
Adeus, cozinho! To simples quanto isso. Os pastores alemes eram
armas, no havia tribunal da terra que no lhe desse razo. .
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Havia, porm, de comear pelo princpio. Encontrar Thibault. Reaver a
mquina fotogrfica. A seguir, pensaria o que devia fazer.
S ento, ao aproximar-se do carro-patrulha, se apercebeu de que os
dois pneus traseiros estavam vazios.
- Como  que disse que se chamava?
Minutos depois, Thibault debruou-se sobre o banco dianteiro do jipe, a
tentar fazer-se ouvir por cima do rugir do vento. - Logan Thibault -
respondeu e apontou por cima do ombro. - E este  o Zeus.
Zeus seguia na parte traseira do jipe, de lngua de fora, nariz a
farejar o vento, enquanto o jipe ganhava velocidade e se dirigia para a
estrada.
- Bonito co. Eu sou a Amy. E estas so a Jennifer e a Lori. ? Thibault
olhou por cima do ombro. - Ol!
- Ol! Pareciam distradas. Thibault no ficou surpreendido, dada a
aflio por que tinham passado. - Obrigado pela boleia.
- No tem de qu. Disse que ia para Hampton?
- No  muito longe.
- Fica em caminho.
Depois de ter sado da estrada florestal e de ter arrumado umas coisas,
Thibault voltara  estrada no momento em que as raparigas arrancavam.
Fizera o sinal de pedido de boleia, de polegar para cima, satisfeito
por Zeus estar junto dele, e as raparigas travaram quase imediatamente.
Por vezes, as coisas sucedem exactamente como deve ser.
Embora fingisse que no, na realidade assistira  chegada das trs
raparigas de manh cedo, pois estava acampado mesmo junto  praia, mas
tinha-as deixado gozar da privacidade que mereciam logo que comearam a
despir-se. Na maneira de ver dele, o que as raparigas estavam a fazer
cabia no conceito sem dano, no h crime; para alm dele, no havia
mais pessoas nas proximidades e ele no tinha a inteno de perder
tempo a observar. Que interessava que tirassem a roupa, ou que
envergassem vestidos de noite? No eram contas do rosrio dele e tinha
a inteno de manter as coisas nesse p, at ver o ajudante a conduzir
o carro-patrulha da Polcia do Distrito de Hampton.
Conseguiu ver bem o ajudante atravs do pra-brisas e notou algo de
errado na expresso do homem. Era difcil dizer exactamente do que se
tratava e ele no perdeu mais tempo a analisar a questo. Voltou-se,
atravessou o bosque e chegou mesmo a tempo de ver o ajudante verificar
o disco da cmara digital, antes de fechar a porta do carro-
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-patrulha. Ficou a v-lo esgueirar-se para o monte sobranceiro  praia.
Thibault sabia perfeitamente que o ajudante poderia estar ali
oficialmente, mas ele mostrava aquele olhar do Zeus quando estava 
espera do seu naco de carne. Um pouco excitado com o que estava a
fazer. Thibault obrigou Zeus a ficar onde estava, manteve a distncia
suficiente para que o ajudante no pudesse ouvi-lo e, depois disso, o
plano foi aparecendo espontaneamente. Sabia que a confrontao directa
estava fora de causa, pois o ajudante podia alegar que se encontrava a
coligir provas, e a palavra dele contra a de um estranho teria uma
fora indesmentvel. Qualquer acto fsico tinha de ser posto de lado,
principalmente por poder criar problemas dispensveis. Felizmente - ou
infelizmente, dependendo da perspectiva -, a rapariga apareceu, o
ajudante entrou em pnico e Thibault viu onde a mquina fora parar.
Logo que o ajudante e a rapariga se dirigiram para junto das amigas
dela, Thibault recuperou a mquina. Podia ter-se retirado logo de
seguida, mas aquele tipo precisava que lhe dessem uma lio. No muito
grande, apenas uma lio que mantivesse intacta a reputao das
raparigas, permitisse que Thibault seguisse o seu caminho e estragasse
o dia do ajudante. Foi o que o levou a voltar atrs e a esvaziar os
pneus traseiros do carro do polcia.
- Ah, agora me recordo! - exclamou Thibault. - Encontrei a vossa
mquina fotogrfica entre os arbustos.
- No  minha. Lori, Jen, alguma de vocs perdeu uma mquina? Ambas
abanaram as cabeas.
- No faz mal, fique com ela - decidiu Thibault, pondo-a em cima do
banco. - E obrigado pela boleia. J tenho uma mquina fotogrfica.
- Tem a certeza?  capaz de ser cara.
- Certamente que .
- Obrigada.
Thibault reparou nas sombras que lhe brincavam no rosto, julgando-a
atraente, uma espcie de seduo prpria das grandes cidades, com
feies angulosas, pele escura e olhos castanhos com reflexos
aveludados. Conseguia imaginar-se a contempl-la durante horas.
- Eh... tem alguma coisa para fazer neste fim-de-semana? - indagou Amy.
- Vamos todas  praia.
- Obrigado pelo convite, mas no posso.
- Aposto que vai visitar a namorada, no  verdade?
- O que  que a leva a dizer isso?
- V-se na sua cara.
Fez um esforo para se voltar. - Qualquer coisa desse tipo.
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THIBAULT
Que estranho era pensar nas voltas inesperadas que a vida de um homem
pode dar. At um ano antes, Thibault teria saltado de alegria ante a
perspectiva de passar um fim-de-semana com Amy e as amigas dela.
Provavelmente era daquilo que precisava mas, quando elas o largaram
mesmo  entrada da cidade de Hampton, com o calor de Agosto a dardejar
l do alto, disse-lhes adeus e sentiu-se estranhamente aliviado. Manter
aquela aparncia de normalidade deixara-o exausto.
Depois de deixar o Colorado, cinco meses antes, de livre vontade no
passara mais do que umas horas com a mesma pessoa, sendo a nica
excepo o idoso dono de uma granja produtora de lacticnios, logo a
sul de Little Rock, que o deixara dormir num quarto desocupado do
primeiro andar, depois de um jantar em que falara to pouco quanto o
convidado. Agradeceu o facto de o homem no ter sentido a necessidade
de o interrogar sobre a maneira como Thibault ali chegara. Nada de
perguntas, ausncia de curiosidade, nenhuns conselhos. Apenas a
aceitao do facto de Thibault no manifestar vontade de conversar.
Como prova de gratido, passou alguns dias a ajudar o fazendeiro a
consertar o telhado do celeiro e fez-se de novo  estrada, de mochila
cheia, com Zeus a trotar mais atrs.
Fizera todo o caminho a p, s beneficiara da boleia das raparigas.
Depois de deixar as chaves do seu apartamento no escritrio do
administrador, em meados de Maro, gastara oito pares de sapatos, mal
sobrevivera  custa de PowerBars e gua nas longas viagens solitrias
entre cidades e uma vez, no Tennessee, depois de quase trs dias de
fome, comera cinco grandes pilhas de panquecas. Juntamente com Zeus,
viajara com neves, tempestades de granizo, chuva e calores to
intensos que lhe provocavam bolhas nos braos. Vira um tornado no
horizonte, perto de Tulsa, Oklahoma, e quase fora atingido por raios em
duas ocasies. Fizera grandes desvios, tentando manter-se afastado
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das estradas principais e aumentando o tempo de viagem, s vezes por
capricho. Costumava caminhar at se sentir cansado e, mais para o fim
do dia, comeava a procurar um lugar para acampar, em qualquer stio
onde julgasse que ele e Zeus no seriam perturbados. Voltavam  estrada
antes do amanhecer, no fosse algum armar-se em esperto. Ainda no
haviam sido incomodados.
Calculava ter feito mais de trinta quilmetros por dia, embora no
registasse especificamente os tempos ou as distncias. No era esse o
propsito da viagem. Podia imaginar que algumas pessoas pensassem que
ele caminhava para esquecer as memrias do mundo que deixara para trs,
o que daria uma aura romntica  viagem; outros pensariam que ele
caminhava por caminhar, pela viagem em si. Ningum acertaria. Gostava
de caminhar e tinha de ir a um lugar. To simples quanto isso. Gostava
de ir quando lhe apetecia, com o ritmo que desejava, para o lugar onde
queria estar. Depois de anos passados a cumprir ordens no Corpo de
Marines, a liberdade atraa-o.
A me preocupara-se com ele, mas as mes sempre se preocuparam com os
filhos. A dele, pelo menos. Telefonava com poucos dias de intervalo
para a informar de que se encontrava bem e, depois de desligar,
costumava pensar que no estava a ser franco com ela. Estivera
praticamente ausente nos ltimos cinco anos, e antes das trs comisses
no Iraque, ouvira da boca dela sempre a mesma lio pelo telefone, em
que a me lhe recordava que no deveria tomar qualquer deciso
estpida. No tomara, mas tivera a sua dose de perigos iminentes. Ainda
que no lhe contasse pormenores, a me lia jornais. - E agora isto -
lamentara-se a me na noite em que ele sara. - Toda esta histria me
parece uma loucura.
Talvez fosse. Talvez no fosse. Ainda no tinha a certeza.
- O que  que pensas, Zeus?
O co ergueu a cabea ao ouvir o som do nome e ps-se ao lado do dono.
- Est bem, j sei. Tens fome. Qual  a novidade?
Thibault parou no parque de estacionamento de um motel decrpito dos
arrabaldes da cidade. Pegou na tigela e despejou o resto da comida de
co. Enquanto Zeus comia, Thibault ficou a observar a cidade.
Hampton no era o pior lugar que j vira, nem de longe, mas tambm no
era o melhor. A cidade situava-se nas margens do South River, a uns 55
quilmetros de Wilmington e da costa e,  primeira vista, no lhe
pareceu diferente dos milhares de vilas e cidades com comunidades auto-
suficientes, de pessoas de trabalho, orgulhosas e carregadas de
histria, que salpicavam o Sul. Havia um par de semforos, que danavam
pendentes de fios, para interromperem o fluxo de trfego que se dirigia
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para a ponte sobre o South River; e de cada lado da rua principal viam-
se casas baixas de tijolo, apertadas umas contra as outras e
estendendo-se por mais de meio quilmetro, com nomes de lojas escritos
nas janelas da frente, onde se anunciavam lugares para comer, beber ou
comprar utenslios. Havia umas quantas magnlias velhas espalhadas por
ali, cujas razes nodosas levantavam os passeios. Mais longe, viu um
reclame fora de moda que anunciava a barbearia, no faltando os
habituais velhotes sentados no branco  frente da loja. Sorriu. Era
curioso, uma espcie de fantasia da dcada de 1950.
Contudo, uma observao mais atenta revelou que as primeiras impresses
eram enganadoras. Apesar de localizada na margem do rio - ou talvez por
isso, sups - notou os sinais de decadncia nos telhados, nos tijolos
mais perto das fundaes, nas manchas ligeiramente repulsivas do
salitre um pouco acima dos alicerces, uma indicao de graves
inundaes passadas. Nenhuma das lojas tinha clientes quela hora mas,
ao observar a falta de automveis parados  frente delas, ps-se a
imaginar quanto mais tempo se manteriam abertas. As zonas comerciais
das pequenas cidades estavam a seguir o destino dos dinossauros e, se
aquela era uma cidade semelhante a outras por onde tinha passado,
julgou que provavelmente haveria outra zona mais recente de comrcio,
instalada num centro comercial  volta da Wal-Mart ou Piggly Wiggly,
que ditaria o fim desta parte da cidade.
Estranho, ainda assim. Estar ali. No se recordava de como tinha
imaginado que seria Hampton, mas no era aquilo.
No interessava. Enquanto Zeus acabava a refeio, ps-se a tentar
imaginar de quanto tempo precisaria para a encontrar. A mulher da
fotografia. A mulher com quem viera encontrar-se.
Mas acabaria por encontr-la. Era mais do que certo. Pegou na mochila.
- Ests pronto?
Zeus inclinou a cabea para um lado.
- Vamos encontrar alojamento. Quero comer e tomar um duche. E tu
precisas de um banho.
Thibault deu uns passos, antes de se aperceber de que Zeus no se
mexera. Olhou por cima do ombro.
- No me olhes assim.  claro que precisas de um banho. Cheiras mal.
Zeus manteve-se quieto.
- ptimo. Faz como quiseres. Eu vou indo.
Dirigiu-se para o gabinete do gerente para fazer o registo, sabendo que
Zeus o seguiria. No final, Zeus seguia-o sempre. At ter encontrado a
fotografia, a vida de Thibault decorrera como ele h muito a planeara.
Sempre tivera um plano. Quisera ser bom na escola e conseguira; quisera
praticar diversos desportos e crescera a pratic-los praticamente
todos. Quisera aprender piano e violino, e tornara-se suficientemente
bom para escrever a sua prpria msica. Depois de sair da Universidade
de Colorado, planeara entrar nos Marines; o oficial de recrutamento
ficara emocionado por ele querer alistar-se como soldado, em vez de
pretender ser oficial. Chocado, mas tambm emocionado. Na sua maioria,
os licenciados mostravam pouca apetncia pelo posto de soldado raso,
mas era exactamente o que ele queria.
O ataque ao World Trade Center tivera pouco que ver com a deciso. 
que alistar-se nas foras armadas parecia-lhe uma deciso natural, pois
o pai dele tinha servido nos Marines durante 15 anos. O pai entrara
como soldado raso e acabara como um daqueles sargentos grisalhos, de
queixo de ao que intimidavam toda a gente, excepto a mulher e os
pelotes que comandavam. Tratava aqueles jovens como se fossem seus
filhos; a sua nica inteno, costumava dizer-lhes, era traz-los de
volta a casa, devolv-los s mes, vivos, de boa sade e crescidos.
Durante os anos que comandou, o pai devia ter assistido a mais de
cinquenta casamentos de homens que no imaginavam casar-se sem a bno
dele. Era tambm um bom fuzileiro. Fora condecorado com uma Bronze Star
e duas Purple Hearts no Vietname; com o passar dos anos servira em
Granada, no Panam, na Bsnia e na Primeira Guerra do Golfo. O pai era
um marine que no se preocupava com as transferncias, pelo que
Thibault passara a maior parte da juventude a mudar-se de um lugar para
outro e a viver em bases militares espalhadas por todas as partes do
mundo. Em certos aspectos, Okinawa parecia-se mais com um lar do que o
Colorado, e embora o seu japons estivesse um tanto enferrujado,
calculava que uma semana em Tquio lha traria de volta a fluncia de
outrora. Como o pai, imaginava-se a reformar-se da tropa, mas ao
contrrio dele, era sua inteno viver ainda o suficiente para gozar a
vida. O pai morrera de ataque cardaco apenas dois anos depois de ter
pendurado a farda no cabide pela ltima vez, um enfarte agudo que
apareceu sem se fazer anunciar. Estava a tirar pazadas de neve do
caminho de acesso  casa e no minuto seguinte estava morto. Morrera h
treze anos, quando Thibault tinha apenas quinze.
Aquele dia e o do funeral constituam as memrias mais fortes da sua
vida, antes do alistamento nos Marines. Ser criado como filho de
militar preparara-o, tendo de mudar-se com tanta frequncia, atenuara
as consequncias. Os amigos vo e vm, as roupas so emaladas e tiradas
das malas, a casa est constantemente a ser expurgada de
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objectos inteis, no ficando muitas coisas que nos prendam. Torna-se
duro, por vezes, mas faz os garotos mais fortes, de uma maneira que a
maioria das pessoas no consegue entender. Ensina-os que mesmo que
deixem algumas pessoas para trs, o lugar delas ser inevitavelmente
ocupado por outras; que qualquer lugar tem algo de bom, ou de mau, para
oferecer. O mido  obrigado a crescer depressa.
At os seus anos da faculdade eram nebulosos, mas aquele captulo da
sua vida tivera as suas rotinas prprias. Estudar durante os dias
teis, desfrutar dos fins-de-semana, preparar-se para os exames finais,
pssima comida nos alojamentos universitrios e duas namoradas, uma
delas a durar mais do que um ano. Toda a gente que frequentou a
universidade tem as mesmas histrias para contar, poucas delas com
verdadeiro impacto. Afinal de contas, s resta o diploma. Na verdade,
sentiu que a sua vida s comeara finalmente no dia em que se
apresentou em Paris Island para iniciar a recruta. O sargento instrutor
desatara a berrar-lhe aos ouvidos logo que ele saltou do autocarro.
Nada como um sargento instrutor para fazer uma pessoa acreditar que,
at quele ponto, a vida do recruta no tivera qualquer significado. Os
recrutas pertenciam-lhe, ponto final. Bons em desportos? Quero
50 flexes, Mr. Point Guard. Formao universitria? Monta esta
carabina, Einstein. O pai foi dos Marines. Limpa a porcaria que o teu
pai fez por l. Os clichs de sempre. Correr, marchar, sentido,
rastejar na lama, escalar o muro: na recruta fez tudo o que esperava
ser obrigado a fazer.
Tinha de admitir que o treino funcionou na maioria dos casos. Obrigou
pessoas a quebrar, empurrou-as ainda mais para baixo e, eventualmente,
transformou-as em fuzileiros navais. Pelo menos  o que eles dizem.
Quanto a ele, no quebrou. Assimilou os gestos, manteve a cabea baixa,
fez o que lhe mandaram e continuou a ser o homem que fora. De qualquer
maneira, tornou-se um fuzileiro naval.
Foi colocado no Primeiro Batalho, do Quinto Regimento de Marines, com
base em Camp Pendleton. San Diego era o seu gnero de cidade, com um
clima fantstico, praias deslumbrantes e mulheres ainda mais bonitas.
Mas no era para durar. Em Janeiro de 2003, logo depois de fazer 23
anos, foi colocado no Kuwait para participar na Operao Liberdade
para o Iraque. Camp Doha, numa zona industrial da Cidade de Kuwait,
estava activo desde a Primeira Guerra do Golfo e constitua s por si
uma cidade. Havia ginsio e centro de computadores, posto de correios,
restaurantes e tendas montadas at onde a vista alcanava. Um lugar
movimentado, ainda mais numa altura que se preparava a invaso, um
mundo catico desde o incio. Os seus dias eram uma sequncia de
reunies que duravam horas, de treinos de partir as costas e de
preparao
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do ataque, segundo planos constantemente alterados. Deve ter treinado
umas 100 vezes os gestos de vestir o fato protector contra a guerra
qumica. Tambm havia boatos sem fim. A parte mais difcil era tentar
perceber qual poderia ser verdadeiro. Toda a gente conhecia algum, que
conhecia uma pessoa que ouvira a verdadeira histria. Um dia iam entrar
em combate imediatamente, no dia seguinte ficariam a aguardar.
Primeiro, iam entrar pelo Norte e pelo Sul; a seguir, era s pelo Sul e
nem chegariam a entrar. Ouviam dizer que o inimigo dispunha de armas
qumicas e que entendia servir-se delas; no dia seguinte ouviriam dizer
que o inimigo no ia recorrer s armas qumicas, pois acreditava que os
EUA responderiam com armas atmicas. Murmurava-se que a Guarda Nacional
do Iraque iria montar uma defesa suicida mesmo junto  fronteira;
outros juravam que s o fariam mais perto de Bagdade. Outros, ainda,
garantiam que a defesa suicida seria montada  volta dos campos
petrolferos. Em resumo, ningum sabia o que quer que fosse, o que
apenas servia para alimentar a imaginao dos 150 000 militares j
reunidos no Kuwait.
Na sua maioria, os soldados so adolescentes, um pormenor que as
pessoas esquecem com frequncia. Dezoito, dezanove, vinte, metade deles
ainda nem sequer tinham idade para comprar uma cerveja. Estavam
confiantes, bem treinados e excitados por entrar em aco, mas no era
possvel ignorar a realidade do que estava para acontecer. Alguns deles
iam morrer. Uns sentiam dificuldades para dormir, outros passavam quase
todo o tempo a dormir. Thibault observava tudo com uma estranha
sensao de desprendimento. Bem-vindo  guerra, ouvia mentalmente o
pai a dizer.  sempre assim: situao normal, est tudo lixado.
Thibault no era inteiramente imune  escalada da tenso e, como
qualquer outro, precisava de um escape. Comeou a jogar pquer. O pai
ensinara-o a jogar, conhecia o jogo... ou julgava conhec-lo. No
tardou a descobrir que havia quem o conhecesse melhor. Nas primeiras
trs semanas perdeu praticamente todos os tostes que amealhara desde
que se alistara, fazendo bluff quando deveria ter passado, passando
quando deveria ter continuado em jogo. Para comear, o dinheiro perdido
nem fora assim tanto, se no tivesse perdido ao jogo tambm no teria
muitos stios onde o gastar, mas andou vrios dias de m catadura.
Odiava perder.
O nico antdoto era fazer longas corridas, logo que acordava, antes de
o Sol se erguer; embora j estivesse no Mdio Oriente havia ms e meio,
continuava a espantar-se por o deserto poder ser to frio. Corrida
dura, debaixo de um cu coroado de estrelas, a expirar em pequenos
sopros.
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Na parte final de uma das corridas, quando j conseguia ver as tendas
ao longe, comeara a abrandar. Por essa altura, j o Sol tinha comeado
a subir no horizonte e a espalhar a luz dourada sobre a terra estril.
De mos nas ancas, continuava a recuperar o flego quando viu o brilho
bao de uma fotografia, meio enterrada no p. Parou para lhe pegar e
reparou que, embora fosse uma simples plastificao, o trabalho fora
feito com cuidado, provavelmente para proteger a fotografia dos
elementos. Limpou-lhe o p, fazendo aparecer a imagem e foi a primeira
vez que a viu.
A loira sorridente, de olhos travessos cor de jade, vestindo calas de
ganga e uma T-shirt decorada  frente com as palavras LUCKY LADY. Por
detrs dela via-se uma faixa a dizer HAMPTON FAIRGROUNDS. Um pastor
alemo, de focinho branco, ao lado. Da multido atrs dela destacavam-
se dois jovens, juntos ao p da bilheteira e um pouco desfocados, ambos
com T-shirts com publicidade. Trs rvores de folha persistente
erguiam-se mais longe, rvores esguias que podiam medrar em qualquer
lado. No verso da fotografia, havia uma frase escrita  mo: Keep
Safe! [Cuida de ti.
No que ele tivesse visto tudo de uma vez. De facto, a sua primeira
reaco tinha sido deitar a fotografia fora. Porm, quando se preparava
para a deitar para o cho, ocorreu-lhe que quem a perdera talvez
gostasse de a recuperar. Era evidente que significava qualquer coisa
para algum.
Regressado ao campo, pregou a foto e uma mensagem num quadro que estava
perto da entrada de centro de computadores, presumindo que todos os
habitantes do campo passavam por ali, nas alturas mais diversas. A
fotografia acabaria certamente por ser reclamada por algum militar.
Passou uma semana, dez dias. A fotografia no foi recolhida. Naquela
altura, o peloto dele treinava durante horas, todos os dias, e os
jogos de pquer haviam-se tornado srios. Alguns homens perderam
milhares de dlares; dizia-se que um primeiro-cabo perdera perto de dez
mil dlares. Thibault, que no tinha jogado desde aquela primeira
tentativa humilhante, preferia passar o tempo livre a reflectir acerca
da invaso iminente e sobre a forma como iria reagir debaixo de fogo.
Quando, trs dias antes da invaso, vagueava  volta do centro de
informtica, viu a fotografia ainda pregada no quadro e, por razes que
nunca chegou a compreender, arrancou-a e meteu-a no bolso.
Victor, o seu melhor amigo no peloto, andavam juntos desde a recruta,
convidou-o a participar no jogo de pquer daquela noite, a despeito das
dvidas de Thibault. Ainda curto de dinheiro, Thibault iniciou o jogo
com cautela e no pensou ficar durante mais de meia hora. Passou os
primeiros trs jogos, a seguir tirou uma sequncia de
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cinco cartas (straight) no quarto jogo e trs pares (full house) no
sexto. As cartas continuaram a chegar-lhe s mos, flushes, straights,
full houses, pelo que, chegado a meio da noite, tinha recuperado as
perdas iniciais. Thibault ficou, os jogadores iniciais desistiram.
Foram substitudos e Thibault continuou. A senda dos ganhos continuou e
quando amanheceu tinha ganho mais naquela noite, do que nos seis meses
passados no corpo de fuzileiros.
S quando estava para abandonar o jogo, na companhia de Victor, se
apercebeu de que tivera a fotografia na algibeira durante todo o tempo.
Mostrou-a a Victor quando regressaram  tenda e apontou as palavras
escritas na blusa da mulher. Filho de imigrantes ilegais que viviam
perto de Bakersfield, Califrnia, Victor no era apenas religioso,
acreditava em fenmenos de todos os gneros. Trovoadas, cruzamentos de
caminhos em forma de forcado, os gatos pretos eram os favoritos e,
antes de embarcarem, falou a Thibault de um tio que se presumia lanar
mau-olhado: - Se ele olha para ti de uma certa maneira, a tua morte 
apenas uma questo de tempo - rematou. A convico de Victor fez que
Thibault se sentisse novamente com dez anos e ouviu a histria,
extasiado, com Victor a iluminar o queixo de baixo para cima com uma
lanterna. Na altura no disse nada. Cada um tem as suas manias. O tipo
gostava de acreditar em pressgios? No tinha nada com isso. Mais
importante era o facto de Victor ser to bom atirador que fora
escolhido para sniper e que Thibault lhe confiava a prpria vida.
Victor analisou a fotografia antes de a devolver. - Disseste que a
achaste ao romper do dia?
- Disse.
- O amanhecer  um momento poderoso do dia.
- J me disseste.
-  um sinal - sugeriu o amigo. -- Ela  o teu amuleto da sorte. Repara
na blusa que tem vestida.
- Esta noite foi.
- No se trata apenas desta noite. Houve uma razo para encontrares a
fotografia. Ningum a reclamou por uma razo. Hoje pegaste nela por uma
razo. Estava destinada s a ti.
Thibault quisera dizer qualquer coisa sobre o tipo que a perdera e como
se sentiria por a ter perdido, mas ficou calado. Em vez disso, deitou-
se de costas no catre e colocou as mos na nuca.
Victor imitou-o. - Estou contente por isso. A partir de agora tens a
sorte do teu lado - acrescentou.
- Espero que sim.
- Mas no podes perder a fotografia, nunca! ?
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- No?
- Se a perderes, o encantamento passa a funcionar ao contrrio.
- Isso significa o qu?
- Significa que no ters sorte. E, numa guerra, no ter sorte  o pior
que pode acontecer.
O interior do quarto do motel era to feio por dentro como se mostrara
visto do lado de fora: painis de madeira, luzes que pendiam de
correntes presas no tecto, alcatifa spera, televisor aparafusado no
suporte. Parecia decorado por volta de 1975, sem voltar a ser
beneficiado e fez-lhe lembrar os quartos onde o pai os obrigava a ficar
sempre que levava a famlia de frias pelo Sudoeste, quando Thibault
era criana. Passavam as noites em alojamentos  beira da estrada;
desde que estivessem relativamente limpos, o pai considerava-os
excelentes. A me no pensava bem assim, mas que poderia ela fazer? No
havia nenhum Four Seasons do outro lado da estrada e, mesmo que
houvesse, nunca teriam dinheiro para o pagar.
Thibault fez o que fazia sempre que entrava num quarto de motel: tirou
a colcha para se certificar de que a cama fora feita de lavado,
verificou se havia sujidade na cortina do chuveiro, procurou cabelos no
lavatrio. Apesar das habituais manchas de ferrugem, de uma torneira
que vertia e das queimaduras de cigarro, o lugar estava mais limpo do
que imaginara. E tambm no era caro. Pagara, em dinheiro, uma semana
de avano, sem ter de responder a perguntas e sem pagar qualquer extra
pelo co. Em resumo, uma pechincha. bom sinal. Thibault no tinha
cartes de crdito, cartes de dbito ou cartes ATM, nem endereo
oficial ou telemvel. Transportava praticamente tudo o que possua.
Tinha conta bancria, que lhe podia enviar dinheiro por via telegrfica
sempre que necessrio. Registou-se em nome de uma empresa, no com o
nome prprio. No era rico. Nem sequer pertencia  classe mdia. A
empresa no tinha negcios. Mas gostava de privacidade.
Levou o Zeus para a banheira e deu-lhe um banho, usando o champ que
trazia na mochila. A seguir, tomou um banho de chuveiro e vestiu as
ltimas roupas lavadas que lhe restavam. Sentado na cama, consultou a
lista telefnica,  procura de um pormenor significativo, mas sem
resultado. Fez um rol para ir  lavandaria quando tivesse tempo e
decidiu ir comer qualquer coisa no restaurante que vira na rua onde
ficava o motel.
No permitiram a entrada do co, o que no era de estranhar. Zeus
deitou-se ao lado da porta e adormeceu. Thibault comeu um hambrguer
com queijo e batatas fritas, tudo regado com um batido de
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leite, e encomendou um hambrguer para o Zeus. De regresso  rua, o co
engoliu-o em menos de vinte segundos e voltou a olhar para Thibault.
- Ainda bem que gostaste. Vamos embora.
Comprou um mapa da cidade numa loja de convenincia e sentou-se num
banco, perto da praa principal, um daqueles jardins fora de moda para
onde convergiam quatro ruas em que se alinhavam as lojas. com grandes
rvores que davam sombra, um parque para as brincadeiras das crianas e
muitas flores, no parecia muito frequentada: umas quantas mams que
formavam um grupo, enquanto os filhos brincavam nos escorregas.
Examinou as caras das mulheres, para ter a certeza de que nenhuma era a
que procurava, voltando-se em seguida para abrir o mapa, antes que elas
se mostrassem nervosas com a presena dele. As mes com filhos pequenos
enervam-se sempre que vem homens sozinhos a vaguear, sem darem mostras
de ter algo a fazer. No as culpava. Andam por a demasiados
pervertidos.
Estudando o mapa, orientou-se e tentou imaginar o que iria fazer de
seguida. No alimentava iluses de que iria ser fcil. Afinal, no
sabia muito. S dispunha de uma fotografia, sem nome nem endereo. No
lhe conhecia a histria dos empregos. No sabia o nmero do telefone.
Nem datas. Tratava-se apenas de um rosto na multido.
No entanto, havia algumas indicaes. Analisou os pormenores da
fotografia, como j fizera tantas vezes, e comeou pelo que sabia. A
fotografia tinha sido tirada em Hampton. A mulher parecia no incio da
casa dos vinte quando a tirara. Era atraente. Tinha um pastor alemo ou
conhecia algum que tinha um. O seu primeiro nome comeava pela letra
E. Emma, Eleine, Elise, Eileen, Ellen, Emily, Erin, Eria...
pareciam-lhe os nomes mais provveis, embora lhe parecesse que, no Sul,
houvesse nomes como Erdine ou Elspeth. Tinha ido  feira com algum que
depois fora colocado no Iraque. Dera a fotografia a essa pessoa e
Thibault encontrara a foto em Fevereiro de 2003, o que significava que
fora tirada antes dessa data. Nesse caso, a mulher estaria agora a
aproximar-se do final da casa dos vinte anos. Viu um conjunto de trs
rvores l mais adiante. Conhecia aquilo. Eram pormenores conhecidos.
Factos.
Depois, restavam as suposies, a comear por Hampton. Era um nome
relativamente comum. Uma busca rpida  Internet revelava uma srie de
terras com aquele nome. Distritos e cidades: Carolina do Sul, Virgnia,
New Hampshire, Iowa, Nebraska, Gergia. Outras mais. Sem esquecer, 
claro, Hampton. Distrito de Hampton, Carolina do Norte.
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Embora no houvesse qualquer monumento de referncia  vista, nenhuma
vista de Monticello a indicar a Virgnia, ou uma faixa a dizer Bem-
vindo a Iowa, por exemplo, havia informaes. No sobre a mulher, mas
nos dois jovens que se viam ao fundo, na fila para a compra dos
bilhetes. Dois deles usavam T-shirts com publicidade. Uma, com a imagem
de Homer Simpson, no ajudava. A outra, com a palavra DAVIDSON escrita
no peito, a princpio no lhe parecera ter significado, mesmo que
Thibault tivesse reflectido muito sobre ela. Partira do princpio de
que se tratava de uma referncia abreviada  Harley-Davidson, a
motocicleta. Outra busca no Google esclareceu-o. Davidson, descobriu,
era tambm o nome de uma reputada escola localizada perto de Charlotte,
Carolina do Norte. Selectiva, exigente, mais dedicada s artes
liberais. Uma revista do catlogo da biblioteca da escola mostrava um
exemplar da mesma T-shirt.
Percebeu que a camisola no garantia que a fotografia tivesse sido
tirada na Carolina do Norte. Poderia ter sido oferecida ao rapaz por
algum que tivesse frequentado a escola, talvez se tratasse de um
estudante de outro Estado, talvez ele a tivesse escolhido pelas cores,
talvez fosse aluno e se tivesse mudado para outra terra. Porm, sem
mais que aproveitar, antes de sair do Colorado, Thibault fizera uma
breve chamada para a Cmara de Comrcio de Hampton, ficando a saber que
realizavam uma feira durante o Vero. Outro bom sinal. J tinha um
destino, mas ainda no dispunha de um facto. Presumira apenas que
aquele era o lugar certo.
Havia outras suposies, mas trataria delas mais tarde. A primeira
coisa a fazer era encontrar o recinto da feira. Felizmente, a feira
realizava-se no mesmo local havia muitos anos; esperava que a pessoa
capaz de lhe indicar a direco a seguir lhe pudesse responder tambm 
segunda pergunta. A pessoa indicada deveria encontrar-se numa das lojas
das redondezas. No interessavam lojas de lembranas ou de
antiguidades, muitas vezes pertenciam a pessoas recentemente chegadas 
cidade, pessoas que fugiam do Norte em busca de uma vida mais calma e
de um clima mais ameno. Em vez disso, achou melhor procurar na loja de
utenslios. Ou num bar. Ou num escritrio de venda de propriedades.
Calculou que, quando a encontrasse, saberia que era aquela a loja
indicada.
Queria ver o local exacto em que a fotografia fora tirada. No para
ficar com uma melhor ideia de quem seria a mulher. O recinto da feira
no o ajudaria muito acerca disso.
Queria saber se havia renques de rvores de folha permanente, rvores
de copas em bico que podem crescer praticamente em qualquer stio.
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BETH
Beth ps de lado a lata de D W Coke, contente por Ben parecer estar a
divertir-se na festa de anos do seu amigo Zach. Estava a pensar que
apenas gostaria que ele no tivesse de ir para junto do pai, quando
Melody chegou e se sentou numa cadeira ao lado dela.
- Boa ideia, no achas? As pistolas de gua so uma maravilha
- sorriu Melody, os dentes tratados, mas um tanto branqueados de mais,
a pele talvez um tanto escura em demasia, como se tivesse acabado de
chegar de uma sesso no salo de beleza; o que era provvel. Desde o
liceu que Melody se preocupava com a aparncia fsica e ultimamente
parecia-lhe que o seu aspecto se tornara uma obsesso.
- S espero que no as voltem na nossa direco.
-  melhor que no se atrevam - comentou Melody com ar sombrio. - Disse
ao Zach que mandaria toda a gente para casa se ele fizesse tal coisa -
acrescentou. Recostou-se, instalou-se mais confortavelmente. - O que 
que tens feito neste Vero? No te tenho visto por a, nem respondeste
s minhas chamadas.
- Eu sei. Desculpa. Tenho passado um Vero de eremita. Procurando
apenas aguentar a Nana, o canil e todo o treino. No fao ideia do que
leva a Nana a mant-lo h tanto tempo.
- A Nana tem andado bem?
Nana era a av de Beth. Criara-a desde os trs anos de idade, aps a
morte dos pais dela num acidente de viao. Respondeu com um aceno de
cabea. - Est a melhorar, mas o acidente vascular deixou marcas.
Continua a sentir grande fraqueza no brao esquerdo. Pode encarregar-se
de parte do treino, mas dirigir o canil e o treino est para alm das
suas foras. E sabes como ela se esfora. Ando sempre preocupada, a
pensar que ela estar a abusar.
- Esta semana, reparei que ela voltou ao coro. -
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Nana pertencia ao coro da Primeira Igreja Baptista h mais de trinta
anos e Beth sabia que cantar no coro era uma das suas paixes.
- Foi a primeira semana depois do acidente, mas no tenho a certeza de
que cantasse muito. A seguir, fez uma soneca de duas horas.
Melody assentiu. - O que  que vai acontecer quando a escola reabrir?
- No sei.
- Vais continuar a ensinar, no vais?
- Espero que sim.
- Esperas que sim? No tens reunies de professores durante a semana
que vem?
Beth no queria pensar no assunto, e muito menos discuti-lo, mas sabia
que a inteno de Melody era boa. - H reunies, mas no quer dizer que
eu assista. Sei que vou criar um problema  escola, mas no posso
deixar a Nana sozinha o dia inteiro. Ainda no, pelo menos. E quem 
que ajudar a dirigir o canil? No h maneira de ela poder treinar os
ces todos, de manh  noite.
- No podes contratar algum? - sugeriu Melody.
- Estou a tentar. No te contei o que aconteceu no princpio do Vero?
Contratei um tipo que apareceu l duas vezes, para se despedir logo que
acabou o fim-de-semana. Aconteceu o mesmo com o seguinte. Depois desse,
ningum mais se disps a aparecer por l. O letreiro Precisa-se
empregado passou a fazer parte da janela.
- O David est sempre a queixar-se da falta de bons empregados.
- Diz-lhe que oferea o salrio mnimo. Ento ter mesmo razes de
queixa. J nem os midos da escola secundria querem limpar as jaulas.
Dizem que  trabalho sujo.
- E  sujo.
Beth riu-se. - Pois  - admitiu. - Mas eu no tenho tempo. Duvido que
haja alguma alterao antes da semana que vem e, se no houver, vai
tudo piorar. Gosto de treinar ces. Mais de metade do tempo so mais
fceis de ensinar que os alunos.
- Como os meus?
- Os teus so fceis. Acredita em mim.
Melody apontou para Ben. - Cresceu desde a ltima vez que o vi.
- Mais de dois centmetros - informou, a pensar que era simptico que
Melody tivesse reparado. Ben sempre fora baixo para a idade, sentava-se
sempre do lado esquerdo, fila da frente, da fotografia da turma. Zach,
o filho de Melody, era exactamente o contrrio: lado direito, fila de
trs, sempre o mais alto da turma.
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- Ouvi dizer que o Ben no vai jogar futebol no prximo perodo -
observou Melody.
- Quer tentar algo diferente.
- Tal como?
?- Quer aprender violino. Vai receber lies de Mrs. Hastings.
- Ela ainda ensina? Deve ter pelo menos noventa anos.
- Mas tem pacincia para ensinar um principiante. Ou, pelo menos, foi o
que ela me disse. E o Ben gosta muito dela.  a principal razo.
-  bom para ele - comentou Melody. - Acho que ele vai ser fantstico.
Mas o Zach vai vadiar.
- No ficariam na mesma equipa. O Zach vai jogar na equipa principal,
no  verdade?
- Se o conseguir.
- Vai conseguir.
E conseguiria. Zach era um daqueles rapazes naturalmente confiantes,
competitivos, que amadureciam cedo e criavam crculos no campo,  volta
dos outros jogadores menos talentosos. Como Ben. Ainda agora, a correr
atrs dele pelo quintal com a pistola de gua, Ben no conseguia
acompanh-lo. Embora tivesse bom corao e fosse um encanto, Ben no
era grande atleta, um pormenor que nunca deixava de enfurecer o ex-
marido de Beth. No ano anterior, o ex-marido dela costumava colocar-se
ao lado do campo, a olhar o filho com uma expresso de raiva, mais um
motivo para Ben no querer jogar.
- O David vai ser novamente ajudante do treinador?
David era o marido de Melody e um dos dois pediatras com consultrio na
cidade. - Ainda no decidiu. Desde que Hoskins saiu, tm feito mais
servios. Detesta, mas que pode ele fazer? Esto a tentar admitir mais
um mdico, mas no tem sido fcil. Nem todos querem trabalhar numa
cidade pequena, especialmente com o hospital mais prximo em
Wilmington, a trs quartos de hora de distncia. Obriga a horrios mais
prolongados. Em metade dos dias no consegue chegar a casa antes das
oito da noite. Por vezes ainda mais tarde.
Beth notou preocupao na voz de Melody e pensou que a amiga ainda
estaria afectada pelo caso que David lhe confessara ter tido no Inverno
anterior. Beth era suficientemente sensata para evitar comentrios.
Logo que ouvira os primeiros rumores, decidira que s falariam do
assunto quando Melody assim o decidisse. E se ela no falasse dele?
Tambm seria excelente. No era assunto que lhe dissesse respeito.
- E quanto a ti? Tens andado com algum?
Beth sorriu.-No. Desde o Adam.
34
- O que  que aconteceu?
- No fao ideia.
Melody abanou a cabea. - No posso dizer que te invejo. Nunca gostei
de namorar. . Pois, mas pelo menos eras boa nisso. Eu sou uma lstima.
- Ests a exagerar.
- No estou. Mas no  nada de importante. Nem tenho a certeza de ter
energia para aturar algum. Usar tangas, rapar as pernas, namorar,
fingir que me dou bem com os amigos. Tudo isso me parece exigir um
grande esforo.
Melody torceu o nariz. - No rapas as pernas?
-  claro que rapo as pernas - disse. Depois, baixando a voz:
- De qualquer maneira fao-o, na maioria das ocasies - acrescentou.
Endireitou-se na cadeira. - Mas tens razo. Namorar  difcil.
Especialmente para algum da minha idade.
- Oh, por favor. Ainda nem chegaste aos trinta e s uma brasa. Beth
sempre ouvira aquela descrio e no era imune ao facto de ser
frequente que os homens, mesmo os casados, voltassem a cabea quando
ela passava. Nos seus trs primeiros anos de professora, s tivera uma
conferncia entre encarregado de educao professor com um pai que se
apresentou sozinho. Em todas as outras alturas fora a me que assistira
 conferncia. Recordava-se de ter falado com Nana uns anos atrs e de
a av lhe ter dito: - No te querem sozinha com os maridos por tu seres
to bonita quanto um fruto maduro.
Nana descobria sempre uma maneira singular de dizer as coisas.
- Esqueces-te do lugar onde vivemos - replicou Beth. - No existem
muitos homens solteiros com a minha idade. E, se esto solteiros,
haver razes para isso.
- No  verdade.
- Talvez numa cidade. Mas aqui  volta? Acredita. Vivi aqui toda a
minha vida e, mesmo quando estive na universidade, ia e vinha todos os
dias. Nas poucas ocasies em que me convidaram para namorar, saamos
duas ou trs vezes e eles deixavam de telefonar. No me perguntes
porqu - observou, encolhendo os ombros filosoficamente.
- Mas pouco interessa. Tenho o Ben e a Nana. No estou a viver sozinha,
rodeada por dzias de gatos.
- No. Ests rodeada de ces.
- No so meus. So de outras pessoas. Existe uma diferena.
- Oh, claro, uma grande diferena - troou Melody.
Do outro lado do jardim, Ben era o ltimo de uma fila de brincalhes,
fazendo o que podia por acompanhar os outros, at que, de
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sbito, tropeou e caiu no relvado. Beth conhecia-o suficientemente bem
para saber que no deveria levantar-se para ir saber o que se passava;
na ltima ocasio em que o fizera, fora visvel o embarao do filho.
Ben rolou at encontrar os culos, levantou-se e recomeou
a correr.
- Crescem to depressa, no ? - comentou Melody, interrompendo as
reflexes da amiga. - Sei que no passa de uma frase feita, mas 
verdade. Recordo-me de a mam me dizer que ia ser assim e de pensar que
ela no sabia do que estava a falar. Queria esperar at que o Zach
fosse um pouco mais velho.  certo que na altura ele tinha clicas e
que durante um ms no consegui dormir mais que umas duas horas em cada
noite. Mas, agora, sem se dar por isso, j esto todos a entrar na
escola secundria.
- Ainda no, falta-lhes mais um ano.
- Eu sei. Mas a ideia continua a pr-me nervosa.
- Porqu?
- Sabes...  uma idade complicada. Os midos encontram-se naquela fase
em que comeam a compreender o mundo dos adultos, mas sem terem a
maturidade de adultos que lhes permita lidar com tudo o que os rodeia.
Acrescenta a isso todas as tentaes, o facto de deixarem de te ouvir
como costumavam, os humores da adolescncia, e serei a primeira a
admitir que no estou optimista. s professora. Tu sabes.
-  por isso que ensino o segundo grau.
- Boa escolha - anuiu Melody. - Soubeste do Elliot Spencer?
- No tenho sabido muito seja do que for. Tenho feito vida de eremita,
recordas-te?
- Foi apanhado a vender drogas.
- S tem mais dois anos que o Ben!
- E ainda est no segundo ciclo.
- Agora s tu que ests a pr-me nervosa.
Melody fez rolar as rbitas. - No estejas. Se o meu filho fosse mais
parecido com o Ben, no teria motivos para estar preocupada. Ben tem
bons sentimentos.  sempre delicado, tem bom corao,  sempre o
primeiro a ajudar os midos mais pequenos.  afectuoso. Quanto a mim,
tenho o Zach.
- O Zach tambm  um excelente rapaz.
- Sei que . Mas foi sempre mais difcil que o Ben. E est mais pronto
a imitar os outros que o Ben.
- J os viste a brincar? Daqui, parece-me que quem tenta imitar tudo 
o Ben.
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- Tu sabes o que eu quero dizer.
Sabia, na verdade. Desde tenra idade, Ben sempre preferira escolher o
seu prprio caminho. O que era bom, tinha de o admitir, porque o
caminho escolhido fora sempre excelente. Embora no tivesse muitos
amigos, interessava-se por muitos assuntos. Assuntos bons, alm do
mais. Mostrava-se pouco interessado em jogos de vdeo ou em surfar pela
net e, embora visse televiso uma vez por outra, desligava o aparelho
passados uns trinta minutos. Em vez disso, lia e jogava xadrez (um jogo
que parecia compreender a nvel intuitivo) ou com uma consola de jogos
electrnicos que recebera como presente de Natal. Adorava ler e
escrever; mesmo gostando dos ces do canil, a maioria dos animais
ficava nervosa com as longas horas passadas nas jaulas e tendia a
ignor-lo. Passava muitas tardes entretido com o tnis, a servir bolas
que poucos, ou talvez nenhuns dos parceiros, conseguiam devolver.
- Vai ser ptimo.
- Espero que sim - observou Melody ao pousar a bebida.
-  melhor que v tratar do bolo, no achas? O Zach tem treino s cinco
da tarde.
- Vai estar calor.
Melody ergueu-se. - Estou certa de que vai querer levar a bisnaga.
Provavelmente para encharcar o treinador.
- Precisas de ajuda?
- No, obrigada. Deixa-te estar e descansa. No me demoro. Beth ficou a
ver Melody afastar-se, apercebendo-se pela primeira vez de quanto a
amiga tinha emagrecido. Quatro a seis quilos a menos desde a ltima vez
que a vira. Tinha de ser do stress, pensou. O caso de David tinha-a
deixado de rastos, mas, ao contrrio de Beth quando tivera de enfrentar
um problema igual, Melody estava disposta a salvar o casamento. Uma vez
mais, havia que dizer que os dois casamentos foram de gneros
diferentes. David cometera um grande erro e ferira Melody mas, no
conjunto, Beth sempre os tinha considerado um casal feliz. O casamento
de Beth, pelo contrrio, revelara-se um fiasco desde o incio. Tal como
Nana previra. Nana tinha aquela capacidade de avaliar as pessoas num
instante e aquele jeito de encolher os ombros quando no gostava de
algum. Quando Beth lhe anunciou que estava grvida e que, em vez de ir
para a universidade, ela e o ex-marido tencionavam casar-se, Nana
encolhera os ombros to repetidamente que mais parecia sofrer de um
tique nervoso.  claro que, na altura, Beth a ignorou, ficou a pensar
que a av No dera uma oportunidade ao rapaz, que nem o conhecia. Que
podiam fazer do casamento um sucesso. Patetice. Nunca funcionou. Nana
fora
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sempre delicada, sempre cordial quando ele estava por perto, mas o
encolher de ombros s parou mais tarde, h anos, quando Beth voltou
para casa. O casamento durara menos de nove meses; Ben tinha cinco
semanas. Nana tivera razo durante todo o tempo.
Melody desapareceu no interior da casa, para regressar minutos depois,
com David logo a seguir, obviamente preocupado a transportar pratos de
papel e garfos. Beth via-lhe os tufos de cabelo grisalho junto das
orelhas e as rugas profundas na testa. As rugas j se notavam na ltima
vez que o vira, calculou que fossem mais um sinal do stress em que ele
andava.
Por vezes, Beth punha-se a imaginar como seria a sua vida se fosse
casada. No com o antigo marido, claro. O pensamento fazia-a
estremecer. Atur-lo de duas em duas semanas fora mais do que
suficiente, graas a Deus. Mas com outra pessoa. Algum... melhor.
Parecia poder ser uma boa ideia, pelo menos em abstracto. Tinham
decorrido dez anos, adaptara-se  vida que tinha e pensava que poderia
ser interessante ter uma pessoa com quem partilhasse o final do dia,
terminado o trabalho, algum que pudesse acarinhar de vez em quando,
tambm no sendo de desprezar a ideia de passar um sbado inteiro em
pijama, se lhe apetecesse. O que, por vezes, fazia. E Ben tambm.
Chamavam-lhes os dias da preguia. Eram os melhores de todos. s
vezes terminavam um desses dias em que no faziam absolutamente nada
com a encomenda de uma piza e a ver um filme. Prazer celestial!
Alm disso, se as relaes com pessoas eram difceis, o casamento
revelava-se ainda mais complicado. No eram apenas Melody e David que
estavam em apuros; parecia que a maior parte dos casais vivia em
guerra. Era uma das consequncias do casamento. Como  que Nana dizia?
Juntem duas pessoas diferentes, com perspectivas diversas, sob o mesmo
tecto, e nem sempre haver gelado no Domingo de Pscoa.
Exactamente. Mesmo que nem sempre tivesse a certeza do que Nana queria
dizer com as suas metforas.
Consultando o relgio, sabia que tinha de ir ver como estava Nana logo
que a festa acabasse. No duvidava de que iria encontr-la no canil,
sentada  secretria, ou verificando como estavam os ces. Nana era
teimosa. Interessava alguma coisa que a perna esquerda mal lhe
suportasse o peso do corpo? A minha perna no est perfeita, mas
tambm no  de cera. E quanto aos riscos de cair e se magoar? No
sou um jarro de porcelana fina. Ou sobre o facto de ter o brao
esquerdo praticamente inutilizado? Desde que consiga comer a sopa,
para que preciso dele?
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Era uma pessoa especial, um corao abenoado. Sempre o fora.
- Eh, mam?
Perdida em reflexes, no reparara na aproximao de Ben. O rosto
sardento do filho estava perlado de suor. A roupa escorria gua e a
camisa tinha manchas de erva que ela sabia nunca conseguir limpar.
- O que , querido?
- Posso passar a noite em casa do Zach?
- Pensei que ele tinha treino de futebol.
- Depois do treino. Haver um grupo que fica e a me dele ofereceu-lhe
Guitar Hero como prenda de anos.
Beth sabia qual era o verdadeiro motivo do pedido.
- Esta noite, no. No podes. O teu pai vem buscar-te s CinCO da tarde.
- No podias ligar a perguntar-lhe?
- Posso tentar. Mas sabes...
Ben assentiu, como fazia sempre que aquilo acontecia, mas perdeu parte
da alegria. - Pois, eu sei.
O sol brilhava atravs do pra-brisas e queimava, fazendo-a lamentar
que no tivesse mandado reparar o ar condicionado. com a janela aberta,
o cabelo batia-lhe na cara e fazia-a piscar os olhos. O que lhe fez
recordar que precisava de um bom corte de cabelo. Imaginou-se a dizer
para a cabeleireira: Corta tudo, Terri. Faz-me parecer um homem! Mas
sabia que chegada a altura pediria o corte habitual. Em certos aspectos
era cobarde.
- Parece que vocs esto a divertir-se.
- Eu estava.
-  s isso que consegues dizer?
- Mam, estou apenas cansado.
A me apontou para a Dairy Queen, que se avistava mais adiante.
- Queres passar por l para comeres um gelado?
- No me faz bem. ?
- Eh, a me aqui sou eu. Isso  o que se espera que eu diga. Estava s
a pensar que, como est calor, talvez te apetecesse. - No tenho fome.
H pouco comi bolo. ?
- Est bem, como queiras. Mas no me culpes se ao chegares a casa
lamentares ter perdido a oportunidade.
- No vou lamentar. ? ??
- Olha l, campeo, sentes-te bem? A resposta veio numa voz tornada
quase inaudvel pelo vento.
- Por que  que tenho de ir com o pap? No nos vamos divertir
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mesmo nada. Manda-me para a cama s nove da noite, como se eu ainda
frequentasse o segundo ciclo ou coisa que o valha. Nem sequer estou
cansado. E amanh, arranja-me tarefas para o dia todo.
- Pensei que ia levar-te a casa do av para o pequeno-almoo, depois de
irem  igreja.
- Continuo a no querer ir.
Nem eu queria que fosses, pensou Beth. Mas que poderia ela fazer?
- Por que no levas um livro? - sugeriu. -  noite podes ler no quarto
e, amanh, se te sentires aborrecido, tambm podes ler.
- Recomendas-me sempre a mesma coisa.
Por que no sei o que mais te posso recomendar, pensou a me.
- Queres passar pela livraria?
- No -- respondeu. Mas Beth bem viu que ele gostaria de l ir.
- bom, nesse caso acompanhas-me. Quero escolher um livro para mim.
- Muito bem.
- Sabes que lamento esta situao.
- Pois, eu sei.
A ida  livraria no alterou muito o mau humor de Ben. Embora tivesse
escolhido dois livros dos Hardy Boys, a me notou-lhe o ar descorooado
quando estavam na fila para pagar. Na viagem para casa, abriu um dos
livros e fingiu estar a ler. Mas Beth tinha a certeza de que ele
pretendia apenas evitar mais perguntas, ou que a me tentasse, com
carinhos forados, que ele se sentisse melhor ante a perspectiva de
passar a noite em casa do pai. Aos dez anos, Ben j era especialista a
prever o comportamento da me.
Beth detestava o facto de ele no gostar de ir para casa do pai. Ficou
a ver o filho entrar em casa, sabendo que ele seguiria para o quarto
para preparar as coisas. Em vez de o seguir, sentou-se na escada do
alpendre, a desejar pela milsima vez conseguir encontrar um
equilbrio. Ainda estava calor e, pela lamria que vinha do canil, era
evidente que os ces, tambm eles, se sentiam incomodados com a
temperatura. Tentou distinguir qualquer som de Nana dentro de casa. Se
estivesse na cozinha quando Ben entrou, t-la-ia ouvido de certeza.
Nana era uma cacofonia andante. No por causa do acidente vascular, mas
por fazer parte da sua personalidade. Setenta e seis, quase setenta e
sete, ria-se alto, batia nas panelas com a colher enquanto cozinhava,
adorava beisebol e punha o rdio alto, a nveis de rebentar os tmpanos
sempre que transmitiam msica da era das grandes bandas. Msica deste
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gnero no cresce como as bananas, sabes. At ao acidente vascular,
costumava usar botas de borracha, macacos de alas e um enorme chapu
de palha, percorrendo barulhentamente o canil quase todos os dias,
enquanto ia ensinando os ces a sentarem-se sobre as patas traseiras, a
chegarem-se a ela ou a ficarem onde estavam.
Em pocas anteriores, ainda com o marido, Nana ensinava-os a fazer
quase tudo. Juntos, tinham criado e treinado ces para caa, para guias
de cegos, para detectores de drogas para a Polcia, para segurana e
proteco dos lares. Tempos passados, agora apenas o fazia
ocasionalmente. No por falta de conhecimentos; de qualquer maneira, a
maior parte do treino sempre estivera a cargo dela. Mas treinar um co
para proteco do lar exige catorze meses de trabalho, e dado o facto
de Nana se apaixonar por um squirrel em menos de trs segundos, ficava
sempre de corao destroado quando entregava o co, depois de
completado o treino. Sem o av por perto para lhe lembrar: Mas j o
vendemos, no temos escolha, Nana achava mais fcil esquecer essa
parte do contrato.
Em vez disso, naqueles dias Nana dirigia uma escola de obedincia. As
pessoas deixavam os animais durante um par de semanas, uma recruta para
ces, como ela dizia, e Nana ensinava-os a sentar-se, a deitar-se, a
ficar quietos, a obedecer  chamada e a sentar-se sobre os quartos
traseiros. Ordens simples, nada complicadas, que qualquer co
assimilava rapidamente. O normal era haver entre quinze e vinte e cinco
ces em ciclos de treino de duas semanas, e cada um deles precisava de
cerca de vinte minutos de treino por dia. Em perodos mais longos de
tempo, o co perdia o interesse. No era mau de todo quando tinham
quinze, mas alojar vinte e cinco ces exigia horrios de trabalho muito
prolongados, considerando que cada um dos animais tinha de ser levado a
passear. E era preciso contar com a alimentao, com a manuteno do
canil, com as relaes com os clientes e com a papelada. Beth
trabalhara doze a catorze horas por dia durante a maior parte do Vero.
Estavam sempre ocupadas. No era difcil treinar um co, Beth ajudara
Nana em diversos perodos, desde os doze anos, alm de haver dezenas de
livros sobre a matria. Alm disso, a clnica veterinria tinha lies
para ces e donos, todas as manhs de sbado, por um preo muito mais
baixo. Beth sabia que, na sua maioria, as pessoas podiam dispensar
vinte minutos do seu tempo, durante duas semanas, para treinarem o co.
Mas no o faziam. Em vez disso, vinham pessoas de longe, da Florida e
do Tennessee, para entregar os ces a quem o pudesse fazer por elas.
Era sabido que Nana gozava de grande
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reputao como treinadora, mas limitava-se a ensinar os ces a sentar-
se e responder ao chamamento, e sentar-se sobre as patas e a ficarem
quietos. No era uma cincia de ponta. No entanto, as pessoas
mostravam-se sempre extremamente gratas. E sempre, sempre, espantadas.
Beth consultou o relgio. Keith, o ex-marido, no tardaria a chegar.
Embora tivesse problemas com o homem, Deus sabia que havia graves
problemas, ambos tinham a custdia do filho, to simples quanto isso, e
ela tentava tirar o melhor proveito da situao. Gostava de demonstrar
a si mesma que era importante para Ben passar algum tempo com o pai. Os
rapazes precisam de passar tempo na companhia dos pais, especialmente
quando esto a entrar na adolescncia, alm de que, tinha de admiti-lo,
o ex-marido no era mau tipo. Imaturo, sim, mas no era mau. Bebia umas
cervejas de vez em quando, mas no era alcolico; no tomava drogas;
nunca fora agressivo com qualquer deles. Frequentava a igreja todos os
domingos. Tinha um emprego estvel e pagava a penso de alimentos do
filho a tempo e horas. Ou, melhor, era a famlia dele quem se
encarregava disso. O dinheiro provinha de um fundo, um dos vrios que a
famlia tinha criado ao longo dos anos. E, na maioria dos casos,
mantinha a sua interminvel cadeia de namoradas afastada nos fins-de-
semana que passava com o filho. Palavras mais usadas: na maioria dos
casos. Ultimamente melhorara neste aspecto, mas Beth tinha quase a
certeza de que o facto se deveria menos a um renovado interesse pelo
seu papel de pai do que pelo facto de estar de momento no perodo que
medeia entre o deixar uma namorada e comear com outra. O problema no
a afectaria muito, se no se desse o caso de as namoradas estarem,
quanto a idade, mais prximas de Ben do que dele, e de, quanto a
quociente de inteligncia, estarem ao nvel de uma saladeira. Uns meses
atrs, Ben tivera de ajudar uma delas a preparar um novo tacho de
macarro com queijo, depois de ela ter deixado queimar o primeiro. A
receita que mandava juntar leite e manteiga exigia depois uma sequncia
de misturar e mexer que parecia ultrapassar as capacidades dela.
Contudo, no fora o que mais aborrecera Ben. No havia problemas com as
namoradas, que tendiam a trat-lo mais como um irmo mais novo do que
como filho. O que agora o preocupava eram os deveres. Tinha de varrer o
quintal ou limpar a cozinha e despejar o lixo, mas no era como se o
ex-marido de Beth tratasse o filho como um criado da casa. E os deveres
faziam-lhe bem; Ben tambm tinha tarefas prprias quando passava os
fins-de-semana com ela. No, o problema era o desapontamento infantil e
avassalador de Ben. Keith pretendera um atleta; em vez disso, concebera
um filho que queria tocar 42
violino. Quisera um companheiro para a caa; tivera um filho que
preferia a leitura. Gostaria de ter um filho que praticasse futebol ou
afundasse bolas no cesto de basquetebol; fora-lhe imposto um filho
desajeitado e com viso deficiente.
Nunca se referiu a tais coisas a Ben ou a ela, mas no era preciso. Era
demasiado evidente o desprezo com que olhava o filho a jogar futebol,
na maneira como recusara elogios quando Ben ganhara o ltimo torneio de
xadrez, na forma como estava sempre a empurrar o filho para aquilo que
este no queria ser. Uma situao que punha Beth maluca e lhe
despedaava simultaneamente o corao, mas para Ben era pior. Tentara
agradar ao pai durante anos, o que s servira para deixar o pobre mido
exausto. Ter lies de recepo no beisebol. No faz mal, pois no? Ben
pode acabar por se divertir, poder at pretender jogar na Liga
Infantil. Fazia todo o sentido quando o ex-marido fizera a sugesto e
Ben at se excitou de incio. Porm, passado algum tempo, passou a
odiar aquilo. Se conseguisse apanhar trs bolas seguidas, o pai
desejaria que tivesse apanhado quatro. Quando o conseguiu, o objectivo
passou a ser cinco bolas. Quando melhorou, teria de se tornar ainda
melhor, o pai queria que as apanhasse todas. E, em seguida, apanh-las
em corrida para a frente. Apanh-las em corrida para trs. Apanh-las a
deslizar. Apanh-las em mergulho. Apanhar a que o pai lhe lanou com
quanta fora tinha. E se deixasse cair uma? Pensar-se-ia que o mundo ia
acabar. O pai no era do gnero de dizer: Boa tentativa, campeo ou
Belo esforo!. No, era o gnero de homem para berrar: Ento,
avana! Deixa-te de tretas!
Oh, Beth discutira o assunto com ele. Falaram at ela se sentir
nauseada. Quanto ao ex-marido, a conversa entrou-lhe por um ouvido e
saiu-lhe pelo outro,  claro. Sempre a velha histria. Apesar da sua
imaturidade, ou por causa dela, Keith era teimoso e dogmtico em
diversas questes, entre elas a forma de educar Ben. Queria um certo
tipo de filho e, se Deus quisesse, ia consegui-lo. Como era de prever,
Ben comeou a reagir  sua maneira simultaneamente passiva e agressiva.
Comeou a deixar cair tudo o que o pai lanasse, mesmo as bolas altas e
fceis, enquanto fingia ignorar a crescente frustrao do pai, at que
este lanasse a luva para o cho, fosse para dentro de casa e ficasse
mal-humorado o resto da tarde. Ben fingia no notar, sentava-se debaixo
de um pinheiro e ficava a ler, at que o pai o viesse buscar, horas
mais tarde.
Beth e o ex-marido no brigavam apenas acerca de Ben; eram
alternadamente fogo e gelo. Ele era o fogo e ela o gelo. Keith ainda se
sentia atrado por ela, o que a irritava ainda mais. Por que diabo
poderia
43
ele acreditar que ela ainda queria alguma coisa com ele era algo que a
ultrapassava, mas, independentemente do que lhe dissesse, no parecia
suficiente para deter os avanos de Keith. Na maioria das vezes, mal
conseguia recordar-se dos motivos por que, anos antes, se sentira
atrada por ele. Conseguia recitar as razes para o casamento: ser
jovem e estpida,  frente de todas, alm de estar grvida; mas agora,
sempre que ele a media de alto a baixo, sentia-se encolher por dentro.
No era o tipo dela. Francamente, nunca fora o seu tipo. Se toda a sua
vida tivesse sido registada em vdeo, o casamento seria um dos eventos
que ela apagaria com agrado. Excepto, claro, a parte que dizia respeito
a Ben.
Gostaria que Drake, o irmo mais novo, estivesse ali, e sentia a dor
habitual sempre que pensava nele. Fosse para onde fosse, Ben seguia-o,
da mesma maneira que os ces seguiam Nana. Juntos, tanto podiam vadiar
para apanhar borboletas, como passar horas na casa da rvore que o av
tinha construdo e s era acessvel atravs de uma ponte instvel que
passava por cima de dois riachos da propriedade. Ao contrrio do ex-
marido, Drake aceitava o sobrinho, o que em muitos aspectos o tornava
mais pai para Ben do que o ex-marido alguma vez fora. Ben adorava-o e
Beth adorava Drake pela forma tranquila como ele aumentava a
autoconfiana do filho dela. Recordava-se de certo dia lhe ter
agradecido por isso, mas ele limitara-se a encolher os ombros.
Acontece que gosto de estar junto dele, explicara, sem mais
pormenores.
Sabia que tinha de ir ver como estava Nana. Ps-se de p, avistou luz
no escritrio, mas duvidou que Nana estivesse entregue a trabalhos
burocrticos. O mais provvel era andar por fora, nas traseiras das
jaulas, e seguiu nessa direco. Por sorte, Nana no tinha metido na
cabea que deveria tentar levar uma matilha de ces a passear. No
havia maneira de ela poder manter o equilbrio, ou at de segurar os
animais, se eles esticassem as trelas, mas essa sempre fora uma das
suas ocupaes favoritas. Era de opinio que a maioria dos ces no
fazem exerccio suficiente e a propriedade era excelente para remediar
uma tal deficincia. com cerca de oito hectares, inclua vrias
clareiras bordejadas por rvores de madeiras raras, era atravessada por
vrios trilhos e dois pequenos riachos que iam desaguar no South River.
A propriedade, comprada quase de graa cinquenta anos antes, valia
agora uma boa soma. Fora o que o advogado dissera, o que viera sondar
as possibilidades de Nana a vender.
Beth sabia perfeitamente quem estava por detrs da manobra. Nana
tambm, mas fingira-se pateta enquanto o advogado falava. 44
Encarava-o de olhos em alvo, muito abertos, fazia cair bagos de uva
para o cho e murmurava palavras incompreensveis. Depois de ele sair,
Nana e Beth riram-se durante horas.
Espreitando pela janela do escritrio no viu sinais de Nana, mas ouviu
a voz dela vinda das traseiras das jaulas.
- Quieta... vem c. Linda menina! Vem c!
Ao dobrar a esquina, Beth viu Nana a encorajar uma cadela shi-tzu que
trotava na direco dela. Fez-lhe recordar aqueles ces de brinquedo
com corda que se compravam no Wal-Mart.
- Nana, o que  que ests a fazer? No devias andar c fora.
- Oh, ol, Beth - cumprimentou. Ao contrrio do que sucedia dois meses
antes, j quase no gaguejava.
Beth ps as mos nas ancas. - No devias andar c por fora sozinha.
- Trouxe um telemvel. Penso que conseguirei telefonar se surgir algum
problema.
- Tu no tens telemvel.
- Tenho o teu. Rapinei-o da tua mala esta manh.
- Nesse caso, a quem  que terias ligado?
No parecia ter reflectido sobre a questo e enrugou a testa ao olhar
para a cadela. - Predous, ests a ver o que eu tenho de aturar? J te
contei que a rapariga  esperta como uma lagarta - rematou, expelindo o
ar como o pio de uma coruja.
Beth soube que ia haver mudana de assunto.
- Onde est o Ben? - perguntou Nana.
- L dentro, a preparar-se. Vai passar o fim-de-semana com o pai.
- Aposto que est entusiasmado com a ideia. Tens a certeza de que no
foi esconder-se na casa da rvore?
- No compliques - pediu Beth. - Continua a ser o pai dele.
- Pensas tu.
- Tenho a certeza.
- Tens a certeza de que no andaste com mais ningum naquela altura?
Nem uma simples noite com o criado do hotel, com um camionista ou com
algum da escola? - indagou, pondo um ar esperanado. Parecia sempre
esperanada quando falava do caso.
- Tenho a certeza. E j te disse o mesmo um milho de vezes. Nana
piscou-lhe um olho. - Pois disseste, mas estou sempre
 espera de uma melhoria da memria.
- A propsito, h quanto tempo andas c fora?
- Que horas so?
- Quase quatro horas.
- Ento, ando por fora h trs horas.
- com este calor?
- Beth, no estou inutilizada. Foi um incidente.
? - Sofreste um acidente vascular cerebral.
- Mas no foi dos graves. ? ?
- No consegues mexer o brao.
- Seja como for, desde que consiga comer a sopa, no preciso dele.
Agora deixa que v ver o meu neto. Quero despedir-me dele antes de se
ir embora - rematou. Comearam a andar na direco do canil, seguidas
pela cadela Precioits, que ofegava de cauda no ar. Bonita cadela.
- Acho que esta noite quero comida chinesa - anunciou Nana.
- Tambm queres?
- Ainda no pensei nisso.
- Pois bem, pensa.
- Est bem, podemos encomendar comida chinesa. Mas no quero pratos
pesados. Nem fritos. So demasiado picantes para mim.
- No tens graa nenhuma.
- Mas sou saudvel.
-  a mesma coisa. Olha, como s to saudvel, no te importas de levar
a Precious? Est no nmero 14. Ouvi uma nova anedota que quero contar
ao Ben.
- Onde  que ouviste a anedota?
- Na rdio.
-  apropriada?
- Decerto que  apropriada. Quem  que pensas que eu sou?
- Sei exactamente quem tu s.  por isso que pergunto. Qual  a anedota?
- Dois canibais esto a comer um actor cmico e um deles volta-se para
o outro e pergunta: Achas o gosto engraado?
Beth sorriu. - Ele vai gostar dessa.
- Bem. O pobre do mido precisa de qualquer coisa que o anime.
- Ele est ptimo.
- Pois,  claro que est. No nasci ontem, como sabes. Quando chegaram
ao canil Nana continuou a caminhar para casa,
mais coxa do que estava pela manh. Estava a melhorar, mas ainda havia
um longo caminho a percorrer.
THIBAULT
O Corpo de Marines tem por base o nmero 3- Era uma das primeiras
coisas que se aprendia na recruta. Tornar as coisas fceis de perceber.
Trs fuzileiros formam uma equipa de combate, trs equipas formam uma
seco, trs seces formam um peloto, trs pelotes formam uma
companhia, trs companhias so um batalho e trs batalhes constituem
um regimento. Em esquema, pelo menos. Na altura em que invadiram o
Iraque, o regimento deles tinha sido combinado com elementos de outras
unidades, incluindo o Batalho Blindado Ligeiro de Reconhecimento,
Batalhes de Infantaria do 11 Regimento de Marines, os segundo e
terceiro Batalhes Anfbios de Assalto, a Companhia B do 1 Batalho de
Engenharia e o Batalho 115 de Apoio. Slido. Preparado para tudo. No
total, cerca de 6000 militares.
Enquanto Thibault caminhava sob um cu que comeava a mudar de cor com
o incio do crepsculo, voltou a pensar naquela noite, tecnicamente o
seu primeiro combate em territrio hostil. O seu regimento, o 1
Batalho do 5 Regimento, foi a primeira unidade a entrar no Iraque com
o objectivo de se apoderar dos campos petrolferos de Rumaylah. Toda a
gente se recordava de que, durante a retirada na Primeira Guerra do
Golfo, Saddam Hussein tinha deitado fogo  maioria dos poos de
petrleo do Kuwait e ningum queria que voltasse a acontecer o mesmo.
Resumindo uma histria comprida, o 1 Batalho do 5 Regimento, entre
outras unidades, chegou a tempo. Na altura em que a zona foi
considerada segura, s ardiam sete poos. Dali, a seco de Thibault
foi mandada seguir para norte, para Bagdade, a fim de ajudar na
conquista da capital. O 1 Batalho, 5 Regimento, era o mais
condecorado de entre os fuzileiros, sendo, portanto escolhido para o
avano mais profundo em territrio inimigo da histria do Corpo de
Marines. A sua primeira comisso no Iraque durou um pouco mais de
quatro meses.
47
Passados cinco anos, a maioria dos pormenores daquela primeira comisso
haviam-se tornado vagos. Cumprira a sua misso e acabara por ser
mandado regressar a Pendleton. No falava do assunto. Tentava no
pensar nele. Excepto num detalhe: Ricky Martinez e Bill Kincaid, os
outros dois homens da equipa de Thibault, faziam parte de uma histria
que ele nunca iria esquecer.
Peguem em trs pessoas, juntem-nas e notar-se-o diferenas. Nenhuma
surpresa. E,  superfcie, eles eram diferentes. Ricky fora criado num
pequeno apartamento em Midland, Texas, era um antigo jogador de
beisebol e um fantico do halterofilismo, que competira nos Minnesota
Twins antes de se alistar; Bill, que tocara trompete na banda da escola
secundria, era do interior do estado de Nova Iorque e fora criado,
juntamente com cinco irms, numa herdade de produo de lacticnios.
Ricky gostava de louras, Bill preferia as morenas; Ricky mascava tabaco
e Bill fumava; Ricky apreciava msica rap e Bill preferia a country-
western. Nada de importante. Foram treinados juntos, comiam juntos e
dormiam juntos. Discutiam desporto e poltica. Conversavam para passar
o tempo e pregavam partidas um ao outro. Bill podia acordar com uma
sobrancelha rapada; Ricky acordaria na manh seguinte sem nenhuma das
suas. Thibault aprendera a acordar ao mais ligeiro som e, de qualquer
forma, conservou as sobrancelhas intactas. Riam-se das partidas durante
meses. Uma noite, ambos bbados, mandaram fazer tatuagens iguais, cada
uma a proclamar a sua fidelidade ao Corpo de Marines.
Depois de passarem tanto tempo juntos, chegaram ao ponto de saber o que
o outro faria em seguida. Cada um deles,  vez, salvaram a vida de
Thibault, ou pelo menos evitaram que fosse gravemente ferido. Bill
agarrara o colete de Thibault quando este se preparava para saltar
ficando a descoberto; momentos depois, um atirador furtivo (sniper)
feriu dois homens que estavam perto deles. Na segunda vez, um Thibault
distrado quase era atropelado por um Humvee a toda a velocidade,
conduzido por um camarada fuzileiro; ento, foi Ricky que o agarrou por
um brao e o obrigou a parar. Mesmo na guerra, as pessoas continuam a
morrer em acidentes de viao. Recordem-se do general Patton.
Depois de se apoderarem dos campos petrolferos, chegaram aos arredores
de Bagdade com o resto da companhia. A cidade ainda no cara. Faziam
parte de um comboio, trs homens entre centenas, a apertarem o cerco 
cidade. Para alm do rugir dos motores dos veculos aliados, tudo
estava calmo ao entrarem na periferia. Quando se detectou fogo de
metralhadora, vindo de uma rua lateral, a seco de Thibault foi
mandada investigar. 48
Avaliaram a cena. Prdios de dois ou trs andares, apertados uns contra
os outros de ambos os lados de uma rua cheia de buracos. Um co vadio
rebuscava no lixo. Cem metros mais adiante as runas fumegantes de um
automvel. Esperaram. Nada viram. Esperaram um pouco mais. Nada
ouviram. Finalmente, Thibault, Ricky e Bill receberam ordens para
atravessar a rua. E assim fizeram; correram, a pr-se a salvo. A partir
daquele ponto, a seco comeou a percorrer a rua, a penetrar no
desconhecido.
Quando o som de fogo se fez de novo ouvir naquele dia, no se tratou de
um s tiro. Foi o matraquear de dezenas, e depois de centenas, de balas
de armas automticas que os encurralou num crculo de fogo. Thibault,
Ricky e Bill, juntamente com o resto da seco que ficara do outro lado
da rua, viram-se imobilizados em vos de portas, com pouco espao para
se esconderem.
A troca de tiros no durou muito, disseram depois algumas pessoas.
Durou o suficiente. As rajadas caam sobre eles, vindas dos andares
mais altos. Instintivamente, Thibault e a sua seco apontaram as armas
para cima e dispararam, uma e outra vez. Do outro lado da rua, dois dos
seus homens tinham sido feridos, mas os reforos chegaram rapidamente.
Um tanque entrou na rua, com a infantaria a correr atrs dele. O ar
vibrou quando o canho do tanque disparou e fez ruir os ltimos andares
de um prdio, provocando uma nuvem de poeira e de estilhaos de vidro.
Thibault ouvia os gritos, vindos de todos os lados, e viu civis a fugir
dos prdios. A fuzilaria continuava; atingido no dorso, o co vadio
uivava e sangrava. Um terceiro marine foi atingido numa perna.
Thibault, Ricky e Bill continuavam sem se poder mexer, aprisionados
pelo fogo constante que arrancava pedaos das paredes prximas, junto
aos ps deles. Ainda assim, os trs continuavam a disparar. O ar vibrou
com a exploso e os andares mais altos de outro prdio ruram. Sempre a
avanar, o tanque estava agora perto deles. De repente, o fogo inimigo
comeou a vir de duas direces e no apenas de uma. Bill olhou-o de
relance; ele olhou para Ricky. Sabiam o que tinham de fazer. Chegara a
hora de sair dali; se ficassem, morreriam. Thibault foi o primeiro a
erguer-se.
Naquele preciso instante, tudo se fez subitamente branco, antes de a
escurido o envolver.
Em Hampton, mais de cinco anos depois, e para alm da sensao de que
fora atirado para dentro de uma mquina de lavar, Thibault no
conseguia recordar os pormenores. Sentiu-se tombar na rua, a ouvir
campainhas nos ouvidos. O seu amigo Victor no tardou a chegar
49
junto dele; o mesmo fez um ajudante mdico naval. O tanque continuava a
disparar e, pouco a pouco, a rua foi controlada.
Soube de tudo depois do facto, como soube tambm que a exploso fora
causada por RPG, uma granada de propulso por foguete. Mais tarde, um
oficial explicou-lhe que a granada fora apontada ao tanque, mas falhou
a torre por uns centmetros. Em vez de atingir a torre, como se o
destino a tivesse reservado a eles, a granada voou na direco de
Thibault, Ricky e Bill.
Thibault foi metido num Humvee e evacuado do local. Por milagre,
sofrera apenas ferimentos ligeiros e trs dias depois voltava para
junto da sua seco. Ricky e Bill no voltariam; cada um foi depois
enterrado com honras militares. Faltava uma semana para Ricky celebrar
o vigsimo segundo aniversrio. Bill tinha vinte anos. No foram as
primeiras baixas nem as ltimas da guerra. A guerra continuou.
Thibault esforou-se para no pensar muito neles. Parecia
insensibilidade, mas na guerra a mente fecha-se para episdios daquele
gnero. Pensar na morte deles, reflectir sobre a sua ausncia, era
doloroso; portanto, no pensava, nem reflectia. E a maior parte da
seco agia da mesma maneira. Em vez de pensar, fez o seu trabalho.
Concentrou-se no facto de que ainda estava vivo. Concentrou-se na
tarefa de manter os outros em segurana.
Mas sentira de novo os aguilhes da memria, da perda, e no se
descartou deles. Estavam com ele enquanto percorria as ruas pacatas da
cidade, a caminho dos arrabaldes do lado contrrio. Seguindo as
instrues que lhe haviam dado no balco do motel, dirigiu-se para
leste, pela Estrada 54, caminhando pela berma relvada, bem fora da
estrada. Nas suas viagens aprendera a nunca confiar nos condutores.
Zeus trotava atrs dele, a ofegar pesadamente. Parou e deu-lhe gua, o
fim da garrafa.
Havia estabelecimentos de ambos os lados da estrada. Uma fbrica de
colches, uma oficina da bate-chapa, um infantrio, uma loja de
convenincia que vendia gasolina e comida fedorenta embrulhada em
plstico, e duas casas de quinta arruinadas que pareciam deslocadas
ali, como se o mundo moderno tivesse brotado da terra  volta delas.
Assumiu que fora isso precisamente que acontecera. Tentava imaginar at
quando os donos das casas se aguentariam ou as razes que levavam
algum a querer viver numa casa de frente para a estrada e entalada
entre lojas e oficinas.
Os automveis passavam em ambas as direces. As nuvens estavam a
aproximar-se, cinzentas e inchadas. Cheirou-lhe a chuva antes de ser
atingido pelo primeiro pingo mas, dados mais uns passos, chovia a
cntaros. O dilvio durou quinze minutos, contudo as pesadas
50
nuvens continuaram o movimento em direco  costa, ficando apenas uma
ligeira neblina. Zeus sacudiu a gua do plo. Os pssaros voltaram a
cantar nas rvores e o vapor erguia-se da terra molhada.
Acabou por chegar ao recinto da feira, mas encontrou-o deserto. Nada de
especial, pensou, ao analisar as instalaes. Apenas o fundamental. O
parque de estacionamento num espao coberto de gravilha,  esquerda; um
par de celeiros antigos na ponta direita; um campo espaoso com relva,
para corridas de diverso, separava os dois, tudo limitado por uma sebe
de arame.
No precisou de saltar a sebe, nem houve necessidade de olhar para a
fotografia. Vira-a milhares de vezes. Continuou a andar, a orientar-se,
e acabou por encontrar a bilheteira. Por detrs da bilheteira ficava um
arco, onde podia ser colocada uma bandeira. Quando chegou ao arco,
voltou-se para norte, englobando no campo de viso a bilheteira e o
arco, tal como aparecia na fotografia. Era aquele o ngulo, pensou; a
fotografia fora tirada ali.
A estrutura dos marines baseava-se no nmero trs. Trs homens formavam
uma equipa, trs equipas formavam uma seco, trs seces constituam
um peloto. Fizera trs comisses no Iraque. Consultando o relgio,
notou que estava em Hampton h trs horas e, mais adiante, exactamente
onde deviam estar, havia trs rvores juntas.
Thibault regressou  estrada, sabendo que estava prestes a encontr-la.
Ainda l no chegara, mas no tardaria muito.
Ela estivera ali. Naquele momento, tinha a certeza.
Agora s precisava de um nome. Na caminhada atravs do pas, dispusera
de muito tempo para pensar e decidira que havia trs maneiras de
enfrentar a questo. Primeiro, podia tentar descobrir a associao
local de veteranos e perguntar se l havia algum que tivesse estado no
Iraque. O que poderia lev-lo junto de algum que a reconhecesse.
Segundo, poderia dirigir-se  escola secundria local e ver se tinham
livros de cursos de h dez ou quinze anos. Poderia ver as fotografias
uma por uma. Ou, em terceiro lugar, podia ir mostrando a fotografia e
fazendo perguntas.
Todos os esquemas tinham inconvenientes, nenhum garantia o xito. A
associao de veteranos no constava da lista telefnica. Primeira
derrota. Como ainda era tempo de frias de Vero, duvidava que a escola
secundria estivesse aberta; mesmo que estivesse, poderia tornar-se
difcil aceder aos livros anuais de cursos. Segunda derrota, ao menos
por enquanto. O que significava que a melhor maneira era ir perguntando
se algum a reconhecia.
51
Mas, perguntar a quem?
Pelo almanaque ficara a saber que em Hampton, Carolina do Norte, viviam
nove mil pessoas. No Distrito de Hampton viviam mais 30 mil. Gente a
mais. A estratgia mais eficiente era limitar a busca ao grupo de
candidatos mais promissor. De novo comeou pelo que sabia.
A mulher parecia no incio da casa dos vinte quando a fotografia fora
tirada, o que significava que andaria agora perto do final dos vinte
anos. Talvez no incio da dcada dos trinta. Era obviamente atraente.
Mais, numa cidade daquele tamanho, presumindo uma boa distribuio por
grupos etrios, significava que haveria cerca de 2750 crianas, desde
recm-nascidos at aos dez anos de idade, 2750 pessoas entre os dez e
os vinte, e 5500 pessoas com vinte e trinta anos, o grupo etrio dela.
Em termos tericos. Partia do princpio de que metade eram homens e
metade mulheres. As mulheres mostrariam tendncia a ser mais
desconfiadas em relao s intenes dele. Tratava-se de um estranho e
os estranhos eram perigosos. Duvidava que revelassem qualquer pormenor
importante.
Talvez os homens, dependendo da forma como ele formulasse a questo.
Por experincia pessoal, sabia que quase todos os homens reparam nas
mulheres atraentes do seu grupo etrio, especialmente sendo solteiros.
Quantos homens da actual idade dela estariam solteiros? Calculou que
seriam uns 30 por cento. Tanto podia estar certo como errado, mas
resolveu seguir a pista. Seriam cerca de 900 homens. Destes, calculou
que 80 por cento deles viveriam ali na altura que lhe interessava. Era
apenas um palpite, mas achou que Hampton seria de preferncia uma terra
de emigrantes, no de imigrantes. O que faria descer o nmero para 720.
Poderia ainda dividi-lo ao meio concentrando-se nos solteiros com
idades entre os vinte e cinco e os trinta e cinco anos, em vez de
pensar nos de vinte e quarenta. O nmero de candidatos descia para 360.
Presumiu que uma boa parte desses homens a conhecia ou que a teria
conhecido cinco anos antes. Talvez tivessem sido colegas na escola
secundria, ou talvez no, pois sabia que havia uma dessas escolas na
cidade, mas saberiam se continuava solteira. Era certamente possvel
que no estivesse solteira. Afinal as mulheres das pequenas cidades do
Sul casavam provavelmente jovens, mas comearia por trabalhar com este
conjunto de dados. A inscrio no verso da fotografia: Cuida de ti.
no lhe parecera suficientemente romntica para ser dirigida a um
namorado ou a um noivo. No havia qualquer Amo-te ou vou ter
saudades. Apenas uma inicial. Uma amiga.
52
Passara de 22 000 para 360 candidatos em menos de dez minutos. Nada
mau. E, sem dvida, um bom nmero para comear. Partindo, como era
bvio, do princpio de que ela vivia onde a fotografia fora tirada.
Presumindo que no estaria ali de visita.
Sabia tratar-se de outra suposio importante. Tinha, porm, de comear
por alguma ponta e sabia que ela estivera ali uma vez. De uma maneira
ou de outra chegaria  verdade e, a partir dela, resolveria como agir.
Onde  que os solteiros costumam parar? Solteiros com quem se possa
conversar? Conhecia-a h uns dois anos e disse-me que lhe telefonasse
se voltasse  cidade, mas esqueci-me do nome e do nmero do telefone,..
Bares. Sales de jogos.
Numa cidade daquele tamanho, duvidava que existissem mais do que trs
ou quatro lugares em que os locais se reunissem. Os bares e os sales
de jogos tinham a vantagem de venderem lcool e era noite de sbado.
Estariam cheios. Julgou que conseguiria obter uma resposta, de uma
forma ou de outra, nas vinte horas seguintes.
Olhou para Zeus. - Parece que vais passar a noite sozinho. Podia levar-
te, mas terias de ficar  porta e no sei quanto tempo irei demorar-me.
O co continuou a andar, de cabea e lngua pendente, cansado e cheio
de calor. Zeus estava por tudo.
- vou ligar o ar condicionado, est bem?
CLAYTON
Eram nove horas da noite de sbado e ele fechado em casa, a tomar conta
do filho. ptimo. Fenomenal.
Como poderia ter terminado um dia como aquele? Primeiro, quase fora
apanhado pelas raparigas a tirar fotografias, a seguir, a mquina
fotogrfica do departamento fora roubada e, ento, um tal Logan
Thibolt vazara-lhe os pneus. Pior ainda, tivera de explicar a perda
da mquina e o vazamento dos pneus ao pai, ao xerife do distrito. Como
era de prever, o pai ficara louco de raiva e, fosse como fosse, no
engolira a histria que o filho engendrara. Em vez disso, continuara a
irrit-lo com novas perguntas. Clayton acabara por sentir vontade de
liquidar o idoso senhor. O pap poderia ser uma personalidade
importante para muita gente da terra, mas o homem no tinha o direito
de lhe falar como se ele fosse um idiota. Mas Clayton mantivera a sua
verso: pensara ter visto algum, decidira ir investigar e, sem
reparar, passara por cima de uns pregos. E a mquina fotogrfica? No
valia a pena perguntar-lhe. Para comear, nem sabia que ela estava no
carro-patrulha. No era uma grande desculpa, mas servia.
- Parece-me mais um buraco feito por um canivete - observara o pai,
debruado a examinar o pneu.
- J lhe disse que foram pregos.
- No h construes por a.
?? ? - No sei como aconteceu! S estou a dizer-lhe o que aconteceu. -
Onde  que esto? - Como diabo quer que eu saiba? Atirei-os para o mato.
O velhote no ficou convencido, mas Clayton sabia que tinha de se
agarrar  sua verso do que acontecera. Nunca alterar a verso. 
quando comeam a contar novos pormenores que as pessoas se metem em
sarilhos. Interrogatrio 101.
54
O velhote acabou por deix-lo e Clayton montou os pneus sobressalentes
e levou o carro para a garagem, onde repararam os pneus originais.
Tinham passado umas duas horas e ele estava atrasado para um encontro
com Mr. Logan Thibolt. Ningum, ningum mesmo, se podia meter com
Keith Clayton, ainda mais sendo um hippie vadio que pensara pregar-lhe
uma partida.
Passou o resto da tarde a percorrer as ruas de Arden, a perguntar se
algum o vira. Um tipo daqueles no poderia passar despercebido, at
por levar o co com ele. A busca no resultou, o que o enfureceu ainda
mais, pois significava que Thibolt lhe mentira descaradamente e que
Clayton no percebera que estava a ser enganado.
Mas havia de o encontrar. Tinha a certeza de que acabaria por encontr-
lo, especialmente por causa da mquina fotogrfica. Ou, para ser mais
preciso, por causa das fotografias. Especialmente as outras
fotografias. A ltima coisa que queria era ver Thibolt entrar na
esquadra e pousar a menina em cima do balco, ou pior, dirigir-se
directamente ao jornal. A esquadra parecia-lhe o menor de dois males,
pois o pai poria uma pedra sobre o assunto. Embora o pai se atirasse ao
ar e o pusesse durante umas semanitas a desempenhar tarefas que ningum
queria, manteria o segredo. O pai no valia muito, mas era bom nesse
gnero de coisas.
Mas, o jornal... bem, essa seria uma histria diferente. Claro que
Gramps poderia exercer alguma presso e fazer o melhor para manter a
situao controlada por l, mas no havia maneira de conservar
escondida uma informao daquele gnero. Era demasiado suculenta e a
notcia espalhar-se-ia por toda a cidade, como fogo em capim, sendo ou
no acompanhada por um artigo. Clayton j era considerado a ovelha
negra da famlia, no precisava mesmo nada de dar a Gramps mais uma
razo para o atacar. Gramps tinha a sua maneira de ver o lado negativo
das situaes. Mesmo agora, passados anos, ainda lamentava que Clayton
e Beth se tivessem divorciado, embora no tivesse nada a ver com o
assunto. E nas reunies de famlia, era sempre de esperar que
mencionasse o facto de Clayton no ter frequentado a universidade. com
as notas que obtinha, Clayton no teria dificuldades em entrar, mas no
conseguia imaginar-se a passar mais quatro anos em salas de aulas e,
assim, decidira juntar-se ao pai como ajudante do xerife. Fora o
suficiente para acalmar Gramps. Parecia-lhe que passara metade da vida
a acalmar Gramps.
Contudo, no dispunha de outra hiptese. Embora no nutrisse qualquer
simpatia pessoal por Gramps, um baptista do Sul que ia  igreja todos
os domingos e achava que beber e danar eram pecados,
55
e que Clayton sempre considerara ridculo, sabia o que Gramps esperava
dele, e diga-se em abono da verdade que fotografar raparigas nuas no
fazia parte da lista de deveres. O que tambm acontecia com outras
fotografias no carto da mquina, especialmente as que o mostravam com
outras senhoras em posies comprometedoras. O gnero de situaes que
provocariam certamente um grave desapontamento e Gramps no tinha muita
pacincia para quem o desapontava, mesmo tratando-se de um membro da
famlia. Especialmente se fosse da famlia. Os Clayton viviam em
Hampton desde 1753; em muitos aspectos eles eram o Distrito de Hampton.
A famlia produzira juizes, advogados, mdicos e proprietrios de
terras; at o presidente da Cmara casara na famlia, mas toda a gente
sabia que a cadeira do topo da mesa era ocupada por Gramps. Governava a
terra como um padrinho fora de moda da mfia, e havia muitos habitantes
que o louvavam e o apreciavam como pessoa. Gramps gostava de acreditar
que isso se devia ao facto de ele apoiar tudo, desde a biblioteca ao
teatro, bem como a escola elementar local, mas Clayton sabia que a
verdadeira razo residia na circunstncia de Gramps ser dono de quase
todos os edifcios comerciais do centro da cidade, bem como do depsito
de madeiras, de ambas as marinas, de trs agncias de vendas de
automveis, de trs complexos de armazns, do nico complexo de
apartamentos da cidade, alm de grandes extenses de terras agrcolas.
Tudo o necessrio para tornar a famlia imensamente rica e poderosa; e
como Clayton recebia a maior parte do seu dinheiro dos fundos
imobilirios da famlia, a ltima coisa de que necessitava era da
existncia de um estranho na cidade, de algum que o metesse em
sarilhos.
Graas a Deus, fora pai de Ben durante o curto perodo que passara com
Beth. Gramps tinha aquela ideia fixa sobre a linhagem, e como Ben fora
baptizado com o nome prprio de Gramps, um golpe de astcia como nunca
deixava de recordar a si prprio, Gramps adorava o garoto. Na maioria
das situaes, Clayton sentia que Gramps gostava mais do bisneto, Ben,
do que do neto.
Pois, Clayton sabia que Ben era um garoto s direitas. No era apenas
Gramps a diz-lo, era toda a gente. E ele tambm adorava o filho,
embora por vezes o achasse um maador. Do seu posto de observao no
alpendre da frente, olhou pela janela e viu que Ben acabara a limpeza
da cozinha e voltara a sentar-se no sof. Sabia que devia ir para junto
dele, mas ainda no se achava preparado. No queria perder as
estribeiras e dizer algo de que viesse a arrepender-se. Tinha andado a
preparar-se para lidar melhor com aquelas situaes; uns meses antes,
Gramps tivera uma pequena conversa com Clayton acerca da
56
necessidade de ele exercer uma influncia estvel sobre o filho.
Tretas. O que deveria ter feito era ordenar que Ben fizesse o que o pai
lhe mandava fazer, quando mandasse, pensou Clayton. Teria feito muito
melhor ao garoto. O mido j o aborrecera uma vez naquela noite, mas,
em vez de explodir, recordara-se de Gramps e cerrara os lbios antes
que fosse tarde.
Parecia que naqueles dias tudo o que Ben pretendia era aborrec-lo. Mas
a culpa no era dele, que tentava honestamente ter uma boa relao com
o filho! E tinham comeado bem. Falaram da escola, comeram
hambrgueres, viram o programa desportivo na televiso. Tudo bem. Mas
ento, horror dos horrores, tinha mandado Ben limpar a cozinha. Como se
fosse pedir demasiado. Clayton no tivera tempo para tratar disso nos
ltimos dias e sabia que o garoto faria um bom trabalho. Ben prometera
que o faria, mas em vez disso sentara-se ali. E mantivera-se sentado. E
o tempo a passar. E depois voltara a sentar-se. Por isso, Clayton
renovara o pedido - e tinha a certeza de que pedira com amabilidade -
e, embora no tivesse a certeza, parecera-lhe que Ben rolara as rbitas
e finalmente se afastara a caminhar lentamente. No fora preciso mais.
Detestava que Ben revirasse as rbitas quando falava com ele e Ben
sabia-o perfeitamente. Era como se o petiz soubesse exactamente os
botes em que devia carregar, que passasse os tempos livres a imaginar
os botes que deveria usar no encontro seguinte. Por conseguinte,
Clayton mantinha-se no alpendre.
Aqueles comportamentos eram obra da me, disso no tinha dvidas. Era
uma mulher diabolicamente bonita, mas no fazia a menor ideia do que
fazer para transformar um garoto num homem. No lhe parecia mal que o
filho tivesse boas notas, mas no querer jogar futebol no ano que ia
comear por preferir aprender a tocar violino? Que nojeira era aquela?
Violino? Melhor seria que passasse a vestir o rapaz de cor-de-rosa e o
ensinasse a cavalgar de lado, como as mulheres. Clayton fez o que pde
para obstar quele gnero de mariquices, mas o facto era que o filho
estava com ele apenas dia e meio de duas em duas semanas. No tinha a
culpa de que o garoto empunhasse o taco como uma rapariga. Que passasse
tanto tempo a jogar xadrez. E uma coisa estava assente, no havia
qualquer hiptese neste mundo de Deus de ele ser apanhado a dormir num
recital de violino.
Um recital de violino. Deus nos acuda. Para onde vai este mundo?
Os pensamentos dele voltaram a Thibolt e, embora quisesse crer que o
homem tinha pura e simplesmente sado do distrito, sabia que no era
assim. O homem viajava a p, no tinha maneira de atingir o outro
extremo do distrito at ao cair da noite. E que mais? Para
57
alm de outro pormenor que o atormentara durante todo o dia e s
descobrira quando conseguira acalmar-se no alpendre: se Thibolt
tivesse dito a verdade sobre a sua residncia no Colorado - e no havia
a certeza de que falasse verdade, mas partindo do princpio de que
falara - queria dizer que viajava de oeste para leste. E qual era a
localidade mais prxima a leste? No era Arden. Certamente que no,
pois ficava a sudoeste do ponto onde se encontraram. Em vez disso, o
caminho para leste teria levado o homem para a velha Hampton. Para ali
mesmo, para a sua terra natal. O que significava, claro, que o tipo
poderia encontrar-se a menos de um quarto de hora de caminho do ponto
onde Clayton estava sentado.
Mas onde parava Clayton? Andava  procura do homem? No, estava a tomar
conta do filho.
Semicerrou de novo os olhos para observar o filho atravs da janela.
Estava sentado no sof, a ler, que era a nica coisa que lhe agradava
sempre. Ah, pois, com excepo do violino. Abanou a cabea, a tentar
perceber se o garoto teria herdado algum dos seus genes. Improvvel.
Era um menino da mam, dos ps  cabea. O filho de Beth.
Beth...
Pois, o casamento no funcionara. Mas continuava a existir qualquer
coisa entre eles. Existiria sempre. Ela poderia ter sido opiniosa,
presumida e caprichosa, mas ele sempre procurara defend-la, no s por
causa de Ben, mas por ela ser a mulher mais bonita com quem ele alguma
vez dormira. Bonita naquele tempo e talvez ainda mais bonita
actualmente. Ainda mais bonita que as estudantes que vira de manh.
Estranho. Como se Beth tivesse atingido a idade que lhe servia
perfeitamente e, v l saber-se como, a seguir deixasse de envelhecer.
Sabia que a beleza no ia durar. A gravidade cobraria o seu preo, mas
ainda assim, no conseguia deixar de pensar numa rpida cambalhota
juntamente com ela. Uma pelos velhos tempos e para o deixar... aliviado.
Sups que poderia ligar a Angie. Ou a Kate, tanto fazia. Uma tinha
vinte anos e trabalhava na loja de animais de estimao; a outra era um
ano mais velha e limpava sanitas no Stratford Inn. Duas figurinhas
simpticas que se transformavam sempre em dinamite quando chegada a
hora da... de se aliviarem. Sabia que Ben no se importaria se ele
mandasse vir uma delas, mas, ainda assim, teria provavelmente de as
convencer primeiro. Ambas tinham ficado bastante zangadas das ltimas
vezes em que estiveram com ele. Teria de lhes pedir desculpa e de usar
do seu charme, no tendo a certeza de estar disposto a v-las
58
mascar a pastilha elstica enquanto tagarelavam sobre o que tinham
visto na MTV ou lido na National Enquirer. Por vezes, eram demasiado
cansativas.
Ento, restava o qu? No podia ir  procura de Thibolt. Procurar
Thibolt no dia seguinte era igualmente impossvel, pois Gramps queria
a famlia toda reunida depois da ida  igreja. No entanto, Thibolt
viajava a p, com um co e de mochila, sendo pouco provvel que
conseguisse boleia. Onde conseguiria chegar at  tarde do dia
seguinte? Trinta quilmetros? Quarenta, no mximo? No mais do que
isso, o que queria dizer que continuava por perto. Faria umas quantas
chamadas para as esquadras dos distritos vizinhos e pedir-lhes-ia que o
mantivessem debaixo de olho. As estradas de sada do distrito no eram
assim tantas e calculava que, gastando umas horas a telefonar para os
estabelecimentos localizados  beira dessas estradas, algum teria de
avistar o homem. Quando isso acontecesse punha-se a caminho. Thibolt
nunca deveria ter-se metido com Keith Clayton.
Perdido em reflexes, Clayton mal ouviu o ranger da porta da frente ao
ser aberta.
- Eh, pap?
- O que foi?
- Telefonema para ti.
- Quem ?
- Tony.
- Tinha de ser.
Ergueu-se da cadeira, a tentar imaginar o que Tony quereria. Falar
acerca de um falhado qualquer. Esqueltico e coberto de espinhas, era
uma daquelas meigas que se sentam perto dos polcias, a tentar rastejar
o suficiente para se parecer com eles. Provavelmente estava a procurar
saber onde Clayton se encontrava, ou o que ele tencionava fazer mais
tarde, porque no queria estar s. Deficiente.
Acabou a cerveja enquanto andava e deitou a lata para o caixote do
lixo, ouvindo-a cair l dentro. Pegou no auscultador.
- Estou!
Em fundo, conseguia ouvir-se o som distorcido de msica country-western
a ser tocada numa jukebox e sons indistintos de conversas em voz alta.
No sabia o que pensar sobre o telefonema daquele falhado.
- Olha, estou no Deckers Pool Hall e anda aqui um tipo estranho e
julguei que devias saber o que ele anda a preparar.
As antenas de Clayton estavam a postos. - Tem um co com ele? Traz
mochila? Um tipo desleixado, como se tivesse vivido algum tempo na
floresta?
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- No.
- Tens a certeza?
-  claro que tenho a certeza. Est na sala das traseiras a jogar
snooker. Mas, ouve! Quero informar-te de que ele tem uma fotografia da
tua ex-mulher.
Apanhado desprevenido, Clayton tentou parecer desinteressado.
- E ento?
- Pensei que gostarias de saber.
- Por que diabo havia de dar importncia a isso?
- No sei.
-  claro que no. Grita  vontade.
Desligou o telefone, a pensar que o tipo devia ter salada de batata no
stio onde deviam estar os miolos e lanou um olhar de apreo 
cozinha. Mais limpa no podia estar. O mido fizera um excelente
trabalho, como sempre. Quase lhe apeteceu gritar o que sentia, mas, do
stio onde estava, no deixou de reparar, mais uma vez, na pequena
estatura do filho. Uma boa parte devia ser gentica, devida a processos
de crescimento mais precoces ou mais tardios, e essas tretas todas, mas
a outra parte tinha a ver com o estado geral de sade. com simples bom
senso. Comer bem, fazer exerccio, descansar bastante. As coisas
fundamentais que qualquer me ensinava aos filhos. E as mes tinham
razo. Se no comermos o suficiente no poderemos crescer. Se no
fizermos exerccio suficiente os msculos atrofiam-se. E quando  que
se pensa que as pessoas crescem?   noite.  quando o corpo se
regenera. Enquanto as pessoas sonham.
Por vezes duvidava que Ben dormisse o suficiente em casa da me.
Clayton sabia que o filho comia, pois comera todo o hambrguer com
batatas fritas, e tambm sabia que o garoto era activo; portanto,
talvez fosse a falta de dormir que o mantinha baixo. Os rapazes no
gostam de ficar pequenos, pois no?  claro que no. E alm do mais,
Clayton precisava de ficar sozinho. Queria magicar acerca do que havia
de fazer a Thibolt na prxima vez que o visse.
Pigarreou. - Olha, Ben. Est a fazer-se tarde, no concordas?
THIBAULT
No regresso do salo de bilhar, Thibault recordou a sua segunda
comisso no Iraque.
Comeou na Primavera de 2004, em Fallujah. O 1 Batalho do 5
Regimento, juntamente com outras unidades, foi mandado reprimir a
escalada de violncia que se seguira  queda de Bagdade, no ano
anterior. Os civis sabiam o que os esperava e comearam a fugir da
cidade, atravancando as estradas. Um tero da cidade ter sido evacuado
s num dia. Foram enviados meios areos e depois os marines. Avanavam
quarteiro a quarteiro, casa a casa, sala por sala, em alguns dos
combates mais intensos registados desde os primeiros dias da invaso.
Em trs dias conseguiram o controlo de um quarto da cidade, mas o
nmero crescente de baixas entre os civis obrigou a um cessar-fogo. Foi
decidido abandonar a operao e a maioria das tropas recebeu ordem de
retirada, incluindo a companhia de Thibault.
Mas nem toda a companhia retirou.
No segundo dia de operaes, na zona industrial a sul da cidade,
Thibault e o seu peloto foram mandados investigar um prdio onde se
julgava existir um depsito de armas. Contudo, no fora apontado qual
seria o prdio exacto; podia ser qualquer uma de doze estruturas
delapidadas, agrupadas  volta de uma estao de servio abandonada e
formando um semicrculo. Thibault e o peloto avanaram em direco aos
prdios, fazendo um grande desvio da estao de servio. Metade avanou
pela direita, a outra metade pela esquerda. Tudo calmo e logo a seguir
o caos. A estao de servio explodiu subitamente. As chamas ergueram-
se para o cu, a exploso derrubou metade dos homens e estoirou-lhes
com os tmpanos. Thibault sentiu-se confuso; a viso perifrica
escurecera e tudo o resto lhe parecia
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envolto em nevoeiro. De repente, um inferno de fogo desabou das
janelas, dos telhados e dos restos de automveis abandonados nas ruas.
Thibault deu consigo no cho, ao lado de Victor. Dois outros homens do
peloto, Matt e Kevin, MadDog e Man, respectivamente, estavam com eles
e o treino recebido veio  superfcie. E a fraternidade tambm. Apesar
do ataque, apesar do medo, talvez arriscando uma morte certa, Victor
empunhou a arma e ps um joelho em terra, apontando ao inimigo.
Disparou, uma vez, duas vezes, calmo, concentrado e sem tremer. MadDog
empunhou a espingarda e fez o mesmo. Levantaram-se, um de cada vez, uma
a uma formaram-se equipas de atiradores. Atirar. Abrigar-se. Avanar.
S que no podiam avanar. No tinham para onde ir. Um fuzileiro caiu,
depois outro. A seguir um terceiro e um quarto.
Os reforos quase chegavam demasiado tarde. Mad Dog fora atingido na
artria femoral; apesar de lhe terem aplicado um torniquete, a
hemorragia matara-o em poucos minutos. Kevin levara um tiro na cabea e
morrera instantaneamente. Havia ainda dez feridos. Poucos escaparam
ilesos: Thibault e Victor estavam entre eles.
Um dos jovens com quem falara no salo de bilhar lembrava-lhe MadDog.
Podiam ter sido irmos - semelhantes em altura e em peso, tinham o
cabelo igual, a mesma maneira de falar - e houvera um momento que
Thibault pensara se no seriam mesmo irmos, antes de dizer a si
prprio que tal no era possvel.
Sabia o perigo que corria ao pr em prtica o seu plano. Em localidades
pequenas os estranhos so sempre suspeitos e, para o final do sero,
vira o tipo esqueltico, de pele doente, a fazer uma chamada da cabina
que havia perto dos lavabos, olhando nervosamente para Thibault
enquanto falava. Tambm se mostrara nervoso antes da chamada, pelo que
Thibault presumiu que o telefonema fora para a mulher da fotografia ou
para algum chegado a ela. As suspeitas confirmaram-se quando Thibault
saiu. Como era de prever, o homem seguiu-o at  porta para ver a
direco que ele ia tomar, o que levou Thibault a caminhar em sentido
contrrio e depois a voltar para trs.
Quando chegara ao decadente salo de jogos, passara pelo bar e seguira
directamente para as mesas de bilhar. No tardou a identificar os
homens do grupo etrio que lhe interessava e pareciam, na maioria,
solteiros. Pediu para se juntar a eles e foi recebido com um resmungo
caracterstico. A fazer-se simptico, pagou umas rodadas de cervejas e
perdeu alguns jogos e os outros comearam, sem dvida, a aceit-lo.
Casualmente, pediu informaes sobre a vida social da cidade. Falhou as
tacadas necessrias. Aplaudia sempre que eles acertavam.
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Acabaram por comear a fazer perguntas acerca dele. De onde era? O que
fazia ali? Hesitou, murmurou umas palavras, qualquer coisa acerca de
uma rapariga, e mudou de assunto. Satisfez-lhes a curiosidade. Mandou
vir mais cervejas e, quando eles perguntaram de novo, contou a sua
histria, mas com relutncia: que fora  feira com uma amiga, h uns
anos, e conhecera uma rapariga. Tinham-se dado bem. Continuou a
insistir no facto de ela ser extraordinria e de lhe ter dito para a
procurar se alguma vez voltasse  cidade. Era o que queria fazer, mas o
diabo  que no conseguia lembrar-se do nome dela.
- No se recorda do nome? - inquiriram.
- No. Nunca fui bom a decorar nomes. Deram-me com um taco de beisebol
na cabea quando era mido e no fiquei muito bem da memria -
esclareceu, encolhendo os ombros por saber que os outros iam rir-se. E
riram-se. - Mas tenho uma fotografia - acrescentou, como s agora lhe
tivesse ocorrido que a tinha.
- Tem-na consigo?
- Tenho. Acho que sim.
Vasculhou os bolsos e tirou a fotografia. Os homens juntaram-se  sua
volta. Momentos depois, um deles comeou a abanar a cabea.
- Est com azar - observou. - Nada a fazer.
-  casada?
- No, mas digamos que no namora. O ex-marido no gostaria da ideia e,
acredite, no deve querer meter-se com ele.
Thibault engoliu em seco. - Quem  ela?
- Beth Green - responderam. -  professora na Escola Elementar de
Hampton e vive em casa da av, dona do Canil Sunshine.
Beth Green. Ou, mais acertadamente, pensou Thibault, Elizabeth Green.
Foi enquanto eles falavam que se apercebeu de que um tipo a quem tambm
mostrara a fotografia se esgueirava do grupo.
- Nesse caso, estou em mar de azar - concluiu Thibault ao guardar a
fotografia.
Ficou mais meia hora a cobrir a retirada. Falou de futilidades. Reparou
que o estranho de pele doente fazia um telefonema e notou que a
resposta o desapontara. Como uma criana castigada por ser tagarela.
Muito bem. Ainda assim, Thibault ficou com a impresso de que voltaria
a ver aquele estranho. Mandou vir mais cervejas e perdeu mais jogos,
olhando de vez em quando na direco da porta para ver se algum
entrava. Ningum entrou. Na devida altura,
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mostrou as palmas das mos e anunciou que estava falido. Tinha de ir-se
embora. A sesso custara-lhe menos de 100 dlares. Asseguraram-lhe que
seria bem-vindo sempre que quisesse aparecer.
Mal os ouviu. S pensava que finalmente tinha um nome para um rosto e
que o passo seguinte era encontr-la.
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BETH
Domingo.
Depois da ida  igreja, presumia-se que era um dia de descanso, em que
podia recuperar e carregar baterias para a semana seguinte. O dia que
era suposto passar com a famlia, a preparar o guisado na cozinha e a
dar passeios relaxantes pela margem do rio. Talvez at aninhar-se com
um bom livro enquanto beberricava um copo de vinho, ou se mergulhava
num bom banho quente.
O que no queria fazer era passar o dia a apanhar trampa de co na zona
relvada onde os ces eram treinados, ou a limpar as jaulas, ou a
treinar uma dzia de ces, um a seguir ao outro, ou sentada num
escritrio sufocante para receber pessoas que vinham buscar os
cachorrinhos que descansavam em canis frescos, com ar condicionado.
Exactamente o que tivera de fazer quando regressara da igreja, no
princpio da manh.
J tinham sido entregues dois ces mas estava previsto que sairiam mais
quatro naquele dia. Nana fora suficientemente amvel para lhe deixar as
fichas prontas, antes de voltar a casa para ver o jogo. Os Atlanta
Braves jogavam contra os Mets e Nana no se limitava a adorar os
Atlanta Braves com uma paixo fervorosa que Beth considerava ridcula,
adorava toda a simbologia associada  equipa. O que certamente
explicava as chvenas de caf dos Atlanta Braves empilhadas na mesinha
do caf, os galhardetes dos Atlanta Braves pendurados nas paredes, o
calendrio de secretria dos Atlanta Braves e o candeeiro dos Atlanta
Braves colocado perto da janela.
Mesmo com a porta aberta, o ar do escritrio era asfixiante. Era um
daqueles dias quentes e hmidos de Vero, excelentes para nadar no rio
mas imprprios para qualquer outra actividade. Tinha a blusa encharcada
pela transpirao e, como estava de cales, as pernas estavam sempre a
colar-se ao forro de vinil da cadeira em que se sentava.
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De cada vez que mexia as pernas era recompensada com o som prprio de
qualquer coisa a descolar-se, como se estivesse a tirar a fita que
fechava uma caixa de carto. Uma parvoce.
Embora Nana considerasse indispensvel que os ces estivessem no
fresco, nunca se preocupara em acrescentar uns metros s condutas de ar
condicionado para as prolongar at ao escritrio. Se tiveres calor, s
tens de deixar aberta a porta que d para os canis, era a resposta de
sempre, ignorando o facto de que, ao contrrio dela, a maioria das
pessoas normais no suportava o ladrar ininterrupto. E naquele dia
estavam l dois pequenos tagarelas: um casal de terriersjack Russel que
ainda no tinham parado de ladrar desde que Beth chegara. Beth presumia
que ladrariam toda a noite, pois a maior parte dos outros ces tambm
parecia nervosa. Mais ou menos de minuto a minuto, outros ces
juntavam-se ao raivoso coro, com os latidos a aumentar em altura e
intensidade, pois o nico desejo de cada co era mostrar que podia
manifestar o seu desprazer em tom mais alto do que o vizinho da jaula
do lado. Em resumo: no havia qualquer hiptese de ela abrir a porta
para refrescar o escritrio.
Ainda pensou em ir a casa buscar outro copo de gua gelada, mas tinha a
estranha sensao de que, mal sasse do escritrio, chegariam os donos
da cocker spaniel que estivera em treino de obedincia. Tinham
telefonado meia hora antes, a dizer que iam a caminho - Estaremos a
dentro de dez minutos! - e pertenciam quele gnero de pessoas que
ficariam perturbadas se a sua cocker spaniel tivesse de ficar sentada
num canil durante mais um minuto que o necessrio, especialmente depois
de ter passado duas semanas fora de casa.
Mas j tinham chegado? Certamente que no.
Seria bem mais fcil se Ben estivesse por ali. Vira-o de manh na
igreja em companhia do pai, to triste quanto seria de esperar. Como
sempre, no fora nenhuma brincadeira para ele. Telefonara na noite
anterior, antes de se deitar, para lhe dizer que Keith passara boa
parte do sero sentado sozinho no alpendre, enquanto Ben procedia 
limpeza da cozinha. Qual seria, tentava ela imaginar, o problema? Por
que no apreciar o facto de ter o filho consigo? Ou sentar-se junto
dele e conversar? Ben era o garoto mais fcil de suportar e no pensava
aquilo por ser me. bom, admitia, talvez o facto a influenciasse um
pouco, mas, como professora, passava muito tempo com crianas
diferentes e sabia do que estava a falar. Ben era esperto. Tinha um
sentido de humor engraado. Era naturalmente amvel. Ben era bem
educado. Ben era formidvel e o facto de Keith no se aperceber disso
punha-a maluca.
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Na verdade, gostaria mais de estar dentro de casa... a fazer qualquer
coisa. Fosse o que fosse. Mesmo tratar da lavagem da roupa era mais
agradvel. Ali sentada, dispunha de demasiado tempo para pensar. No
apenas em Ben, mas tambm em Nana. E se iria ou no ensinar no ano
escolar que se aproximava. E at no triste estado da sua vida amorosa,
que a deixava sempre deprimida. Pensava como seria maravilhoso
encontrar algum com quem se divertir, algum que amasse Ben tanto
quanto ela o amava. Ou at conhecer um homem com quem pudesse ir jantar
ou a uma sesso de cinema. Um homem normal, um ser que se lembrasse de
estender o guardanapo em cima das pernas quando ia ao restaurante e,
uma vez por outra, segurasse a porta para ela passar. Nada de especial,
pois no? No mentira a Melody ao dizer-lhe que as escolhas na cidade
eram escassas, e era a primeira a admitir ser uma pessoa exigente, mas,
tirando o curto perodo com Adam, passara os fins-de-semana em casa
durante o ano precedente. No era assim to exigente, essa era a
verdade. Ficara claro que Adam fora o nico a convid-la para sair e,
por uma razo que ela ainda no compreendera, deixara subitamente de a
contactar. O que praticamente resumia a histria dos seus namoros
durante os anos mais recentes.
Nada de importante, pois no? Sobrevivera todo aquele tempo sem uma
relao e continuara em frente. Alm disso, na maioria das ocasies no
se preocupava com a questo. O dia fora to horrivelmente quente que
duvidava que isso a pudesse preocupar naquele momento. O que
significava que tinha de se refrescar. De outra forma, era provvel que
comeasse a reflectir sobre o passado, o que definitivamente decidira
no fazer. Pegando no copo vazio, decidiu ir buscar gua gelada. E, de
caminho, trazer uma pequena toalha para se sentar.
Ao erguer-se da cadeira, deu uma vista de olhos ao caminho de acesso
coberto de gravilha; depois rabiscou um bilhete em que dizia estar de
volta dentro de dez minutos e colou-o na porta da frente do escritrio.
L fora, o sol queimava, fazendo-a correr para a sombra da velha
magnlia e para o carreiro de gravilha que dava acesso  casa em que
crescera. Construda  volta de 1920, no estilo das casas de quinta,
ampla e baixa, rodeada de um alpendre largo e ostentando figuras
esculpidas nas goteiras. O jardim das traseiras, escondido do canil e
do escritrio por sebes altas, recebia a sombra de carvalhos gigantes e
fora disposto numa srie de terraos que tornavam uma refeio ali fora
um verdadeiro prazer. Devia ter sido um lugar magnfico no seu tempo
mas, como sucedia com tantas casas rurais  volta de Hampton, o tempo e
os elementos tinham-se unido contra
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ele. Por aqueles dias, o alpendre estava a afundar-se, os sobrados
rangiam e, quando o vento era suficientemente forte, os papis voavam
de cima do balco, mesmo que as janelas estivessem fechadas. No
interior da casa a situao era idntica: excelentes estruturas, mas a
exigir uma modernizao, especialmente na cozinha e nas casas de banho.
Nana reconhecia a necessidade e falava nisso de vez em quando, mas os
projectos acabavam sempre por ser esquecidos. Alm disso, Beth tinha de
admitir que o lugar continuava a ter um encanto especial. No era s o
jardim das traseiras, um verdadeiro osis, mas o prprio interior. Nana
frequentara lojas de antiguidades durante anos, preferia tudo o que
fosse francs e do sculo XIX. Tambm passara boa parte dos fins-de-
semana em vendas de casa particulares, a remexer em velhas pinturas.
Tinha um talento especial para escolher quadros e criara boas amizades
com alguns proprietrios de galerias de todo o Sul. Quase todas as
paredes da casa ostentavam quadros. Uma vez, por divertimento, Beth
tinha procurado no Google o nome de dois dos pintores e ficara a saber
que eles tinham obras expostas no Museu Metropolitano de Arte de Nova
Iorque e na Biblioteca Huntington de San Marino, Califrnia. Quando
falou do que descobrira, Nana sorrira e comentara: -  como provar
champanhe, no ?
- Nana dava, volta e meia, usos engraados s frases, muitas vezes para
mascarar o seu apurado instinto.
Assim que chegou ao alpendre da frente e abriu a porta, Beth foi
atingida por uma onda de ar frio, to refrescante que a fez quedar-se 
entrada, a saborear aquela sensao.
- Fecha a porta - gritou Nana, a falar por cima do ombro.
- Ests a deixar sair o ar fresco - acrescentou, rodando na cadeira
para constatar o que era bvio. - Parece que tens calor.
- Tenho calor.
- Presumo que hoje o escritrio deve parecer um forno.
-? Pensas que sim?
- Penso que devias ter aberto a porta que d para o canil, como te
disse. Mas isso so manias minhas. bom, entra e refresca-te um bocado.
Beth apontou para o televisor. - Como  que os Braves esto aportar-se?
- Como um molho de cenouras. - Isso  bom ou mau? As cenouras conseguem
jogar beisebol?
- Acho que no.
- Ento, est respondida a pergunta. Beth sorriu ao encaminhar-se para
a cozinha. Nana ficava um pouco irritada sempre que os Braves estavam a
perder.
Tirou uns cubos de gelo do frigorfico. Depois de os deitar num copo,
encheu-o de gua e bebeu um longo trago que a deixou satisfeita.
Apercebendo-se de que tambm tinha fome, escolheu uma banana da
fruteira e regressou  sala de estar. Deixou-se cair no brao do sof,
sentindo o suor evaporar-se no ar frio, com um olho em Nana e outro no
jogo. Gostaria de perguntar quantas bolas tinham sido colocadas na rea
de validao, mas sabia que a av no ia apreciar a graa. Pelo menos
num dia em que os Braves estavam a jogar como um molho de cenouras.
Suspirou ao consultar o relgio, sabendo que tinha de regressar ao
escritrio.
- Nana, foi um prazer conversar contigo.
- Contigo tambm, doura. Tenta no apanhar muito calor.
- Farei o melhor que puder.
Beth voltou ao escritrio do canil pelo mesmo caminho, notando,
desapontada, que no havia carros no parque de estacionamento, o que
significava que os clientes ainda no tinham chegado. Havia, contudo,
um homem no caminho de acesso, acompanhado por um pastor alemo. Por
detrs deles levantavam-se espirais de p, o co vinha de cabea baixa
e lngua de fora. Beth ficou a pensar no que os levaria a andar por
fora num dia daqueles. At os animais preferiam permanecer no interior
das casas. Pensando melhor, apercebeu-se de que era a primeira vez,
tanto quanto conseguia recordar-se, que via algum trazer um animal
para o canil a p. E no era s isso: quem quer que fosse no fizera
marcao. As pessoas que ali deixavam os animais marcavam sempre
consulta.
Calculando que chegariam ao escritrio ao mesmo tempo, fez um gesto de
saudao e ficou surpreendida quando o homem parou e ficou a olhar para
ela. O co fizera o mesmo, de orelhas em riste, e a primeira ideia que
lhe viera  cabea foi compar-lo com Oliver, o pastor alemo que Nana
trouxera para casa quando Beth tinha 13 anos. Possua as mesmas malhas
pretas e castanhas, o mesmo inclinar de cabea, a mesma atitude
ameaadora perante estranhos. No que ela alguma vez sentisse medo de
Oliver. Durante o dia fora mais o co de Drake, mas nunca deixava de
dormir ao lado da cama de Beth durante a noite, procurando o conforto
da presena dela.
Ocupada com as recordaes de Oliver, no se apercebera de que o homem
ainda no sara do mesmo stio. Nem proferira uma nica palavra.
Esquisito. Talvez esperasse encontrar Nana. Como o rosto dele ficava na
sombra, no podia decidir-se, mas tambm no interessava.
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Uma vez chegada  porta, retirou o bilhete e abriu o escritrio, na
expectativa de que o homem entraria quando estivesse pronto. Deu a
volta ao guich, viu a cadeira de vinil e s ento percebeu que se
esquecera da toalha. Era de esperar.
Pensando que deveria ter os papis prontos para o estranho deixar o
co, tirou uma folha do armrio e prendeu-a na prancheta. Vasculhou a
gaveta  procura de uma caneta e colocou-a ao lado do papel, em cima do
balco do guich, no preciso momento em que o estranho e o co entravam
no escritrio. O homem sorriu, os olhos de ambos encontraram-se, foi
uma das poucas ocasies da sua vida em que Beth se sentiu incapaz de
encontrar palavras.
No tinha muito a ver com a maneira como ele a olhava. Por mais maluca
que a ideia parecesse, ele olhava-a como se a tivesse reconhecido. Mas
ela nunca o vira; tinha a certeza. Ter-se-ia lembrado, at por ele a
fazer pensar em Drake na forma como parecia dominar a sala. Como Drake,
teria 1,86 de altura, com braos musculosos e ombros largos. Tinha
aparncia de duro, atenuada pela descolorao das calas de ganga e da
T-shirt, ambas queimadas pelo sol.
Porm, as semelhanas acabavam ali. Os olhos de Drake eram castanhos e
aveludados, os do estranho eram azuis; Drake sempre usara o cabelo
curto, o do estranho era mais comprido, com aspecto quase selvagem.
Notou que, apesar de ter vindo a p at ali, estava a transpirar menos
do que ela.
Subitamente, tomou conscincia da situao e voltou-se no preciso
momento em que o estranho dava um passo para o guich. Ficou a observ-
lo pelo canto do olho e viu-o erguer ligeiramente a mo aberta na
direco do co. Vira Nana fazer o mesmo mil vezes, e o co, atento ao
mais pequeno gesto, ficou imvel. O co j estava bem treinado, o que
provavelmente resultaria num alojamento temporrio do animal.
- Tem um bonito co - admitiu Beth ao empurrar o formulrio na direco
dele. O som da voz dela rompera o silncio embaraoso.
- Tambm tive um pastor alemo. Como  que ele se chama?
- Zeus. E obrigado.
- Ol, Zeus. O co inclinou a cabea para um lado.
- S preciso que assine o formulrio - prosseguiu Beth. - E se tivesse
cpia da ficha do veterinrio, seria excelente. Ou se nos fornecesse o
contacto.
- Desculpe?
- A ficha do veterinrio. Quer deixar c o Zeus, no  verdade?
70
- No - respondeu. Fez um movimento com o ombro. - Na verdade, vi o
anncio na janela. Estou  procura de trabalho e vinha saber se ainda
tem algum lugar vago.
Beth no estava  espera daquilo e tentou orientar-se de novo. O homem
encolheu os ombros. - Sei que talvez devesse ter telefonado antes, mas,
afinal, vinha a passar por aqui. Pensei ser melhor apresentar-me para
ver se tem um pedido de emprego. Se preferir, voltarei amanh.
- No, no se trata disso. Estou apenas surpreendida. No  normal que
as pessoas aproveitem o domingo para procurar emprego - explicou. Na
realidade, tambm no apareciam em qualquer dos outros dias, mas
resolveu no esclarecer essa parte. - Tenho um pedido de emprego,
algures - foi dizendo, voltando-se para o armrio que estava atrs
dela. - D-me um segundo para o encontrar - pediu. Premiu o fecho da
ltima gaveta e comeou a procurar por entre as fichas. - Como se chama?
- Logan Thibault.
-  francs?
- Do lado do meu pai.
- Ainda no o tinha visto por aqui.
- Sou novo na cidade.
- C est! - exclamou ao pegar no pedido de emprego. - Ora bem, aqui
est.
Colocou o formulrio, juntamente com uma caneta, no balco  frente
dele. Notou-lhe uma certa rugosidade na pele enquanto ele preenchia o
nome, o que a fez pensar que ele passara muito tempo ao sol. Na segunda
linha do formulrio parou e olhou para cima, fazendo que os olhares de
ambos se encontrassem pela segunda vez. Beth sentiu um ligeiro rubor no
pescoo e tentou escond-lo ajeitando a blusa.
- No sei qual o endereo que devo indicar. Como disse, acabo de chegar
 cidade e estou no Holiday Motor Court. Mas posso usar o endereo da
minha me, no Colorado. Qual prefere? - Pois, estou a ver. Um pouco
afastado daqui,
- O que  que o trouxe at Hampton? Vim procurar-te. - Pareceu-me
interessante e pensei tentar viver aqui.
- Tem c famlia?
- Nenhuma. - Oh! - conseguiu responder. Bonita ou no, a histria no
soava bem e Beth sentiu os alarmes mentais comearem a tocar. Havia
mais qualquer coisa, algo que lhe remexia bem fundo na cabea, e levou
alguns segundos a perceber o que era. Quando o conseguiu, afastou-se
ligeiramente do guich, criando um pouco mais de espao entre ambos. -
Se acaba de chegar  cidade, como  que soube que o canil procurava
pessoal? Esta semana no publiquei o anncio no jornal.
- Vi o letreiro.
- Quando? - inquiriu, semicerrando os olhos para ele. - Vi-o aparecer e
no tinha maneira de ver o letreiro at chegar diante da porta do
escritrio.
- J o tinha visto, hoje mesmo, amos pela estrada e Zeus ouviu ces a
ladrar. Tomou este caminho e quando vim procur-lo reparei no letreiro.
No havia ningum  vista, pelo que pensei voltar mais tarde para ver
se a situao mudara.
A histria era plausvel, mas ela sentiu que o homem estava a mentir ou
a deixar qualquer pormenor de fora. E se ali estivera antes, o que 
que isso poderia significar? Que ele tinha andado a espiar o stio?
O homem pareceu notar a preocupao dela e pousou a caneta. Tirou o
passaporte do bolso e abriu-o. Quando o empurrou na direco dela, Beth
olhou a fotografia e a seguir para ele. O nome, reconheceu, estava
correcto, o que no foi suficiente para silenciar as campainhas de
alarme. Ningum passava por Hampton e decidia ficar ali por capricho.
Charlotte, sim. Raleigh, uma hiptese. Greensboro, sem dvida. Mas
Hampton? De forma alguma.
- Percebo - disse, subitamente desejosa de pr termo  conversa.
- Continue e indique o endereo postal. E a sua experincia
profissional. Afinal, tudo o que preciso  de um nmero para lhe ligar
e entraremos em contacto.
O homem no tirava os olhos dela. - Mas no vai fazer essa ligao.
Era arguto, pensou Beth. E directo. O que exigia que ela tambm o
fosse. - No.
Ele assentiu. - Muito bem.  provvel que no me telefone baseada no
que ouviu at agora. Porm, antes de tirar concluses, posso
acrescentar mais uns dados?
- Avance!
O tom tornava evidente que ela no via interesse em nada do que ele
pudesse acrescentar.
- Sim, estou a viver temporariamente no motel, mas penso encontrar uma
casa para morar por aqui. E tambm encontrarei trabalho
72
aqui - informou, sem desviar os olhos. - Agora, falando de mim,
licenciei-me em Antropologia em 2002, na Universidade de Colorado.
Depois disso, alistei-me nos Marines e fui desmobilizado com honras h
dois anos. Nunca estive preso, nem fui acusado de qualquer crime, nunca
tomei drogas e nunca fui despedido por incompetncia. Estou disposto a
submeter-me a um teste de deteco de drogas e, no caso de o julgar
necessrio, pode confirmar tudo o que acabo de dizer. Ou, se julgar que
 mais fcil, pode telefonar ao meu comandante e ele ratificar tudo o
que acaba de ouvir. E, ainda que a lei no me exija que responda a
perguntas desse gnero, no tomo qualquer espcie de medicao. Por
outras palavras, no sou esquizofrnico, nem bipolar, nem manaco. E j
tinha visto o letreiro.
Beth no sabia o que esperava que ele ia dizer, mas fora certamente
apanhada desprevenida.
- Percebo - voltou a responder, concentrada no facto de ele ter sido
militar.
- O preenchimento do formulrio continua a ser uma perda de tempo?
- Ainda no decidi - defendeu-se. Intuitivamente, sentia que desta vez
ele falara verdade, mas estava igualmente convencida de que a histria
continha mais pormenores que ele no revelara. Chupou a bochecha.
Precisava de um empregado. O que era mais importante: saber o que ele
estava a esconder, ou encontrar um novo empregado?
O homem permanecia em frente dela, calmo e direito, numa postura que
denotava uma confiana natural. Atitude de militar, observou ao franzir
as sobrancelhas.
- Por que  que pretende trabalhar aqui? - inquiriu, uma pergunta
suspeitosa at para ela. - com uma licenciatura,  provvel que
encontre um lugar melhor na cidade.
Apontou para Zeus. - Gosto de ces. ?
- No vai ganhar muito.
- No preciso de muito. .T;:.::,S
- Os horrios podem ser longos. i.? A...,.,
- Calculei que seriam. ;? : iVinV.
- J trabalhou nalgum canil? -,$. ..vWivyj
NO.
- Percebo. Ele sorriu. - Diz isso muitas vezes. - Pois digo -
reconheceu. Nota interior. Deixar de dizer isso.
- E tem a certeza de que no conhece algum da cidade?
73
- Tenho.
- Acaba de chegar a Hampton e decidiu ficar.
Exacto.
- Onde  que est o seu carro? ,:VHT!; fi ;; ;
- No tenho carro. ?v:..
- Como  que chegou c?
- Caminhei. Beth piscou os olhos, sem compreender. - Est a querer
dizer-me que fez todo o caminho a p, do Colorado at aqui?
- Estou.
- No acha esquisito?
- Suponho que depende do motivo.
- Qual foi o seu motivo?
- Gosto de andar a p.
- Percebo - repetiu por no saber o que mais haveria de dizer. Pegou na
caneta, a tentar ganhar tempo. - Presumo que no seja casado.
- No.
- Filhos?
- Nenhum. Sou apenas eu e Zeus. Mas a minha me vive no Colorado.
Desconcertada, confusa, Beth afastou uma madeixa encharcada da testa. -
Continuo a no perceber. Atravessa o pas para chegar a Hampton, diz
que gostou do lugar e que agora pretende trabalhar aqui?
- Exactamente.
- No quer acrescentar mais nada?
- No.
Beth abriu a boca para dizer qualquer coisa mas mudou de ideias.
- D-me um minuto. Tenho de ir falar com uma pessoa.
Beth conseguia resolver muitas situaes, mas aquela ultrapassava -a.
Por mais que tentasse, no conseguia engolir tudo o que o homem
dissera. At certo ponto, fazia sentido, mas, no conjunto, parecia-
lhe... fora do alcance. Se o homem falava verdade, era um ser
esquisito; se estava a mentir, escolhia mentiras estranhas. Bizarro, de
qualquer das formas. Razo que a levava, claro, a querer falar com
Nana. Se pudesse ser avaliado por algum, Nana era a pessoa certa.
Infelizmente, ao aproximar-se da casa percebeu que o jogo ainda no
acabara. Ouvia os comentadores a discutir se os Mets deveriam fazer
entrar um novo lanador ou algo do gnero. Quando abriu a porta, ficou
surpreendida por ver a cadeira de Nana vazia.
74
- Nana?
A av deitou a cabea de fora da porta da cozinha. - Estou aqui. Estava
agora mesmo a preparar um copo de limonada. Tambm queres? Fica pronta
num instante.
Na verdade, preciso de falar contigo. Podes dispensar-me um
minuto? Sei que o jogo ainda no acabou...
Nana fez um gesto de desinteresse. - Oh, estou farta do jogo. Desliga o
aparelho. Os Braves no conseguem ganhar e no estou minimamente
interessada em ouvir as desculpas deles. Detesto desculpas. No tinham
motivos para perder e eles sabem-no. O que  que se passa?
Beth entrou na cozinha e encostou-se  bancada. Nana despejou a
limonada do jarro. - Tens fome? - perguntou  neta. - Posso fazer uma
sanduche.
- J comi uma banana.
- No  suficiente. Ests magra como um taco de golfe.
Que Deus te oua, pensou Beth. - Talvez depois. H algum  procura de
emprego. Est agora no escritrio.
- Referes-te ao bonito com o pastor alemo? Calculei que ele fosse
fazer isso mesmo. Como  que ele ? Diz-me que o sonho dele sempre foi
limpar jaulas.
- Viste-o?
- Claro.
- Como  que soubeste que vinha  procura de emprego?
- Por que outra razo quererias falar comigo?
Beth abanou a cabea. Nana estava sempre um passo  frente dela.
- De qualquer maneira, julgo que deves falar com ele. No sei
exactamente o que pensar do homem.
- O cabelo tem alguma coisa a ver com isso?
- O qu?
- O cabelo dele. F-lo parecer-se um pouco com o Tarzan, no achas?
- Na verdade, nem reparei.
-  evidente que reparaste, minha querida. No consegues mentir-me.
Qual  o problema?
Beth fez-lhe um breve resumo da entrevista. Quando acabou, Nana ficou
calada.
- Veio a p desde o Colorado?
-  isso que ele diz.
- E tu acreditas nele?
- Nessa parte... - hesitou. - Sim, acerca disso acho que est a dizer a
verdade. ??-
-  uma longa caminhada.
75
- Eu sei.
- Quantos quilmetros sero?
- No sei. Muitos.
- Um pouco estranho, no te parece?
- Pois . E h ainda outro pormenor.
- Qual?
- Foi fuzileiro naval.
Nana suspirou. -  melhor esperares aqui. Vou falar com ele.
Durante os dez minutos seguintes, Beth ficou a observ-los atravs das
cortinas. Nana no ficara no escritrio para fazer a entrevista; em vez
disso, foram sentar-se no banco de madeira,  sombra da magnlia. Zeus
dormitava aos ps deles, arrebitando as orelhas de vez em quando e
enxotando as moscas que aparecessem. Beth no conseguia decifrar o que
cada um deles dizia, mas houve ocasies em que Nana franziu a testa, um
possvel sinal de que a entrevista no estava a correr bem. Por fim,
Logan Thibault e Zeus percorreram o caminho de acesso, para regressarem
 estrada principal, enquanto Nana ficava a observ-los com ar
preocupado.
Beth pensou que Nana iria regressar a casa, mas, em vez disso, viu-a
caminhar para o escritrio. Foi ento que notou a carrinha Volvo que
subia o desvio.
A cocker spaniel. Esquecera-se por completo da entrega, mas parecia
bvio que Nana iria resolver a questo. Beth aproveitou o tempo para se
refrescar, vestir roupa lavada e beber outro copo de gua gelada.
Da cozinha, ouviu o ranger da porta principal e Nana entrou.
- Como  que correu?
- Muito bem.
- O que  que pensas?
- Foi... interessante.  inteligente e polido, mas tens razo. No h
dvida de que est a esconder qualquer coisa.
- Assim sendo, em que p  que estamos? Ponho um novo anncio no jornal?
- Primeiro vamos ver o que acontece.
Beth no tinha a certeza de ter percebido bem. - Queres dizer que
tencionas contrat-lo?
- No, estou a dizer que o contratei. Comea na quarta-feira, s oito
horas.
- Por que  que fizeste isso?
- Confio nele - admitiu, com um sorriso triste, como se soubesse
exactamente o que a neta estava a pensar. - Mesmo tratando-se de um
marine.
76
THIBAULT  ?
Thibault no queria regressar ao Iraque mas, uma vez mais, em Fevereiro
de 2006, o 1 Batalho do 5 Regimento foi mobilizado. Desta vez, o
regimento foi mandado para Ramadi, capital da provncia de Al Anbar,
cuja ponta sudoeste era vulgarmente conhecida como o tringulo da
morte. Thibault passou l sete meses.
Carros armadilhados e IEDS - improvised explosive devices (engenhos
explosivos caseiros). Engenhos simples mas assustadores: quase sempre
compostos por uma granada de morteiro, feita explodir por um fulminante
activado por uma chamada, feita a partir de um telemvel. No entanto,
da primeira vez em que Thibault seguia num Humvee que fez disparar um
engenho, sabia que as consequncias poderiam ter sido piores.
- Estou contente por ter ouvido a bomba - dissera Victor depois. Na
altura, Victor e Thibault iam quase sempre juntos em patrulha.-
Significa que ainda estou vivo. ???.
- Tu e eu; ambos - corrigira Thibault.
- Mas prefiro no bater em mais nenhuma. -vn
- Tu e eu; ns os dois.
Mas as bombas no eram fceis de evitar. Na patrulha do dia seguinte
bateram noutra. Uma semana depois, o Humvee deles foi atingido por um
carro armadilhado, mas Thibault e Victor no eram casos especiais
naquele tipo de incidentes. Os Humvee eram atingidos pelos dois tipos
de bombas em quase todas as patrulhas. Na sua maioria, os fuzileiros do
peloto poderiam honestamente afirmar que haviam sobrevivido a duas ou
trs bombas, antes do regresso a Pendleton. Uns quantos tero
sobrevivido a quatro ou cinco. O sargento tinha sobrevivido a seis. Era
assim aquele lugar e quase toda a gente ouvira a histria de Tony
Stevens, um fuzileiro da 24 MEU (Marine Expedittonary Unit [Unidade
Expedicionria de Marines]) que 77
sobrevivera  exploso de nove bombas. Um dos jornais mais importantes
dedicara-lhe um artigo com o ttulo O Mais Feliz dos Marines. Era um
recorde que ningum estava interessado em bater.
Thibault bateu-o. Quando deixou Ramadi tinha sobrevivido a onze
exploses. Mas falhara uma exploso que continuava a persegui-lo.
Teria sido a exploso nmero oito. Victor estava com ele. A mesma velha
histria, com um final bastante pior. Seguiam num comboio de quatro
veculos Humvee, patrulhando uma das ruas mais importantes da cidade.
Uma granada de RPG atingiu o Humvee da frente, provocando felizmente
poucos estragos, mas foi o suficiente para obrigar o comboio a parar
temporariamente. Havia carros ferrugentos e decrpitos de ambos os
lados da rua. Comeou o tiroteio. Thibault saltou do segundo veculo do
comboio para ter uma melhor linha de mira. Victor seguiu-o. Conseguiram
abrigo e prepararam as armas. Vinte segundos depois, um carro
armadilhado explodiu, derrubando-os e destruindo o Humvee onde eles
seguiam minutos antes. Foram mortos trs marines; Victor ficou
inconsciente. Thibault carregou com ele de regresso ao comboio e,
depois de recolhidos os mortos, o comboio regressou  zona de segurana.
Foi por aquela altura que Thibault comeou a ouvir rumores. Notou que
os camaradas do peloto comearam a portar-se de maneira diferente ao
p dele, como se acreditassem que ele era de algum modo imune aos
riscos da guerra. Outros podiam morrer, mas ele no. Pior ainda, os
outros fuzileiros suspeitavam que, enquanto Thibault era especialmente
afortunado, os outros eram especialmente azarentos. Havia entre os
componentes do peloto uma atitude diferente, que nem sempre se
manifestava abertamente mas era inegvel. Aps a morte daqueles marines
ainda ficou outros dois meses em Ramadi. As ltimas bombas a que
escapou intensificaram mais os rumores. Os outros fuzileiros comearam
a evit-lo. S Victor parecia trat-lo como dantes. Quase no fim da
misso em Ramadi, quando guardavam um posto de abastecimento de
combustveis, notou que as mos de Victor tremiam ao acender um
cigarro. Por cima deles a noite cintilava de estrelas.
- Ests bem? - perguntou.
- Estou pronto para regressar a casa - respondeu Victor. - J fiz a
minha parte.
- No vais pedir a readmisso no prximo ano?
Victor inspirou profundamente o fumo do cigarro. - A minha me quer-me
em casa e o meu irmo ofereceu-me emprego. Na construo de telhados.
Achas que darei um bom construtor de telhados?
-  claro que sim. Vais ser um fantstico construtor de telhados.
78
- Tenho uma namorada, a Maria,  minha espera. Conheo-a desde os meus
14 anos.
- Eu sei, j me contaste. ? -
- vou casar com ela. :m .
- Tambem j me disseste. srvn
- Quero que vs ao casamento.
Graas  claridade provocada pelo cigarro de Victor, notou-lhe um
ligeiro sorriso. - Como poderia faltar a uma cerimnia dessas?
Victor tirou uma grande fumaa e ficaram em silncio, reflectindo sobre
um futuro que lhes parecia demasiado distante. - E tu? - indagou
Victor, com a pergunta a sair enrolada numa nuvem de fumo.
- Vais continuar? Thibault abanou a cabea. - No, acabou-se.
- O que  que vais fazer quando passares  reserva?
- No sei. No farei nada durante algum tempo, talvez v pescar no
Minnesota. Em qualquer lugar fresco e verde, onde possa apenas ficar
deitado a descansar.
Victor suspirou. - Parece-me agradvel.
- Queres ir comigo?
- Pois quero.
- Nesse caso, telefono-te quando tiver a viagem planeada - prometeu
Thibault.
A resposta de Victor foi acompanhada de um sorriso. - No faltarei -
prometeu. Clareou a voz e perguntou: - Lembras-te do tiroteio em que o
Jackson e os outros morreram, quando o Humvee explodiu?
Thibault apanhou um seixo e atirou-o para a escurido. - E claro que
sim.
- Salvaste-me a vida.
- No, nada disso. Tirei-te de l.
- Thibault, eu fui atrs de ti. Decidira ficar, mas quando te vi saltar
do Humvee, soube que no tinha alternativa.
- De que  que ests a falar?
- Da fotografia - retorquiu Victor. - Sei que a trazes contigo.
Aproveitei a tua sorte e salvei-me.
Thibault comeara por no entender, mas quando finalmente se apercebeu
do que Victor estava a dizer, abanou a cabea, incrdulo.
- Victor,  apenas uma fotografia.
- D sorte - insistiu Victor aproximando o rosto do de Thibault.
- E tu s o afortunado. E quando acabares a comisso, acho que deves ir
procurar a mulher da fotografia. A tua histria com ela ainda no
acabou.
79
- No...
- Salvou-me a vida.
- No salvou a dos outros. De muitos outros, demasiados. Toda a gente
sabia que o 1 Batalho do 5 ? Regimento sofrera mais
baixas no Iraque do que qualquer outro batalho do Corpo de Marines.
- Por que te protegeu a ti. E quando saltei do Humvee acreditei que
tambm me protegeria, da mesma forma que sempre acreditaste que te
protegeria.
- No, nunca acreditei - comeou Thibault.
- Ento, meu amigo, por que razo  que a trazes contigo?
Era sexta-feira, o seu terceiro dia de trabalho no canil, e embora
Thibault tivesse mantido na sombra muitos aspectos da vida anterior,
nunca deixara de ter conscincia de que trazia a fotografia na
algibeira. Tal como nunca deixara de pensar no que Victor lhe dissera
naquele dia.
Estava a conduzir um mastim por uma vereda arborizada, fora da vista do
escritrio mas ainda dentro da propriedade. O co era enorme, pelo
menos to grande como um grana danou, e tinha tendncia para lamber a
mo de Thibault a cada dez segundos. Um co amigvel.
J aprendera as rotinas simples do emprego: alimentar e exercitar os
ces, limpar as jaulas e marcar consultas. Nada de difcil. Estava
razoavelmente convencido de que Nana o iria autorizar a ajud-la tambm
no treino dos ces. No dia anterior ela pedira-lhe que observasse o
trabalho dela com um dos ces, o que lhe recordou o trabalho que tivera
com Zeus: ordens claras e simples, sinais visuais, conduo firme com a
trela e muitos elogios. Quando acabou, pediu-lhe que seguisse a seu
lado enquanto ela levava o co de volta ao canil.
- Acha que era capaz de fazer um trabalho deste gnero? - perguntara
Nana.
- Acho que sim.
Olhara por cima do ombro para Zeus que trotava atrs deles. - Foi assim
que treinou o Zeus?
- Mais ou menos.
Quando Nana o entrevistara, Thibault fizera dois pedidos. Primeiro, que
fosse autorizado a trazer o Zeus para o local de trabalho. Explicara
que depois de passarem quase todo o tempo juntos o co no reagiria bem
a longas separaes. Felizmente Nana compreendera. - Trabalhei com
pastores durante muito tempo, por isso sei o que quer dizer
- comentara. - Desde que ele no crie problemas, est tudo bem.
Zeus no era um problema. Thibault depressa aprendera a no o levar
para junto das jaulas quando estava a alimentar os animais ou
80
a proceder s limpezas, pois a presena de Zeus enervava alguns dos
outros ces. Para alm disso, o co adaptara-se perfeitamente. Zeus
seguia-o enquanto ele exercitava os outros ces no campo de treinos e
permanecia no alpendre,  porta do escritrio, quando Thibault tinha de
tratar de papis. Ficava alerta sempre que chegava um cliente, como
fora treinado para fazer. Era o suficiente para fazer recuar alguns
clientes, mas bastava um simples Tudo bem para imobilizar o co.
O segundo pedido a Nana fora para iniciar o trabalho na quarta-feira,
de forma a poder instalar-se. Ela concordara igualmente. No domingo,
depois da entrevista no canil, comprara um jornal e procurara um stio
para alugar. No fora uma consulta difcil, pois a lista inclua apenas
quatro casas e as duas maiores haviam sido eliminadas de imediato; no
precisava de muito espao.
Ironicamente, as duas escolhas remanescentes situavam-se no lado oposto
da cidade. A primeira casa que viu era um velho anexo, logo a seguir ao
centro da cidade, com vista para o South River. Boas condies. Bairro
agradvel. No servia para ele. As casas ficavam demasiado juntas.
Contudo, a segunda casa serviria perfeitamente. Estava situada no fim
de uma rua de terra, a cerca de trs quilmetros do local de trabalho,
numa zona rural que bordejava a floresta nacional. Permitia-lhe
atravessar a floresta para ir para o canil. No encurtava muito o
caminho mas permitia que o Zeus corresse  vontade. Casa de um s piso,
estilo rstico do Sul, com pelo menos 100 anos, mas mantida em relativo
bom estado. Depois de limpar o p das janelas, espreitou o interior.
Exigia algum trabalho, mas nada que retardasse a mudana para ali. A
cozinha era mesmo antiquada, havia um bom fogo a lenha num canto, que
provavelmente servia como nica fonte de calor da casa. O cho de
tbuas de pinho mostrava-se gasto e manchado, os armrios eram
provavelmente to antigos como a construo da casa, mas, em vez de lhe
diminurem o valor, eram coisas que pareciam acrescentar carcter 
casa. Melhor ainda, parecia mobilada com o essencial; sof e mesas,
candeeiros, at uma cama.
Thibault ligou para o telefone indicado no anncio e duas horas depois
ouviu chegar o carro do proprietrio. Depois da necessria conversa de
circunstncia, ficou a saber que o homem passara vinte anos no
Exrcito, os ltimos em Fort Bragg. A casa pertencera ao pai dele,
explicou, falecido dois meses antes. Boa notcia, pois Thibault sabia
que as casas eram como os automveis, com falta de uso entravam em
decadncia acelerada. O que significava que aquela ainda estaria em
boas condies. A cauo e a renda pareceram-lhe um tanto altas, mas
ele precisava de encontrar rapidamente um stio onde morar. Pagou dois
81
meses de renda e o depsito de cauo. A expresso do proprietrio
revelou que no estava  espera de receber tanto dinheiro em notas.
Thibault estendeu o saco de dormir em cima do colcho e j passou a
noite de segunda-feira na casa; na tera-feira foi  cidade e
encomendou um novo colcho numa loja que concordou entreg-lo ao fim da
tarde e comprou outras coisas. Regressou com a mochila cheia de
lenis, toalhas e materiais de limpeza. Precisou de mais duas viagens
 cidade para aprovisionar o frigorfico e comprar pratos, copos e
utenslios, juntamente com um saco de 25 quilos de comida para co.
Chegado ao fim do dia, desejou, pela primeira vez, desde a sada do
Colorado, dispor de um carro. Mas encontrava-se instalado, o que era
suficiente. Estava pronto para comear a trabalhar.
Depois que comeara, na quarta-feira, passara a maior parte do tempo
com Nana, aprendendo a conhecer os cantos  casa. Quase no vira Beth,
ou Elizabeth, como gostava de pensar nela; ela saa de manh, vestida
para trabalhar, e s regressava no fim da tarde. Nana falara de umas
reunies de professores, o que fazia sentido, pois as aulas comeariam
na semana seguinte. Para alm de um cumprimento ocasional, a nica
verdadeira conversa entre eles dera-se quando o chamara  parte e lhe
pedira que tomasse conta de Nana. Percebeu o que ela quisera dizer. Era
bvio que Nana sofrera um acidente vascular cerebral. As sesses de
treino da manh deixavam-na a respirar com maior dificuldade do que
parecia seguro e, ao caminhar para casa, o coxear acentuava-se. Aquilo
punha-o nervoso.
Gostava de Nana. Usava um fraseado muito pessoal. Divertia-o, deixando-
o a tentar perceber qual era a parte de teatro que havia em tudo
aquilo. Excntrica ou no, era inteligente; disso no tinha dvidas.
Era frequente sentir que ela estava a analis-lo, mesmo no decurso de
conversas normais. Tinha opinies sobre tudo e no tinha medo de as
expressar. Nem hesitava em falar-lhe dela prpria. Uma vez falou-lhe do
marido e do canil, do treino que oferecera no passado, de certos
lugares que visitara. Tambm fez perguntas acerca dele, que,
obedientemente, esclareceu pormenores sobre a sua famlia e a maneira
como fora criado. Contudo, era estranho que nunca lhe fizesse perguntas
sobre o servio militar, nem inquirira se ele estivera no Iraque, o que
o surpreendeu. Mas no fornecera voluntariamente as informaes, at
porque ele prprio no tinha vontade de falar do assunto.
A maneira como Nana evitava o assunto e qualquer referncia ao hiato de
quatro anos da vida dele sugeria que ela compreendia as reticncias do
seu novo empregado. E que talvez a estada no Iraque tivesse algo a ver
com as razes que o tinham levado at ali.
82
Senhora esperta.
Oficialmente, era suposto que trabalhasse das 8h00 s 17h00. No
oficialmente, costumava aparecer pelas 7h00 e ficava at s 19h00. No
gostava de ir-se embora sabendo que ainda havia trabalho para fazer.
Uma situao conveniente, que dava a Elizabeth a oportunidade de o ver
ao regressar do trabalho. A proximidade gera familiaridade e, por seu
turno, esta gera confiana. Alm disso, sempre que a via, recordava-se
de que ela era a razo da sua vinda.
Para l desse ponto, as razes para estar ali tornavam-se um tanto
vagas, mesmo para ele. Sim, tinha vindo, mas por qu? O que  que
pretendia dela? Alguma vez lhe contaria a verdade? Em que  que aquilo
poderia resultar? Na caminhada a partir do Colorado, sempre que
reflectira sobre a questo, presumira que descobriria as respostas
quando encontrasse a mulher da fotografia. Porm, agora que a
encontrara, no se achava mais perto da verdade do que quando partira.
Entretanto, aprendera mais acerca dela. Que tinha um filho, por
exemplo. Uma pequena surpresa, pois nunca encarara tal possibilidade.
Chamava-se Ben. Do pouco que sabia dele, parecia-lhe uma criana
simptica. Nana informara-o de que Ben jogava xadrez e lia muito, mas
no fora mais alm. Ben andava a observ-lo por detrs das cortinas ou
a espreitar na direco deles quando Thibault e Nana estavam juntos.
Mas mantinha as distncias. Gostaria de saber se Ben o evitava por
deciso sua ou da me.
Da me, provavelmente.
Sabia que comeara por no lhe causar boa impresso. A forma como ele
se sentira paralisado quando a vira pela primeira vez no ajudara.
Sabia que ela era atraente, mas a fotografia j desbotada no captara o
calor do sorriso dela ou o ar grave com que o analisara, como se
procurasse defeitos ocultos.
Perdido em reflexes, chegou  zona principal de treinos, por detrs do
escritrio. O mastim respirava com dificuldade e Thibault levou-o de
volta ao canil. Mandou que Zeus se sentasse, que esperasse, e meteu o
mastim na jaula. Encheu a tigela de gua, fazendo o mesmo a mais
algumas que lhe pareceram ter pouca e foi ao escritrio buscar o almoo
ligeiro que preparara. A seguir, dirigiu-se para o riacho.
Gostava de comer ali. A gua pouco clara e o carvalho que dava sombra
ao lugar com os seus ramos baixos cobertos de musgo conferiam ao stio
uma aparncia pr-histrica que tanto ele como Zeus apreciavam. Por
entre as rvores e junto  margem, notou uma casa de rvore, a que se
chegava por uma escada de corda e degraus de madeira, que parecia ter
sido construda com restos de outras construes,
83
um conjunto reunido por algum que no sabia muito bem o que estava a
fazer. Como era habitual, Zeus entrou no riacho at a gua lhe chegar
aos quartos traseiros, uma forma de arrefecer antes de mergulhar a
cabea na gua e ladrar. Co maluco.
- O que  que ele est a fazer? - perguntou algum. Thibault voltou-se
e viu Ben na ponta da clareira. Encolheu os
ombros. - No fao ideia. Acho que ladra aos peixes.
O mido puxou os culos para cima. - Faz isso muitas vezes?
- Todas as vezes que vem aqui.
- Estranho - comentou o rapaz.
- Tambm acho.
Zeus apercebeu-se da presena de Ben, certificando-se da inexistncia
de qualquer ameaa iminente, mergulhou de novo a cabea e voltou a
ladrar. Ben manteve-se no mesmo stio. Sem saber como agir em seguida,
Thibault deu nova dentada na sanduche.
- Vi-o chegar aqui, ontem - adiantou Ben.
- Viste?
- Vim atrs de si.
- Aposto que sim.
- A minha casa de rvore  ali - informou, a apontar com a mo. -  o
meu esconderijo secreto.
-  bom ter um - respondeu Thibault. Apontou para o ramo ao lado dele.
- No queres sentar-te?
- No posso aproximar-me tanto.
- No?
- A minha me diz que  um estranho.
- Obedecer  me  uma boa ideia.
Ben pareceu satisfeito com a resposta, mas no sabia o que fazer em
seguida. Voltou-se de Thibault para Zeus, a pensar, antes de decidir
sentar-se numa rvore perto do stio onde estava, mantendo a distncia
entre ambos.
- Vem trabalhar aqui? - indagou.  ? ?
- Estou a trabalhar aqui.
- No  isso. Estou a perguntar se vai despedir-se.
Thibault ergueu uma sobrancelha. - No est nos meus planos. Porqu?
- Porque os dois ltimos despediram-se. No gostavam de limpar o cc.
- Nem toda a gente gosta.
- Aborrece-o?
- Realmente, no.
- No gosto do cheiro - confessou Ben, fazendo uma careta.
- Sucede com a maioria das pessoas. Tento ignor-lo.
Ben voltou a ajeitar os culos no nariz. - Onde  que foi buscar o nome
de Zeus?
Thibault no conseguiu esconder um sorriso. Esquecera-se de quanto os
midos conseguem ser curiosos. - Chamava-se assim quando o adquiri.
- Por que no o trocou por outro nome escolhido por si?
- No sei. Julgo que nem pensei nisso.
- Tivemos um pastor alemo. Chamava-se Oliver.
- Ah, sim?
- Morreu.
- Lamento.
- No tem importncia - retorquiu Ben. - J era velho. Thibault acabou
a sanduche, amachucou a cobertura de plstico, voltou a enfi-la no
saco de papel e abriu o saco de amndoas que tinha preparado. Viu que
Ben reparara e apontou para o saco.
- Queres amndoas?
Ben abanou a cabea. - No devo aceitar comida de estranhos.
- Muito bem. Que idade tens?
- Dez. Quantos tem voc?
- Vinte e oito.
- Parece mais velho.
- Tu tambm.
A resposta fez Ben sorrir. - Chamo-me Ben.
- Prazer em conhecer-te, Ben. Eu sou o Logan Thibault.
-  verdade que veio a p do Colorado at aqui?
Thibault encarou-o de olhos semicerrados. - Quem  que te contou isso?
- Ouvi a mam a conversar com a Nana. Disseram que a maioria das
pessoas normais viria de carro.
- E tm razo.
- Sentiu as pernas cansadas?
- No primeiro dia. Mas, passado algum tempo, habituei-me a caminhar. E
o Zeus tambm. Na realidade, penso que gostou de caminhar. H sempre
algo de novo para ver, teve milhes de esquilos para perseguir.
com ar grave, Ben balanava os ps para diante e para trs. - Zeus 
capaz de ir buscar coisas?
-  um campeo. Mas s aceita uns quantos lanamentos. Passado algum
tempo aborrece-se. Porqu? Queres lanar um pau para ele ir buscar?
85
- Posso?
Thibault ps as mos em concha e chamou o co; Zeus saiu da gua a
correr, parou uns metros depois e sacudiu o plo. Ficou a olhar para
Thibault.
- Vai buscar um pau.
O co baixou logo o nariz para o cho e comeou a farejar entre os
ramos cados. Acabou por encontrar um pauzinho e trotou para junto de
Thibault.
Este abanou a cabea. - Maior - ordenou e Zeus ficou a olh-lo, como
que desapontado, antes de voltar. Soltou o pauzinho e retomou a busca.
- Excita-se com a brincadeira e quando o pauzinho  demasiado pequeno,
parte-o em dois - explicou Thibault. - Faz sempre o mesmo.
Ben assentiu, de ar solene.
Zeus regressou com um pau maior e levou-o para junto de Thibault. Este
arrancou-lhe alguns ramos suprfluos, tornando-o mais liso, e devolveu-
o ao co.
- Leva-o ao Ben.
Zeus no percebeu a ordem e fez descair a cabea para um lado, de
orelhas em riste. Thibault apontou para Ben. - Ben - repetiu.
- Pau.
O co trotou na direco de Ben, de pau na boca, que deps aos ps do
rapaz. Farejou Ben, avanou mais um passo e permitiu que o mido o
acariciasse.
- Ele sabe o meu nome.
- Agora sabe.
- Para sempre?
-  provvel. Agora que te cheirou.
- Como  que consegue aprender to depressa?
-  assim que faz. Est habituado a aprender as coisas rapidamente.
Zeus aproximou-se mais e lambeu a cara de Ben; a seguir retirou-se,
atraindo o olhar de Ben para o pau e repetindo o gesto em sentido
inverso.
Thibault apontou para o pau. - Quer que sejas tu a atir-lo.  a
maneira de ele te pedir.
Ben apanhou o pau e pareceu pensar no que deveria fazer a seguir.
- Posso atir-lo para a gua?
- Ele adorar isso.
Ben atirou-o para o riacho de guas lentas. Zeus entrou na gua e
comeou a nadar. Depois de reaver o pau, parou a uns passos de Ben para
sacudir a gua do plo, aproximou-se mais e voltou a deixar cair o pau.
86
- Treinei-o a sacudir a gua antes de se aproximar muito. No gosto de
ficar encharcado - explicou Thibault.
-  giro. ........
Thibault sorriu e Ben voltou a atirar o pau.
- Que mais  que ele sabe fazer? - perguntou Ben sem se voltar.
- Muitas coisas. Olha...  fantstico a jogar s escondidas. Se te
esconderes, ele encontra-te.
- Podemos experimentar mais uma vez?
- Sempre que queiras. ?- ?
- Espantoso. E tambm  um co de ataque?
- . Mas  amistoso na maioria dos casos.
Ao acabar a refeio. Thibault reparou que Ben continuava a atirar o
pau. No ltimo lanamento, Zeus no voltou para junto de Ben depois de
recuperar o pau. Em vez disso, trotou para um dos lados da clareira e
deitou-se. com uma pata em cima do pau, comeou a mord-lo.
- Significa que no quer brincar mais - explicou Thibault.
- A propsito, tens um bom brao. Jogas basquetebol?
- Joguei no ano passado. Mas no sei se jogarei este ano. Quero
aprender a tocar violino.
- Quando era mido tocava violino - comentou Thibault. O rosto de Ben
revelou surpresa. - De verdade?
- E tambm piano. Oito anos.
Deitado de um dos lados, Zeus ergueu os olhos do pau e ficou alerta.
Instantes depois, Thibault ouviu o som de passos no carreiro e a voz de
Elizabeth entre as rvores.
- Ben?
- Estou aqui, mam! - gritou Ben. Thibault levantou a mo na direco
de Zeus. - Tudo bem.
- At que enfim - disse Beth ao aparecer. - O que  que andas a fazer
c fora?
A expresso amigvel gelou logo que avistou Thibault, que percebeu
perfeitamente a pergunta nos olhos dela: O que anda o meu filho a
fazer no bosque, em companhia de um homem que mal conheo? No vendo
necessidade de se defender, Thibault limitou-se a cumpriment-la com um
aceno de cabea.
- Boa tarde.
- Boa tarde - respondeu, cautelosa. Por essa altura, j Ben vinha a
correr para ela.
- Mam, devias ver o que este co  capaz de fazer.  superesperto.
Ainda mais esperto que o Oliver era.
87
Beth ps-lhe um brao  volta dos ombros. - Isso  fantstico. Ests
pronto para ir para casa? Tenho o almoo na mesa.
- Ele conhece-me e tudo.
- Quem?
Ela voltou-se para Thibault. - Sabe?
Thibault assentiu. - Pois sabe.
-Bem... ptimo.
- Sabes uma coisa? Ele tocava violino.
- O Zeus?
- No, mam. Mr. Thibault. Em criana. Tocava violino ; Beth pareceu
espantada com a noticia. - De verdade?
Thibault assentiu. - A minha me era uma espcie de melmana fantica.
Queria que eu dominasse o Shostakovich, mas eu no tinha esse dom.
Embora conseguisse interpretar um Mendelssohn decente.
- Percebo - acabou Beth por dizer.
Apesar do visvel desconforto dela, Thibault riu-se.
- O que foi? - perguntou ela, obviamente a recordar-se tambm do
primeiro encontro entre ambos.
- Nada.
- O que  que se passa, mam?
- Nada, mas da prxima vez que vieres para aqui avisas-me, est bem?
Para poder estar de olho em ti, no disse. Para ter a certeza de que
ests em segurana. Thibault percebeu o recado, mesmo que Ben o no
entendesse.
-  melhor voltar para o escritrio - decidiu Thibault, erguendo-se do
ramo onde estava sentado. Apanhou os restos do almoo.
- Quero verificar se o mastim tem gua suficiente. Estava com calor e
tenho a certeza de que a bebeu toda. At logo, Ben. At logo, para si
tambm - despediu-se. - Zeus Vamos embora.
Zeus saltou do seu canto e colocou-se ao lado de Thibault; momentos
depois pararam no final do carreiro.
- Adeusinho, Mr. Thibault - saudou Ben.
Thibault voltou-se e deu uns passos para trs. - Gostei de conversar
contigo, Ben. E, a propsito, no sou Mr. Thibault. Apenas Thibault.
Dito isto, rodou sobre os calcanhares, sentindo o peso do olhar de
Elizabeth at desaparecer da vista dela.
88
CLAYTON
Naquela noite, deitado na cama a fumar um cigarro, Keith Clayton estava
de certo modo satisfeito por Nikki se encontrar no chuveiro. Gostava do
aspecto dela depois do banho de chuveiro. A imagem evitava que ele
considerasse o facto de preferir que ela pegasse nas suas coisas e
fosse para casa.
Era a quarta vez, nos ltimos cinco dias, em que ela ficava para passar
a noite. Era caixa do Quick Stop, onde ele comprava os Doritos, e
durante um ms, mais dia menos dia, hesitara se devia convid-la para
casa. Os dentes da rapariga no eram grande coisa e a pele mostrava
marcas, como se tivesse tido bexigas, mas tinha um corpo soberbo, uma
qualidade mais do que suficiente, considerando que ele precisava de um
certo relaxamento do stress.
Stress em parte provocado por ter visto Beth na noite de domingo,
quando lhe fora entregar Ben. De cales curtos e um tope, parou no
alpendre e acenou a Ben, mostrando o seu sorriso  Farrah Fawcett.
Mesmo que fosse dirigido a Ben, levou-o a constatar que ela ficava com
melhor aspecto a cada dia que passava.
Tivesse ele sabido o que ia acontecer, talvez no tivesse consentido o
divrcio. Assim sendo, sara de l a pensar quanto ela era bonita e
acabou na cama com Nikki, umas horas depois.
O problema era que no pretendia ir para a cama com Beth. No havia
qualquer hiptese de tal acontecer. Primeiro, ela era demasiado
autoritria e tinha tendncia para discutir as decises dele com que
no concordava. Aprendera tudo aquilo havia muito tempo e recordava-se
da situao sempre que a via. Logo depois do divrcio, a nica coisa
que no queria era pensar nela e, durante muito tempo, no pensara.
Vivia a sua vida, passava momentos fantsticos com raparigas diferentes
e parecia-lhe que nunca teria vontade de olhar para
89
trs. Para alm do filho, claro. No entanto, quando Ben tinha trs ou
quatro anos, comeou a ouvir rumores de que Beth recomeara a namorar,
o que o fez sentir-se incomodado. Que ele namorasse era normal... mas a
situao mudava completamente de figura se ela comeasse a namorar. No
gostaria nada de pensar que um tipo qualquer entrasse em casa dela e
fingisse ser pai de Ben. Para alm disso, apercebeu-se de que no lhe
agradava pensar que Beth estaria na cama com outro homem. Era uma
sensao que no conseguia encarar. Conhecia os homens e sabia o que
eles queriam, e Beth era bastante ingnua em certas questes, quando
mais no fosse por ele ter sido o primeiro. O mais provvel era ter
sido Keith Clayton o nico homem que a possura, o que fora bom, pois
mantivera as prioridades dela dentro da normalidade. Estava a criar o
filho de ambos, e embora Ben fosse um tanto amaricado, Beth estava a
fazer um bom trabalho com a educao dele. Alm de ser boa pessoa e de
no precisar mesmo nada de um homem que lhe viesse despedaar o
corao. Beth precisaria sempre da proteco dele.
Porm, na outra noite...
Gostaria de saber se o vesturio reduzido se destinava a ser apreciado
por ele. No haveria ali qualquer problema? Uns meses antes, at o
convidara a entrar, enquanto Ben preparava o saco. Na realidade, chovia
a potes e Nana olhara-o com raiva durante todo o tempo, mas Beth
mostrara-se muito simptica, quase o levando a pensar que a tinha
subestimado. Ela tinha necessidades, como toda a gente. E que mal
haveria se ele as satisfizesse uma vez por outra? J se tinham visto
nus antes e at haviam gerado um filho. Como  que se chamava agora a
essas pessoas? Amigos privilegiados? Podia perfeitamente imaginar uma
situao dessas entre ele e Beth. Desde que ela no falasse muito nem o
sobrecarregasse com grandes expectativas. Apagando o cigarro, ficou a
imaginar como poderia propor-lhe um esquema daqueles.
Ao contrrio do que se passava com ele, ela estava s h muito, muito
tempo. Havia quem andasse a farejar por perto dela durante algum tempo,
mas ele sabia como afastar esses tipos. Recordou-se da pequena conversa
que tivera com Adam, um par de meses antes. Aquele que usava um blazer
por cima da T-shirt, como se fosse um garanho de Hollywood. Garanho
ou no, ficara da cor da cera quando Clayton se aproximou da janela do
carro, depois de o obrigar a parar no regresso a casa, aps o seu
terceiro encontro com Beth. Clayton sabia que ambos tinham bebido uma
garrafa de vinho ao jantar - estivera a observ-los do outro lado da
rua - e quando Clayton
90
lhe mandou fazer o teste de alcoolemia, com um balo que tinha
preparado para aquele gnero de situaes, a pele do homem ficou branca
como a cal.
- Bebeu um copo a mais, no foi? - inquiriu Clayton, mostrando o ar de
dvida regulamentar quando o homem jurou que s bebera um copo de
vinho. Quando pegou nas algemas, pensou que o homem ia desmaiar ou
molhar as calas, o que quase o obrigou a reprimir uma gargalhada.
Mas no o fez. Em vez disso, preencheu a papelada, lentamente, antes de
lhe pregar o sermo, o que fazia a qualquer homem em que Beth parecesse
interessada. Que ele e Beth tinham sido casados e tinham um filho e
quanto era importante que compreendesse que ele tinha o dever de
proteger me e filho. Beth no tinha qualquer necessidade de outra
pessoa na sua vida, de ningum que a distrasse da tarefa de criar o
filho, ou de se envolver com algum que apenas quisesse abusar dela. O
facto de estarem divorciados no significava que ele deixasse de cuidar
dela.
E claro que o homem compreendeu o recado. Todos compreendiam. No s
por causa da famlia de Clayton e das suas relaes, mas tambm devido
ao facto de ele prometer perder o teste de alcoolemia e no accionar a
multa, desde que o outro deixasse a mulher em paz por algum tempo e se
lembrasse de que a conversa entre eles teria de ficar em segredo. Pois
no seria nada bom se ela descobrisse que houvera aquela pequena
conversa. Poderia causar problemas com o garoto, percebe? E ele no
seria simptico para quem causasse problemas ao seu filho.
No dia seguinte,  claro, encontrava-se sentado no carro-patrulha
quando Adam saiu para ir trabalhar. O homem empalideceu ao ver Clayton
a brincar com o balo. Clayton tinha a certeza de que ele percebera o
aviso ainda antes de arrancar e, quando voltou a encontrar Adam, este
estava acompanhado de uma secretria de cabelo ruivo; trabalhavam ambos
no mesmo escritrio de contabilistas. O que, como era evidente, provava
que Clayton tivera razo: o homem nunca pensara em Beth em termos de
futuro. Era apenas um falhado a desejar uma cambalhota rpida na cama.
Pois bem, no a daria com Beth.
Beth faria um escarcu se descobrisse o que ele andava a fazer mas,
felizmente, no precisara de tomar aquelas medidas muitas vezes. Apenas
uma vez por outra e tudo tinha corrido optimamente.
Mais do que optimamente, na verdade. At o fiasco das fotografias das
estudantes fora resolvido. Nem mquina nem fotografias tinham
91
aparecido na esquadra ou nos jornais depois do ltimo fim-de-semana.
No tivera oportunidade de procurar aquele hippie falhado na manh de
segunda-feira, mas descobriu que ele ficara no Holiday Motor Court.
Infelizmente, ou felizmente, sups, que o homem deixara o motel e no
voltara a ser visto. O que, muito provavelmente, significava que j
iria longe.
Em resumo, tudo corria bem. Muito bem. Apreciava especialmente a ideia
que lhe ocorrera acerca de Beth, aquela histria dos amigos com
privilgios. No seria bestial? Estava deitado de mos na nuca quando
Nikki saiu da casa de banho embrulhada numa toalha, deixando atrs de
si uma nuvem de vapor. Sorriu.
- Anda c, Beth.
A mulher estacou. - O meu nome  Nikki.
- Eu sei. Mas esta noite quero tratar-te por Beth. -- De que  que
ests a falar?
Os olhos dele faiscaram. -- Cala-te e vem para aqui, est bem? Depois
de uma breve hesitao, Nikki dirigiu-se com relutncia para a cama.
BETH
Talvez o tivesse avaliado mal, admitia Beth. Pelo menos quanto ao
trabalho. Durante as ltimas trs semanas, Logan Thibault tinha sido um
empregado exemplar. Ainda melhor, fora perfeito. No s no faltara um
nico dia, mas chegava cedo de modo a poder alimentar os ces, uma
tarefa que Nana sempre desempenhara at sofrer o AVC, e ficava at
tarde para varrer o escritrio. Uma vez at o vira a lavar as janelas
com um produto limpa-vidros e jornais. As jaulas nunca tinham estado
mais limpas, a erva do campo de treino era aparada  tarde, de dois em
dois dias, e at havia iniciado a reorganizao dos ficheiros de
clientes. Beth acabou por se sentir envergonhada ao pagar-lhe o
primeiro ordenado. Sabia que aquele salrio mal dava para viver. Mas,
quando lhe entregara o cheque, ele limitara-se a sorrir, dizendo:
- Obrigado. Isto  fantstico.
Conseguira apenas balbuciar um No tem de qu?.
Para alm daquele, os seus encontros foram raros. Estavam na terceira
semana escolar e Beth ainda tentava entrar na rotina de voltar a
ensinar, o que lhe exigia muitas horas no seu exguo escritrio, tanto
a preparar lies como a corrigir trabalhos de casa. Ben, por sua vez,
logo que chegava a casa, saltava do carro e corria para ir brincar com
Zeus. Como Beth observava atravs da janela, Ben parecia considerar o
co como o seu novo melhor amigo; e o co parecia sentir o mesmo. Logo
que entravam no desvio de acesso  casa, o co comeava a procurar um
pau, que depositava aos ps de Ben assim que ele saa do carro. Ben
saltava e quando Beth ia a subir os degraus do alpendre j ouvia o
filho a rir-se enquanto o co e o mido corriam pelo relvado. Logan, um
nome que parecia mais adaptado  pessoa do que Thibault, a despeito do
que ele dissera no riacho, tambm os observava com um ligeiro sorriso a
arrepanhar-lhe a cara, antes de voltar ao que estava a fazer.
93
Sem querer, gostava do sorriso dele e da facilidade com que ele se
relacionava com Ben ou com Nana. Sabia que por vezes a guerra tinha
maneiras de afectar a psique dos soldados, dificultando-lhes a
readaptao  vida civil, mas ele no mostrava qualquer sinal de stress
ps-traumtico. Parecia quase normal, se no se pensasse que
atravessara o pas a p; uma normalidade que poderia sugerir que ele
nunca prestara servio no ultramar. Nana jurava que ainda o no
interrogara sobre o assunto. O que j de si era estranho, tratando-se
de Nana, mas essa era outra histria. Portanto, ele parecia estar a
adaptar-se ao pequeno negcio da famlia, com maior facilidade do que
ela julgara possvel. Uns dias antes, quando Logan estava a terminar o
trabalho do dia, ouvira Ben correr pela casa e ir ao quarto, para logo
de seguida voltar a sair disparado porta fora. Ao espreitar pela
janela, viu que o filho viera buscar a bola de beisebol para jogar com
Logan no relvado. Viu-os lanar a bola de um para o outro, com Zeus a
fazer o que podia para abocanhar as bolas cadas, antes que Ben as
conseguisse apanhar.
Seria bom que o seu ex-marido pudesse ver a alegria com que Ben jogava
quando no estava a ser pressionado ou criticado.
No se surpreendia por Logan e Nana se entenderem bem, mas a frequncia
com que a av falava de Thibault depois de ele ter largado o trabalho e
o tom caloroso dos seus comentrios deixavam-na espantada. Ias gostar
dele, diria, ou Gostaria de saber se ele conheceu o Drake, o que era
uma maneira de insinuar que Beth deveria fazer um esforo para o
conhecer. Nana at comeou a autoriz-lo a treinar os ces, uma parte
do trabalho que sempre estivera interdita aos empregados. Uma vez por
outra, Nana mencionava qualquer pormenor interessante do passado dele,
que ele dormira junto de uma famlia de tatus no Texas, por exemplo, ou
que alimentara a esperana de trabalhar para o Koobi Fora Research
Project, no Qunia, para investigar a origem do homem. Quando referia
estes pormenores, no havia dvidas de que se deixara fascinar por
Logan e por aquilo que o fazia correr.
E o melhor de tudo: as coisas  volta do canil tinham comeado a
acalmar. Depois de um Vero longo e agitado, os seus dias tinham
entrado numa espcie de rotina, o que explicava por que Beth estava a
olhar com apreenso por cima da mesa, enquanto ouvia as explicaes da
av.
- O que  que ests a dizer? Que vais visitar a tua irm?
Nana acrescentou uma colher de manteiga  tigela de camares e gros de
aveia que tinha  frente. - Depois do incidente, ainda no
94
tive a oportunidade de visitar a minha irm e quero saber como ela
est.  mais velha que eu, como sabes. E agora que ests a ensinar e o
Ben est na escola, no consigo descortinar uma melhor altura para l
ir.
- E quem  que vai tomar conta do canil?
- Thibault. Transformou a tarefa numa cincia, at a parte do treino
dos ces. Disse que no se importaria mesmo nada de trabalhar mais umas
horas. E tambm se prontificou a levar-me a Greensboro, pelo que no
ters de te preocupar com essa parte. Tenho tudo planeado. Ele at se
prontificou a pr-me os ficheiros em ordem - concluiu, abrindo um
camaro e sugando vigorosamente.
- Ele sabe conduzir? - perguntou Beth.
- Ele diz que sim.
- Mas no tem carta.
- Diz que conseguir obt-la na DMV. Por isso saiu hoje mais cedo.
Telefonei ao Frank e ele prometeu-me que no lhe custaria nada fazer-
lhe o exame hoje mesmo.
- Mas no tem carro...
- Usar a minha carrinha.
- Como  que vai at l?
- A conduzir a carrinha.
- Mas ele no tem carta.
- Pensei que j tinha explicado isso - retorquiu Nana, como se a neta
tivesse ficado parva subitamente.
- E quanto ao coro? Acabaste de voltar a cantar.
- Tudo bem. J informei a directora musical de que vou visitar a minha
irm e ela disse que no h problema. De facto, ela pensa que  uma boa
ideia.  claro que estou no coro h mais tempo do que ela, de modo que
no poderia dizer-me exactamente que no.
Beth abanou a cabea, a tentar no fugir  questo. - Quando  que
comeaste a planear tudo isto? A visita, quero eu dizer?
Nana deu mais uma dentada e fingiu reflectir. - Quando ela telefonou, 
evidente.
Beth pressionou. - Quando  que ela te telefonou?
- Esta manh.
- Esta manh? - duvidou. Pelo canto do olho notou que Ben seguia a
troca de palavras como se estivesse a assistir a um jogo de tnis.
Lanou-lhe um olhar da advertncia, antes de voltar a ateno para
Nana. - Tens a certeza de que  uma boa ideia?
-  como doces num couraado - respondeu Nana, como que a querer
concluir a discusso.
95
- O que  que isso quer dizer?
- Quer dizer - comeou Nana - que vou visitar a minha irm. Disse que
est aborrecida e que precisa de mim. Pediu-me que fosse e eu concordei
ir. To simples quanto isso.
- Quanto tempo pensas demorar-te? - indagou Beth, a lutar com uma
crescente sensao de pnico.
- Estou a pensar em cerca de uma semana.
- Uma semana?
Nana olhou de relance para Ben.
- Penso que a tua me tem cera nos ouvidos. Continua a repetir tudo o
que eu digo, como se no me tivesse ouvido.
Ben sorriu e enfiou um camaro na boca. Beth encarou os dois. Por
vezes, pensou, jantar com aqueles dois no era melhor do que comer na
cantina com os alunos do segundo ciclo.
- E quanto aos teus remdios? - indagou.
Nana ps mais camares e aveia na tigela. - Levo-os. Posso tomar os
comprimidos com a mesma facilidade com que os tomo aqui.
- E se te acontece alguma coisa?
- Provavelmente estarei l melhor do que aqui, no te parece?
- Como podes dizer uma coisa dessas?
- Agora que as aulas comearam, tu e o Ben esto ausentes durante a
maior parte do dia e eu fico sozinha em casa. Thibault nunca conseguir
saber se eu estou com dificuldades. Mas, em Greensboro, estarei junto
da minha irm. E quer acredites quer no, ela tem telefone e tudo. No
ano passado deixou de comunicar atravs de sinais de fumo.
Ben voltou a rir-se mas sabia que era melhor manter-se calado. Em vez
disso, riu-se para o contedo da sua tigela.
- Mas nunca deixaste o canil desde a morte do av...
? ?- Exactamente - retorquiu a av.
- Mas...
Nana estendeu a mo sobre a mesa e acariciou a mo de Beth.
- Ora bem, sei que ests preocupada por no teres o meu crebro
brilhante a fazer-te companhia durante algum tempo, mas isso dar-te-
uma oportunidade de conheceres o Thibault. Ele vir tambm durante o
fim-de-semana, para te ajudar a tratar do canil.
- Este fim-de-semana? Quando  que partes?
? -Amanh.
A voz de Beth soou como um guincho: - Amanh?
Nana sorriu para Ben. - Ests a perceber o que eu quis dizer?
Depois de arrumar a cozinha, Beth foi para o alpendre da frente, queria
estar uns momentos sozinha. Sabia que a deciso de Nana estava tomada e
tambm sabia que tinha reagido mal. com acidente vascular ou sem ele,
Nana sabia tomar conta de si, alm de que a tia Mimi ficaria encantada
ao v-la. A tia Mimi j tinha dificuldade em chegar  cozinha e aquela
poderia ser a ltima oportunidade de Nana passar uma semana com ela.
Porm, a conversa deixara-a perturbada. No era a viagem em si que a
preocupara, fora a pequena luta entre elas  mesa do jantar, que
marcava o incio de um novo papel para ela nos anos vindouros, um papel
para o qual, de forma alguma, se sentia preparada. O papel de me de
Ben era fcil. O seu papel e as suas responsabilidades estavam
perfeitamente definidos. Mas fazer o mesmo papel com Nana? Nana fora
sempre to cheia de vida, to cheia de energia, que at h alguns meses
parecia a Beth que a av nunca conseguiria abrandar o ritmo. E tudo
corria bem, verdadeiramente bem, em especial ao pensar-se que sofrera
um AVC. Mas o que iria acontecer da prxima vez que Nana quisesse fazer
algo que Beth considerasse honestamente ser contrrio aos interesses da
av? Qualquer coisa simples... como conduzir de noite, por exemplo?
Nana j no via to bem como dantes, e isso iria acontecer dentro de
poucos anos, quando a av insistisse que queria ir de carro 
mercearia, depois de acabado o dia de trabalho?
Vendo bem, sabia que poderia resolver essas situaes quando chegasse a
altura. Mas temia-as. J fora suficientemente difcil controlar a av
durante aquele Vero, apesar de ser um caso em que os problemas fsicos
eram evidentes at para a prpria Nana. O que aconteceria quando Nana
se recusasse a admiti-los?
Os seus pensamentos foram interrompidos quando Beth avistou a carrinha
de Nana a subir lentamente o caminho de acesso  casa, indo parar perto
da entrada traseira do canil. Logan saiu e deu a volta para chegar 
caixa de carga. Viu-o tirar de l um saco de 25 quilos de comida de
co, p-lo ao ombro e entrar no canil. Quando regressou, Zeus estava 
espera dele, farejando-lhe a mo; Beth calculou que ele tivesse deixado
o co no escritrio enquanto fora  cidade. Levou uns minutos a
descarregar o resto da comida de co e, quando acabou, comeou a
caminhar na direco da casa. A noite comeara a cair. Longe, ouvia-se
o eco abafado do trovo, e Beth notou que as cigarras haviam comeado a
sua cano que assinalava o fim do dia. Suspeitava que a tempestade
iria afastar-se; com excepo de umas chuvadas dispersas, o Vero fora
uma misria em termos de chuva. Mas o ar transportado do oceano
cheirava a pinho e a sal, levando-a a recordar as antigas idas
97
 praia. Recordava-se de ver caranguejos a correr  luz das lanternas
que ela, Drake e o av empunhavam; a cara da me iluminada pelas chamas
de uma pequena fogueira que o pai acendera; a viso da aldeia de Nana a
incendiar-se quando preparavam um doce. Tratava-se de uma das poucas
recordaes que tinha dos pais e nem sabia ao certo at que ponto era
verdadeira. Por ser to pequena na altura, suspeitava que as suas
recordaes se fundiam com as da av. Nana contara-lhe a histria
daquela noite inmeras vezes, talvez por ter sido a ltima vez em que
tinham estado todos juntos. Os pais morreram num acidente de viao
escassos dias depois.
- Est a sentir-se bem?
Distrada com as recordaes, Beth no reparara na chegada de Logan ao
alpendre.  luz do crepsculo as feies dele pareceram-lhe mais suaves.
- Estou ptima - respondeu, endireitando-se e ajeitando a blusa.
- Estava apenas a pensar.
- Tenho as chaves da carrinha - observou, naquela sua voz calma. - Quis
entreg-las antes de ir para casa.
Quando ele as entregou, ela sabia que podia limitar-se a agradecer-lhe
e a dar-lhe as boas-noites, mas, talvez por continuar perturbada pelo
facto de Nana ter tomado a deciso de partir sem antes a ter
consultado, ou talvez por querer ter uma opinio pessoal acerca de
Logan, pegou nas chaves e deliberadamente aguentou-lhe o olhar. -
Obrigada - agradeceu. - Um longo dia para si, no foi?
Se ficou surpreendido com o convite para conversar, no o demonstrou. -
No foi mau de todo. Fiz muitas coisas.
- Como readquirir a carta para conduzir legalmente.
Thibault mostrou um sorriso lento. - Entre outras coisas. ?.; - Teve
algum problema com os traves? - No, desde que me habituei ao ranger.
? Beth sorriu ao pensar naquilo. - Aposto que o examinador ficou
encantado. - Sem dvida. Via-se-lhe na cara.
 Beth riu-se e, por instantes, ambos se mantiveram calados. Os
relmpagos brilhavam no horizonte. O som do trovo levou algum tempo a
chegar e ela sabia que a tempestade ainda estava longe. No silncio,
notou que Logan a olhava com aquela expresso de a conhecer de h
muito. Ele deu sinal de que tambm se tinha apercebido e voltou-se
rapidamente. Beth seguiu-lhe o olhar e viu que Zeus se dirigira para as
rvores. O co ficou atento, a olhar Logan, como que a perguntar:
Queres ir dar uma volta? Para reforar a ideia, Zeus ladrou e Logan
abanou a cabea.
98
- Aguenta os cavalos - mandou. Voltou-se de novo para Beth. Esteve
preso durante algum tempo e apetece-lhe vadiar.
- No  o que est a fazer agora?
- No, quer dizer que pretende vadiar comigo. Nunca me perde de vista.
- Nunca?
- No consegue evit-lo.  um pastor e pensa no seu rebanho. Beth
ergueu uma sobrancelha. - Pequeno rebanho.
- Pois, mas est a aumentar. Afeioou-se realmente ao Ben e  Nana.
- Mas no a mim - observou Beth, fingindo-se magoada. Logan encolheu os
ombros. - Nunca atirou um pau para ele ir
buscar.
- No  preciso mais?
-  um amigo fcil de contentar. Beth voltou a rir-se. Sem saber por
qu, no esperava que ele
tivesse sentido de humor. Surpreendeu-a ao apontar para cima do ombro.
- Quer dar uma volta connosco? Para o Zeus  quase to bom como atirar
um pau para ele ir buscar.
- Ai ? - perguntou, s para ganhar tempo.
- No fao as normas. Limito-me a conhec-las. E detestaria que ficasse
de fora.
Hesitou por momentos, antes de aceitar a ideia de que Logan estava
apenas a ser simptico. Olhou por cima do ombro. - Antes de ir, talvez
seja melhor avisar a Nana e o Ben.
- Pode faz-lo, mas no iremos longe. Zeus quer apenas ir ao riacho e
espanejar-se um pouco na gua, antes de regressarmos a casa. No o
fazendo, sente calor - esclareceu, a balanar sobre os calcanhares, de
mos nos bolsos. - Est pronta?
- Estou, vamos.
Desceram do prtico e dirigiram-se para o carreiro de gravilha. Zeus
trotava diante de ambos, verificando de vez em quando se eles o
seguiam. Caminhavam lado a lado, mas com distncia suficiente para
prevenir toques acidentais.
- Nana disse-me que  professora? - indagou Logan.
Beth assentiu. - Segundo ciclo.
- Como  a sua turma deste ano?
- Parece-me um bom grupo de midos. E j consegui sete mes para
trabalho voluntrio, o que  sempre um bom sinal.
Passando ao lado do canil, aproximaram-se do carreiro estreito que
conduzia ao riacho. O sol desaparecera por detrs das rvores, tornando
o carreiro escuro. Enquanto caminhavam, o trovo fez-se ouvir de novo.
99
- H quanto tempo  professora?
- Trs anos.
- Gosta de ensinar?
- Na maioria dos casos. Trabalho com uma quantidade de pessoas
excelentes, o que torna tudo mais fcil.
- Mas?
No pareceu entender a pergunta. Logan enterrou as mos nas algibeiras
e prosseguiu.
- Existe sempre um mas quando se trata de profisses. Do gnero,
adoro o meu trabalho e os meus colegas so excelentes, mas... alguns
deles gostam de vestir-se como super-heris durante os fins-de-semana,
o que me leva a duvidar se no sero apenas malucos.
Beth riu-se. - No, so realmente fantsticos. E eu gosto mesmo de
ensinar. Acontece apenas que, uma vez por outra, aparece um aluno vindo
de uma famlia difcil e sabemos que no se poder fazer nada dele.
Muitas vezes,  o suficiente para nos despedaar o corao -
acrescentou, dando uns passos em silncio. - E quanto a si, gosta de
trabalhar aqui?
- Gosto - respondeu; e pareceu sincero.
- Mas?
Ele abanou a cabea. - Sem mas.
- No  justo. Eu contei a verdade.
- Pois, mas no estava a falar com a neta da patroa. E falando da
patroa, faz ideia da hora a que ela quer partir amanh?
- Ela no lhe disse? .
- No. Pensava perguntar-lhe quando viesse entregar as chaves.
- No me disse, mas tenho a certeza de que ter de treinar e exercitar
os ces antes de partir, de modo a que os animais no se mostrem
impacientes.
Tinham chegado  vista do riacho e Zeus mergulhou para diante, a
espanejar e a ladrar. Logan e Beth observaram a brincadeira, antes de
Logan apontar para o ramo baixo. Beth sentou-se e ele fez o mesmo,
tendo o cuidado de deixar suficiente espao entre eles.
- A que distncia fica Greensboro? - perguntou.
- Cinco horas para ir e voltar. Faz-se quase todo o percurso pela
estrada interestadual.
- Faz alguma ideia de quando ela quer regressar a casa?
? Beth encolheu os ombros. - Falou-me numa semana.
Logan pareceu reflectir sobre o assunto. - Oh...
Tudo tratado em segredo, pensou Beth. Logan ainda sabia menos que ela.
- Estou a convencer-me de que Nana no lhe forneceu muitos pormenores
sobre a viagem.
100
- S me disse que ia e eu seria o condutor, pelo que seria melhor
renovar a carta. Oh, tambm me informou de que teria de trabalhar
durante o prximo fim-de-semana.
Era de calcular. Oua... posso tomar conta disto se tiver outras coisas
para fazer...
No h problemas - retorquiu Logan. - No tinha quaisquer
planos. E h certas coisas que ainda no tive oportunidade de fazer.
Umas coisas que precisam de ser arranjadas.
- Como instalar o ar condicionado no escritrio do canil?
- Estava a pensar mais na pintura do aro da porta e em ver o que posso
fazer para conseguir abrir a janela.
- A que foi pintada fechada. Boa sorte. O meu av passou anos a tentar
abri-la. Uma vez gastou um dia inteiro com uma lmina de barba e acabou
por ter de usar pensos rpidos durante toda a semana. Nem assim
conseguiu abri-la.
- No est a encorajar-me nada - comentou Logan.
- Estou s a tentar avis-lo. Tem graa porque foi o meu av que a
pintou assim e tinha um depsito cheio de ferramentas, com quase tudo o
que possa imaginar-se. Era um daqueles homens que se julgam capazes de
fazer seja o que for, mas as coisas nunca lhe saam to bem como
planeava. Era mais um visionrio do que um homem ligado a pormenores
bsicos. J viu a casa do Ben e a ponte?
- De longe - admitiu Logan.
- Um caso tpico. O av gastou a maior parte do Vero a constru-la e
ainda hoje me encolho toda sempre que o Ben vai para l. No fao ideia
de como tem aguentado todo este tempo. Mete-me medo, mas ele adora ir
para l, especialmente quando est nervoso ou preocupado com qualquer
coisa. Chama-lhe o seu esconderijo. Vai para l muitas vezes -
esclareceu. Quando ela se calou, Logan viu que estava realmente
preocupada, mas recomps-se rapidamente e voltou-se de novo para ele. -
De qualquer forma, o av era uma jia. Todo alma e corao, e
proporcionou-nos a mais idlica das infncias que se podia imaginar.
- A quem?
- Ao meu irmo e a mim - acrescentou, sem desviar os olhos das folhas
da rvore, que tinham reflexos prateados pelo luar. - A Nana contou-lhe
o que aconteceu com os meus pais?
Assentiu. - Por alto. Lamento.
Beth esperou, a tentar descobrir se Logan acrescentaria algo mais, mas
ele manteve-se calado. - Como  que foi? - perguntou. - Refiro-me 
travessia do pas.
101
Logan levou o seu tempo at responder. - Foi... pacfica. Ir onde
queria, quando queria, sem pressa de l chegar.
- Da maneira como fala at parece que foi uma caminhada teraputica.
- Suponho que foi - concordou, mas um sorriso triste perpassou-lhe pelo
rosto, desvanecendo-se rapidamente. - De certa forma.
Ao dizer aquilo, a luz que ia desaparecendo reflectiu-se-lhe nos olhos,
dando a impresso de que estavam a mudar de cor. - Encontrou o que
procurava? - perguntou Beth, com ar grave.
Logan fez uma pausa. - Sim, realmente encontrei.
- E?
- Ainda no sei.
Beth avaliou a resposta, sem saber o que fazer dela. - Ora bem, no
leve isto a mal, mas, por qualquer razo, no o vejo a permanecer no
mesmo lugar durante muito tempo.
- Por eu ter vindo a p desde o Colorado?
- Tem muito que ver com isso.
Ele riu-se e, pela primeira vez, Beth tomou conscincia de que no
mantinha uma conversa daquelas h muito tempo. Pareceu-lhe fcil, no
forada. com Adam a conversa era difcil, como se exigisse esforos
rduos de ambos. Ainda no tinha a certeza do que sentia acerca de
Logan, mas pareceu-lhe que finalmente se tratavam com afabilidade.
Clareou a voz. - Ora, quanto a amanh: pensei que seria melhor levarem
o meu carro e eu usarei a carrinha para ir para a escola. Os traves da
carrinha deixam-me preocupada.
- Tenho de admitir as minhas dvidas quanto a eles. Mas tenho quase a
certeza de conseguir resolver o problema. No amanh, mas durante o
fim-de-semana.
- Tambm sabe reparar automveis?
- Sei. Mas os traves no so difceis. Precisam de pastilhas novas,
mas penso que o rotor deve estar em condies.
- H alguma coisa que no consiga fazer? - indagou Beth, parecendo
apenas meio admirada.
- H.
Ele riu-se. - Isso  bom. Mas est bem. vou falar com a Nana e
convenc-la de que ser melhor levar o meu carro. No confio naqueles
traves com a velocidade com que se circula na auto-estrada
interestadual. E no deixarei de ver como esto os ces quando
regressar da escola, acha bem? Tenho a certeza de que Nana tambm no
sugeriu isso. Mas  o que farei.
102
Logan assentiu e viu Zeus sair da gua. Sacudiu-se, depois aproximou-se
para farejar Beth, antes de lhe lamber as mos.
- Gosta de mim.
-  provvel que esteja a tomar-lhe o gosto.
-- Engraado - comentou. Era o tipo de resposta que Drake lhe teria
dado, o que lhe deu vontade de ficar de novo sozinha. Ps-se de p. -
Ser melhor regressar. Tenho a certeza de que esto a tentar perceber
por onde eu ando.
Logan verificou que as nuvens tinham continuado a inchar. - Sim, tambm
tenho de ir. Quero chegar a casa antes do dilvio. A tempestade parece
aproximar-se.
- Quer uma boleia?
- Obrigado, mas no  necessrio. Gosto de andar.
- Quem diria! - exclamou com um ligeiro sorriso. Regressaram a casa
pelo mesmo caminho e quando chegaram ao carreiro de gravilha, Beth
tirou a mo do bolso e despediu-se com um ligeiro aceno.
- Obrigada pelo passeio, Logan.
Esperava que ele a corrigisse, como fizera com Ben, que lhe dissesse
que se chamava Thibault, mas ele no o fez. Em vez disso, ergueu
ligeiramente o queixo e sorriu.
- Obrigado tambm, Elizabeth.
Beth sabia que a tempestade no duraria muito, embora precisassem
desesperadamente de chuva. O Vero fora quente e seco, parecia que o
calor nunca iria abrandar. Ao ouvir os ltimos pingos de chuva a cair
no telhado de zinco, deu consigo a pensar no irmo.
Antes de Drake partir, dissera-lhe que o som da chuva a cair sobre o
telhado era aquilo de que iria sentir mais falta. Bem gostaria de saber
se ele sonhara muitas vezes com aquelas tempestades de Vero da
Carolina do Norte, naquela terra onde foi acabar. A ideia f-la sentir-
se vazia e triste, uma vez mais.
Nana estava no seu quarto a preparar-se para a viagem, excitada como
no sucedia h anos. Ben, por sua vez, estava a sentir-se cada vez mais
vencido, pois aquilo significava que teria de passar mais tempo do fm-
de-semana na companhia do pai. O que tambm queria dizer que ela
passaria um fim-de-semana sozinha em casa, a primeira vez em que isso
sucedia desde h muito tempo.
Mas havia Logan.
Percebera por que Nana e Ben se haviam sentido atrados por ele. Logan
possua uma confiana tranquila que parecia rara nos tempos
103
que corriam. S ao regressar a casa percebeu que ficara a saber pouco
acerca dele, pouco mais do que lhe contara na entrevista inicial.
Gostaria de saber se ele seria sempre to reservado ou se aquilo teria
a ver com o tempo que passara no Iraque.
Ele tinha l estado, pensava. No, ele no fora to longe, mas reparara
na expresso dele quando lhe falara dos pais; a sua resposta revelava
uma familiaridade com a tragdia e a sua aceitao como um aspecto
inevitvel da vida.
No sabia se aquele conhecimento a fazia sentir-se melhor ou pior
acerca dele. Fora fuzileiro naval, como Drake. Mas Logan estava ali e
Drake morrera; e por essa razo, e por motivos ainda mais complicados,
no tinha a certeza de alguma vez poder olhar Logan com a necessria
abertura de esprito.
Olhando para o alto, para as estrelas que apareciam entre as nuvens da
tempestade, sentiu a perda de Drake, como se fosse uma ferida aberta de
novo. Tinham sido inseparveis depois da morte dos pais, at dormiram
na mesma cama durante um ano. O irmo era apenas um ano mais novo que
ela, recordava-se perfeitamente do primeiro dia em que o levara ao
jardim infantil. Para o irmo deixar de chorar, prometera-lhe que ele
faria muitos amigos e que o viria esperar  porta para o levar para
casa. Ao contrrio da maioria dos irmos, nunca foram rivais. Ela era a
principal f dele e o irmo era o seu principal apoiante. Durante o
curso secundrio, ela assistiu a todos os jogos de futebol, basquetebol
e beisebol que ele disputou, alm de o apoiar sempre que ele
necessitasse. Pelo seu lado, o irmo era a nica pessoa que no se
deixava impressionar pelas mudanas de humor da adolescncia dela. O
nico desacordo entre eles tivera a ver com Keith mas, ao contrrio de
Nana, Drake guardou boa parte do que sentia para si mesmo. Porm, Beth
conhecia os sentimentos dele e, quando se deu a separao, foi Drake
quem se prestou a ajud-la a tentar encontrar o seu caminho de me
solteira. E fora Drake, sabia, quem evitara que Keith lhe fosse bater 
porta nos meses imediatamente a seguir. De todas as pessoas que
conhecera, Drake fora a nica que Keith tivera medo de enfrentar.
Na altura, Drake amadurecera. No s fora um excelente atleta em
praticamente todos os desportos, mas comeara a praticar boxe aos doze
anos. Aos dezoito, j ganhara o torneio Luvas de Ouro da Carolina do
Norte por trs vezes e treinava regularmente com os militares
estacionados em Fort Bragg e Camp Lejeune. Foram as horas passadas com
eles que comearam por levar Drake a pensar em alistar-se.
104
Nunca fora grande aluno e passara apenas um ano na universidade quando
decidiu que para ele era suficiente. Beth fora a nica com quem falara
sobre o alistamento. Sentira-se orgulhosa com a deciso de ele querer
servir o pas, o seu corao transbordou de amor e admirao ao v-lo
fardado de azul. Embora assustada quando ele fora mandado para o Kuwait
e, mais tarde, para o Iraque, nunca deixou de pensar que ele se sairia
bem. Mas Drake no conseguira regressar
a casa.
Mal conseguia recordar os dias que se seguiram  notcia de que o irmo
tinha morrido, e ainda no gostava de pensar no que sucedera. A morte
dele deixara-lhe um vazio que sabia nunca conseguir preencher
inteiramente. Na verdade, porm, o tempo atenuara a dor. Logo a seguir
 perda, nunca o julgara possvel, mas no podia negar que,
actualmente, quando pensava em Drake recordava principalmente os dias
felizes. Mesmo quando visitava a campa para falar com ele, j no
experimentava a agonia provocada pelas primeiras visitas. A partir de
certa altura, a tristeza sobrepusera-se  raiva.
Contudo, naquele momento, parecia-lhe que voltara, depois de reconhecer
que tambm ela gostara de Thibault, tal como acontecera com Nana e Ben;
talvez por sentir junto dele um -vontade que no sentira com qualquer
outra pessoa depois da perda de Drake.
E depois houvera aquele pormenor: s Drake a tratava pelo nome de
baptismo. Nem os pais, nem a av, nem o av, ou qualquer dos seus
amigos alguma vez a haviam tratado por outro nome que no fosse Beth.
com Keith acontecera o mesmo; para ser honesta, at duvidava que ele
soubesse o verdadeiro nome da mulher com quem casara. Apenas Drake lhe
chamava Elizabeth e apenas quando se encontravam ss. Era o segredo
deles, um segredo que s devia ser conhecido por ambos, e nunca
imaginara como poderia soar na boca de outra pessoa.
Todavia, Logan dera-lhe a entoao adequada.
THIBAULT
No Outono de 2007, depois de sair do Corpo de Marines, Thibault
preparou o encontro com Victor no Minnesota, num lugar onde nenhum
deles estivera antes. A altura no podia ser a melhor, para ambos.
Victor estava casado h seis meses e Thibault fora padrinho dele. Fora
a nica ocasio em que tinham estado juntos desde que foram
desmobilizados. Quando Thibault telefonara a sugerir a viagem,
suspeitou de que passar algum tempo s com ele era exactamente aquilo
de que Victor precisava.
No primeiro dia, quando estavam a meio do rio, sentados num pequeno
barco a remos, Victor decidiu-se a quebrar o silncio.
- Tens tido pesadelos? - perguntou ao amigo. Thibault abanou a cabea.
- No. E tu?
- Eu tenho.
Corria uma brisa prpria do Outono e uma ligeira nvoa permanecia acima
da gua. Mas o cu estava limpo e Thibault sabia que a temperatura ia
subir e que iriam desfrutar de uma belssima tarde.
- Os mesmos de antes? - indagou Thibault.
- Piores - respondeu ao enrolar a linha para a lanar de novo.
- Vejo mortos - acrescentou, esboando um breve sorriso amargo, com a
fadiga bem patente nas rugas do rosto. - Como naquele filme com o Bruce
Willis? O Sexto Sentido?
Thibault assentiu.
- Quase gosto daquilo - observou. Fez uma pausa e prosseguiu.
- Nos meus sonhos, revivo tudo aquilo por que passmos, mas com
alteraes. Na maioria delas, sou atingido e grito por ajuda, mas a
ajuda no aparece e apercebo-me de que toda a gente est ferida. E
sinto-me morrer pouco a pouco - acrescentou. Esfregou os olhos
106
antes de continuar. - Embora seja mau,  pior quando os vejo de dia; os
mortos, quero eu dizer. Posso estar no supermercado e vejo-os todos, a
bloquearem o corredor. Ou esto no cho, a serem tratados pelos
mdicos. Mas nunca emitem qualquer som, tudo o que fazem  olhar para
mim, como se eu fosse o culpado de terem sido feridos, ou de estarem a
morrer - lamentou-se. Fez uma pausa. - Faz-me pensar que estou a ficar
maluco.
- J conversaste com algum sobre isso? - indagou Thibault.
- No. Isto , disse  minha mulher, mas sempre que lhe falo disto ela
assusta-se e desata a chorar. Portanto, no lhe falo mais do assunto.
Thibault manteve-se calado.
- Est grvida, percebes? - prosseguiu Victor.
Thibault sorriu, a procurar mostrar-se confiante. - Parabns!
- Obrigado.  um rapaz. Vai chamar-se Logan.
O amigo ps-se de p e agradeceu com um aceno. -  uma honra.
- s vezes fico assustado por ir ter um filho. Receio no ser um bom
pai - confessou, sem tirar os olhos da gua.
- Vais ser um pai fantstico - garantiu Thibault.
- Talvez. Thibault esperou.
- J no tenho pacincia. H tantas coisas que me enfurecem. Pequenos
detalhes, pormenores que no deveriam ter qualquer significado mas, por
uma razo qualquer, adquirem importncia. E embora eu tente conter a
raiva dentro de mim, h alturas em que ela acaba por sair. Ainda no me
causou problemas, mas no sei at quando vou conseguir controlar-me.
Tambm acontece contigo? - perguntou ao ajeitar o carreto de pesca.
- Por vezes - admitiu Thibault.
- Mas no  frequente.
- No.
- Penso que no. Esqueo-me de que no teu caso as coisas so
diferentes. Quer dizer, por causa da fotografia.
Thibault abanou a cabea. - Isso no  verdade. No tem sido fcil para
mim. No consigo andar na rua sem espreitar por cima do ombro, ou sem
espreitar pelas janelas para ter a certeza de que ningum pretende
alvejar-me. E, em metade das ocasies, no me ocorre qualquer forma de
iniciar uma conversa vulgar com algum. No consigo pensar nas
preocupaes dos outros. Quem trabalha onde e quanto ganha, ou o que d
na televiso, ou quem anda a namorar quem. Apetece-me perguntar: Que
tenho eu a ver com isso?
107
- Nunca foste bom em conversas sem interesse - contraps Victor.
- Obrigado.
- Mas quanto ao olhar por cima do ombro,  normal. Tambm fao o mesmo.
- Tambm? -Contudo, at agora ainda no vi armas. ??; ???
Thibault riu-se em surdina. -  bom, no ?
A seguir, querendo mudar de assunto, perguntou: - Como  que te ds com
os telhados? -So muito quentes no Vero.
- Como no Iraque?
- No, nada  to quente como o Iraque. Mesmo assim, bastante quentes -
admitiu, a sorrir. - Fui promovido, agora sou chefe de equipa.
- bom para ti. Como  que est a Maria?
Victor abanou a cabea, maravilhado. - A inchar, mas sente-se feliz. E
 a minha vida. Tive muita sorte por casar com ela.
- Fico contente.
- No existe nada como o amor. Devias tentar. Thibault encolheu os
ombros. Talvez, um dia.
Elizabeth.
Vira a expresso dela alterar-se ligeiramente quando a tratou por
Elizabeth, notou uma emoo que no conseguiu identificar. O nome
captava mais a essncia da pessoa dela do que o simples Beth. O nome
tinha uma elegncia que se adaptava  forma graciosa como ela andava, e
embora no tivesse feito planos para a tratar assim, as slabas tinham-
lhe sado da boca como se tivessem vontade prpria.
No caminho de regresso a casa, deu consigo a recordar a conversa e a
forma natural como se sentara ao lado dela. Era mais descontrada do
que a imaginara, mas conseguia discernir que, tal como Nana, ainda no
tinha certezas sobre quem ele era. Mais tarde, deitado na cama a olhar
o tecto, ficou a imaginar o que Elizabeth pensaria dele.
Na manh de sexta-feira, antes de conduzir Nana a Greensboro no carro
de Elizabeth, Thibault teve o cuidado de deixar tudo tratado. Zeus
seguia no banco de trs, com a cabea fora da janela durante a maior
parte da viagem, orelhas puxadas para trs, intrigado com a constante
mudana de cenrios e cheiros. Thibault no esperara que Nana
autorizasse o co a ir com eles, mas fora ela quem o mandara entrar no
carro. - A Beth no vai importar-se. E, alm disso, a minha mala cabe
no porta-bagagens.
108
A viagem de regresso a Hampton pareceu mais rpida e, ao chegar, ficou
satisfeito por ver Ben em casa, a atirar uma bola ao ar. Zeus correu
para ele e Ben atirou a bola pelo ar. O co correu atrs dela, de
orelhas repuxadas para trs e lngua de fora. Ao aproximar-se viu
Elizabeth entrar no alpendre e percebeu, uma certeza surgida
subitamente, que aquela era a mulher mais bonita que alguma vez vira.
Vestindo uma blusa de Vero e cales curtos que lhe mostravam as
pernas bem torneadas, acenou-lhe um cumprimento logo que o viu, o
suficiente para ele no ficar de olhos arregalados.
- Ol, Thibault! - cumprimentou Ben do jardim. Corria atrs de Zeus,
que se pavoneava com a bola na boca, sempre uns passos adiante de Ben
por mais que o rapaz corresse.
- Ol, Ben! Que tal a escola?
- Maadora! - gritou. - Como vai o trabalho?
- Excitante!
Ben continuou a correr. - Pois, muito bem!
Desde que a escola comeara para Ben, trocavam quase sempre as mesmas
frases, dia aps dia. Thibault abanava a cabea, bem-humorado, no
preciso momento em que Elizabeth saa para o alpendre.
- Viva, Logan!
- Ol, Elizabeth.
Ela debruou-se do corrimo, com um ligeiro sorriso. - Como  que
correu a viagem?
- No foi m de todo.
- Mas deve-lhe ter parecido estranha.
- Por que razo?
- Quando foi a ltima vez que conduziu durante cinco horas? Thibault
coou o pescoo. - No sei. Foi h muito tempo.
- A Nana disse que achou a sua conduo algo nervosa, como se no
conseguisse pr-se  vontade - informou, fazendo um sinal na direco
da casa. - Acabei de falar com ela. J telefonou duas vezes.
- Aborrecida?
- No, da primeira vez falou com o Ben. Para ver como decorrera a
escola.
- E?
- Ele respondeu-lhe que era maadora.
- Pelo menos  consistente.
- Pois , mas gostaria que a opinio dele fosse diferente. Qualquer
coisa como aprendi bastante e diverti-me muito com isso - comentou. -
O sonho de qualquer me, no ? r:,!
- Acredito na sua palavra. .;??:?;?!. ;. , ??,.?
- Tem sede? - perguntou Beth. - A Nana deixou um jarro de limonada. F-
la esta manh, antes de sair.
- Apetecia-me. Mas talvez seja melhor ir ver primeiro como esto os
bebedouros dos ces.
Beth voltou-se e dirigiu-se para a porta. - Isso j foi feito informou,
segurando a porta para ele passar. - Entre. S demoro um minuto, est
bem?
Thibault subiu a escada, limpou os ps e entrou. Analisando a sala,
reparou na moblia antiga e nos quadros originais pendurados na parede.
Uma sala de visitas de provncia, nada do que ele imaginara.
- A sua casa  encantadora - disse, em voz alta.
- Obrigada - agradeceu, deitando a cabea fora da porta da cozinha. -
Ainda no a tinha visto?
- No.
- Pensei que j c estivera. Veja  vontade.
Desapareceu da vista dele e Thibault andou  volta da sala, reparando
na coleco de Hummels dispostos nas estantes do mvel da sala de
jantar. Sorriu. Sempre apreciara aquelas coisas.
Sobre a lareira, reparou numa coleco de fotografias e foi analis-
las. Duas ou trs eram de Ben, incluindo uma em que lhe faltavam dois
dentes da frente. Ao lado delas estava uma boa fotografia de Elizabeth
de batina e capelo de formatura, ao lado dos avs, mais uma foto de
Nana e do marido. No canto viu a fotografia de um jovem marine de farda
azul, de p, na posio de descansar.
O jovem fuzileiro que perdera a fotografia no Iraque!
- Esse  o Drake - disse Beth por detrs dele. - O meu irmo. Thibault
voltou-se. - Mais novo ou mais velho?
- Um ano mais novo.
Entregou-lhe o copo de limonada sem mais comentrios e Thibault sentiu
que o assunto ficara arrumado. Beth deu um passo para a porta da frente.
- Vamos para o alpendre. Estive fechada em casa todo o dia e, alm
disso, quero vigiar o Ben.
Elizabeth sentou-se nos degraus da frente. O sol abria clareiras de luz
por entre as nuvens mas a sombra do alpendre estendia-se at as cobrir.
Prendeu uma madeixa de cabelo atrs da orelha. - Desculpe. Isto  o
melhor que consigo arranjar. Tenho tentado convencer a Nana a arranjar
bancos de baloio, mas ela acha-os demasiado rurais.
Mais adiante, Ben e Zeus corriam pelo relvado, com o rapaz a rir-se
enquanto tentava tirar o pau da boca do co. Elizabeth sorriu.
110
- Ainda bem que o vejo a libertar toda aquela energia. Teve hoje a
primeira lio de violino, ainda no tivera oportunidade de correr
depois de vir da escola.
- Divertiu-se?
- Gostou. Pelo menos disse que gostou - respondeu, virando-se para ele.
- Quando era criana, gostava?
- Na maioria das vezes. Pelo menos at ser mais crescido.
- Deixe-me adivinhar. Depois comeou a interessar-se por raparigas e
desportos?
- No se esquea dos carros.
- Tpico - resmungou. - Mas normal. Estou excitada por ter sido a
primeira escolha dele. Sempre se interessou por msica e a professora 
uma jia. Reuniu em si toda a pacincia do mundo.
- Isso  bom. E vai fazer-lhe bem.
Ela fingiu analis-lo. - No sei porqu, mas vejo-o mais como tocador
de guitarra elctrica do que como algum que tocou violino.
- Por eu ter vindo a p desde o Colorado?
- No se esquea do cabelo.
- Usei o corte militar durante anos.
- E depois os barbeiros entraram em greve, no foi?
- Uma coisa desse gnero.
Ela sorriu e pegou no copo. No silncio que se seguiu, Thibault olhou 
sua volta. Do outro lado do jardim, um bando de estorninhos apareceu de
entre as rvores, voando juntos at pousarem no lado oposto. Nuvens
inchadas iam a passar, mudando de forma graas  brisa da tarde e
sentia-se observado por Elizabeth.
- No sente necessidade de estar sempre a falar, pois no? Ele sorriu.
- No.
- Na sua maioria, as pessoas no sabem como apreciar o silncio. Esto
sempre a falar.
- Eu falo. Mas primeiro quero ter qualquer coisa para dizer.
- Vai ter uma vida difcil em Hampton. A maioria das pessoas daqui fala
acerca da famlia, ou dos vizinhos, do tempo, das possibilidades de a
equipa da escola secundria ganhar o campeonato de futebol.
- Ah, sim?
- Torna-se uma maada.
Ele assentiu. - Estou a ver - disse, bebendo mais um gole, despejando o
copo. - Ento, qual  a sua opinio sobre a equipa de futebol deste
ano? 
Ela riu-se e pegou no copo. - Exactamente. Quer mais?
111
- No, estou ptimo. Obrigado. Muito refrescante.
Beth colocou o copo ao lado do dela. - Feita em casa. Foi a prpria
Nana que espremeu os limes.
Thibault assentiu. -J notei que tem um brao como o do Popeye.
Beth passou a ponta do dedo  volta do bordo do copo, a admitir
secretamente, s para si, que apreciava o esprito dele. - Portanto,
acho que ficaremos ss durante este fim-de-semana.
- E o Ben?
- Vai amanh para casa do pai. Vai uma vez de quinze em quinze dias.
- Sim?
Beth inspirou profundamente. - Mas no de livre vontade. Nunca quer ir.
Thibault acenou com a cabea, ficando a observar Ben de longe.
- No tem nada a dizer? - perguntou Beth, a espica-lo.
- Nem sei o que hei-de dizer.
- Mas se tivesse dito qualquer coisa...
- Teria dito que Ben ter provavelmente um bom motivo.
- E eu teria dito que acertou.
- Vocs os dois no se entendem? - perguntou Thibault cautelosamente.
- Na realidade, entendemo-nos perfeitamente. Nada de fantstico. Mas
serve. O Ben e o pai  que no se entendem. O meu ex-marido tem
problemas com o filho - elucidou. - Julgo que ele queria um tipo de
rapaz diferente.
O olhar dele focou-a com inesperada intensidade. - Nesse caso, por que
 que deixa o Ben ir?
- No tenho escolha.
- Existe sempre uma escolha.
- No, neste caso no existe - explicou, inclinando-se para um lado e
tirando uma flor do canteiro ao lado da escada. - O pai tem custdia
conjunta, e se tentasse combater esse direito paterno, o mais provvel
era que o tribunal decidisse a favor dele. A haver alguma modificao,
era provvel que o Ben ainda tivesse de ir mais vezes.
- No me parece justo.
- No . Mas, por agora, no posso fazer muito mais do que dizer ao Ben
que se comporte o melhor possvel.
- Tenho a sensao de que a histria  um pouco mais complicada.
- Nem faz ideia - concordou ela, a rir-se.
- Quer falar disso?
- Na verdade, no.
112
Qualquer vontade que Thibault tivesse de a pressionar seria anulada
pela viso de Ben a caminhar para o alpendre. Vinha encharcado em suor,
de faces vermelhas, os culos um pouco tortos. Zeus trotava atrs, a
ofegar.
- Ol, mam!
- Ol, querido. Divertiste-te?
Zeus lambeu a mo de Thibault, antes de se deitar aos ps dele.
- O Zeus  formidvel. Viste-nos a jogar ao toca e foge?
- Claro - disse a me, chegando o Ben para mais perto de si. Passou-lhe
a mo pelo cabelo. - Pareces quente. Devias beber gua.
- J vou beber. Thibault e Zeus ficam para jantar?
- No falmos nisso.
Ben ajeitou os culos no nariz, no ligando ao pormenor de eles estarem
tortos. - Vamos comer tacos - anunciou a Thibault. - So
impressionantes. A mam tem um molho prprio e tudo.
- Certamente que so - observou Thibault em tom neutro.
- Falaremos do assunto, est bem? - foi dizendo enquanto sacudia as
ervas da camisa do filho. - Agora vai beber gua. E no te esqueas de
lavar as mos.
Ben sorriu. - Quero jogar s escondidas com o Zeus. Thibault disse que
eu podia.
- Como j disse, falaremos do assunto - prometeu Elizabeth.
- O Zeus pode entrar em casa comigo? Ele tambm tem sede.
- Vamos deix-lo c fora, est bem? Damos-lhe gua aqui. O que  que
aconteceu aos culos?
Ignorando os protestos do filho, tirou-lhos. - Demora apenas um
instantinho - prometeu. Dobrou as hastes e examinou o resultado, dobrou
um pouco mais e devolveu-os. - Experimenta agora.
Os olhos de Ben dirigiram-se para Thibault depois de pr os culos, mas
ele fingiu no reparar. Em vez disso, acariciou Zeus deitado calmamente
a seus ps. Elizabeth inclinou-se para trs para ver melhor.
- Perfeito! - exclamou.
- Esto bem - anuiu Ben. Subiu a escada, abriu a porta de rede e
deixou-a fechar-se com estrondo. Quando deixou de o ver, Elizabeth
voltou-se para Thibault.
- Deixei-o embaraado.
-  o que as mes fazem.
- Obrigada - agradeceu, sem esconder o sarcasmo. - Agora diga-me: o que
 isso de jogar s escondidas com o Zeus?
- Oh, falei-lhe nisso  beira do riacho. Ele perguntou o que o Zeus era
capaz de fazer e falei-lhe nisso. Mas no temos de o fazer esta noite.
113
- No, para mim ser ptimo - concordou ao pegar no copo de limonada.
Fez rodar os cubos de gelo, a reflectir, antes de se voltar para ele. -
Gostaria de ficar para jantar?
Os dois olhares encontraram-se. - Sim, gostaria muito.
- So apenas tacos - explicou Elizabeth.
- Eu ouvi. E obrigado. Os tacos soam a ameaa - sorriu e ps-se de p.
- Mas, por agora, deixe-me dar um pouco de gua a este animal. E 
provvel que tambm tenha fome. Importa-se que lhe d um pouco de
comida do canil?
-  claro que no. Temos muita. Ontem, vi algum a descarregar um monte
de sacos.
- Quem seria?
- No sei. Um preguioso de cabelos compridos, penso eu.
- Pensei que era um veterano com formao universitria. -?
- D no mesmo - concluiu. Pegou nos culos e levantou-se tambm. - vou
certificar-me de que o Ben se lavou. Costuma esquecer-se. At daqui a
uns minutos.
No canil, Thibault atestou de gua e comida as tigelas de Zeus e
sentou-se numa das jaulas vazias,  espera. Zeus no se apressou, bebeu
um pouco e depois foi dando pequenas dentadas na comida, como se
perguntasse: Por que  que ests a olhar para mim? Thibault manteve-
se calado; sabia que qualquer comentrio faria o co comer ainda mais
devagar.
Em vez disso, foi verificar as outras jaulas, embora Elizabeth dissesse
que j o tinha feito, assegurando-se de que nenhum dos ces tinha falta
de gua. No tinha. Nem se mexiam muito. bom sinal. Desligou as luzes
do escritrio e fechou a porta antes de regressar para junto da casa.
Zeus seguia-o, de nariz a rasar o cho.
 porta, mandou Zeus deitar-se e ficar ali, e abriu a porta de rede.
- Ol!
- Entre. Estou na cozinha.
Thibault entrou e encaminhou-se para a cozinha. Elizabeth pusera um
avental e estava junto do fogo, a tostar a carne. Na bancada, ao lado
dela, estava aberta uma garrafa de Michelob Light.
- Onde est o Ben? - indagou Thibault.
- No chuveiro. Deve descer daqui a um par de minutos - informou.
Acrescentou temperos j preparados e gua  carne, e a seguir passou as
mos por gua. Depois de as secar no avental, pegou na cerveja. -
Tambm quer? Nas noites em que h tacos bebo sempre uma cerveja.
- Adoraria.
114
Elizabeth tirou a cerveja do frigorfico e entregou-lha. -  light. No
temos outra.
- Obrigado.
Encostou-se  banca e analisou a cozinha. Em certos aspectos
assemelhava-se  da casa que alugara. Armrios originais da casa, lava-
loua de ao inoxidvel, candeeiros antigos e uma pequena sala de
jantar montada junto da janela, mas tudo um pouco mais bem conservado,
com toques femininos aqui e ali. Flores num vaso, uma travessa com
fruta, janelas tratadas. Acolhedora.
Elizabeth tirou alfaces e tomates do frigorfico, juntamente com uma
fatia de queijo cheddar, e ps tudo em cima da bancada. Juntou pimentos
e cebolas, levando tudo para junto da tbua de corte; tirou uma faca e
o ralador de queijo de uma gaveta. Comeou a pelar e a cortar a cebola,
com movimentos rpidos e fceis.
- Precisa de ajuda?
Olhou-o com cepticismo. - No me diga que alm de treinar ces, reparar
automveis e ser msico, tambm  cozinheiro.
- No iria to longe. Mas sei movimentar-me numa cozinha. Cozinho o
jantar todas as noites.
- Ah, sim? O que  que comeu na noite passada?
- Sandes de peru. Compickles.
- E na noite anterior?
- Sandes de peru. Sem pickles.
- Qual foi a ltima refeio que cozinhou? - perguntou uma Elizabeth
sorridente.
Ele fingiu espremer os miolos. - Hum... feijo guisado. Na segunda-
feira.
Ela fingiu espanto. - Estou esclarecida. Sabe ralar queijo?
- Quanto a isso posso considerar-me um especialista.
- Muito bem. H uma fatia naquele armrio por baixo do misturador. E
no  necessrio cort-la toda. O Ben costuma comer dois tacos e eu s
como um. Todo o resto ser para si.
Thibault ps a cerveja em cima da bancada e tirou a tigela do armrio.
A seguir foi at ao lava-louas, lavou as mos e desembrulhou o pedao
de queijo. Olhava de esguelha para Elizabeth enquanto trabalhava.
Acabada a preparao da cebola, ela j estava a tratar dos pimentos. Os
tomates foram a seguir. Empunhava a faca com firmeza, com movimentos
precisos.
- Faz isso to depressa.
Respondeu sem abrandar o ritmo dos movimentos. - Houve uma altura em
que sonhei abrir um restaurante.
115
- Quando foi isso?
- Aos quinze anos. At pedi uma faca Ginsu como prenda de aniversrio.
- Est a falar daquela que  anunciada a altas horas da noite? A que o
tipo do anncio utiliza para cortar uma lata?
Ela assentiu. -  essa.
- Deram-lha?
-  a faca que estou agora a usar.
Thibault sorriu. - Nunca conheci algum disposto a admitir ter comprado
uma.
- Agora j conhece - corrigiu ela. Lanou-lhe uma olhadela rpida. -
Tive aquele sonho de abrir um grande restaurante em Charleston ou em
Savannah e de mostrar os meus prprios livros num programa televisivo.
Maluquice, reconheo. Mas, de qualquer maneira, passei o Vero a
praticar o uso da faca. Cortava tudo, o mais depressa que podia, at
ser to rpida como o homem do anncio. Enchia tigelas Tupperware com
meles, cenouras e abboras que apanhava no jardim. A Nana andava
maluca, pois tnhamos de comer guisado de Vero quase todos os dias.
- O que  um guisado de Vero?
- Qualquer mistura que possa ser servida com massa ou arroz. Thibault
sorriu enquanto afastava a pilha de queijo ralado para o lado. - E
depois, aconteceu o qu?
- Acabou o Vero e deixmos de ter vegetais.
- Ah! - limitou-se a comentar, a pensar como  que alguma mulher podia
parecer to bonita com um avental.
Elizabeth tirou outro tacho de debaixo do fogo. - Ora bem, vou fazer o
molho.
Usou uma grande quantidade de calda de tomate, a que acrescentou
cebolas e pimentos, um pouco de Tabasco, bem como sal e pimenta.
Misturou tudo muito bem e colocou a temperatura do fogo na posio
mdia.
- Uma receita pessoal?
-  da Nana. O Ben no aprecia comidas muito picantes e ela criou esta.
Terminada a preparao, Thibault embrulhou o queijo restante e
perguntou: - E que mais h para fazer?
- No muito. S tenho de preparar umas alfaces e  tudo. Oh, e aquecer
as bases no forno. vou deixar a carne e o molho a ferver em lume brando
durante algum tempo.
E quanto s bases?
116
Entregou-lhe uma folha de massa e ligou o forno. - Basta estender um
pouco a massa. Trs para ns e as que desejar para si. Mas no as ponha
ainda no forno. Ainda temos uns minutos e o Ben gosta delas acabadas de
sair do forno.
Thibault fez como lhe fora pedido e ela terminou a preparao da
alface, quase ao mesmo tempo. Elizabeth colocou trs pratos em cima da
bancada. Pegando de novo na cerveja, apontou para a porta.
- Volte c para fora. H uma coisa que quero mostrar-lhe.
Ele seguiu-a, mas no andou muito, parou ao reparar no que se via a
partir do alpendre. Cercados por uma sebe, havia uma srie de carreiros
calcetados que rodeavam canteiros circulares feitos de tijolo, cada um
com uma rvore; no centro do jardim, servindo de ponto de referncia,
havia uma fonte com trs sadas de gua que alimentavam um grande
tanque com carpas.
- Caramba! - murmurou. -  grandioso.
- E no fazia ideia do que estava aqui, pois no?  um belo espectculo
mas devia v-lo na Primavera. Todos os anos, eu e a Nana plantamos uns
milhares de tulipas, narcisos e lrios, que comeam a florir logo a
seguir s azleas e cornisos-floridos. De Maro a Julho este jardim 
dos mais belos lugares da Terra. E acol? Para alm da cerca mais
baixa? - indicou, apontando para a direita. -  o terreno dos nossos
mais ilustres vegetais e hortalias.
- Nana nunca me falou em jardinagem.
- Nunca o faria. Era uma coisa que partilhava com o av, como se fosse
um pequeno segredo deles. Como o canil  ali ao lado, quiseram fazer
disto uma espcie de osis para onde podiam fugir do negcio, dos ces,
dos donos... at dos empregados.  claro que o Drake e eu, e depois o
Ben, estvamos autorizados a entrar, mas, na maior parte do tempo, isto
era s deles. Foi o nico projecto em que o av atingiu o nvel de
excelncia. Depois da morte dele, a Nana decidiu mant-lo em memria do
marido.
-  incrvel - comentou Thibault.
- No ? No era to fantstico quando ramos crianas. A menos que
andssemos a plantar bolbos, no estvamos autorizados a brincar neste
espao. Todas as nossas festas de aniversrio se faziam no relvado da
frente, que separa a casa do canil. O que significava que, dois dias
antes, tnhamos de remover toda a trampa para que ningum a pisasse
inadvertidamente.
- Posso admitir que esse trabalho lhes tirasse a vontade de fazer
festas...
- Eh! Onde  que esto? - perguntou uma voz vinda da cozinha.
117
Elizabeth voltou-se ao ouvir a voz do filho. - Estamos aqui, querido.
Estou a mostrar o jardim das traseiras a Mr. Thibault.
Ben saiu, vestia uma T-shirt preta e calas de camuflado. - Onde est o
Zeus ? Estou preparado para ele me descobrir.
- Primeiro vamos comer. Faremos isso depois do jantar.
- Mam...
- De qualquer maneira, ser melhor depois de escurecer - interrompeu
Thibault. - Nessa altura poders mesmo esconder-te. Tambm ser mais
divertido para o Zeus.
- O que  que quer fazer at l?
- A tua av disse que jogas xadrez. Ben encarou-o com um ar cptico. -
Sabe jogar xadrez?
- Talvez no seja to bom como tu, mas sei jogar.
- Muito bem - concordou, a coar o brao. - Eh, onde  que disse que
estava o Zeus?
- No alpendre da frente.
- Posso ir brincar com ele?
- Primeiro ters de pr a mesa - ordenou Elizabeth. - Dispes apenas de
um par de minutos. O jantar est quase pronto.
- Muito bem - aceitou, voltando-lhes as costas. - Obrigado. Enquanto
Ben saa  pressa, ela curvou-se para o lado de Thibault, ps as mos
em concha  volta da boca e lembrou: - No te esqueas da mesa!
Ben fez derrapar os ps mas parou. Abriu uma gaveta e pegou em trs
garfos, que atirou para cima da mesa como um distribuir de cartas de
Las Vegas, a que se seguiram os pratos que Elizabeth j pusera de lado.
No total, precisou de uns dez segundos, e a mesa era testemunha disso,
antes de desaparecer da vista deles. - At  chegada de Zeus, Ben
costumava ser uma criana tranquila e calma quando vinha da escola.
Costumava ler e estudar, mas agora s lhe apetece correr atrs do seu
co.
Thibault mostrou uma expresso de culpa. - Sinto-me responsvel.
- No sinta. Creia-me, aprecio um pouco de... tranquilidade, como
qualquer me, mas  agradvel v-lo to entusiasmado.
- Por que no lhe arranja um co?
-  o que farei. Em devido tempo. Logo que consiga saber como vai
evoluir o estado da Nana - esclareceu; bebeu mais um gole de cerveja e
apontou para a casa. - Vamos ver como est o jantar. Julgo que o forno
estar pronto.
De volta  cozinha, Elizabeth foi ao forno buscar a caarola, mexeu a
carne e o molho, antes de dividir tudo por duas tigelas. Ao traz-las
118
para a mesa, juntamente com uma pilha de guardanapos de papel, Thibault
ajeitou os talheres e os pratos e trouxe o queijo, a alface e o tomate.
Ficou a v-la pousar o copo de cerveja em cima da mesa, uma vez mais
impressionado pela beleza natural dela.
- Quer ir chamar o Ben, ou vou eu?
Thibault fez um esforo para se voltar. - Eu chamo o Ben.
Ben estava sentado no alpendre de frente, a fazer festas a um Zeus
estafado, acariciando-lhe o plo, desde a cabea  cauda, em movimentos
lentos.
- Cansaste o co - observou Thibault.
- Corro muito depressa - concordou Ben.
- Queres comer? O jantar est na mesa.
Ben ps-se de p e Zeus ergueu a cabea. - Ficas aqui - mandou Thibault
e o co ficou de orelhas murchas, como se estivesse a ser castigado.
Mas tornou a baixar a cabea quando Ben e Thibault entraram em casa.
Elizabeth j estava sentada  mesa. Logo que Ben e Thibault se
instalaram, o garoto comeou de imediato a encher o seu taco de carne.
- Gostaria de saber mais pormenores acerca da sua caminhada atravs do
pas - pediu Elizabeth.
- Eu tambm - concordou Ben, servindo-se de mais molho. Thibault pegou
no guardanapo e estendeu-o em cima das pernas.
- O que  que pretendem saber?
Ela desdobrou o guardanapo. - Por que no comea pelo princpio?
Por instantes, Thibault reflectiu sobre a verdade: comeara com uma
fotografia no deserto do Kuwait. Mas no podia revelar esse pormenor.
Em vez disso, comeou por descrever uma manh fria de Maro, em que
pusera a mochila s costas e comeara a calcorrear a berma da estrada.
Falou-lhes do que viu; para satisfazer a curiosidade de Ben, falou da
vida selvagem com que deparou, sem se esquecer de mencionar algumas das
pessoas mais interessantes que encontrou. Elizabeth pareceu compreender
que ele no estava acostumado a falar de si; por isso, estimulou-o com
perguntas sempre que ele parecia no ter mais que dizer. A seguir, fez-
lhe mais umas perguntas sobre a universidade e Ben ficou divertido por
saber que o homem sentado a seu lado  mesa tinha realmente
desenterrado esqueletos verdadeiros. Ben fez tambm algumas perguntas:
se ele tinha irmos ou irms? Thibault respondeu que no tinha. Se
praticara desportos? Praticara alguns, mas fora um praticante mediano,
nada de fantstico.
119
Qual era a equipa de futebol favorita dele? Os Denver Broncos, claro.
Enquanto Ben e Thibault conversavam, Elizabeth seguia a tagarelice
deles com interesse.
com o dia a morrer, a luz que entrava pelas janelas comeou a mudar de
cor e a desaparecer, deixando a cozinha s escuras. Acabaram de comer
e, depois de pedir desculpa, Ben foi reunir-se a Zeus no alpendre.
Thibault ajudou Elizabeth a arrumar a mesa, embrulhando as sobras e
empilhando pratos e talheres no lava-loua. Desrespeitando as suas
prprias regras, Elizabeth abriu mais uma cerveja e ofereceu outra a
Thibault, antes de ambos fugirem do calor da cozinha e virem para o
exterior.
No alpendre o ar era bastante mais fresco e a brisa fazia danar as
folhas das rvores. Ben e Zeus andavam de novo na brincadeira, as
gargalhadas do garoto pareciam suspensas do ar. Elizabeth encostou-se
ao corrimo, a observar o filho, e Thibault teve de esforar-se para
no ficar a olhar para ela. Nenhum deles sentia necessidade de falar e
Thibault bebeu um longo trago da sua cerveja, a desejar saber onde tudo
aquilo iria lev-lo.
120
BETH
 medida que a noite caa, Beth estava de p no alpendre das traseiras,
a observar como Logan se concentrava no tabuleiro de xadrez que tinha 
frente, a pensar gosto dele. Quando o pensamento lhe ocorreu, achou o
sentimento simultaneamente surpreendente e natural.
Ben e Logan estavam a disputar o seu segundo jogo de xadrez; Logan
estava a pensar no movimento seguinte. Ben ganhara facilmente o
primeiro jogo e ela no deixou de reparar na expresso de surpresa de
Logan. Aceitou bem a derrota e at perguntou a Ben onde  que errara.
Colocaram as peas nas posies originais e Ben mostrou a srie de
erros cometidos por Logan, primeiro com a torre e a rainha e,
finalmente, com o cavalo.
- bom, percebi - comentou Logan. Sorriu para Ben: - Belo trabalho.
Nem queria imaginar como Keith reagiria se fosse ele a perder. De
facto, nem precisava de imaginar a situao. Tinham jogado uma vez e,
quando Ben ganhou, Keith virara literalmente tudo do avesso, antes de
sair porta fora. Uns minutos depois, ainda Ben andava a reunir as peas
atiradas para trs da moblia, Keith voltara  sala. Em vez de pedir
desculpa, declarara que o xadrez era uma perda de tempo e que seria
melhor que Ben fizesse qualquer coisa importante, como estudar as
lies ou aplicar-se no beisebol, visto que batia a bola como se fosse
cego.
Por vezes, sentira realmente vontade de estrangular aquele homem.
Porm, com Logan tudo era diferente. Via perfeitamente que Logan estava
de novo em dificuldades. No sabia bem como, pois as complicaes que
distinguiam um bom jogador de um jogador extraordinrio ultrapassavam-
na, mas sempre que Ben estudava o adversrio
121
em vez de focar as pedras do tabuleiro, sabia que o fim estava prximo,
mesmo que Logan ainda se no tivesse apercebido do que estava para
acontecer.
O que mais lhe agradava na cena era que, embora concentrados nas
exigncias do jogo, Logan e Ben continuavam a... conversar. Sobre a
escola e sobre os professores de Ben, ou do Zeus quando era cachorro, e
como Logan parecia verdadeiramente interessado, Ben revelou um certo
nmero de pormenores que a surpreenderam: como o saber que outros
rapazes da turma lhe tinham roubado o almoo duas vezes e que o filho
se sentia atrado por uma rapariga chamada Clei. Logan no lhe dava
conselhos; em vez disso, perguntava a Ben o que  que ele tencionava
fazer. Baseada na sua experincia com homens, sabia que, na sua
maioria, quando se lhes fala de um dilema ou de um problema, eles
sentem-se na obrigao de emitir opinies, mesmo quando apenas se lhes
exige que ouam,
Na realidade, as reticncias naturais de Logan pareciam dar a Ben o
espao de que ele precisava para se expressar. Era evidente que Logan
estava satisfeito com a pessoa que era. No tentava impressionar o
garoto, ou a ela, demonstrando a facilidade com que dialogava com Ben.
Embora tivesse namorado pouco nos anos mais recentes, descobrira que,
na sua maioria, os homens fingiam que Ben no existia, diziam-lhe
apenas umas quantas palavras ou exageravam na maneira como falavam com
ele, tentando provar como eram maravilhosos por tratarem o filho dela
de forma to amistosa. Desde tenra idade, Ben aprendera a reconhecer de
imediato qualquer dos tipos. Ela tambm, o que habitualmente era o
suficiente para pr termo ao relacionamento. Bem, quando no eram eles
a terminar a relao com ela.
Era bvio que Ben gostava de estar com Logan e, melhor ainda, Beth
tinha a sensao de que Logan gostava de estar com Ben. Em silncio,
Logan continuava a analisar o tabuleiro; colocou um dedo
momentaneamente em cima do cavalo, mas pareceu ir decidir-se por um
peo. Ben ergueu as sobrancelhas muito ligeiramente. Beth no saberia
dizer se Ben considerava a jogada de Logan boa ou m, mas Logan avanou
mesmo o peo.
Ben respondeu quase imediatamente, algo que lhe pareceu constituir um
mau sinal para Logan. Uns minutos depois, Logan pareceu aperceber-se de
que no tinha maneira de defender o rei. Abanou a cabea.
- Apanhaste-me. ?
Ben confirmou. - Pois apanhei.
122
- Pensei que estava a jogar melhor.
- E estava - confirmou Ben.
At?
- At fazer a segunda jogada. ? Logan riu-se. - Humor de xadrezista?
- Temos muitos ditos deste gnero - explicou Ben, obviamente orgulhoso.
Apontou para o tabuleiro. - No est j muito escuro?
- Acho que sim. Zeus, ests preparado para a brincadeira?
O co eriou as orelhas e inclinou a cabea para um lado. Quando Ben e
Logan se levantaram, Zeus ps-se de p.
- Mam, tambm vens?
Beth levantou-se da cadeira. - vou logo atrs de ti. Procuraram o
caminho na escurido da frente da casa. Beth parou no fundo da escada.
- Talvez fosse melhor levar uma lanterna. Ben no aprovou a ideia. -
Isso  batota!
- No  para o co.  para ti. Para no te perderes.
- No vai perder-se - garantiu Logan. - O Zeus encontra-o.
- Fcil de dizer quando no se trata do nosso filho.
- Vai correr tudo bem comigo - acrescentou Ben.
A abanar a cabea, Beth olhou alternadamente para Ben e para Logan. No
se sentia completamente  vontade, mas Logan no parecia nada
preocupado. - Est bem - concordou Beth, respirando fundo. - Quero uma
para mim, se no se importam.
- Muito bem - apoiou Ben. - O que  que fao?
- Esconde-te - sugeriu Logan. - E mandarei o Zeus  tua procura.
- vou para onde eu quiser?
- Por que no vais esconder-te naquele lado? - aconselhou Logan, a
apontar uma zona arborizada do lado ocidental do riacho, na ponta
oposta do caminho de acesso em relao ao canil. - No quero que caias
acidentalmente no riacho.  que, alm do mais, o teu cheiro perde-se.
Lembra-te que estiveram ambos a brincar a isto antes do jantar. Agora,
se ele te encontrar, limitas-te a segui-lo, est bem? Dessa forma, no
te perders.
Ben perscrutou o bosque. - Est bem. Como  que eu sei que ele no v
para onde eu vou?
- Levo-o l para dentro e conto at 100 antes de o soltar.
- E no o deixa espreitar?
- Prometo - disse Logan e concentrou-se em Zeus. - Anda ordenou. Foi
at  porta e abriu-a, mas parou. - No faz mal que o deixe entrar?
123
Beth anuiu. - Esteja  vontade.
Logan mandou o co entrar e deitar-se, para em seguida fechar a porta.
- Muito bem, prepara-te.
Ben comeou a correr em direco ao bosque e Logan comeou a contagem
em voz alta. - Conte mais devagar! - bradou Ben por cima do ombro. A
figura do garoto desapareceu gradualmente na escurido e, ainda antes
de chegar junto das rvores, j deixara de ser visto.
Beth cruzou os braos. - Devo dizer que nada disto me parece bem.
- Porqu?
- O meu filho escondido no bosque durante a noite? Meu Deus, aflige-me.
- Vai tudo correr bem. O Zeus encontra-o dentro de dois ou trs
minutos. No mximo.
- Tem uma confiana desmedida no seu co.
Logan sorriu e, por momentos, ficaram no alpendre a apreciar a noite. O
ar, morno e hmido, j sem o calor do dia, cheirava  prpria terra:
uma mistura de carvalho, pinheiro e terra, um odor que nunca deixava de
recordar a Beth que, mesmo num mundo em constante mudana, aquele lugar
parecia-lhe sempre igual.
Tinha conscincia de que Logan a observara durante toda a noite,
tentando no a olhar fixamente, e sabia que tinha feito o mesmo em
relao a ele. Apercebeu-se de que gostava da maneira como Logan a
fazia sentir-se. Agradava-lhe que ele a achasse atraente, mas apreciava
que a atraco sentida por ele no possusse qualquer da ansiedade e
daquele desejo cru que muitas vezes detectava nos homens que a olhavam.
Em vez disso, ele parecia contente s por estar junto dela e, por
qualquer motivo, era exactamente aquilo de que ela necessitava.
- Estou contente por ter ficado para jantar - observou Beth, sem saber
o que mais dizer. - O Ben est a divertir-se  grande.
- Tambm estou contente.
- Foi to bom para ele depois do jantar. A jogar xadrez, quero dizer.
- No  difcil.
- No acha, pois no?
Thibault hesitou. - Est novamente a pensar no seu ex-marido?
Beth encostou-se a um esteio. -  assim to evidente? Mas tem razo.
Estou a falar do meu ex-marido. Do estpido.
Ele encostou-se ao esteio do outro lado da escada, de frente para ela.-
E?
- E s gostava que as coisas pudessem ser diferentes.
124
Nova hesitao, e ela sabia que ele ponderava se devia dizer mais
alguma coisa. Acabou por no dizer.
- No gostaria dele - sugeriu Beth. - Na verdade, penso que ele tambm
no gostaria de si.
- No?
- No. E considere-se feliz. No perde nada.
Ele encarou-a com um olhar firme, sem fazer comentrios. Recordando a
forma como ela se fechara antes, sups. Afastou alguns cabelos que lhe
tinham cado para os olhos, a avaliar se deveria continuar.
- Quer ouvir a histria?
- S o que me quiser dizer.
Beth sentiu que os pensamentos lhe deslizavam do presente para o
passado.
-  a mais velha histria do manual... Eu era uma aluna algo marginal a
acabar o curso secundrio, ele era uns anos mais velho do que eu, mas
frequentvamos a mesma igreja desde sempre, por isso eu sabia
exactamente quem ele era. Comemos a sair uns meses antes da minha
graduao. Era de uma boa famlia, sempre namorara as raparigas mais
populares e acho que me deixei prender por esse conjunto de fantasias.
Passei por cima de problemas bvios, arranjei desculpas para outros e,
de um dia para o outro, descobri que estava grvida. De sbito, a minha
vida passada... modificou-se simplesmente, percebe? J no ia entrar na
universidade naquele Outono, nem fazia ideia do que era ser me, quanto
mais uma me solteira; no fazia ideia de como iria conseguir ser tudo
aquilo. A ltima coisa que desejava era que ele me propusesse
casamento. Mas, por qualquer razo, foi o que fez; e eu concordei e,
mesmo que eu quisesse acreditar que tudo iria dar certo e desse o meu
melhor para convencer a Nana de que sabia o que estava a fazer, penso
que ambos sabamos que cometramos um erro, ainda antes de ter secado a
tinta da certido de casamento. No tnhamos virtualmente nada em
comum. De qualquer maneira, havia zangas frequentes e acabmos por nos
separar depois de Ben ter nascido. E, ento, senti-me verdadeiramente
perdida.
Logan juntou as mos. - Mas nada disso a fez parar.
- Parar de fazer o qu?
- De acabar por ir para a universidade e de ser professora. E de
descobrir como ser me solteira - comentou. - De, fosse como fosse,
resolver a situao.
Beth presenteou-o com um sorriso de gratido. - com a ajuda da Nana.
125
Thibault cruzou uma perna por cima da outra, parecendo analis-la,
antes de sorrir. - Fosse como fosse, ultrapassou a situao. Algo
marginal, ento?
- Na escola secundria?  evidente que era uma verdadeira marginal.
- Difcil de acreditar.
- Acredite no que quiser.
- E a universidade, como correu?
- Por causa do Ben? No foi fcil. Mas eu j dispunha de uns crditos,
que me deram algum avano inicial, e tive aulas no colgio comunitrio
enquanto Ben ainda usava fraldas. Ia s aulas apenas duas ou trs vezes
por semana, enquanto a Nana tomava conta do Ben; quando chegava a casa
e tinha algumas folgas no papel de me, estudava. Sucedeu o mesmo
quando fui transferida para a Universidade de Carolina do Sul, em
Wilmington, suficientemente perto para frequentar as aulas e vir ficar
a casa. Precisei de seis anos para conseguir a licenciatura e o
certificado, mas no quis sobrecarregar a Nana e no quis que o meu ex-
marido tivesse razes para exigir a tutela total. E, na altura, talvez
ele estivesse disposto a tent-la, s porque podia.
- Parece um ser fascinante... Ela sorriu. - Nem faz ideia.
- Quer que lhe d uma tareia?
Beth soltou uma gargalhada. - Engraado. Houve uma altura em que
aproveitaria a oferta, mas agora j no. Ele  apenas... imaturo. Julga
que qualquer mulher que encontre fica perdida por ele, zanga-se por
ninharias e culpa os outros sempre que algo corre mal. Tem trinta e um
anos e vai a caminho dos dezasseis, se percebe o que quero dizer -
concluiu. Pelo canto do olho, viu Logan a observ-la. - Mas no falemos
mais dele. Conte-me alguma coisa de si.
- Tal como?
- Qualquer coisa que eu no saiba. Por que se licenciou em Antropologia?
Ficou a reflectir sobre a questo. - A personalidade, acho eu.
- O que  que isso significa?
- Sabia que no queria estudar matrias prticas, como gesto ou
engenharia e, no final do meu ano de caloiro, comecei a falar com
alunos mais adiantados de humanidades. Os mais interessantes que
encontrei foram os de antropologia. Julguei que fosse interessante.
- Est a brincar.
- No estou. Pelo menos foi por isso que assisti s primeiras aulas de
introduo. Depois, apercebi-me de que a Antropologia  uma
126
mistura fantstica de histria, conjectura e mistrio, tudo coisas que
me interessavam. Fiquei viciado.
- E quanto s festas?
- No me interessaram. .T" ?-. :,
JogOS de futebol? Mi ;. v V
- No.
- Alguma vez sentiu que perdia oportunidades que a universidade lhe
poderia proporcionar?
- No.
- Eu tambm no - anuiu Beth. - Pelo menos nada melhor que a existncia
de Ben.
Thibault assentiu e apontou para o bosque. - Ora bem... no pensa que
est na altura de o Zeus procurar o Ben?
- Oh, meu Deus! - exclamou Beth, ligeiramente assustada.
- Claro. Ele encontra-o, no  verdade? Quanto tempo j passou?
- No muito. Talvez cinco minutos. vou buscar o Zeus. E no se
preocupe. No levar muito tempo.
Logan foi abrir a porta. Zeus trotou para fora, a sacudir a cauda e
dirigiu-se para a escada. Imediatamente levantou uma perna ao lado do
alpendre e depois voltou a subir a escada para junto de Logan.
- Onde est o Ben? - perguntou Logan.
Zeus arrebitou as orelhas. Logan apontou na direco tomada por Ben. -
Procura o Ben.
O co voltou-se e comeou a descrever grandes arcos, de nariz no cho.
Dentro de segundos achou a pista e desapareceu na escurido.
- Devemos ir atrs dele? - perguntou Beth.
- Se quiser.
- Quero. ?
- Ento, vamos.
Mal tinham chegado s primeiras rvores quando ouviram o ladrar alegre
de Zeus. E logo a seguir a voz de Ben, a gritar de contente. Quando ela
se voltou para Logan ele deu de ombros.
- No estava a mentir, pois no? Quanto tempo levou? Dois minutos?
- No foi difcil para ele. Eu sabia que o Ben no poderia estar muito
longe.
- Qual foi a maior pista alguma vez seguida por ele?
- Seguiu a pista de um veado durante, no sei bem, uns doze
quilmetros. Mais quilmetro, menos quilmetro. Poderia ter continuado,
mas teria de ultrapassar a cerca de uma propriedade. Foi no Tennessee.
127
- Por que seguia o veado?
- Para praticar.  um co esperto. Gosta de aprender e de usar as suas
capacidades - estava a explicar no momento em que Zeus emergiu de entre
as rvores, com Ben um passo atrs dele. - Razo pela qual isto o
regala tanto quanto diverte o Ben.
- Foi espantoso! - gritou Ben. - Veio direitinho a mim. Eu estava bem
caladinho!
- Queres repetir? - perguntou Logan.
- Posso? - implorou Ben.
- Se a mam concordar.
Ben voltou-se para a me e esta ergueu as mos. - Avana!
- Muito bem, feche-o outra vez dentro de casa. E desta vez vou
esconder-me a srio - garantiu Ben.
- Isso  contigo.
Da segunda vez que Ben se escondeu, o co encontrou-o numa rvore. Na
terceira, com Ben a voltar pelo mesmo caminho para desorientar o
animal, Zeus encontrou-o a uns 400 metros de distncia, na sua casa da
rvore na margem do riacho. Ben no estava entusiasmado com a sua
ltima escolha; a ponte instvel pareceu-lhe bastante mais perigosa 
noite mas, na altura, comeava a ficar cansado e quase pronto a
desistir.
Logan seguiu-os de regresso a casa. Depois de dar as boas-noites a Ben,
voltou-se para Beth e pigarreou: - Quero agradecer-lhe este sero
fantstico, mas acho melhor ir indo para casa - concluiu.
Apesar de serem quase dez horas, Beth preferiria que ele ficasse mais
um pouco.
- Quer que lhe d boleia? - ofereceu. - O Ben estar a dormir dentro de
poucos minutos e no tenho problemas para o levar a casa.
- Obrigado pela oferta, mas no  preciso. Gosto de andar.
- Eu sei. No sei muito acerca de si, mas disso no tenho dvidas -
comentou, a sorrir. - Nesse caso, at amanh, no ?
- Estarei c s sete.
- Se quiser vir um pouco mais tarde, poderei dar a comida aos ces.
- No  necessrio. Alm disso, gostarei de ver o Ben antes de ele
sair. E tenho a certeza de que o Zeus tambm gostar. O pobre do co
talvez nem saiba o que h-de fazer sem ter o Ben a correr atrs dele.
Beth apertou os braos, subitamente desapontada com a ideia da partida
de Logan. - Muito bem, ento...
128
- No se ope a que eu amanh leve a carrinha? Preciso de ir  cidade
comprar umas peas para afinar os traves. Se houver problemas posso ir
a p.
Beth sorriu. - Pois pode, eu sei. Mas no h problema. Tenho de ir
deixar o Ben e fazer umas compras mas, se no nos virmos, deixo as
chaves debaixo do tapete do lado do condutor.
- ptimo - rematou, olhando directamente para ela. - Boa noite,
Elizabeth.
- Boa noite, Logan.
Depois de ele ter partido, Beth foi ver como estava o filho e deu-lhe
mais um beijo na bochecha, antes de ir para o seu quarto. Recordou o
sero e despiu-se, a meditar sobre um mistrio chamado Logan Thibault.
Era diferente de qualquer dos homens que conhecera, pensou, e, de
imediato, repreendeu-se por ser to pouco imaginativa. Era claro que
era diferente, disse para si mesma. Conhecia-o havia pouco tempo. Nunca
passara muito tempo com ele. Ainda assim, julgou ter maturidade
suficiente para reconhecer a verdade quando a encontrasse.
Logan era diferente. Deus sabia que Keith no era em absoluto como ele.
Nem, na realidade, qualquer homem que ela tivesse namorado depois do
divrcio. Na sua maioria, tinham sido homens bastante fceis de
compreender; delicados e encantadores, ou brutos e pouco educados que
fossem, todos os seus actos revelavam de forma transparente o desejo de
a levar para a cama. Porcaria de homens, segundo a descrio de Nana.
E a av, como Beth sabia, no estava enganada.
Porm, com Logan... bom, a dificuldade era essa. No fazia ideia
daquilo que ele queria dela. Sabia que a considerava atraente e parecia
apreciar a companhia dela. Mas, para alm disso, no fazia a mais
pequena ideia de quais poderiam ser as intenes dele, pois apreciava
igualmente a presena de Ben. De certa maneira, Logan tratava-a como um
certo nmero de homens casados que conhecia: s bonita e interessante,
mas j sou comprometido.
Ocorreu-lhe, portanto, que talvez fosse comprometido. Provavelmente
haveria uma namorada no Colorado, ou talvez tivesse apenas acabado de
romper com o amor da sua vida e se encontrasse ainda em perodo de
ressaca. Voltando atrs, apercebeu-se de que, embora ele descrevesse as
coisas que vira e fizera durante a viagem pelo pas, continuava a no
fazer a mnima ideia dos motivos que o haviam levado, em primeiro
lugar, a empreender a caminhada, em segundo, a termin-la em Hampton. A
histria no era assim to misteriosa, tinha
129
apenas pontos obscuros, o que era estranho. Uma coisa aprendera acerca
dos homens: gostam de falar de si prprios, dos empregos, dos
passatempos, dos feitos passados, das motivaes. Logan no falara de
nada disso. Incompreensvel.
Abanou a cabea, a pensar que talvez estivesse apenas a divagar. No
tinham ido jantar fora, no fora um namoro. Revelara-se mais uma
reunio amistosa: tacos, xadrez e conversa. Um sero em famlia.
Vestiu o pijama e tirou uma revista da mesinha de cabeceira. Folheou-a
com ar ausente, antes de apagar as luzes. Contudo, depois de fechar os
olhos, continuou a ver a maneira como os cantos da boca dele se erguiam
ligeiramente sempre que Beth dizia qualquer coisa que ele julgasse
engraada ou a maneira como as sobrancelhas dele se uniam quando se
concentrava numa tarefa. Passou muito tempo s voltas na cama, incapaz
de dormir, a tentar imaginar que talvez, apenas talvez, Logan estivesse
tambm a pensar nela.
THIBAULT
Thibault ficou a observar Victor lanar a sua linha nas guas frias do
Minnesota. Era uma manh de sbado, sem nuvens. O ar estava calmo, o
lago espelhava o cu imaculado. Tinham partido cedo para o lago,
pretendendo pescar antes da chegada da multido com os seus esquis
aquticos e barcos a motor. Gozavam o ltimo dia de frias; tinham voos
marcados para o dia seguinte. Para a ltima noite, tinham pensado
jantar numa churrasqueira local, que sabiam ser a melhor da cidade.
- Penso que conseguirs encontrar esta mulher - anunciou Victor  laia
de prembulo.
- Quem? - perguntou Thibault, que estava a enrolar a sua prpria linha.
- A mulher da foto, a que te d sorte.
Thibault encarou o amigo de olhos semicerrados. - De que  que ests a
falar?
- Quando a procurares, acho que acabars por a encontrar.
- No vou  procura dela - retorquiu Thibault a inspeccionar
cuidadosamente o anzol e a lanar de novo.
-  o que dizes agora. Mas vais.
Thibault abanou a cabea. - No, no vou. E, mesmo que quisesse
procur-la, no saberia como.
Victor parecia sentir-se orgulhoso da sua certeza. - Hs-de encontrar
uma maneira.
- Para comear, por que  que ests a falar disso? - perguntou
Thibault, a olhar o amigo de frente.
- Porque - sentenciou Victor - ainda no acabou.
- Acabou, acredita.
- Sei que pensas assim. Mas ests enganado. ;. .,..
131
H muito que Thibault aprendera que, uma vez lanado numa discusso,
Victor continuaria a argumentar at se sentir satisfeito por ter
exposto todas as suas opinies. Como no era assim que queria passar o
seu ltimo dia de frias, Thibault pensou acabar com a questo de uma
vez por todas.
Respirou fundo. - Ora bem, por que  que no acabou? Victor deu de
ombros. - Porque no existe equilbrio.
- No existe equilbrio - repetiu Thibault em voz neutra.  - Pois -
corroborou Victor. - Exactamente. Ests a ver? - No.
Victor resmungou com a burrice do amigo. - Digamos que contratas algum
para construir um telhado na tua casa. O homem trabalha bem e, no
final,  pago. S no final da obra. Mas, neste caso, com a fotografia,
 como se o telhado tivesse sido colocado mas no fosse pago. At que o
pagamento seja efectuado, tudo est em desequilbrio.
- Ests a dizer que eu devo alguma coisa quela mulher? - respondeu a
voz cptica de Thibault.
- Estou. A fotografia manteve-te em segurana e trouxe-te sorte. Mas o
caso s termina quando o pagamento for feito.
Thibault abriu a geladeira e tirou um refrigerante. Tambm tirou um
para Victor. - No percebes que ests a ser tolo?
Victor aceitou a lata com um aceno. - Para alguns, talvez. Mas acabars
por ir  procura dela. Tudo isto obedece a um desgnio superior.  o
teu destino.
- O meu destino. - Exactamente.
- E isso quer dizer o qu?
? - No sei. Mas sabers quando l chegares.
Thibault permaneceu calado, a desejar que Victor nunca tivesse falado
do assunto. Em silncio, Victor ficou a observar o amigo.
- Victor, no estou apaixonado por ela.
- No?
? - No. - E, no entanto, pensas nela com frequncia - comentou Victor.
A isto, Thibault no respondeu, pois no encontrou o que quer que fosse
para dizer.
Na manh de domingo, Thibault chegou cedo e comeou logo a trabalhar
nas jaulas, a distribuir comida, a limpar e a treinar os ces como
habitualmente. Enquanto ele trabalhava, Ben foi brincando com
132
Zeus, at que Elizabeth o chamou a anunciar que eram horas de se
preparar para sair. Acenou-lhe do alpendre, mas, mesmo de longe,
Thibault notou-lhe o ar absorto.
Beth voltara para casa quando ele tirou os ces das jaulas;
habitualmente passeava-os em grupos de trs, com Zeus sempre atrs de
si. Depois de se afastar da casa, soltava os ces das trelas, mas eles
tendiam a segui-lo em qualquer direco que ele decidisse tomar.
Gostava de variar de caminho; a diversidade evitava que os ces se
afastassem demasiado. Como as pessoas, os ces aborrecem-se se tm de
fazer o mesmo dia aps dia. Era costume que os passeios durassem cerca
de meia hora por grupo. Depois do terceiro grupo, notou que o carro de
Elizabeth j l no estava e partiu do princpio de que fora levar Ben
a casa do pai.
No gostava do pai do garoto, principalmente por Ben e Elizabeth no
gostarem dele. O homem parecia-lhe m rs, mas no lugar dele no podia
fazer muito mais do que ouvir quando Elizabeth decidia falar do ex-
marido. No sabia o suficiente para dar qualquer conselho, e mesmo que
soubesse, ela no lho pedira. Fosse como fosse, no eram contas do seu
rosrio.
Todavia, ele tinha a ver com o qu? Que estava ele ali a fazer? Mesmo
sem querer, veio-lhe  memria a conversa com Victor, o que o amigo lhe
dissera naquela manh, no lago. E, claro, do que acontecera depois.
Forou-se a pensar noutra coisa. No ia voltar  questo. Outra vez,
no.
Chamando os ces, Thibault girou sobre os calcanhares e regressou ao
canil. Depois de guardar os ces, foi explorar o barraco que servia de
armazm. Ao ligar as luzes, olhou as paredes com ar de espanto. O av
de Elizabeth no tinha apenas algumas ferramentas, aquele lugar parecia
um estabelecimento de vendas repleto. Vadiou por ali, a observar as
prateleiras e as pilhas de coisas que havia em cima da bancada de
trabalho. Acabou por pegar numa chave com roquete, numas chaves de
bocas e num macaco, levando tudo para a carrinha. Como Elizabeth
prometera, as chaves estavam debaixo do tapete. Thibault conduziu a
carrinha para sair do caminho de acesso e dirigiu-se para a loja de
sobressalentes que se lembrava vagamente de ter visto na baixa.
Encontrou os sobressalentes: pastilhas, molas e massa para altas
temperaturas. Estava de regresso em menos de meia hora. Colocou o
macaco no lugar prprio e levantou a carrinha; em seguida, retirou a
primeira roda. Apertou o pisto com a mola, removeu as pastilhas
velhas, verificou
133
se o disco estava em boas condies, colocou as pastilhas novas e
montou a roda, repetindo o processo com as trs rodas restantes.
Estava a acabar o terceiro travo quando ouviu o carro de Elizabeth,
que parou junto da velha carrinha. Olhou pelo canto do olho no momento
em que ela saa, s ento se apercebendo de que ela andara horas por
fora.
- Como  que isso vai? - perguntou Elizabeth. - Est quase pronto.
Pareceu espantada. - A srio?
? - So apenas as pastilhas de travo, nada de importante.
- Estou certa de que um cirurgio diria o mesmo.  apenas um
apndice.
- Quer aprender? - perguntou Thibault, a olhar a silhueta dela tendo o
cu como fundo.
- Quanto tempo demora?
Ele encolheu os ombros. - No muito. Dez minutos.
- A srio? - repetiu. - Est bem, deixe-me s levar as mercearias para
dentro.
- Precisa de ajuda?
- No, so apenas dois sacos.
Montou a terceira roda e apertou as porcas, antes de passar para a
ltima roda. Desapertou ligeiramente as porcas quando Elizabeth chegou
junto dele. Quando ela se agachou ao lado dele, Thibault notou um odor
a loo de coco aplicada de manh cedo.
- Primeiro, tira-se a roda... - comeou e, metodicamente, repetiu todo
o processo, assegurando-se de que ela percebia cada um dos passos.
Quando ele baixou o macaco e comeou a recolher as ferramentas,
Elizabeth abanou a cabea.
- At pareceu demasiado fcil. Acho que at eu podia fazer isto. -
Provavelmente.
- Ento, por que razo apresentam aquelas facturas? - No sei.
- Estou na profisso errada - comentou ela, pondo-se de p e juntando o
cabelo num rabo-de-cavalo pouco apertado. - Mas obrigada pela
reparao. H muito que queria ver a carrinha arranjada.
- No houve qualquer problema.
- Tem fome? Comprei peru acabado de cozinhar para sanduches. E tambm
pickles.
-Parece delicioso - rematou Thibault. Almoaram no alpendre das
traseiras, por cima do jardim. Elizabeth continuava a parecer ausente,
mas conversaram um pouco sobre o que significava crescer numa pequena
vila do Sul, onde todos sabiam tudo acerca de toda a gente. Algumas das
histrias eram divertidas, mas Thibault reconheceu que preferia uma
existncia mais annima.
- Por que  que isso no me surpreende? - indagou Elizabeth.
A seguir, Thibault regressou ao trabalho, enquanto Elizabeth passou a
tarde nas limpezas da casa. Ao contrrio do av dela, Thibault
conseguira abrir a janela do escritrio, a que tinha sido pintada
fechada, embora a tarefa se revelasse mais difcil do que a reparao
dos traves. Nem ficou mais fcil de abrir e fechar, por mais lixa que
ele usasse. A seguir, pintou o aro.
Tirando isto, tratou-se de um dia normal de trabalho. Findo o trabalho
nos canis, eram quase cinco horas e, embora pudesse dar o dia por
terminado, recomeou o trabalho com as fichas, querendo obter algum
avano sobre o que considerava ser um fatigante dia seguinte. Instalou-
se para trabalhar mais umas horas, a fazer o que considerava mais
urgente. Quem poderia dizer o que era prioritrio? No viu Elizabeth
aproximar-se. Em vez disso, reparou que Zeus se levantara e se dirigira
para junto da porta.
- Estou surpreendida por ainda o encontrar aqui - disse ela, sem passar
da porta. - Vi a luz e pensei que se esquecera de a apagar.
- Nunca me esqueo.
Elizabeth apontou para a pilha de fichas em cima da secretria.
- Nem consigo dizer quanto estou satisfeita por v-lo a fazer isso.
Durante o Vero, a Nana tentou convencer-me a organizar os ficheiros,
mas eu era uma adepta fervorosa da ideia de os pr de parte.
- Por sorte minha - resmungou Thibault.
- No, minha. Quase sinto remorsos por no o ter feito.
- Talvez acreditasse em si, se no fosse esse sorriso afectado. J teve
notcias do Ben ou da Nana?
- De ambos. A Nana sente-se ptima, o Ben est na fossa. No que
falasse muito. Notava-se-lhe na voz.
- Uma pena! - comentou, sensibilizado.
Elizabeth respondeu com um tenso encolher de ombros, antes de levar a
mo ao puxador da porta. Rodou-o em ambas as direces, parecendo
interessada no mecanismo. Finalmente, deixou escapar um suspiro. - Quer
ajudar-me a fazer gelado?
Thibault pousou a ficha que tinha entre mos. - Perdo?
- Adoro gelado caseiro. No h nada melhor quando est calor, mas no
tem piada faz-lo sem ter com quem o partilhar.
135
- No sei se alguma vez comi gelado caseiro...
- Ento, no sabe o que perdeu. Alinha?
O entusiasmo infantil dela era contagioso. - Pronto, alinho -
concordou. - Deve ter a sua piada.
- Deixe-me ir ao supermercado buscar o que  necessrio. Volto dentro
de uns minutos.
-- No seria mais fcil comprar gelado j feito?
Os olhos dela brilharam de prazer. - Mas no  o mesmo. Voc ver.
Volto dentro de uns minutos, est bem?
E cumpriu a palavra. Thibault s teve tempo para arrumar a secretria,
ir mais uma vez verificar como estavam os ces e v-la aparecer no
caminho de acesso, j vinda do supermercado. Encontraram-se quando ela
saiu do carro.
- Importa-se de trazer o saco de gelo modo? - pediu Elizabeth.
- Est no banco traseiro.
Seguiu-a at  cozinha a transportar o saco de gelo; ela apontou para o
frigorfico depois de pr o gelo em cima da bancada e de o dividir em
duas partes mais ou menos iguais.
- Pode ir buscar o misturador de gelados? Est na despensa. Prateleira
de cima, do lado esquerdo.
Thibault emergiu da despensa com um misturador manual de gelados, que
parecia ter pelo menos cinquenta anos. -  isto?
-  isso mesmo.
- Esta coisa ainda funcionar? - perguntou Thibault mostrando-se
incrdulo.
- Perfeitamente. Espantoso, no ? Nana recebeu-o como prenda de
casamento, mas continuamos a us-lo. Faz gelados deliciosos.
Thibault colocou o utenslio na bancada e ficou ao lado dela.
- O que  que posso fazer?
- Se concordar, d  manivela, enquanto eu fao a mistura. - Parece-me
justo.
Elizabeth mergulhou um misturador elctrico numa tigela, juntamente com
uma chvena de medida. Do armrio das especiarias tirou acar, farinha
e extracto de baunilha. Acrescentou trs chvenas de acar e uma
chvena de farinha, que misturou  mo, para depois pr a tigela no
misturador. A seguir, partiu trs ovos l para dentro e trs colheres
de ch de extracto de baunilha e ligou o misturador. Finalmente,
despejou e juntou um pouco de leite e meteu toda a mistura na vasilha
do gelado, que ps no misturador, rodeando-a de gelo modo e sal. v ?
i. ..;,?. ?.?. ?.? .? .. :-,.--i;.;;
136
- Estamos prontos - anunciou, entregando-lhe a vasilha. Pegou no resto
do gelo modo e no sal grosso. - Vamos para o alpendre. Tem de ser
feito no alpendre, ou no ficar igual.
- Ah! - foi o nico comentrio dele.
Elizabeth sentou-se ao lado dele na escada do alpendre, mas um pouco
mais perto do que no dia anterior. Segurando a vasilha entre os ps,
Thibault comeou a rodar a manivela, surpreendido com a facilidade da
operao.
- Obrigado por me fazer isso - agradeceu ela. - Preciso mesmo do
gelado. Tem sido um daqueles dias.
- Ah, sim?
Elizabeth voltou-se para ele, com um sorriso matreiro nos lbios:
-  muito bom nisso.
- Em qu?
- A dizer Ah, sim?, quando algum faz um comentrio. E suficiente
para levar a outra pessoa a continuar a falar sem se mostrar demasiado
pessoal ou curioso.
- Ah, sim?
Ela sorriu e imitou-o. - A verdade, porm,  que a maioria das pessoas
teria perguntado algo do gnero O que aconteceu? ou Porqu?.
- Muito bem. O que  que aconteceu? Por que motivo foi um daqueles dias?
Emitiu um som de desgosto. - Oh, o Ben mostrou-se verdadeiramente
irritado ao arranjar as suas coisas e eu acabei por lhe ralhar por ele
estar a levar tanto tempo; para se apressar. O pai no costuma apreciar
os atrasos dele, mas hoje? Bem, hoje, agiu como se no soubesse da
vinda do filho. Devo ter batido durante uns dois minutos antes de ele
aparecer e posso assegurar que acabara de sair da cama. Tivesse eu
sabido que ele estava a dormir, no teria sido to dura com o Ben;
ainda sinto remorsos por isso. E, claro, ao arrancar, ainda vi o Ben a
ir despejar o lixo, pois o paizinho  demasiado preguioso para fazer
coisas dessas. E depois, como seria de esperar, passei o dia todo em
limpezas, o que nem foi mau durante o primeiro par de horas. Contudo,
no final, precisava realmente de um gelado.
- No me parece que tenha sido um sbado relaxante...
- No foi - murmurou, vendo-se que estava a pensar se deveria dizer
mais qualquer coisa. Havia mais, mais qualquer coisa a perturb-la;
respirou fundo e depois suspirou. - Hoje seria o dia de aniversrio do
meu irmo - esclareceu, com um ligeiro tremor na voz. - Fui ao
cemitrio pr flores, depois de deixar o Ben em casa do pai.
137
Thibault sentiu um n na garganta ao recordar a fotografia por cima da
lareira. Embora suspeitasse de que o irmo morrera, era a primeira vez
que Nana ou Elizabeth o confirmavam. Percebeu de imediato o motivo de
ela no querer ficar sozinha naquela noite.
- Tenho muita pena - disse, constrangido.
- Tambm eu. Voc teria gostado dele. Toda a gente gostava dele.
- Certamente que sim.
Elizabeth torceu as mos. - Nem passou pela cabea da Nana.  tarde no
deixou de se lembrar e telefonou-me para dizer quanto sentia no estar
aqui comigo. Estava praticamente a chorar, mas eu disse-lhe que no
tinha importncia. No se passou nada de importante.
- Foi importante. Trata-se do seu irmo e sente a falta dele. Um
sorriso melanclico perpassou rapidamente pelo rosto dela.
- Voc lembra-me o meu irmo - observou em voz baixa. - No tanto pelo
aspecto, mas pelos maneirismos. Notei isso da primeira vez que entrou
no escritrio a candidatar-se ao emprego. Pareceram-me feitos no mesmo
molde. Acho que ter alguma coisa a ver com os fuzileiros, no?
-  possvel - respondeu Thibault. - Conheci marines de todos os
gneros.
- Calculo que sim - anuiu. Calou-se, dobrou-se, encostou o peito aos
joelhos, que envolveu com os braos. - Gostou daquilo? De estar nos
marines?
- Por vezes.
- Mas nem sempre?
- No.
- Drake adorou. Na verdade, adorou tudo aquilo - recordou. Embora
parecesse hipnotizada pelo movimento da manivela, Thibault reconheceu
que ela se perdera por entre as suas memrias. - Lembro-me do incio da
invaso. com Camp Lejeune a menos de uma hora daqui, a notcia correu
depressa. Tive medo por causa dele, especialmente ao ouvir falar de
armas qumicas e de ataques suicidas, mas quer saber aquilo que mais o
preocupou? Antes da invaso, quero dizer?
- O que foi?
- Uma fotografia. Uma estpida fotografia antiga. D para acreditar?
As palavras inesperadas fizeram o corao de Thibault bater mais
depressa, mas esforou-se por manter uma aparncia calma.
- Tirou a fotografia quando fomos  feira daquele ano - prosseguiu. -
Era o ltimo fim-de-semana que passvamos juntos antes
138
de ele se alistar e, depois de fazermos o que era habitual, desejvamos
ficar ss. Lembro-me de estar sentada com ele junto do pinheiro gigante
e de conversarmos durante horas, enquanto observvamos a grande roda.
Era das maiores, toda iluminada, e ouvamos os gritos das crianas
enquanto ela rodava, uma e outra vez, sob um cu perfeito. Falmos da
mam e do pap, e tentmos imaginar como teria sido a nossa vida se
eles tivessem chegado  idade dos cabelos grisalhos, ou se teramos
permanecido em Hampton ou ido para qualquer outra parte; e lembro-me de
ter olhado para o cu. De sbito, passou uma estrela cadente e apenas
consegui pensar que eles se encontravam a ouvir-nos, algures.
Fez uma pausa, perdida nas recordaes, antes de prosseguir:
- Encaixilhou a fotografia e guardou-a durante toda a recruta. Depois
de ir para o Iraque, mandou-me um e-mail a dizer que a tinha perdido e
pediu-me se podia mandar-lhe outra. Pareceu-me uma tontice, e como no
sabia pelo que ele estava a passar, prometi enviar-lha. Porm, no
decidi faz-lo imediatamente. Parecia-me ter um qualquer bloqueio
mental contra o envio da fotografia. Pusera o disco na mala mas, sempre
que passava pela loja, esquecia-me de mandar fazer a cpia. E, antes
que eu o soubesse, a invaso comeara. Finalmente, enviei-a, mas a
carta acabou por ser devolvida sem ser aberta. Drake morreu durante a
primeira semana da invaso.
Elizabeth olhou-o por cima dos joelhos. - Cinco dias. Foi o tempo que
ele durou. E nunca lhe dei a nica coisa que me pediu. Percebe o que
isso me faz sentir?
Thibault sentia-se agoniado. - No sei o que dizer.
- No pode dizer seja o que for - retorquiu ela. - Trata-se de uma
daquelas situaes terrveis, demasiado tristes. E agora... hoje, no
deixo de pensar que ele est a ser esquecido. Nana no se lembrou, Ben
tambm no. Quanto a Ben, no me custa tanto a entender. Ainda no
fizera cinco anos quando Drake foi morto e sabemos como so as memrias
dessa idade. S permanecem pedaos. Mas Drake era to bom com ele
porque gostava mesmo de estar com o garoto - acrescentou. Encolheu os
ombros. - Do gnero do que se passa consigo.
Thibault gostaria que ela no tivesse dito aquilo. No pertencia quele
lugar...
- No quis contrat-lo - prosseguiu, sem reparar na perturbao dele. -
Sabia disso?
- Sabia.
- Mas no foi por ter vindo a p desde o Colorado. Em parte por isso,
mas principalmente por ter estado nos marines.
139
Ele assentiu e, no silncio que se seguiu, Elizabeth pegou no agitador
de gelados. -  provvel que precise de mais gelo - sugeriu. Abriu a
tampa, acrescentou mais gelo e devolveu-lhe o utenslio.
- Por que razo est aqui? - acabou por perguntar.
Embora entendesse o sentido da pergunta, fingiu que no. Porque me
pediu para ficar.
- Estou a perguntar por que est aqui, em Hampton? E desta vez quero a
verdade.
Ele lutou para encontrar a explicao certa. - Pareceu-me um lugar
agradvel e, at agora, tem sido.
Pela expresso dela, percebia que Elizabeth sabia que tinha de haver
outras razes. Ela esperou. - Tem algo a ver com a sua estada no
Iraque, no  verdade?
O silncio denunciou-o.
- Quanto tempo  que l esteve?
Ele mexeu-se no assento, no querendo falar do assunto mas sabendo que
no o podia evitar. - Em qual das comisses? ?- Quantas vezes esteve l?
- Trs.
- Assistiu a muitos combates?
- com efeito.
- Mas safou-se.
- Pois safei.
Os lbios dela cerraram-se, subitamente ficou  beira das lgrimas.
- Porqu voc e no o meu irmo?
Rodou a manivela quatro vezes, antes de responder: - No sei.
Quando Elizabeth se ps de p para ir buscar as tigelas para o gelado,
Thibault teve de se esforar para no chamar Zeus e sair dali, naquele
preciso momento, e regressar ao Colorado.
No conseguia deixar de pensar na fotografia que trazia, no bolso, a
que Drake tinha perdido. Thibault encontrara-a, Drake morrera, e ele
agora estava ali, na casa onde Drake crescera, a conversar com a irm
que ele deixara para trs.
Tudo aparentemente improvvel mas, enquanto combatia a sbita secura da
boca, concentrava-se nas coisas concretas. A fotografia era apenas
isso: uma fotografia que Drake tirara  irm. Os encantamentos no
existiam. Thibault sobrevivera  guerra do Iraque, mas acontecera o
mesmo  grande maioria dos fuzileiros navais que l combatera. Na
verdade, acontecera o mesmo  maioria dos camaradas do seu peloto,
Victor includo. Mas morreram alguns, Drake fora um deles e, embora
140
a morte fosse trgica, no tivera nada a ver com a fotografia. Estavam
em guerra. Quanto a ele, estava ali por ter tomado a deciso de
procurar a mulher da fotografia. No havia qualquer relao com o
destino ou com magias.
E, contudo, ele procurara-a por causa do que Victor dissera...
Pestanejou e recordou-se de que no acreditara em nada do que Victor
dissera.
A crena de Victor era mera superstio. No podia ser verdade. Pelo
menos, no representava toda a verdade.
Zeus pareceu perceber a luta interior dele, levantou a cabea e ficou a
olh-lo. De orelhas arrebitadas, latiu baixinho e foi at  escada para
lamber a mo de Thibault. Este ergueu a cabea do co, que lhe encostou
o focinho  cara.
- O que  que eu estou a fazer aqui? - sussurrou Thibault. - Por que 
que vim?
Enquanto esperava uma resposta que nunca chegaria, ouviu a porta de
rede bater atrs de si.
- Est a falar consigo mesmo ou com o co? - inquiriu Elizabeth.
- com ambos - foi a resposta.
Ela sentou ao lado dele e passou-lhe uma colher. - O que  que estava a
dizer?
- Nada de importante - mentiu. Mandou que Zeus se deitasse e o co
encolheu-se no degrau, numa tentativa de ficar perto dos dois.
Elizabeth abriu o misturador de gelado e tirou algum para cada uma das
tigelas. - Espero que goste - observou ao entregar-lhe uma das tigelas.
Mergulhou a colher, provou e depois voltou-se para ele, com ar franco.
- Peo desculpa.
- Por qu?
- Pelo que disse h pouco... Quando perguntei por que se salvou e o meu
irmo no o conseguiu.
-  uma pergunta pertinente - anuiu Thibault, a sentir o desconforto do
olhar dela.
- No, no . E fiz asneira ao perguntar-lhe. Por isso, peo perdo.
- No tem de qu.
Elizabeth engoliu mais uma colherada, antes de prosseguir. - Recorda-se
de eu lhe dizer que no o queria a trabalhar aqui por ter estado nos
fuzileiros? .- ;;?, ?;h.? ? ?? ????
Ele assentiu. ....t)r ifi:. H;!v..;.-i -??-
-  provvel que no entendesse as minhas razes. No foi por me
recordar o Drake. Foi por causa da forma como o Drake morreu -
explicou, a bater com a colher na tigela. - Drake foi atingido por fogo
amigo.
Thibault virou a cabea e ela continuou.
- Como  evidente, no soube disso na altura. Continuvamos a ouvir
evasivas: As investigaes continuam ou Estamos a analisar a
questo, desculpas do gnero. Levmos meses para saber como ele morreu
e, mesmo depois, nunca soubemos quem foi o responsvel.
Elizabeth procurou as palavras exactas. -  que... no nos parecia
justo, percebe? Isto , sei que se tratou de um acidente, sei que quem
provocou o acidente no quis mat-lo, mas se acontecesse um episdio
semelhante aqui, nos EUA, algum seria acusado de homicdio por
negligncia. Porm, como aconteceu no Iraque, ningum quer que se saiba
a verdade. E nunca se saber.
- Por que me conta tudo isso? - perguntou Thibault com voz calma.
- Porque foi essa verdadeira razo para eu no querer contrat-lo.
Depois de saber o que se passou, sempre que via um fuzileiro pensava se
ele no seria o mesmo que matara Drake. Ou um dos que estava a tentar
encobrir quem o matara. Sei que no estava a ser justa, sei que lavrava
num erro, mas era mais forte do que eu. E, passado algum tempo, a raiva
que sentia pareceu comear a fazer parte de mim, pareceu-me que seria a
nica maneira de poder aguentar o desgosto. No gostava da pessoa em
que me transformara, mas continuava presa neste ciclo horrvel de
dvidas e de culpas. E de repente, como que cado do cu, voc entra no
escritrio a pedir emprego. E Nana, mesmo sabendo exactamente o que eu
pensava, ou talvez por causa daquilo que eu pensava, decidiu admiti-lo.
Ps a tigela de lado. - Esta foi a razo por que no tive muito a
dizer-lhe durante as duas primeiras semanas. Calculei que no
precisaria de dizer fosse o que fosse, pois o mais certo era voc
despedir-se poucos dias depois, como sucedeu com os outros. Mas no
aconteceu. Em vez disso, resolveu trabalhar muito e permanecer at
tarde, na opinio da Nana  maravilhoso e na do meu filho... e, de
repente, voc tem tanto de fuzileiro como de homem - reflectiu, fazendo
uma pausa, at lhe dar uma joelhada amigvel. - E no s,  um homem
que permite que uma mulher continue a tagarelar sem lhe pedir que se
cale.
Thibault retribuiu a joelhada para mostrar que estava tudo bem.
-  o aniversrio de Drake?
142
-  - respondeu Elizabeth, levantando a tigela. - Ao meu irmozinho
Drake - saudou.
Thibault tocou a tigela dela com a sua e correspondeu: - Ao Drake!
Zeus latiu e ergueu a cabea ansiosamente para eles. Apesar da tenso,
Thibault estendeu a mo e acariciou-lhe o plo. - Tu no precisas de
erguer a tigela. Trata-se de uma homenagem ao Drake.
Confuso, o co inclinou a cabea para um lado e Elizabeth riu-se.
- Bl, bl, bl. Ele no percebe uma nica das minhas palavras.
-  verdade, mas conseguiu notar que estava preocupada. Foi por isso
que ficou por perto.
-  realmente espantoso. Penso que nunca encontrei um co to intuitivo
e mais bem treinado. Nana diz o mesmo e, acredite, na boca dela quer
dizer muito.
- Obrigado. Tem boa ascendncia.
- Ora bem, chegou a sua vez de falar. Sabe praticamente tudo o que h a
saber a meu respeito.
- O que  que pretende saber?
Elizabeth pegou na tigela e serviu-se de mais gelado, antes de
perguntar. - Alguma vez esteve apaixonado?
Ao v-lo erguer as sobrancelhas dado o ar descuidado com que a pergunta
foi feita, fez um gesto a desculpar-se. - No pense que estou a
intrometer-me demasiado na sua privacidade. No, depois de tudo o que
lhe contei. Confesse-se.
- Uma vez - admitiu Thibault.
- Recentemente?
- No, h anos. Quando andava na universidade.
- Como era ela?
Ele pareceu procurar a descrio adequada. - Ligada  terra sugeriu.
Nenhum comentrio, mas a expresso dela mostrava que queria saber mais.
Thibault continuou. - Muito bem. Andava nos ltimos anos e preferia
sandlias e saias de camponesa. Desdenhava da maquilhagem. Escrevia
artigos de opinio para o jornal dos estudantes e defendia as causas de
praticamente todos os grupos sociolgicos, excepto os dos homens
brancos e os dos ricos. Ah, e tambm era vegetariana.
Elizabeth observou-o. - Por qualquer razo, no consigo v-lo com
algum assim,
- Nem eu. E ela tambm no conseguia. Pelo menos a longo prazo.
Contudo, durante algum tempo, foi surpreendentemente fcil ultrapassar
as bvias diferenas entre ns. Conseguimos.
143
- Quanto tempo durou?
- Pouco mais de um ano. ?- Voltou a ouvir falar dela?
Thibault abanou a cabea. - Nunca. - t -
E  tudo?
- Para alm de umas paixonetas da escola secundria,  evidente. No
entanto, no se esquea de que os meus ltimos cinco anos no foram
propcios a iniciar novas relaes.
- No. Suponho que no.
Zeus levantou-se e dirigiu-se para o caminho de acesso  casa, de
orelhas arrebitadas. Alerta. Instantes depois, Thibault ouviu o som
fraco de um motor de automvel e, l longe, uma luz intensa e dispersa
a faiscar entre as rvores, para depois se tornar mais estreita. Algum
deixara a estrada e entrara no desvio para a casa. Elizabeth franziu a
testa, confusa, antes de um carro dobrar lentamente a esquina,
dirigindo-se para a casa. Mesmo que as luzes da casa no iluminassem o
caminho de acesso, Thibault reconheceu o carro e sentou-se mais
direito. Era o xerife ou algum dos seus ajudantes.
Elizabeth tambm o reconheceu. - Isto no traz nada de bom
- murmurou.
- O que  que pensa que eles querem?
Ela ps-se de p e ficou no alpendre. - No se trata deles. E ele. O
meu ex-marido - esclareceu e comeou a descer a escada e a dirigir-se
para ele. - Espere aqui. Consigo lidar com isto.
Thibault mandou que Zeus se sentasse quando o carro parou ao lado do de
Elizabeth, do outro lado da casa. Atravs dos arbustos, viu abrir-se a
porta do passageiro e Ben sair, a arrastar a mochila atrs dele.
Comeou a caminhar para a me, mantendo os olhos no cho. Quando a
porta do condutor se abriu saiu de l o ajudante Keith Clayton.
Zeus rosnou baixinho, alerta e pronto,  espera da ordem de Thibault
para filar o homem. Elizabeth olhou o co surpreendida, at que Ben
chegou  zona iluminada. Ao mesmo tempo que ela, Thibault reparou na
falta dos culos de Ben e nas manchas negras e azuladas  volta de um
olho do garoto.
- O que  que aconteceu? - gritou Elizabeth, correndo para o filho.
Agachou-se para ver melhor. - O que  que tu fizeste?
- No  nada - respondeu Clayton ao aproximar-se. -  apenas uma
contuso.
Ben voltou-se, no queria que a me visse.
- O que  que aconteceu aos culos? - perguntou, ainda a tentar
compreender. - Tu bateste-lhe? it
144
- No, no lhe bati. Meu Deus, como poderia bater-lhe? Quem  que
pensas que eu sou?
Elizabeth no pareceu ouvi-lo e concentrou a ateno no filho. - Ests
bem? Oh, isso est com mau aspecto! Querido, o que  que aconteceu?
Partiste os culos?
Sabia que ele no poderia falar at Clayton se ir embora. Erguendo o
rosto para a me, ela viu que as veias tinham rebentado e que olho se
encontrava vermelho de sangue.
- com que fora a atiraste? - inquiriu, de rosto horrorizado.
- No foi com muita fora. E isso  apenas uma contuso. O olho no foi
afectado e conseguimos colar os culos com fita.
-  mais do que uma contuso! - exclamou Elizabeth em voz alta, mal
conseguindo controlar-se.
- Deixa de te comportares como se a culpa fosse minha! - berrou Clayton.
- A culpa foi tua.
- Ele  que no a apanhou! Estvamos s a lanar bolas. Foi um
acidente, por amor de Deus! No foi, Ben? Estvamos a brincar, certo?
Ben olhou para o cho. - Pois - murmurou.
- Conta-lhe o que aconteceu. Diz que a culpa no foi minha. V, diz.
O garoto mudou o peso do corpo de um p para o outro. - Estvamos a
lanar bolas. Eu falhei a bola que veio bater-me no olho - explicou e
mostrou os culos, colados com fita na ponte e na parte superior das
lentes. - O pap reparou os culos.
Clayton mostrou as palmas das mos. - Ests a ver? Nada de importante.
Est sempre a acontecer. Faz parte do jogo.
- Quando  que isto aconteceu? - perguntou Elizabeth com voz imperiosa.
- H umas horas. "iirJT
- E no me chamaste?
- No, levei-o s urgncias. oi:,;i.
s urgncias?
- Onde mais poderia lev-lo? Sabia que no o podia trazer de volta sem
ser tratado, por isso fiz o que faria qualquer pai responsvel, tal
como tu fizeste quando ele partiu o brao no baloio. E, se bem te
lembras, no grito contigo por o deixares brincar na casa da rvore.
Aquilo  uma armadilha mortal.
Ela parecia demasiado chocada para falar e Clayton abanou a cabea,
desgostoso. - De qualquer forma, ele quis voltar para
Casa. .;,;. ,_ .
145
- Est bem - concordou ela, ainda a lutar para encontrar palavras, com
o msculo do queixo a contrair-se e a descontrair-se.
- Fosse como fosse. Vai-te embora. Eu tomo conta disto.
com um brao  volta dos ombros de Ben comeou a lev-lo dali, mas foi
nesse instante que Clayton notou que Thibault se encontrava sentado no
alpendre. Esbugalhou os olhos que em seguida pareceram faiscar de
raiva. Comeou a dirigir-se para o alpendre.
- O que  que est aqui a fazer? - inquiriu.
Thibault encarou-o sem se mexer. O rosnar de Zeus tornou-se mais
ameaador.
- Beth, o que  que ele est aqui a fazer?
Ela voltou-lhe as costas. - Vai-te embora, Keith. Amanh falaremos.
- No me vires as costas - vociferou Clayton, agarrando-a por um brao.
- S estou a fazer-te uma pergunta.
Naquele momento Zeus mostrou os dentes e as patas traseiras tremeram.
S ento Clayton pareceu dar pela presena do co, de dentes
arreganhados, os plos da cauda bem eriados.
- Se fosse eu, largava-lhe o brao - aconselhou Thibault. A voz dele
soara neutra e tranquila, mais uma sugesto do que uma ordem.
Ao olhar para o co, Clayton largou-a imediatamente. Enquanto Elizabeth
e Ben corriam para o alpendre, Clayton olhou Thibault. Zeus deu s um
passo em frente, mas continuou a rosnar.
- Julgo que  melhor ir-se embora - aconselhou Thibault na mesma voz
tranquila.
Clayton hesitou por instantes, recuou um passo e girou sobre os
calcanhares. Thibault ouviu-o praguejar em voz baixa enquanto se
dirigia para o carro, abria a porta e atirava com ela para a fechar.
Thibault estendeu a mo para acariciar Zeus. - Menino bonito sussurrou.
Clayton arrancou em marcha atrs, deu trs voltas malucas ao volante e
arrancou para o caminho de acesso, com os pneus a lanarem gravilha
para a retaguarda. As luzes de presena deixaram de se ver e s ento o
plo de Zeus voltou ao normal. Abanou a cauda quando Ben se aproximou.
- Ol, Zeus - saudou Ben.
Zeus olhou para Thibault, a pedir autorizao. - Tudo bem disse-lhe
Thibault ao libert-lo. O co caminhou para Ben, como se quisesse
dizer-lhe: Estou to satisfeito por voltares a casa! Encostou o
focinho a Ben, que comeou a acarici-lo. 146
- Sentiste a minha falta, no foi? -- perguntou o garoto, mostrando-se
contente. - Eu tambm senti a tua...
- Vamos, querido - pediu Elizabeth, levando-o  sua frente.
Vamos para dentro para pr gelo nesse olho. E quero ver isso
 luz.
Quando abriram a porta de rede, Thibault ps-se de p.
- Boa noite, Thibault - saudou Ben, de brao no ar.
- Boa noite, Ben.
- Amanh posso brincar com o Zeus?
- Se a tua me autorizar, por mim est tudo bem - concluiu. Pela
expresso de Elizabeth bem via que ela queria estar sozinha com o
filho. - Acho melhor ir indo - disse ao levantar-se. - Est a fazer-se
tarde e amanh tenho de levantar-me cedo.
Ela agradeceu. - Obrigada. E peo desculpa por toda esta situao.
- No tem nada de que pedir desculpa.
Caminhou pelo caminho de acesso, depois virou na direco da casa.
Conseguia perceber que havia movimento por dentro das cortinas da
janela da sala de estar.
Ao olhar as sombras das duas figuras atravs da janela, sentiu pela
primeira vez que comeava a compreender a razo que o levara at ali.
CLAYTON
De entre todos os lugares do mundo, tinha de ir encontrar o homem em
casa de Beth. Quais eram as possibilidades de tal acontecer? Mnimas,
certamente.
Odiava aquele tipo. No, pior. Queria destruir aquele tipo. No s pelo
episdio do roubo da mquina fotogrfica e do corte dos pneus, embora
fossem actos a merecer algum tempo de cadeia em companhia de um par de
drogados em anfetaminas e amigos da violncia. E no era por Thibolt
ter em seu poder o carto da cmara digital. Era porque o tipo, o mesmo
que lhe dera a volta antes, o fizera parecer uma alforreca em frente de
Beth.
Se fosse eu, largava-lhe o brao, j fora suficientemente mau. Mas, e
depois? A  que o homem se portara realmente mal. J... Julgo que 
melhor ir-se embora... Tudo dito naquela voz grave e calma, o tom de
no me chateies que o prprio Clayton costumava usar com os
criminosos. E a verdade  que ele obedecera, saindo de l de rabo entre
as pernas, como qualquer co escorraado, o que tornava tudo pior.
Normalmente, no suportaria tal situao um segundo que fosse, mesmo na
presena de Beth e de Ben. Ningum lhe dava ordens e ficava sem
resposta; no deixaria de demonstrar ao homem que ele cometera o pior
erro da sua vida. Mas no pudera! O problema fora esse. com aquele co
por ali, a olhar-lhe os testculos como quem olha os acepipes num
bufete de domingo. No escuro, aquela coisa parecera um lobo esfaimado e
no deixara de lhe recordar as histrias que Kenny Moore lhe contara
acerca do Panther.
Mas, fosse como fosse, que estava ele a fazer em casa de Beth? Como 
que aquilo acontecera? Fora uma espcie de maldio csmica destinada a
arruinar o que lhe restava de um dia j suficientemente
148
nojento, que comeara com o ar triste com que Ben se apresentara ao
meio-dia e logo protestara contra a tarefa de ter de ir despejar o lixo.
Considerava-se um homem paciente, mas estava cansado das atitudes do
garoto. Realmente cansado, motivo pelo qual no deixara Ben parar
enquanto no despejasse o lixo. Obrigara-o tambm a limpar a cozinha e
a casa de banho, pensando estar a demonstrar-lhe como funcionava o
mundo real, onde era importante mostrar alguma decncia de atitudes. O
poder do pensamento positivo e tudo isso. E, alm do mais, toda a gente
sabia que as mes estragam os filhos, enquanto os pais tm de lhes
demonstrar que na vida nada se consegue sem esforo, no  assim? E o
garoto fizera uma limpeza impecvel, como acontecia sempre; portanto,
quanto a Clayton, o episdio fora resolvido e esquecido. Era tempo de o
fazer descansar um pouco; por isso levou Ben l para fora, para
trocarem umas bolas. Qual o mido que no quer trocar umas bolas com o
pai numa tarde de domingo?
Ben. Esse mesmo.
Estou cansado. Pap, est muito calor. Temos de jogar? Uma queixa
estpida atrs de outra, at que finalmente foram para o exterior e o
petiz se fechou como um molusco e no voltou a falar. Pior, por mais
que Clayton lhe recomendasse que tivesse ateno  maldita da bola, o
filho continuava a no a apanhar porque nem sequer tentava. No a
apanhava de propsito, sem dvida. Mas corria para a bola depois de
falhar? Claro que no. Aquele mido nunca o faria. O filho estava
demasiado ocupado a pensar na injustia de toda aquela situao,
enquanto ia jogando como se fosse cego.
No final, conseguiu chate-lo. Estava a tentar divertir-se com o filho,
mas este conspirava contra ele, e, vamos l, at  possvel que naquela
ltima vez tivesse atirado a bola com demasiada fora. Contudo, o que
acontecera a seguir no fora culpa sua. Se o garoto estivesse a prestar
ateno, a bola no lhe teria feito ricochete na luva e Ben no teria
acabado a chorar como um beb, como se estivesse para morrer ou algo
assim. Como se fosse o nico mido do mundo a ficar com um olho negro
enquanto jogava  bola.
Tudo consideraes sem sentido. O mido magoara-se. Nada de grave e as
marcas desapareceriam passadas umas semanas. Passado um ano, Ben teria
esquecido tudo completamente ou gabar-se-ia junto dos amigos por ter
ficado com um olho negro quando jogava beisebol.
Pelo seu lado, Beth nunca esqueceria. Guardaria aquele rancor dentro
dela durante muito, muito tempo, mesmo que a culpa fosse mais de Ben do
que dele. Beth no compreendia o facto de todos os rapazes ostentarem
as mazelas dos desportos com orgulho.
149
Sabia,  evidente, que Beth reagiria mal naquela noite, mas no a
culparia necessariamente por isso. Qualquer me reagiria mal e Clayton
estava preparado para lidar com a situao. Pensava que tratara
bastante bem de tudo, mesmo at ao final, at ao momento em que vira o
tipo sentado no alpendre, com o co, como se fosse o dono da casa.
Logan Thibolt.
 evidente que se lembrara de imediato do nome. Procurara o homem
durante alguns dias e, na prtica, deixara de pensar no caso quando se
convencera de que o tipo deixara a cidade. No poderia ter ficado. Um
vadio com um co no deixaria de ser notado, pois no? Motivo por que
deixara de perguntar se o tinham visto.
Estpido.
E agora, o que  que havia de fazer? O que fazer quanto a este novo...
conjunto de eventos?
Trataria de Logan Thibolt, disso no restavam dvidas, e no seria
apanhado outra vez desprevenido. O que significava que, antes de tomar
qualquer medida, precisava de informaes. Onde  que ele morava, onde
trabalhava, por onde gostava de andar. Onde poderia encontr-lo sozinho.
Mais difcil do que parecia, especialmente por causa do co. Uma
sensao esquisita, mas parecia-lhe que Thibolt e o co raramente se
separavam, se  que alguma vez o faziam. Mas tambm pensaria numa
maneira de tratar desse pormenor.
Era bvio que teria de saber o que havia entre Beth e Thibolt. No
lhe vira nenhum namorado, nem ouvira falar disso, desde o caso do
idiota do Adam. Era difcil crer que Beth andasse com Thibolt,
considerando o facto de ele saber sempre o que Beth andava a fazer.
Francamente, e para comear, no conseguia imaginar o que Beth podia
ver em algum como Thibolt. Ela frequentara a universidade; a ltima
coisa que quereria da vida era ligar-se a um vadio que aparecera na
cidade. O tipo nem carro tinha.
Mas Thibolt passara um sero de sbado com ela, o que teria de
significar alguma coisa. Havia, algures, qualquer pormenor que no se
ajustava. Reflectiu, pensou se o homem trabalharia l... De qualquer
forma, acabaria por descobrir e, quando descobrisse, trataria do
assunto; e Mr. Logan Thibolt acabaria por odiar o dia em que pusera
os ps na cidade de Clayton.
150
BETH
Domingo fora o dia mais quente do Vero, com temperaturas e humidade
muito elevadas. Os lagos de Piedmont tinham comeado a secar, os
cidados de Raleigh estavam a racionar a gua e na parte oriental do
estado as culturas tinham comeado a murchar devido  secura
interminvel. Nas ltimas trs semanas as florestas tinham-se
transformado em depsitos de combustvel,  espera de ser aceso por uma
ponta de cigarro descuidadamente atirada para o cho ou por uma
trovoada, com qualquer das situaes a parecer inevitvel. S faltava
saber onde e como o fogo iria comear.
Os ces passavam mal, a menos que permanecessem nas jaulas, e at Logan
comeara a sentir os efeitos do calor. Cada sesso de treino durava
menos cinco minutos e o regresso ao canil era sempre feito pelo riacho,
onde os animais podiam molhar-se e arrefecer. Zeus entrara e sara da
gua pelo menos uma dzia de vezes e, embora Ben tivesse tentado
iniciar um jogo de agarra logo que regressara da igreja, o co mostrara
pouco interesse. Em vez disso, Ben instalou uma ventoinha no soalho do
alpendre da casa, virando o jacto de ar na direco de Zeus e sentou-se
ao lado dele a ler O Assassinato de Roger Ackroyd, de Agatha Christie,
um dos poucos livros da autora que lhe faltava acabar. Interrompeu a
leitura para fazer uma visita a Logan, sem propsito aparente, antes de
voltar  leitura.
Era o gnero de tarde de preguia que Beth apreciava, embora sentisse
um chispar de raiva sempre que olhava a obra de Keith: a ndoa negra na
cara de Ben e os culos reparados de improviso. Na segunda-feira teria
de levar o filho ao oculista para que os culos fossem devidamente
reparados. Apesar do que dissera, Keith tinha lanado a bola com fora
excessiva, o que a punha a pensar no gnero de pai capaz de fazer uma
coisa daquelas a um filho de dez anos de idade.
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O gnero Keith Clayton, evidentemente.
Uma coisa fora ter cometido o erro de casar com ele, outra era ser
obrigada a sofrer por causa desse erro durante o resto da vida. A
relao de Ben com o pai parecia estar a piorar; no se viam
perspectivas de vir a melhorar. Ben precisava de um adulto do sexo
masculino na sua vida e Keith era o pai dele, mas...
Abanou a cabea. Em parte apetecia-lhe simplesmente partir, levando o
filho consigo. Ir morar noutra parte do pas e recomear a vida. Uma
soluo fcil de imaginar e, tivesse ela coragem para a pr em prtica,
os problemas estariam resolvidos. Porm, a realidade era outra. Tinha a
coragem necessria, mas todo um conjunto de circunstncias tornava
impossvel a materializao da ideia. Mesmo que Nana tivesse sade
suficiente para gerir tudo sozinha, e ela no a tinha, Keith acabaria
por descobri-la, fosse para onde fosse. Gramps insistiria para que ele
a procurasse e o tribunal, de que o juiz Clayton fazia parte,
interviria. Na ausncia, o mais provvel era que a tutela de Ben fosse
atribuda na totalidade a Keith. O tio do ex-marido trataria disso;
aquela fora sempre a ameaa implcita desde o divrcio, uma ameaa que,
vivendo naquele distrito, ela teria de levar muito a srio. Talvez
tivesse algumas hipteses num tribunal de segunda instncia, mas quanto
tempo levaria a obter uma sentena? Doze meses? Um ano e meio? No ia
arriscar-se a perder Ben durante todo esse tempo. E a ltima coisa que
quereria era que Ben fosse obrigado a passar mais tempo com Keith.
Na realidade, Keith no desejava a tutela total, tal como Beth no
desejava que ele a tivesse, e com o passar dos anos poderiam chegar a
uma soluo no oficial. Keith veria Ben com a menor frequncia
possvel, apenas as vezes suficientes para manter Gramps sossegado. No
era justo que qualquer deles usasse Ben como um peo, mas que mais
poderia ela fazer? No queria arriscar-se a perder o filho. Keith faria
o que lhe mandassem para que o dinheiro continuasse a chegar-lhe ao
bolso e Gramps queria Ben por perto.
As pessoas gostariam de se imaginar livres na escolha da sua prpria
vida, mas Beth aprendera que muitas vezes a escolha no passa de uma
iluso. Pelo menos em Hampton, onde os Clayton dominavam praticamente
tudo. Gramps mostrava-se sempre delicado quando se encontravam na
igreja, e embora desejasse h muitos anos comprar as terras de Nana,
nunca lhe dificultara a vida. At ao momento. Porm, num mundo a preto
e branco, no restavam dvidas de que os membros da famlia Clayton,
Gramps includo, eram mestres do cinzento e usariam do seu poder sempre
que lhes desse jeito. Cada um deles
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crescera a viver com a ideia de que era especial, talvez mesmo um
escolhido de Deus, razo por que se surpreendera com a facilidade com
que Keith abandonara a casa dela na noite anterior.
Ficara satisfeita por Logan e Zeus l estarem. Logan resolvera a
situao de uma forma perfeita e Beth apreciara o facto de ele no se
ter mantido por ali aps a partida de Keith. Compreendera que ela
queria estar s com Ben e aceitara o facto com a mesma facilidade com
que fizera Keith sair de l.
Em qualquer situao, reflectia Beth, Logan mostrava-se tranquilo e
decidido. Quando ela falara de Drake, no aproveitara para falar de si
ou do que sentia, nem lhe dera conselhos. Era uma das razes que a
levara a ter confiana nele e a contar-lhe tantos pormenores da sua
vida. Mostrara-se um pouco mal-humorada por se tratar do aniversrio de
Drake mas, na verdade, soubera exactamente o que estava a fazer.
Primeiro, fora ela a primeira a pedir-lhe que ficasse e supunha que,
bem l no fundo, quisera partilhar aqueles pormenores pessoais com
Logan.
- Eh, mam?
Beth virou-se para Ben. O olho estava com um aspecto horrvel, mas ela
fingiu no reparar. - O que  que se passa, meu amor?
- Temos alguns sacos para lixo? E palhinhas?
-  claro que temos. Porqu?
- Thibault disse que me ensina a construir um papagaio e que podemos
p-lo a voar logo que esteja pronto.
- Parece uma ideia interessante.
- Ele disse que costumava faz-los em criana e que voavam lindamente.
Beth sorriu. - S precisas de sacos para lixo e de palhinhas?
- J encontrei o fio de pesca. E a fita de colar. Estavam na garagem do
av.
Viu Logan, do outro lado do jardim, a dirigir-se para eles. Ben tambm
reparou nele.
- Eh, Thibault! - gritou. - Est preparado para construir o papagaio?
- Vinha precisamente perguntar-te se estavas preparado - respondeu
Logan.
- Quase. S tenho de ir buscar os sacos para lixo e as palhinhas. Logan
assentiu. Quando ele se aproximou, Beth notou-lhe a forma dos ombros, a
cintura estreita. No era a primeira vez que reparava no corpo dele,
mas naquele dia parecia estar... de olhos fixos nele. Voltou-se e
colocou a mo no ombro de Ben, a sentir-se subitamente ridcula.
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- Os sacos do lixo esto por baixo do lava-loua e as palhinhas esto
na despensa, ao lado das bolachas. Vais busc-los ou queres que eu v
l?
- Eu vou - decidiu Ben. E, depois, para Logan: - S me demoro uns
segundos.
Logan chegou junto da escada no momento em que Ben desaparecia no
interior da casa.
- Vai fazer um papagaio? - perguntou Beth, simultaneamente surpreendida
e impressionada.
-- Ele disse que estava aborrecido.
- E sabe mesmo fazer papagaios?
- No  to difcil quanto parece. Quer dar uma ajuda?
- No - recusou. De perto, notou como a transpirao se lhe colava ao
peito e desviou de imediato o olhar. - vou deixar a tarefa para os
dois. Parece-me mais um projecto para homens. Mas encarrego-me de
levar-lhes limonada. E a seguir, se tiver fome,  bem-vindo, se quiser
ficar. Nada de especial; Ben disse-me que lhe apetece cachorros
quentes, macarro e queijo.
Logan assentiu. - Agrada-me.
Ben voltou a sair, sacos numa das mos e as palhinhas na outra. Rosto
animado, a despeito da ndoa negra e dos culos tortos.
- J tenho tudo. Est pronto?
Logan continuou a aguentar o olhar de Beth mais tempo do que o
necessrio e ela teve de se voltar, a sentir-se enrubescer. Logan
sorriu para Ben.
- Logo que tu estiveres.
Beth deu consigo a analisar Logan enquanto ele e Ben trabalhavam na
montagem do papagaio. Estavam sentados na mesa dos piqueniques, perto
do grande carvalho, com Zeus deitado aos ps de ambos; de vez em
quando, o vento trazia at Beth os sons das vozes deles: Logan a dizer
a Ben o que devia fazer a seguir, ou Ben a perguntar se qualquer coisa
que fizera estava bem. Era evidente que estavam a apreciar o seu
pequeno projecto; o petiz ia tagarelando, cometendo alguns erros que
Logan depois corrigia com nova aplicao de fita.
Quando fora a ltima vez em que corara ao ser observada por um homem?
Bem gostaria de saber se alguma da sua reencontrada auto-suficincia
teria alguma coisa a ver com a ausncia de Nana. Durante as duas
ltimas noites, e pela primeira vez na vida, quase se sentira entregue
a si prpria. Afinal, mudara-se da casa de Nana para a casa
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de Keith, regressando a casa de Nana, de onde no mais sara. E embora
gostasse da companhia de Nana e prezasse a estabilidade, no fora
exactamente assim que imaginara a sua vida de adulta. Sonhara que teria
a sua prpria casa, mas nunca considerara a altura propcia. Depois de
Keith, necessitara da ajuda de Nana porque Ben era beb; depois, quando
o filho j era mais crescido, tinham morrido o irmo e o av, pelo que
Beth precisou do apoio de Nana, tanto quanto Nana precisou do de Beth.
E depois? Na altura em que se julgava pronta a arranjar casa prpria,
Nana sofrera o acidente vascular cerebral, no se pondo a hiptese de
ela abandonar a mulher que a tinha criado.
Todavia, naquele momento, teve uma inesperada viso de como teria sido
a sua vinda em circunstncias diferentes. Agora, vendo os estorninhos
voarem de rvore para rvore por cima da sua cabea, Beth encontrava-se
sentada no alpendre de uma casa que, sem ela, estaria vazia, a observar
uma cena que a fazia acreditar que tudo poderia estar bem neste mundo.
Mesmo de longe, notava a concentrao de Ben enquanto Logan lhe
mostrava como dar os toques finais da montagem do papagaio. Uma vez por
outra, Logan inclinava-se para a frente e dava instrues, mostrando-se
paciente e firme, mas deixando a Ben a parte maior do divertimento. E
que ele parecia estar apenas a trabalhar no projecto, a rectificar os
erros do garoto, sem se mostrar frustrado ou irritado, o que fez Beth
sentir uma manifestao de gratido e de afecto em relao a ele. Ainda
se sentia maravilhada pela novidade quando os viu dirigirem-se para o
centro do jardim. Logan erguia o papagaio acima da cabea, enquanto Ben
ia desenrolando o fio de pesca. Quando Ben comeou a correr, Logan
seguiu-o, para que o vento actuasse antes de largar o papagaio. Logan
parou e ficou a olhar para o ar, enquanto o papagaio subia l para
cima; e quando ele bateu as palmas contagiado pela evidente alegria de
Ben, Beth foi atingida por uma verdade simples, a de que as coisas mais
vulgares podem tornar-se extraordinrias, bastando para tanto que sejam
tratadas pelas pessoas certas.
Nana telefonou nessa noite a mandar que a fossem buscar na sexta-feira
seguinte e, enquanto ela esteve ausente, Logan jantou com Beth e Ben
todas as noites. Na maioria dos casos, era Ben quem lhe pedia para
ficar, mas, chegada a quarta-feira, tornara-se bvio que Beth no s se
sentia bem por Logan estar na companhia deles, mas tambm estava
contente por deixar que Ben continuasse a controlar a situao. Talvez,
uma vez por outra, pensasse que Logan era to inexperiente quanto ela
naquele gnero de intimidades.
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Habitualmente davam um passeio depois do jantar. Ben e Zeus iam 
frente, em correria pelo carreiro que conduzia ao riacho, seguidos 
distncia por Beth e Logan; uma vez, dirigiram-se para a cidade para
observar as margens do South River, sentando-se debaixo da ponte que
atravessa o rio. Era frequente que aflorassem certas questes, quer se
tratasse de um pormenor interessante sobre o trabalho ou dos progressos
conseguidos por Logan na reorganizao dos ficheiros; contudo, em
certas ocasies, ele parecia contente por caminhar ao lado dela, sem
grandes conversas. Como Logan se movia to  vontade naquele silncio,
Beth sentia-se tambm surpreendentemente confortvel com ele.
Porm, algo estava a acontecer entre eles e ela tinha conscincia
disso. Sentia-se atrada por ele. Na escola, com uma turma de alunos do
segundo grau a enxamearem  sua volta, por vezes dava consigo a
imaginar o que ele poderia estar a fazer naquele preciso momento. Pouco
a pouco, fora-se apercebendo de que desejava chegar a casa por isso
significar o encontro com ele.
No sero de quinta-feira, meteram-se todos na carrinha de Nana e foram
 cidade jantar piza. Zeus seguia com as patas no fundo da carrinha, a
cabea de lado e as orelhas puxadas para trs. Por estranho que
parecesse, Beth tinha a esquisita sensao de que aquilo era quase uma
sada de namorados, embora acompanhados de um guardio de dez anos de
idade.
A Luigis Pizza estava localizada numa das calmas ruas secundrias da
baixa. com o pavimento desgastado de tijolo, as mesas da sala de jantar
e as paredes com painis de madeira, o lugar oferecia uma familiaridade
relaxante, em parte por que Luigi no tinha mudado a decorao desde a
infncia de Beth. Na parte de trs do restaurante, Luigi conservava
jogos de vdeo datados dos anos 80; MJ. Pac-Man, Millipee e Asteroids.
Os jogos continuavam to populares como na altura da publicao,
provavelmente por no haver qualquer outra loja de jogos de vdeo na
cidade.
Beth adorava aquele lugar. Luigi e a mulher, Maria, ambos na casa dos
sessenta, que trabalhavam sete dias por semana, moravam por cima do
restaurante. Sem filhos naturais, eram pais substitutos de muitos dos
adolescentes da cidade e recebiam toda a gente com uma espcie de
aceitao incondicional que mantinha o restaurante sempre cheio.
Naquela noite, encontrava-se repleto com a habitual mistura de pessoas:
famlias com filhos, um par de homens vestidos como se tivessem acabado
de largar o trabalho na firma de advogados do prdio
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seguinte, uns quantos casais de idosos, magotes de adolescentes
espalhados por vrios pontos da sala. O rosto de Maria iluminou-se ao
ver entrar Beth e Ben. Era uma mulher baixa e forte, com cabelo escuro
e um sorriso genuinamente amistoso. Caminhou para eles ao mesmo tempo
que pegava na ementa.
- Boa noite, Beth. Boa noite, Ben - saudou. Ao passar pela cozinha
espreitou l para dentro. - Luigi! Chega aqui. A Beth e o Ben esto c.
Uma cena que se repetia sempre que Beth l ia e, embora Beth estivesse
convencida de que ela recebia toda a gente com igual simpatia, no
deixava de se sentir especial.
Luigi saltou da cozinha. Como era habitual, o avental que trazia estava
coberto de farinha e cruzava-lhe a rotunda cintura. Como ele continuava
a confeccionar as pizas e tinha o restaurante sempre cheio, no teve
tempo para mais do que um aceno. - Gosto de te ver! gritou. - Obrigado
por teres vindo!
Maria acariciou afectuosamente o ombro de Ben. - Ben, ests a ficar to
alto! Um verdadeiro homenzinho. E tu, Beth, ests adorvel como a
Primavera.
- Obrigado, Maria. Como  que ests?
- Na mesma. Sempre a trabalhar. E tu? Continuas a ensinar, no 
verdade?
- Continuo a ensinar - confirmou Beth. Momentos depois a expresso de
Maria tornou-se grave e Beth conseguiu antecipar a pergunta seguinte.
Em terras pequenas, no h segredos.
- Como est a Nana?
- A melhorar. J anda por l.
- Sim, ouvi dizer que foi visitar a irm.
Beth no conseguiu esconder a surpresa: - Como  que soubeste isso?
Maria encolheu os ombros. - No fao ideia. As pessoas falam, eu ouo -
explicou Maria, notando pela primeira vez a presena de Logan. - E
este, quem ?
-  o meu amigo Logan Thibault - esclareceu Beth, procurando no corar.
-  novo por c? Nunca o tinha visto - confessou Maria, olhando-o de
alto a baixo, com franca curiosidade.
- Acabo de me mudar para a cidade.
- Bem, veio acompanhado por dois dos meus clientes favoritos
- disse, ao apontar o caminho. - Venham, vou arranjar-lhes lugar num
dos cubculos.
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Maria indicou o caminho e colocou as ementas sobre a mesa, enquanto
eles deslizavam para os lugares. - Ch gelado para todos!
- Seria excelente, Maria - concordou Beth.
- Podes dar-me umas moedas? - perguntou Ben. - Quero jogar uns vdeos.
- Calculei que quisesses - comentou Beth, levando a mo  mala. - Antes
de sair, tirei algumas moedas da jarra dos trocos. Diverte-te -
sugeriu. - Mas no vs com estranhos.
- Tenho dez anos - disse Ben, parecendo exasperado. - J no tenho
cinco.
Beth ficou a v-lo dirigir-se  sala de jogos, divertida com a resposta
do filho. Por vezes, Ben j parecia um aluno da escola secundria.
- Este lugar tem carcter - comentou Logan.
- A comida tambm  fantstica. Fazem pizas  moda de Chicago que so o
fim do mundo. O que  que deseja na sua piza?
Logan coou o queixo. - Hum... muito alho, muitas anchovas. Beth torceu
o nariz. -  isso que quer?
- Estou a brincar. Mande vir o que costuma comer. No sou esquisito.
- Ben gosta de salame.
- Ento, seja salame.
Ela encarou-o com um olhar brincalho. - J lhe disseram que  bastante
fcil de contentar.
- Ultimamente, no - retorquiu. - Mas, digo-o uma vez mais, no tive
muito com quem falar durante a caminhada.
- No sentiu a solido?
- Tendo Zeus comigo, no.  um bom ouvinte.
- Mas no pode contribuir para a conversa.
- No. Mas tambm no se lamentava por causa da caminhada. Como teria
sucedido com a maioria das pessoas.
- Eu no me teria queixado - afirmou Beth ao pr uma madeixa por cima
do ombro.
Logan no respondeu.
- Estou a falar a srio - protestou. - Teria atravessado facilmente o
pas.
O silncio de Logan manteve-se.
- Ora bem, tem razo. Ter-me-ia queixado uma ou duas vezes. Ele riu-se,
antes de observar o restaurante. - Quantas pessoas
conhece entre as que aqui esto?
Olhando  volta, Beth reflectiu: -J vi a maioria delas na cidade, mas
quantas conheo realmente? Talvez umas trinta.
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Logan calculou que representariam cerca de metade dos clientes.
- Como  que ?
- Est a perguntar o que acontece numa terra onde todos sabem tudo?
Acho que depende do nmero de erros que cada um comete, pois  isso que
a maioria das pessoas discute. Casos amorosos, empregos perdidos, abuso
de lcool ou de drogas, acidentes de viao. Mas, por outro lado, para
algum como eu, pura como a neve transportada pelo vento, no  muito
difcil.
Logan sorriu. - Deve ser interessante ser voc.
- Ah, pois . Acredite. Vamos apenas dizer que tem sorte por estar
sentado  mesa comigo.
- Sobre isso, no tenho dvidas.
Maria veio entregar as bebidas. Ao ir-se embora, ergueu as sobrancelhas
apenas o suficiente para que Beth ficasse a saber que ela gostava do
aspecto de Logan e que esperava, mais tarde, descobrir se havia alguma
ligao entre eles.
Beth provou o ch e Logan imitou-a.
- O que  que acha?
- Doce, sem dvida. Mas tem bom sabor.
Beth anuiu, antes de limpar com o guardanapo a condensao formada no
exterior do copo. Amarrotou o guardanapo e p-lo de lado.
- Quanto tempo  que vai ficar em Hampton? - perguntou.
- O que  que pretende dizer?
- No  de c, tem uma licenciatura, tem um emprego que a maioria das
pessoas detestaria e  mal pago pelo seu trabalho. Julgo que a pergunta
 pertinente.
- No penso despedir-me.
- No  isso que estou a perguntar. Estou a perguntar quanto tempo vai
ficar em Hampton. Responda francamente.
A voz dela no admitia fugas; para Logan foi fcil imagin-la e meter
na ordem uma turma indisciplinada. - Francamente, no sei. E digo isto
porque nos ltimos cinco anos aprendi a no dar nada por adquirido.
- Pode ser verdade, mas, uma vez mais, no respondeu  pergunta.
Pareceu reconhecer um certo desapontamento na voz dela e lutou com a
resposta. Finalmente decidiu-se. - Se a resposta for: at agora, estou
a gostar disto. Gosto do trabalho, acho a Nana fantstica, gosto de
estar com o Ben e, de momento, no  minha inteno deixar Hampton num
futuro previsvel. Respondi  sua pergunta?
Beth sentiu-se sacudida por uma certa expectativa enquanto ele falava,
dada a forma como o olhar dele lhe perscrutava o rosto. Tambm
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ela se inclinou para diante. - Reparei que deixou de fora algo de
importante na sua lista de coisas de que gosta.
- Acha que sim?
- Acho. Eu - retorquiu, a analisar a cara dele,  espera de uma
reaco, de lbios arreganhados num sorriso tentador.
- Talvez esquecesse - observou Logan, mostrando o mais fugidio dos
sorrisos.
- Julgo que no.
- Sou tmido. - Tente de novo.
Ele abanou a cabea. - No tenho mais sugestes.
Beth piscou-lhe o olho. - vou dar-lhe uma oportunidade de
repensar o assunto e talvez lhe surja uma ideia. Poderemos ento voltar
ao assunto.
- Acho justo. Quando?
De mos colocadas  volta do copo, a sentir-se estranhamente nervosa
pelo que iria dizer em seguida, Beth perguntou: - Est livre na noite
de sbado?
Ficou sem saber se a pergunta o surpreendeu.
- Que seja na noite de sbado - decidiu Logan ao empunhar o copo de ch
gelado para beber um grande gole, sem nunca tirar os olhos dela.
Nenhum deles reparou que Ben regressara  mesa.
- J mandaram vir a piza?
Nessa noite, deitada na cama, Beth olhava o tecto e perguntava a si
mesma: Que diabo estou eu a pensar?
Havia tantas razes para evitar o que ela acabara de fazer. Na
realidade, no sabia muito acerca do passado dele. Logan continuava a
esconder o motivo que o trouxera at Hampton, o que significava que no
confiava nela, mas tambm que ela tambm no confiava inteiramente
nele. E no se tratava apenas disso: ele trabalhava no canil, para Nana
e  vista de casa dela. O que aconteceria se o esquema no funcionasse?
E se ele alimentasse... expectativas que ela no pudesse satisfazer?
Voltaria na segunda-feira? Ficaria Nana sozinha? Teria ela de desistir
do emprego de professora para voltar a ajudar a av a gerir o canil?
Havia montes de problemas possveis em tudo aquilo e, quanto mais
pensava neles, mais se convencia de que cometera um erro terrvel. E,
no entanto... sentia-se cansada de estar s. Amava Ben e amava Nana,
mas estar junto de Logan durante os ltimos dias recordara-lhe
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o que estava a faltar-lhe. Apreciava os passeios que davam depois do
jantar, gostava da maneira como ele a olhava e gostava especialmente da
maneira como ele se dava com Ben.
Alm disso, era ridiculamente fcil imaginar uma vida com Logan. Sabia
que no o conhecia h tempo suficiente para fazer um juzo daqueles,
mas no conseguia pr de lado a intuio.
Poderia ele ser o tal?
No queria ir mais longe. Ainda nem sequer tinham sado juntos.
Tornava-se fcil imaginar como era algum que mal se conhecia.
Sentando-se na cama, deu umas quantas palmadas para ajeitar a almofada
e voltou a deitar-se. Pois bem, sairiam uma vez e logo se veria.
Alimentava esperanas, no podia neg-lo, mas o filme acabava a.
Gostava dele, mas certamente no o amava. Pelo menos, ainda no.
Na noite de sbado Thibault esperava sentado no sof, a tentar perceber
se estaria a agir bem.
Noutro lugar e noutra altura, no teria pensado duas vezes. Era
evidente que se sentia atrado por Elizabeth. Apreciava-lhe a franqueza
e a inteligncia, bem como o alegre sentido de humor, para alm do
aspecto fsico; no conseguia imaginar como ela pudera estar sem
companheiro durante tanto tempo.
Porm, no estava noutra altura, nem noutro lugar, e a situao nada
tinha de normal. Transportara a fotografia dela durante mais de cinco
anos. Vasculhara o pas  procura dela. Chegara a Hampton e arranjara
um emprego que o mantinha perto dela. Tornara-se amigo da av, do filho
e, finalmente, dela prpria. E faltavam poucos minutos para a sua
primeira sada de namorados.
Ele viera por uma razo. Aceitara a ideia logo que deixara o Colorado.
No entanto, continuava a no ter a certeza de que a razo fosse
conhec-la, ou at tornar-se ntimo dela. Tambm nada lhe dizia que
houvesse qualquer outra razo.
A sua nica certeza era ter passado toda a tarde  espera da hora do
encontro. No dia anterior, no deixara de pensar no assunto durante a
viagem para ir buscar Nana. Durante a primeira meia hora do caminho de
regresso a Hampton, Nana tagarelara acerca de tudo, desde a poltica ao
estado de sade da irm, antes de se voltar para ele com um sorriso
cmplice.
- Ora bem, vai ento sair com a neta da patroa,  isso? Thibault
remexeu-se no assento. - Ela disse-lhe?
-  claro que me disse. Mas, mesmo que no o dissesse, eu sabia o que
ia acontecer. Dois jovens atraentes e solitrios? Soube que ia
acontecer no preciso momento em que o contratei.
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Ele no respondeu e quando Nana voltou a falar, a voz encheu-se-lhe de
melancolia.
- Ela  doce como uma melancia. Por vezes, preocupa-me.
- Eu sei - observou Thibault.
A conversa entre eles resumira-se quilo, mas garantiu-lhe que tinha a
bno de Nana, um pormenor que sabia ser importante dado o lugar
ocupado pela av na vida de Elizabeth.
Numa altura em que tudo comeava a assentar, pde ver o carro de
Elizabeth a percorrer a alameda que dava acesso  casa, com a frente a
balouar ligeiramente ao passar pelos buracos. S lhe dissera para
levar roupa simples, mas no lhe dera qualquer indicao sobre o lugar
aonde iam. Thibault saiu para o alpendre no momento em que ela parou em
frente da casa. Zeus seguiu-o, sempre alerta. Quando Elizabeth saiu do
carro e se deu a ver  luz fraca do alpendre, tudo o que ele conseguiu
fazer foi ficar a olhar.
Tal como ele, Elizabeth vestia calas de ganga, mas a blusa creme que
trazia acentuava-lhe o bronzeado da pele. O cabelo cor de mel cobria-
lhe a gola da blusa sem mangas e notou que ela usava uma ligeira
maquilhagem. Pareceu-lhe to conhecida quanto excitantemente estranha.
Zeus desceu os degraus, de cauda em riste e a latir, indo colocar-se ao
lado dela.
- Ol, Zeus. Sentiste a minha falta? S passou um dia - foi ela
dizendo, a dar-lhe palmadinhas no lombo; o co latiu os seus queixumes
e a seguir lambeu-lhe a mo. - Ora bem, isso foi um verdadeiro
cumprimento - comentou, erguendo os olhos para Thibault.
- Como est? Venho atrasada?
Ele tentou mostrar-se indiferente. - Estou ptimo. E chegou mesmo 
hora. Ainda bem que deu com a casa.
- Pensou que eu no conseguiria?
- Este lugar  um pouco difcil de encontrar.
- No  para quem viveu toda a vida aqui - retorquiu, dando
uns passos na direco da casa. - Ento,  este o lar?
- gira - comentou, olhando  volta. ?
- Era do que estava  espera? ?
- Mais ou menos. Slida. Eficiente. Um pouco escondida. Thibault
aceitou o duplo sentido com um sorriso; a seguir, voltou-se para Zeus e
mandou-o ficar no alpendre.
Desceu a escada para se juntar a ela.
- O co fica bem c fora?
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- Optimamente. No sair dali.
- Mas vamos estar fora algumas horas.
- Eu sei.
- Espantoso.
- Assim parece. Mas os ces no tem um sentido muito apurado do tempo.
Passado um minuto, no se lembrar de qualquer outro pormenor, s
recordar o facto de que deve permanecer onde est. Mas sem saber
porqu.
- Como  que sabe tanto acerca de ces e de treino? - perguntou
Elizabeth, cheia de curiosidade.
- Principalmente atravs de leituras.
-Tambm l?
Thibault mostrou-se divertido. - Leio. Surpreendida?
- Estou.  difcil carregar livros quando se viaja a p pelo pas. -
No , desde que no os guardemos depois de lidos. ? Chegaram ao carro
e quando Thibault se dirigiu para o lado do
condutor para lhe segurar a porta, Elizabeth abanou a cabea. - Posso
ter sido eu a convid-lo, mas vou obrig-lo a conduzir.
- E eu a pensar que ia sair com uma mulher emancipada - protestou ele.
- Sou uma mulher emancipada mas quem conduz  voc. E tambm paga a
conta.
Thibault riu-se ao conduzi-la ao outro lado. Logo que ele se sentou
atrs do volante, Elizabeth deu uma vista de olhos ao alpendre. Zeus
parecia confuso acerca do que estava a acontecer e ouviu-o latir uma
vez mais.
- Parece triste.
- Provavelmente est. Raramente nos separamos. Ela repreendeu-o. -
Homem malvado.
Thibault sorriu por ela usar aquele tom jocoso e engatou o motor em
marcha atrs. - Dirijo-me para o centro?
- No. Esta noite vamos para fora da cidade. Siga para a estrada
principal, em direco  costa. No vamos para a praia, mas existe um
bom stio no caminho. Eu indico-lhe quando estivermos perto da sada da
estrada.
Thibault fez o que lhe mandavam, conduzindo por ruas tranquilas
enquanto ia escurecendo. Chegaram  estrada principal em poucos minutos
e,  medida que o carro foi adquirindo velocidade, as rvores da berma
comearam a tornar-se indistintas. As sombras estendiam-se pela
estrada, escurecendo o interior do automvel.
- Ora bem, fale-me do Zeus.
- O que  que pretende saber?
164
- Tudo o que quiser revelar-me. Algo que eu ainda no saiba. Thibault
poderia ter dito: Comprei-o por causa de uma mulher
fotografada junto de um pastor alemo, mas no o fez. Em vez disso,
informou: - Comprei o Zeus na Alemanha. Fui l e eu prprio o escolhi
no meio da ninhada.
- Realmente?
Ele assentiu. - Na Alemanha, o pastor  como a guia-de-cabea-branca
na Amrica.  um smbolo do orgulho nacional e os criadores levam o seu
trabalho muito a srio. Eu queria um co com uma linha gentica forte
e, quem quer um co assim, habitualmente s o encontra na Alemanha. O
Zeus tem uma longa ascendncia de ces competitivos e de campees,
oriundos de Schutzhund.
- O que  isso?
- Em Schutzhund os ces so testados no apenas pela obedincia, so
postos  prova na busca e na proteco. E a concorrncia  intensa.
Habitualmente nos dois ltimos dias e, por norma, os vencedores tendem
a ser os ces mais inteligentes e mais fceis de treinar. E como Zeus
descende de uma longa linhagem de concorrentes e de campees, foi
criado com esses dois objectivos.
- E treinou-o sozinho? - indagou, parecendo impressionada.
- Desde os seis meses de idade. Desde que partimos do Colorado,
trabalhei com ele todos os dias.
-  um animal incrvel. Podia d-lo ao Ben, como sabe. Ele
provavelmente adoraria.
Thibault no respondeu.
Elizabeth notou-lhe a expresso e aproximou-se mais dele. - Estava a
brincar. Nunca o afastaria do seu co.
Ele sentiu o calor do corpo de Elizabeth irradiar-lhe pelo flanco.
- Se no a incomodo com a pergunta, como  que o Ben reagiu quando lhe
disse que amos sair juntos esta noite? - perguntou.
- Achou bem. Ele e a Nana j tinham decidido ver vdeos. No princpio
da semana tinham planeado uma noite de cinema. Marcaram a data e tudo.
- Fazem isso muitas vezes?
- Constantemente, mas esta  a primeira vez desde que ela sofreu o
acidente vascular cerebral. Sei que o Ben estava verdadeiramente
entusiasmado. Nana faz pipocas e costuma deix-lo ficar acordado at
mais tarde.
- Ao contrrio da me,  claro.
Elizabeth concordou, sorrindo: -  claro. O que  que acabou por fazer
hoje?
165
- Dei uma volta  casa. Limpezas, lavagem de roupa, fiz compras, esse
gnero de coisas.
Ela ergueu uma sobrancelha. - Estou impressionada.  um verdadeiro
animal domstico. Consegue pr a girar uma moeda em cima da cama depois
de a fazer? - claro que consigo. -Tem de ensinar o Ben a fazer isso.
- com todo o gosto.
L fora apareciam as primeiras estrelas e os faris do carro varriam as
curvas da estrada.
- Onde  que vamos, exactamente? - perguntou Thibault.
- Gosta de caranguejos?
- Adoro.
- Um bom comeo. E sabe danar o shag?
- Nem fao ideia do que isso .
- bom, digamos que tem de aprender depressa.
Quarenta minutos depois, Thibault parou em frente de um edifcio que
parecia um antigo armazm. Elizabeth conduzira-o para a zona industrial
da baixa de Wilmington e pararam em frente de uma estrutura de trs
pisos com paredes laterais de tbuas envelhecidas. Pouco a diferenciava
dos edifcios vizinhos se no fosse um parque de estacionamento com
quase uma centena de carros, bem como um passeio de madeira  volta do
edifcio, iluminado por uma correnteza de luzes brancas de Natal.
- Como se chama este lugar?
- Shagging for Crabs.
- Original. Mas sinto uma certa dificuldade em considerar isto uma
importante atraco turstica.
- No ,  s para gente da terra. Um dos meus amigos da faculdade
falou-me deste lugar e eu sempre desejei vir c.
- Nunca aqui esteve?
- No. Mas ouvi dizer que  muito divertido.
? Dito isto, Elizabeth dirigiu-se para o passeio de madeira que rangia
a cada passo dela. L  frente, o rio brilhava, como se fosse iluminado
por baixo. O som da msica vindo do interior ouvia-se cada vez mais
alto. Quando abriram a porta a msica irrompeu como uma onda, e o
cheiro a caranguejos e a manteiga encheu o ar. Thibault parou para se
habituar.
O vasto espao interior do edifcio conservava-se em bruto, sem
adornos. At meio estava atravancada com mesas de cobertas com
166
toalhas de plstico encarnadas e brancas que pareciam coladas aos
tampos de madeira. As mesas estavam ocupadas por gente animada e
Thibault viu empregadas de mesa a despejar baldes de caranguejos por
toda a parte. Pequenas molheiras com manteiga derretida no centro da
mesa, com outras mais pequenas em frente de cada comensal. Toda a gente
envergava aventais de plstico, tirava os caranguejos do balde comum e
comia com os dedos. A cerveja parecia ser a bebida de eleio.
Mesmo em frente deles, do lado que bordejava o rio, havia um comprido
balco de bar, se assim se poderia chamar. Parecia ser feito de madeira
apanhada a boiar e colocada em cima de barris de madeira. Os clientes 
espera de serem servidos formavam trs filas. Do lado oposto da sala
avistava-se o que deveria ser a cozinha. O que mais lhe despertou a
ateno foi o palco colocado ao fundo, onde Thibault avistou uma banda
que tocava My Girl!, dos Temptations. Em frente do palco havia pelo
menos umas cem pessoas a danar, seguindo os passos preceituados de uma
dana que ele no conhecia.
- Caramba! - bradou, sobrepondo-se ao barulho.
Uma quarentona magra, com cabelo ruivo e de avental aproximou-se deles.
- Vocs os dois - engrolou. - Comida ou dana?
- Ambas - respondeu Elizabeth.
- Nomes?
Olharam um para o outro. - Elizabeth... - comeou Beth.
- E Logan - terminou.
A mulher apontou os nomes num bloco. - Ora bem, ltima pergunta.
Pardia ou famlia?
Elizabeth pareceu perdida. - Perdo?
A mulher fez estalar a pastilha elstica. - J c estiveram, no 
verdade?
- No.
- Passo a explicar: tm de partilhar uma mesa.  assim que as coisas
funcionam aqui. Toda a gente partilha. Ora, podem tambm exigir
pardia, o que significa que preferem uma mesa com nveis elevados de
energia, ou podem pedir famlia, em que as mesas tm um ambiente um
pouco mais tranquilo. Ora, est bem de ver, no posso garantir como vai
ser a vossa mesa. Pergunto por perguntar. Ento, o que vai ser? Famlia
ou pardia?
Elizabeth e Thibault trocaram olhares uma vez mais, chegaram  mesma
concluso e responderam em unssono:
- Pardia. Acabaram sentados numa mesa em que estavam seis alunos da
Universidade de Carolina do Norte, em Wilmington. A empregada de mesa
apresentou-os com os nomes de Matt, Sarah, Tim, Allison, Megan e Steve;
todos os estudantes ergueram as garrafas e saudaram-nos a uma s voz: -
Viva, Elizabeth! Viva, Logan! Estamos com os caranguejos (crabs).
Thibault reprimiu uma gargalhada com aquele jogo de palavras; crab era
tambm o calo usado para descrever um animalejo indescritvel que se
apanha em encontros sexuais, o que era obviamente o fim da festa, mas
sentiu-se desnorteado quando reparou que eles o olhavam fixamente.
A empregada de mesa sussurrou-lhe ao ouvido: - Deve responder Queremos
caranguejos se os apanharmos com vocs.
Desta vez riu-se  vontade, juntamente com Elizabeth, antes de
proferirem as palavras, aceitando o ritual a que toda a gente obedecia
naquele local.
Sentaram-se de frente. Elizabeth acabou por ficar ao lado de Steve, que
no escondeu o facto de a achar extremamente apetitosa, enquanto
Thibault ficou ao lado de Megan, que no se mostrou interessada nele
por j estar bem mais interessada em Matt.
Uma empregada rechonchuda passou a correr, mal tendo tempo para
perguntar: - Mais caranguejos?
- Podes dar-me os caranguejos em qualquer altura - exclamaram os
estudantes em coro.  sua volta, Thibault ouvia sempre a mesma
resposta. A resposta alternativa, que tambm se ouvia, era Nem quero
acreditar que me deste caranguejos!, que parecia querer dizer que no
era necessrio trazer mais. Aquilo fez-lhe recordar o filme The Rocky
Horror Picture Show, onde os conhecedores sabiam todas as respostas
oficiais e os novatos as aprendiam durante o voo.
A comida era de primeira qualidade. A ementa continha apenas um prato,
preparado de uma s maneira, e cada novo balde vinha acompanhado de
mais guardanapos de papel e de babetes. A tradio mandava que se
lanassem pedaos de caranguejos para o centro da mesa que, de vez em
quando, eram recolhidos por adolescentes.
Conforme prometido, os estudantes eram buliosos. Uma srie de piadas,
cheias de subentendidos incuos acerca de Elizabeth, e mais duas
cervejas para cada um, fizeram aumentar a animao. Depois do jantar,
Thibault e Elizabeth foram aos lavabos para se lavarem. Quando
regressaram, ela deu-lhe o brao.
- Est preparado para o shag? - perguntou de forma sugestiva.
- No tenho a certeza. Como  que se faz?
168
- Aprender a danar o shag  como aprender a ser sulista.  aprender
como se deve descontrair, enquanto se ouve o oceano e sente a msica.
- Presumo que j fez isso antes?
- Uma ou duas vezes - respondeu ela com falsa modstia.
- E vai ensinar-me?
- Serei a sua parceira. Mas a lio comea s nove horas. y
- Qual lio?
- Todas as noites de sbado,  por isso que veio tanta gente. Oferecem
lies para principiantes, enquanto os frequentadores habituais
descansam. Faremos como nos mandarem. Comea s nove.
- Que horas so?
Ela consultou o relgio. - Est na hora de aprender a danar o shag.
Elizabeth era uma danarina bem melhor do que dera a entender, o que,
felizmente, o ajudou tambm a fazer melhor figura na pista de dana.
Contudo, o melhor de danar com ela era a sensao de choque elctrico
que ele sentia sempre que se tocavam, bem como o odor que ela exalava
ao soltar-se dos braos dele para rodopiar, uma mistura de calor e
perfume. O penteado dela desmanchou-se devido  humidade do ar, a pele
dela brilhava com a transpirao, fazendo-a parecer natural e bravia.
Uma vez por outra, lanava-lhe olhares enquanto rodava, os lbios
entreabertos num sorriso astuto, como se soubesse exactamente o efeito
que estava a provocar nele.
Quando a banda decidiu fazer um intervalo, o primeiro instinto dele foi
deixar a pista juntamente com o resto dos danarinos, mas Elizabeth f-
lo parar quando as notas gravadas de Unforgettable, de Nat King Cole,
comearam a fluir dos altifalantes. Ergueu os olhos para ele: e ele
soube o que tinha de fazer.
Sem palavras, fez deslizar um brao para as costas dela, pegou-lhe na
mo e colocou-se em posio. Sustentou o olhar dela enquanto a puxava
para si e, muito lentamente, comearam a mover-se ao ritmo da msica,
desenhando crculos lentos.
Thibault mal tinha conscincia de que havia outros pares  volta deles
na pista. com a msica a fazer ambiente, Elizabeth encostou-se tanto a
Thibault que ele podia sentir cada um dos movimentos respiratrios,
lentos e lnguidos, da companheira. Fechou os olhos quando sentiu que
ela lhe pousava a cabea no ombro, instante a partir do qual tudo o
resto, cano, lugar, os pares  sua volta, deixou de ter interesse. S
aquilo, s ela. Abandonou-se  sensao do corpo dela a pressionar
169
o seu, enquanto se moviam lentamente, em crculos curtos, sobre o cho
coberto de serradura, perdidos num mundo que parecia criado apenas para
eles os dois.
Ao regressarem a casa pelas estradas escuras, no silncio do interior
do carro, Thibault pegou-lhe na mo e sentiu o polegar dela a
percorrer-lhe lentamente a pele.
Quando entrou na alameda de acesso  casa, um pouco antes das onze
horas, Zeus continuava deitado no alpendre e ergueu a cabea quando
Thibault desligou a ignio. Thibault voltou-se para a olhar de frente.
- Passei uma noite maravilhosa - murmurou. Esperou que ela dissesse o
mesmo, mas Elizabeth surpreendeu-o com a resposta.
- No me vais convidar a entrar? - sugeriu.
- Ests convidada.
Zeus sentou-se quando Thibault abriu a porta do carro e ps-se de p ao
ver Elizabeth sair. Comeou a agitar a cauda.
- Ol, Zeus - saudou Elizabeth.
- Vem c - mandou Thibault e o co saltou do alpendre e correu para
eles. Andou  volta de ambos, os latidos a soarem como guinchos. com a
boca meio aberta, como se sorrisse para lhes chamar a ateno.
- Sentiu saudades - observou Elizabeth, curvando-se. - No sentiste,
grandalho? - perguntou, baixando-se ainda mais. Zeus lambeu-lhe a
face. Pondo-se de p, apertou o nariz do co e limpou a cara. - Isso
foi feio.
- Para ele no foi - interveio Thibault. Dirigiu-se para casa.
- Ests preparada? Tenho de te avisar de que no deves alimentar
grandes expectativas.
- Tens uma cerveja no frigorfico?
- Tenho.
- Ento, no te preocupes.
Subiram a escada, Thibault abriu a porta e ligou o interruptor. Uma s
lmpada lanou uma luz baa sobre uma cadeira de descanso colocada
junto  janela. No centro da sala havia uma mesinha de caf, decorada
apenas com um par de velas; em frente da mesa estava um sof de tamanho
mdio. Tanto a cadeira como o sof tinham coberturas iguais, azul-
marinho, e junto  parede via-se uma estante com uma pequena coleco
de livros. Uma bolsa para revistas vazia por baixo de um candeeiro de
p alto completavam o mobilirio essencial.
170
Contudo, notava-se limpeza. Thibault limpara tudo ao princpio do dia.
O cho de pinho fora varrido, as janelas lavadas, o p limpo. Detestava
a desordem e abominava a sujidade. A poeira sem fim do Iraque apenas
servira para reforar as suas tendncias de manaco da limpeza.
Elizabeth apreciou a cena antes de entrar na sala.
- Gosto. Onde  que compraste a moblia?
- Pertence  casa - explicou ele.
- O que explica as coberturas.
- Exactamente.
- No tens televisor?
- No.
- Nem rdio.
No.
- O que  que fazes quando aqui ests?
- Durmo. E Mais?
- Leio.
- Romances?
- No - respondeu, mas mudou de ideias. - Na realidade, li um par
deles. Mas leio mais histria e biografias.
- Mas no textos de antropologia?
- Tenho um livro de Richard Leakey. Mas no aprecio muitos dos livros
da pesada antropologia ps-moderna, que parece dominante nestes dias e,
em qualquer caso, os livros desse gnero no so fceis de encontrar em
Hampton.
Elizabeth andou  volta da moblia, passou um dedo pelas coberturas. -
Sobre o que  que ele escreveu?
- Quem? Leakey? Ela sorriu. - Sim. Leakey.
Thibault cerrou os lbios, a organizar as ideias. - A Antropologia
tradicional trata principalmente de cinco questes: quando o homem
comeou a evoluir, quando comeou a andar erecto, por que h tantas
espcies de homindeos, porqu e como estas espcies evoluram e o que
tudo isso significa na histria da evoluo do homem moderno. O livro
de Leakey trata principalmente das quatro ltimas, com nfase especial
na forma como a inveno das ferramentas e das armas influenciou a
evoluo do Homo sapiens.
Elizabeth mal conseguia esconder o quanto estava divertida, mas ele via
que ficara impressionada.
- E quanto  tal cerveja?
- Volto num instante. Pe-te  vontade. ?;?;; .:, ;
171
Regressou com duas garrafas e uma caixa de fsforos. Elizabeth sentara-
se a meio do sof; deu-lhe uma das cervejas e sentou-se ao lado dela,
pousando os fsforos em cima da mesinha.
Elizabeth pegou logo na caixa de fsforos e acendeu um, ficando a ver a
pequena chama tremeluzir. com um movimento fcil, chegou-a aos pavios e
acendeu as duas velas, antes de apagar o fsforo.
- Espero que no te importes. Adoro o cheiro das velas a arder.
- No me importo nada.
Levantou-se do sof para apagar a luz, ficando a sala iluminada s pela
chama quente das velas. Regressou ao sof mas sentou-se mais perto
dela, ficando a v-la de olhos postos na chama das velas, com o rosto
meio escondido no escuro. Tomou um gole de cerveja, a tentar perceber o
que ela estaria a pensar.
- Sabes h quanto tempo no estou com um homem numa sala iluminada com
velas? - indagou, voltando-se para ele.
- No.
- Trata-se de uma rasteira. A resposta  nunca - explicou, parecendo
espantada com a ideia. - No  esquisito? Fui casada, tenho um filho,
namorei e isto nunca me aconteceu - acrescentou. Chegada aqui, hesitou,
mas prosseguiu, como que envergonhada: - E, se pretendes saber a
verdade, depois do divrcio  a primeira vez que estou sozinha com um
homem, em qualquer lugar.
- Diz-me uma coisa - pediu, com o rosto a poucos centmetros do dele. -
Ter-me-ias convidado a entrar se eu no me tivesse convidado a mim
mesma? Responde honestamente. Conseguirei notar se ests a mentir.
Thibault rodou a garrafa, nas mos. - No tenho a certeza. Ela
pressionou. - Porqu? O que  que h em mim...
- No tem a ver contigo - interrompeu ele. - Tem mais a ver com a Nana
e com o que ela poderia pensar.
- Por ser a tua patroa?
- Por ser tua av. Porque a respeito. Mas, principalmente, por te
respeitar. Passmos um sero maravilhoso. No me lembro de me sentir
to feliz nos ltimos cinco anos, fosse com quem fosse.
- E nem assim me terias convidado - sugeriu Elizabeth, parecendo
desnorteada.
- No disse isso. Disse que no tinha a certeza.
- O que significa no.
- O que significa que eu procurava uma forma de te convidar sem te
ofender, mas fui ultrapassado. No entanto, se realmente queres saber se
eu queria convidar-te, a resposta  sim.
172
Thibault tocou-lhe o joelho com o dele. - A que propsito vem tudo isto?
- Digamos que no tenho tido muita sorte no mundo dos namoros.
Ele sabia o suficiente para manter o silncio, mas quando ergueu o
brao sentiu que ela se lhe encostava ao peito. - A princpio no me
incomodou - acabou por admitir. - Isto , estava ocupada com o Ben e
com a escola, no dei muita importncia ao assunto. Mas depois, quando
continuou a suceder o mesmo, comecei a reflectir. A reflectir sobre
mim. E fiz a mim mesma todo o gnero de perguntas malucas. Estaria a
proceder mal? No estava a prestar a ateno devida? Teria um cheiro
esquisito? - prosseguiu, tentando sorrir, mas sem disfarar
inteiramente a tristeza interior e as dvidas. - Ideias malucas, como
eu disse. Pois que, de vez em quando conhecia um homem e pensava que
estvamos a entender-nos lindamente, mas, de repente, a ligao era
interrompida. Ele deixava de telefonar e, se acontecia encontrarmo-nos
por acaso, o homem agia sempre como se eu estivesse atacada de peste.
No compreendia. Continuo a no compreender. O que me preocupava.
Sentia-me magoada. com a passagem do tempo, a mgoa foi cavando mais
fundo e tornou-se cada vez mais difcil atribuir as culpas aos homens;
acabei por concluir que o problema residia em mim. Que a situao
talvez significasse que eu devia levar uma vida solitria.
- No havia nada de errado contigo - ripostou Thibault, fazendo uma
ligeira presso no brao dela.
- D-me uma oportunidade. Tenho a certeza de que encontrars qualquer
coisa.
Thibault conseguiu distinguir a mgoa escondida pelo gracejo.
- No, acho que no encontrarei.
- s amoroso.
- Sou honesto.
Elizabeth sorriu e bebeu um gole de cerveja. - Na maioria dos casos.
- No me consideras honesto?
A resposta foi precedida de um encolher de ombros. -  como eu disse.
Na maioria dos casos.
- E isso quer dizer o qu?
Elizabeth pousou a garrafa na mesa e tentou coordenar as ideias.
- Julgo que s um homem extraordinrio. s inteligente, trabalhas
muito, s amvel e fantstico a lidar com o Ben. Sei tudo isso, ou
penso que sei, por ser o que vejo. Mas o que me cria dvidas acerca de
ti
173
 o que no dizes. Digo a mim mesma que te conheo, mas, pensando
melhor, apercebo-me de que no. Como  que eras na universidade? No
sei. O que aconteceu depois do curso? No sei. Sei que estiveste no
Iraque e que vieste a p do Colorado at aqui, mas no sei por qu.
Quando pergunto respondes apenas que Hampton parece uma terra
agradvel. s inteligente e tens uma licenciatura, mas contentas-te
com o salrio mnimo. Se te pergunto porqu, respondes que  por
gostares de ces - continuou, passando a mo pelo cabelo. - O problema
 este: tenho a sensao de que falas verdade. Mas no me dizes toda a
verdade. E a parte que mantns escondida  a que me ajudaria a perceber
quem tu s.
Ao ouvi-la, Thibault tentava no pensar nas coisas que no lhe contara.
Sabia que no lhe podia contar tudo. No haveria maneira de a fazer
compreender e... queria que Elizabeth soubesse quem ele era realmente.
Mais do que tudo, apercebeu-se de que desejava ser aceite por ela.
- No falo do Iraque porque no gosto de me recordar do tempo que l
passei - admitiu.
Elizabeth abanou a cabea. - No tens de me dizer se preferes...
- Eu quero - interrompeu com voz tranquila. - Sei que ls os jornais.
Mas no  como imaginas, e no haver qualquer forma de te fazer ver a
realidade.  uma experincia que tem de ser vivida pelo prprio. Isto
, na maior parte do tempo no era to mau como poders pensar que era.
Muitas vezes, na maioria das vezes, estava-se bem. Mais fcil para mim
do que para outros, pois eu no tinha mulher nem filhos. Tinha amigos,
tarefas a desempenhar. Na maior parte do tempo limitava-me a cumprir as
funes. Havia alturas ms. Realmente ms. Suficientemente ms para me
fazerem desejar esquecer que alguma vez l estive.
Ela manteve-se quieta at soltar um longo suspiro. - E ests em Hampton
por causa do que aconteceu no Iraque?
Ele arrancou o rtulo da garrafa de cerveja, comeando por descolar
lentamente o canto e esfregando o vidro com a unha. - De certo modo.
Elizabeth sentiu a hesitao e ps-lhe a mo no brao. O calor dela
pareceu soltar qualquer coisa dentro dele.
- Victor foi o meu melhor amigo no Iraque - comeou. - Fizemos as trs
comisses juntos. A nossa unidade sofreu muitas baixas e, no final, eu
estava pronto a pr para trs das costas tudo o que passara naquela
terra. E consegui esquecer a maior parte, mas para o Victor no foi to
fcil. No conseguia deixar de pensar na guerra.
174
Depois de desmobilizados, seguimos os nossos caminhos, tentando
ajustar-nos  vida. Ele foi para casa, para a Califrnia, eu regressei
ao Colorado, mas continuvamos a precisar um do outro, percebes?
Conversvamos pelo telefone, envivamos e-mails em que ambos fingamos
estar a viver bem com o facto de termos passado os ltimos quatro anos
a tentar, dia aps dia, no sermos mortos, apesar de as pessoas de c
agirem como se fosse o fim do mundo perderem um lugar de
estacionamento, ou no gostarem do leite fornecido pela Starbucks. De
qualquer forma, acabmos por nos reunir para uma pescaria no
Minnesota...
Interrompeu-se, no querendo recordar o que acontecera mas sabendo que
no podia evit-lo. Bebeu um grande gole de cerveja e voltou a colocar
a garrafa na mesa.
- Isto passou-se no Outono do ano passado e eu... bem, eu fiquei to
contente por voltar a v-lo. No falmos do tempo passado no Iraque,
mas no era preciso. Estar uns dias com outra pessoa que soubesse
aquilo por que passmos era suficiente para ambos. Na altura, Victor
encontrava-se bem. Nada de extraordinrio, mas estava bem. Tinha casado
e esperava o nascimento de um filho; recordo-me de ter pensado que,
embora ele continuasse a ter pesadelos, os seus problemas estavam em
vias de soluo.
Olhou para Elizabeth com uma emoo que ela no saberia descrever.
- No nosso ltimo dia, fomos pescar logo pela manh. Estvamos sozinhos
num barco a remos, o lago parecia liso como um espelho, como se
fssemos as primeiras pessoas que alguma vez tinham agitado aquelas
guas. Lembro-me de ter visto um falco a voar sobre o lago e da imagem
dele projectada na gua, de ter pensado nunca ter visto coisa mais bela
- prosseguiu. A recordao f-lo abanar a cabea. - Tnhamos planeado
sair dali antes de aparecer muita gente; a seguir iramos para a cidade
comer uns bifes e beber umas cervejas. Uma pequena festa para finalizar
a excurso. Mas parece que no demos pela passagem do tempo e
permanecemos no lago demasiado tempo.
Comeou a massajar as tmporas, a tentar manter a compostura.
- J tinha visto o barco. No sei o que me levou a reparar nele, no
meio de tantos outros. Talvez as minhas estadas no Iraque tivessem algo
a ver com isso, mas recordo-me de ter pensado que o devia ter debaixo
de olho. Um pormenor estranho, mesmo assim. Os tripulantes no pareciam
estar a proceder de maneira diferente de todos os outros. Eram apenas
uns adolescentes a divertirem-se: a praticar esqui
175
aqutico e tubing. Havia seis no barco, trs rapazes e trs raparigas;
era evidente que estavam a aproveitar para passar todo o tempo na gua
enquanto o calor o permitia.
A voz dele tornou-se rouca ao continuar. - Ouvi o rugir do motor e
soube que estvamos em dificuldades ainda antes de o ver. Um motor faz
um certo barulho quando se dirige para ns a toda a velocidade.  como
se o som sasse do motor um milsimo de segundo antes de o crebro
poder detect-lo subconscientemente; sabia que amos ter problemas. Mal
tive tempo de voltar a cabea, antes de ver a proa avanar para mim a
50 quilmetros por hora - recordou. Juntou os dedos. -Nesse momento,
Victor j compreendera o que ia acontecer e ainda me recordo da
expresso dele, uma mistura horrvel de medo e de surpresa, a mesma
expresso que eu vira nos meus amigos antes de morrerem no Iraque.
Thibault exalou o ar lentamente. - O barco cortou o nosso. Apanhou o
Victor em cheio e matou-o instantaneamente. Num momento estvamos a
conversar sobre a felicidade de ele ter casado com a sua mulher, no
instante seguinte, o meu melhor amigo, o melhor amigo que alguma vez
tive, estava morto.
Elizabeth ps-lhe a mo num joelho e apertou-o. Empalidecera.
- Tenho tanta pena...
Ele nem pareceu ouvi-la.
- No  justo, percebes? Sobreviver a trs comisses no Iraque,
sobreviver aos perigos por que passmos... para morrer numa excurso de
pesca? No fazia sentido. Depois daquilo, nem sei bem o que fiz, acho
que me descontrolei. No fisicamente. Mas, mentalmente, foi como cair
num buraco profundo e ficar l durante muito tempo. Desisti pura e
simplesmente. No conseguia comer, dormia poucas horas em cada noite e
havia alturas em que no conseguia conter o choro. Victor tinha-me
confessado que era perseguido por vises de soldados mortos e, depois
da morte dele, passei a ser tambm perseguido. De repente, a guerra
voltara a ser o centro de tudo. Sempre que procurava dormir, via o
Victor ou cenas dos combates em que entrramos, em que sobrevivramos,
e tremia dos ps  cabea. Zeus  que evitou que eu enlouquecesse
completamente.
Parou para encarar Elizabeth. Apesar das memrias, foi atingido pela
beleza daquele rosto e pelo brilho dourado daquele cabelo.
A face dela mostrava compaixo. - No sei o que dizer.
Thibault encolheu os ombros. - Nem eu. Ainda no consigo compreender.
- Sabes que no tiveste culpa, no sabes?
176
- Sei - murmurou. - Mas a histria no acabou ali - acrescentou. Ps-
lhe a mo num joelho, sabendo que no podia parar depois de ter ido to
longe.
Acabou por se decidir a continuar. - O Victor gostava de falar do
destino. Era um crente fervoroso em todas as coisas desse gnero; no
ltimo dia que passmos juntos disse que eu saberia qual era o meu
destino quando o encontrasse. Por mais que o tentasse, no consegui
tirar essa ideia da cabea. Ouvia-o dizer o mesmo, uma e outra vez, e,
pouco a pouco, fui chegando lentamente  concluso de que, embora no
soubesse onde o encontrar, no o encontraria certamente no Colorado.
Acabei por preparar a mochila e comecei a caminhar. A minha me pensou
que eu perdera o juzo. Porm, a cada passada que dava na estrada,
comecei a sentir-me novamente eu. Como se a viagem fosse o remdio de
que precisava para me curar. E na altura em que cheguei a Hampton,
soube que no tinha necessidade de caminhar mais.
- Por isso, ficaste.
- Pois.
- E o teu destino?
No respondeu. Contara-lhe toda a parte da verdade que podia e no
queria mentir-lhe. Olhou a mo dela, debaixo da sua, e, de sbito, tudo
aquilo lhe pareceu um erro. Sabia que tinha de parar antes que fosse
tarde. Levantar-se do sof e conduzi-la at ao carro. Dar-lhe as boas-
noites e partir de Hampton antes de o sol nascer. Mas no conseguiu
proferir as palavras; no conseguiu erguer-se do sof. Uma fora
qualquer apoderara-se dele; voltou-se para ela com um novo assombro.
Percorrera metade do pas  procura de uma mulher que conhecia apenas
atravs de uma fotografia, mas acabara, lenta mas seguramente
apaixonado por aquela mulher verdadeira, vulnervel e bela, que o fazia
sentir-se vivo, como ainda no se sentira depois da guerra. No
compreendia muito bem como, mas nunca sentira uma tal certeza em toda a
sua vida.
O que via na expresso dela era suficiente para lhe demonstrar que
Elizabeth sentia exactamente o mesmo, pelo que a puxou delicadamente
para si. Aproximou o rosto do dela e sentiu-lhe o calor da respirao
ao passar os lbios pelos dela, uma vez, duas vezes, para depois os
deixar l colados.
Enfiou-lhe os dedos pela cabeleira, beijou-a com tudo o que tinha, com
tudo o que queria ser. Ouviu um suave murmrio de contentamento quando
a enlaou nos braos. Abriu a boca ligeiramente e sentiu a lngua dela
contra a sua e, de repente, soube que aquela era
177
a mulher para ele, que estava a trilhar o caminho certo para ambos.
Beijou-a nas faces e no pescoo, mordendo-a suavemente e voltou a
beijar-lhe os lbios. Levantaram-se do sof, ainda agarrados, e ele
conduziu-a tranquilamente para o quarto.
Levaram tempo a fazer amor. Thibault ficou em cima dela, a desejar que
aquele momento durasse para sempre, sem nunca deixar de lhe declarar o
amor que sentia. Sentiu o corpo dela estremecer de prazer, uma e outra
vez. Depois, Elizabeth manteve-se enroscada por baixo do brao dele e,
depois de terem feito amor uma segunda vez, Thibault deitou-se de lado,
olhando-a nos olhos e a passar-lhe um dedo suavemente pelo pescoo.
Sentiu as palavras subirem-lhe  garganta, palavras que nunca esperara
dizer a quem quer que fosse.
- Amo-te, Elizabeth - sussurrou, sabendo que as palavras eram
verdadeiras em todos os sentidos.
Ela pegou-lhe nos dedos e beijou-os, um a um.
- Tambm te amo, Logan.
CLAYTON
Keith Clayton observou a sada de Beth, sabendo exactamente o que
acontecera l dentro. Quanto mais pensava no assunto, mais desejava
segui-la para conversarem um pouco logo que ela chegasse a casa.
Explicar a situao de forma que ela conseguisse compreender, lev-la a
aperceber-se de que aquele gnero de comportamento no era de forma
alguma aceitvel. Talvez com uma estalada ou duas, nada que a magoasse,
mas para ela saber que ele falava a srio. Nunca esbofeteara Beth. No
pertencia a esse gnero de homens.
Que raio estava a passar-se? Poderia qualquer daquelas situaes piorar?
Primeiro, verifica-se que o tipo trabalha no canil. A seguir, janta em
casa dela durante uns dias, trocando aquele gnero de olhares melados
que se vem naquela porcaria de filmes de Hollywood. E, ento, e aquele
fora o coice maior, saram para irem quela dana de falhados e, mais
tarde, embora no conseguisse ver atravs das cortinas, no tinha
dvidas de que ela comeara a portar-se como uma rameira. Provavelmente
no sof. Provavelmente at bebera de mais.
Recordou-se daqueles dias. Dava-se  mulher uns quantos copos de vinho
e voltava-se a encher o copo quando ela no estava a olhar, ou
reforava-se a cerveja com um pouco de vodca, ficava-se  espera que
ela comeasse a engrolar as palavras e tinha-se uma grande sesso de
sexo em plena sala de estar. A bebida era uma grande ajuda. Dando-lhe
umas quantas bebidas, a mulher no s no conseguia dizer no, mas
tornava-se uma fera no meio dos lenis. Como vigiara a casa, no lhe
custava imaginar o aspecto do corpo dela quando se despiu. Se no
estivesse to furioso, o pensamento poderia at t-lo excitado, ao
sab-la l dentro, a fazer aquilo, a ficar escaldante e a transpirar.
Mas a questo era outra: Beth no estava a agir exactamente como uma
me, pois no?
179
Sabia o que iria suceder. Uma vez que comeasse a ter sexo com os
namorados, a situao tornar-se-ia normal e aceite. Uma vez tornada
normal e aceite, faria o mesmo noutras sadas. To simples quanto isso.
Um tipo levaria a dois, que, por sua vez, levariam a quatro ou cinco,
ou dez ou vinte; a ltima coisa que queria era v-la a passear uma
legio de homens pela vida de Ben, que lhe poderiam piscar um olho ao
sarem, como quem queria dizer: No h dvida de que a tua mam  uma
mulher quente.
No ia deixar que tal acontecesse. Beth era burra naquilo em que as
mulheres so burras, motivo por que ele a tinha vigiado durante aqueles
anos todos. E tudo tinha corrido optimamente, at Thibolt ter
aparecido na cidade.
O tipo era um pesadelo com pernas. Como se tivesse como nica inteno
arruinar a vida de Clayton.
bom, tambm no iria conseguir isso, pois no?
Na ltima semana ficara a saber muitas coisas acerca de Thibolt. No
s que ele trabalhava no canil - a propsito, o que  que isso tinha de
esquisito? - e que morava numa barraca perto da floresta. E depois de
ter feito umas quantas chamadas com ar oficial para as autoridades do
Colorado, a cortesia profissional fizera o resto. Soube que Thibolt
era licenciado pela Universidade do Colorado. Que prestara servio
militar nos fuzileiros navais, que combatera no Iraque e recebera uns
quantos louvores. Contudo, o mais interessante foi saber que alguns dos
tipos do peloto dele murmuravam que, para se manter vivo, ele fizera
uma espcie de pacto com o demnio.
Gostaria de saber o que Beth pensaria de tudo aquilo.
Quanto a ele, no acreditava. Conhecera marines suficientes para saber
que, na sua maioria, eram inteligentes como calhaus. Mas no deixaria
de haver algo de esquisito com o homem se os seus camaradas fuzileiros
no tinham confiana nele.
E por qu atravessar o pas para se instalar ali? O tipo no tinha
conhecidos na cidade e, tanto quanto se sabia, nunca ali tinha estado.
O que tambm no deixava de ser esquisito. Mais, no conseguia
libertar-se da sensao de que a resposta estava mesmo  frente do seu
nariz, s que ainda no a conseguira descobrir. Mas descobriria. Como
sempre acontecera.
Clayton continuou a observar a casa, a pensar que j era tempo de
comear a tratar do tipo. Mas no de momento. No naquela noite. No
quando o co estivesse por perto. Talvez na semana seguinte. Quando
Thibolt estivesse no emprego.
Aquela era a melhor prova de que ele era diferente das outras pessoas.
Na sua maioria, as pessoas viviam as suas vidas como os criminosos:
180
agir primeiro, arcar com as consequncias depois. Keith Clayton no
actuava dessa maneira. Comeava por uma reflexo profunda. Traava
planos. Antecipava-se. Era essa a principal razo por que no fizera
nada at quele momento, mesmo quando vira os dois chegarem a casa
naquela noite, mesmo que tivesse visto Beth sair de l, de faces
coradas e despenteada. No final, sabia, tudo se resumia a poder e, de
momento, Thibolt dispunha de poder. Por causa do disco da mquina
fotogrfica. O disco com fotografias que poderiam estancar o fluxo de
dinheiro para os bolsos de Clayton.
Mas o poder de nada vale se no for utilizado. E Thibolt ou no se
apercebera de que dispunha de poder, ou livrara-se do disco, ou era do
gnero de pessoas que geralmente se ocupam apenas dos seus assuntos
pessoais.
Ou talvez fosse uma mistura de tudo aquilo.
Clayton tinha de se certificar. De comear pelo princpio, digamos
assim. O que significava procurar o disco. Se o tipo ainda o tivesse,
Clayton havia de o descobrir e destrua-o. O poder passaria de novo
para as mos de Clayton e Thibolt receberia o tratamento que lhe
estava reservado. E se Thibolt se tivesse livrado do disco depois de
o encontrar? Melhor ainda. Saberia como tratar dele e as coisas
comeariam a regressar  normalidade entre ele e Beth. E essa era a
parte mais importante.
Raios, como ela tinha bom aspecto ao sair daquela casa! Havia qualquer
coisa de excitante em v-la sair sabendo o que estivera a fazer, mesmo
que tivesse estado com Thibolt. Beth passara muito tempo sem ter um
homem e parecera-lhe... diferente. Mais do que isso, sabia que, depois
daquela noite, ela estaria preparada para mais do mesmo.
Aquela histria dos amigos privilegiados parecia-lhe cada vez mais
interessante.
181
BETH
- Imagino que se tenham divertido - insinuou Nana. Era domingo de manh
e Beth acabara de chegar aos tropees junto da mesa da cozinha. Ben
continuava a dormir no andar de cima.
-  verdade - respondeu, sem conseguir reprimir um bocejo.
- E?
- E... nada.
- Considerando que no fizeram nada, chegaste tarde.
- No era assim to tarde. Ests a ver? At acordei cedo - contraps,
espreitando para dentro do frigorfico e voltando a fech-lo sem tirar
o que quer que fosse. - Seria impossvel se tivesse recolhido a casa
demasiado tarde. E qual  o motivo de toda essa curiosidade?
- S pretendo saber se ainda tenho empregado na segunda-feira
- comentou Nana, enchendo uma chvena de caf e deixando-se cair numa
cadeira.
- No vejo qualquer motivo para no poderes contar com ele.
- Portanto, correu bem?
Desta vez, ao recordar-se da noite anterior, Beth levou algum tempo a
responder. Ao mexer o caf, sentiu-se mais feliz do que se sentira
desde h muito tempo. - Sim, correu bem.
Durante os dias seguintes Beth passou junto de Logan todo o tempo que
pde, procurando que tal no se tornasse demasiado evidente para Ben.
No sabia muito bem por que considerava a questo importante. Dir-se-ia
o gnero de parecer que os conselheiros de famlia dariam acerca de
namoros, sempre que houvesse filhos envolvidos. Mas, bem l no fundo,
sabia que havia outras razes. Havia algo de muito excitante no acto de
fingir que nada se alterara nas relaes
182
entre eles; dava  relao um aspecto de ilicitude, transformava-a
quase num caso amoroso clandestino.
Como era bvio, Nana no se deixara enganar. Uma vez por outra,
enquanto Beth e Logan procuravam manter aquela elaborada fachada, a av
resolvia murmurar uma qualquer frase sem sentido, como camelos no
Sara ou  como cabelos com chinelos. A primeira parecia implicar que
eles haviam sido feitos para viver juntos; o segundo murmrio levou um
pouco mais de tempo a ser percebido; Elizabeth andou s voltas com ele
at que Logan encolheu os ombros e sugeriu: - No ter algo a ver com
Rapunzel e Cinderela? .
Contos de fadas. Mas dos bons, com finais felizes. Nana estava a ser
amorosa, mas tentando no revelar que era uma sentimental.
Aqueles momentos em que conseguiam ficar ss tinham uma intensidade
mais prpria dos sonhos. Beth observava com extrema ateno qualquer
gesto ou movimento dele, fascinada pela forma tranquila como ele lhe
agarrava a mo quando seguiam atrs de Ben durante os passeios do fim
do dia, para a largar logo que Ben estivesse de novo  vista. Logan
possua um sexto sentido acerca do afastamento do garoto, uma aptido,
achava ela, adquirida nos fuzileiros, e estava-lhe grata por ele no se
incomodar minimamente com a deciso de ela voar baixo para no ser
detectada pelo radar do filho.
Para alvio dela, Logan continuara a tratar Ben exactamente como antes.
Na segunda-feira, trouxe um pequeno conjunto de arco e flechas que
comprara na loja de artigos para desporto. Ele e Ben andaram uma hora a
atirar ao alvo, mas uma boa parte do tempo foi gasta  procura de setas
perdidas, que erraram os alvos e acabaram no meio de arbustos com
espinhos ou enredadas em ramos de rvores, deixando-os com arranhes
das mos aos cotovelos. Depois do jantar acabaram por ir para a sala
jogar xadrez, enquanto Beth e Nana arrumavam a cozinha. Enquanto secava
os pratos, Beth concluiu que, mesmo que no existissem outras razes,
poderia amar Logan eternamente s pela maneira como ele tratava o filho
dela.
Apesar de manterem a maior discrio, iam arranjando desculpas para
estarem juntos. Na tera-feira, quando regressou a casa, vinda da
escola, verificou que, com permisso de Nana, Logan instalara um banco
de baloio no alpendre, para no termos de nos sentar nos degraus da
escada. Enquanto Ben estava na lio de msica, sentada junto a Logan,
ela regalou-se com o movimento lento e permanente do banco. Na quarta-
feira, foi com ele  cidade para comprar um novo carregamento de comida
para ces. Actividades comuns, de todos os dias, mas estar a ss com
ele era suficiente. Por vezes, quando seguiam
183
juntos na carrinha, Logan punha-lhe o brao  volta dos ombros e ela
encostava-se a ele, saboreando o momento.
Pensava nele enquanto trabalhava, a imaginar o que estaria a fazer ou
sobre aquilo que ele e Nana estariam a conversar. Imaginava a maneira
como a camisa dele se lhe colava  pele suada, ou a flexo dos seus
msculos enquanto treinava os ces. Na manh de quinta-feira, quando
Logan e Zeus percorriam o desvio de acesso  casa para irem trabalhar,
Beth voltou as costas  janela da cozinha. Nana estava  mesa, a enfiar
lentamente os ps nas botas de borracha, um gesto que se tornara um
desafio devido  fraqueza do brao. Beth pigarreou.
- Importas-te que o Logan tenha este dia de folga? - perguntou. Nana
nem se preocupou em esconder o sorriso. - Porqu?
- Queria sair com ele hoje. S ns os dois.
- E a escola? Beth j estava vestida e tinha o almoo preparado. -
Estava a pensar dar parte de doente.
- Ah! - comentou a av.
- Nana, eu amo-o.
Nana abanou a cabea, mas tinha os olhos brilhantes. - Andava a pensar
quando  que decidirias ter juzo e dizer-me isso, em vez de me
obrigares a murmurar aquelas charadas ridculas.
- Desculpa.
Nana ps-se de p e bateu os ps vrias vezes para ter a certeza de que
as botas estavam bem caladas. Deixou ficar uma fina camada de p no
cho. - Suponho que posso tratar das coisas por um dia. Provavelmente
at me faz bem. De qualquer maneira, tenho andado a ver televiso em
demasia.
Beth ajeitou uma madeixa atrs da orelha. - Obrigada.
- No tens de qu. Desde que isso se no torne um hbito. Ele  o
melhor empregado que alguma vez tivemos.
Passaram a tarde abraados, fazendo amor repetidamente, e quando chegou
a altura de regressarem, pois ela queria estar em casa quando Ben
voltasse da escola, Beth no tinha dvidas de que Logan a amava tanto
quanto ela o amava; e comeava a imaginar-se a passar o resto da vida
com ele.
Um nico pormenor ensombrou aquela felicidade perfeita, pois sentiu que
havia qualquer coisa a preocup-lo. No tinha a ver com ela, disso no
tinha dvidas. Nem se tratava do estado da relao entre eles; a
maneira como ele agia quando estavam juntos demonstrava-o. Havia
qualquer outro problema, algo que ela no podia apontar, mas,
184
pensando melhor, notou que se apercebera pela primeira vez do problema
na tarde de tera-feira, logo que chegara a casa com Ben.
Ben, como sempre, saltara do carro para ir brincar com Zeus, ansioso
por queimar as energias acumuladas durante a lio de msica. Enquanto
conversava com a av no escritrio do canil, espiava Logan, que estava
de p no jardim, de mos nas algibeiras, parecendo perdido em
reflexes. Mesmo na carrinha, quando colocara o brao  volta dela,
Beth percebera que ele continuava preocupado. E,  noite, depois do
jogo de xadrez com Ben, dirigira-se sozinho para o alpendre.
Beth juntou-se-lhe uns minutos depois e sentou-se ao lado dele no banco
de baloio.
- H qualquer coisa que te preocupa? - acabou por perguntar. Logan no
respondeu de imediato. - No tenho a certeza.
- Ests preocupado por minha causa?
Ele abanou a cabea e sorriu. - De forma alguma.
- O que  que se passa?
Logan hesitou. - No tenho a certeza - repetiu.
Beth encarou-o de olhos semicerrados. - Queres falar sobre isso?
- Quero - respondeu. - Mas ainda no.
No sbado, com Ben em casa do pai, foram de carro at Sunset Beach,
perto de Wilmington.
Naquela altura do ano as multides do Vero tinham desaparecido e, para
alm de umas quantas pessoas que passeavam pela praia, tinham o lugar
por conta deles. O oceano, alimentado pela corrente do golfo,
continuava com temperaturas bastante agradveis, meteram-se na gua at
aos joelhos e Logan atirou a bola para l da rebentao. Zeus estava
nas suas sete quintas, nadando furiosamente e ladrando uma vez por
outra, como se tentasse intimidar a bola para ela no sair do stio em
que se encontrava.
Beth preparara um piquenique e trouxera toalhas; quando Zeus se cansou,
afastaram-se um pouco mais da gua e instalaram-se para o almoo.
Metodicamente, foi dispondo o necessrio para fazer as sanduches e
cortou fruta fresca. Enquanto comiam, observaram uma traineira da pesca
de camaro a navegar no horizonte e, durante muito tempo, Logan
observou-a com ar preocupado, o mesmo ar que lhe notara por diversas
vezes durante a semana.
- Ests outra vez com aquele ar - acabou por dizer. :, ?- ? ?
- Qual ar?
- Deita isso c para fora - sugeriu, ignorando a pergunta.
- O que  que te preocupa? E desta vez no aceito respostas vagas.
185
- Estou ptimo - contraps Logan, voltando-se para a olhar de frente. -
Sei que tenho parecido um pouco absorto nos ltimos dias, mas estou
apenas a tentar perceber uma questo. ?
- Qual, exactamente?
- Por que  que samos juntos? Beth sentiu um baque no corao. No era
o que estava  espera de ouvir e notou a sua prpria expresso de
imobilidade.
- No me expressei bem - desculpou-se Logan, a abanar a cabea
repetidamente. - No queria referir-me  maneira como pensas. Estava a
reflectir sobre a existncia desta oportunidade. No faz sentido.
Beth encarou-o de testa enrugada. - Continuo a no perceber.
Zeus, que se mantivera deitado ao lado deles, ergueu a cabea para
observar um bando de gaivotas que pousara ali por perto. Alm delas, na
borda de gua, pequenos pssaros, chamados flautistas, mergulhavam para
apanhar pequenos caranguejos na areia. Logan ficou a observ-los, antes
de continuar. Quando falou, f-lo com voz firme, como um professor a
discorrer sobre a matria que ensinava.
- Se analisares a questo segundo a minha perspectiva, vers o
seguinte: uma mulher inteligente, fascinante e bonita, com menos de
trinta anos, viva e apaixonada. E tambm, quando quer, extremamente
sedutora - presenteando-a com um sorriso de conhecedor, antes de
prosseguir. - Por outras palavras, um bom partido, qualquer que seja a
definio utilizada - concluiu. Fez uma pausa. - Interrompe-me se
estiver a incomodar-te.
Beth estendeu o brao e deu-lhe uma palmadinha no joelho. - Ests a ir
muito bem. Continua.
Logan alisou nervosamente o cabelo. -  o que tenho andado a tentar
perceber. H dias que ando a pensar no mesmo.
Ela tentou, sem sucesso, seguir-lhe a linha de pensamento. Desta vez,
em vez das palmadinhas no joelho, apertou-o. - Tens de aprender a ser
mais claro. Continuo a no te perceber.
Desde que o conhecia, notou-lhe, pela primeira vez, uma momentnea
expresso de impacincia. Desapareceu to rapidamente quanto aparecera,
levando-a a sentir que, de alguma forma, era menos dirigida a ela do
que a ele prprio.
- Estou a dizer que no faz sentido que no tenhas mantido uma relao
depois do divrcio - observou. Parou, como se procurasse a expresso
certa. -  verdade que tens um filho, o que para alguns homens ser
razo suficiente para no se meterem contigo. Porm, geralmente no
escondes
186
o facto de seres me e calculo que, numa terra pequena como esta, a
maioria das pessoas est ao corrente da situao. Estou a pensar bem?
Beth hesitou. - Ests.
- E os homens que te convidaram para sair. Todos sabiam de antemo que
tinhas um filho?
- Sabiam.
Logan encarou-a com um ar inquisitorial. - Onde  que eles esto?
Zeus remexeu a cabea no colo dela, e Beth comeou a dar-lhe
palmadinhas atrs das orelhas, a sentir que procurava reforar a sua
atitude defensiva.
- O que  que isso interessa? - indagou. - E, para ser franca, esse
gnero de questes no me entusiasma. O que aconteceu no passado 
comigo, no posso desfazer o que fiz, e diabos me levem se vou ficar
aqui a ouvir as tuas perguntas sobre mim, acerca dos homens que
namorei, quando os namorei e o que lhes aconteceu. Sou quem sou, e
penso que deverias ser a primeira pessoa a perceb-lo, Sr. Vim-a-p-do-
Colorado-mas-no-me-perguntes-por-qu.
Permaneceu calmo, mas ela sabia que ele estava a reflectir sobre o que
ouvira. Quando voltou a falar, a voz dele parecia transbordar de
inesperada ternura.
- No estou a falar disto para te irritar. Estou a dizer o que penso
por te considerar a mulher mais notvel que conheci - retorquiu. Fez
nova pausa antes de continuar, para ter a certeza de que as suas
palavras tinham surtido efeito. - O problema  eu achar que quase todos
os homens pensariam como eu. E como namoraste outros homens,
especialmente nesta terra pequena onde no h assim tantas mulheres do
teu grupo etrio disponveis, estou convencido de que eles tero
reparado na estupenda mulher que tu s. Ora bem, alguns deles no
seriam o que esperavas, por isso terminaste a relao. Mas, e os
outros? Aqueles de quem gostaste? Ter forosamente havido algum,
algures, com quem parecesses alinhar.
Logan agarrou um punhado de areia e abriu os dedos lentamente,
permitindo que os gros se escoassem pouco a pouco. - Foi o que me
levou a pensar no assunto. Por no ser plausvel que no sentisses que
poderias alinhar com algum, apesar de tu prpria confessares que no
tiveste muita sorte no mundo dos namoros.
Interrompeu-se para limpar a mo com a toalha. - At aqui, estou
enganado?
Beth encarou-o, a imaginar como  que ele poderia saber tanto.
- No - respondeu.
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- E reflectiste sobre a questo, no  verdade?
- Algumas vezes - confessou. - Mas no achas que ests a remexer
demasiado neste assunto? Mesmo que eu fosse perfeita como tu dizes, 
preciso no esquecer que os tempos mudaram. Haver milhares, se no
dezenas de milhares, de mulheres que poderias descrever da mesma forma.
Ele encolheu os ombros. - Talvez.
- Mas no ests convencido. Os olhos azuis dele continuaram a analis-
la sem descanso. - No.
- Porqu? Acreditas que exista uma espcie de conspirao? Em vez de
lhe responder directamente, Logan pegou noutra mo-cheia de areia. - O
que  que podes dizer-me acerca do teu ex-marido? - inquiriu.
- Que importncia tem isso?
- Estou curioso sobre a maneira como ele encara os teus namoros.
- Tenho a certeza de que isso no lhe interessa minimamente. E nem
consigo imaginar por que pensas que isso tem importncia.
Logan deixou cair a areia toda de uma vez. A seguir, voltou-se para ela
e informou-a, em voz baixa. - Porque tenho quase a certeza de que foi
ele quem entrou em minha casa, h uns dias atrs.
THIBAULT
Na noite de sbado, j tarde, depois de Elizabeth ter sado, Thibault
encontrou Victor sentado na sala, ainda com os cales e a camisa que
vestia no dia em que morreu.
A viso obrigou Thibault a parar. S conseguiu ficar a olhar. No era
possvel, aquilo no estava a acontecer realmente. Sabia que Victor
tinha morrido, que fora sepultado num pequeno cemitrio perto de
Bakersfield. Sabia que Zeus teria reagido se houvesse um ser verdadeiro
dentro de casa, mas o co limitara-se a ir beber gua.
No meio do silncio, Victor sorriu. H mais, sugeriu, em voz rouca.
Quando Thibault pestanejou, Victor desaparecera; era bvio que nunca
ali estivera.
Era a terceira vez, desde a morte de Victor, que o amigo lhe aparecia.
A primeira vez fora no funeral, quando Thibault dobrava um canto, no
fundo da igreja, e vira Victor a olhar para ele do fundo do corredor.
No tiveste culpa, dissera Victor antes de desaparecer. A garganta de
Thibault apertara-se, forando-o a correr para conseguir respirar.
A segunda apario acontecera trs semanas antes de ele iniciar a
caminhada. Nessa altura, acontecera no supermercado, quando Thibault
esquadrinhava a carteira, a calcular quantas cervejas poderia comprar
com o dinheiro que lhe restava. Andava a beber demasiado e, ao contar
as notas, viu uma imagem pelo canto do olho. Victor abanou a cabea,
mas manteve-se calado. No precisara de falar. Thibault sabia que ele
dissera que era tempo de deixar a bebida.
Agora, isto.
Thibault no acreditava na existncia de fantasmas e sabia que a imagem
de Victor no fora verdadeira. No era perseguido por espectros,
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no recebia visitas do alm, no existia um esprito a desejar
entregar-lhe qualquer mensagem. Victor no passava de um fragmento da
sua imaginao e sabia que a imagem do amigo se lhe formara no
subconsciente. Afinal, Victor fora a nica pessoa de quem Thibault,
alguma vez, aceitara conselhos.
Sabia que o acidente com o barco no passara disso: de um acidente. Os
midos que tripulavam o barco ficaram traumatizados, o horror pelo que
tinha acontecido fora genuno. Quanto s bebidas, no fundo, sabia que
estavam a fazer-lhe mais mal do que bem. Fosse como fosse, revelava-se
mais fcil dar ateno a Victor.
Ver uma vez mais o amigo era a ltima coisa que esperava.
Ficou a pensar nas palavras de Victor - h mais - e ps-se a
reflectir se teriam alguma relao com a conversa que acabara de ter
com Elizabeth. De certa maneira, achava que no, mas no tinha a
certeza e isso preocupava-o. Suspeitava que quanto mais se cansasse 
procura de uma resposta, menos probabilidades teria de a encontrar. O
subconsciente gosta de nos pregar partidas.
Foi at  cozinha para beber um copo de leite, ps alguma comida na
tigela de Zeus e caminhou para o quarto. Deitado na cama, pensou no que
dissera a Elizabeth.
Pensara muito, e durante muito tempo, sobre se devia levantar a
questo. Nem tinha a certeza do que pretendia conseguir ao faz-lo,
para alm de lhe abrir os olhos acerca da possibilidade de Keith
Clayton poder andar a controlar-lhe a vida, de uma forma que ela nem
conseguia imaginar.
E era precisamente isso que o homem andara a fazer. Thibault
convencera-se logo que notou que a casa fora assaltada.  verdade que
poderia ter sido qualquer pessoa, algum que quisesse deitar mo a umas
notas ou a qualquer objecto que pudesse levar  casa de penhores; mas a
forma como o assalto fora levado a cabo sugeria algo de diferente. Tudo
demasiado perfeito. Nada remexido. Nada fora do lugar. No entanto, tudo
fora arrumado,
A primeira denncia viera do cobertor. Havia um pequeno sulco no
cobertor, provocado por algum que no conhecia a forma de os militares
entalarem os cobertores, um pormenor que poucas pessoas notariam, se 
que haveria algum capaz de reparar nele. Mas ele reparou. As roupas
guardadas no armrio mostravam desarranjos semelhantes: uma prega aqui,
uma manga mal dobrada ali. Enquanto ele estava no emprego, houvera
algum que, alm de entrar na casa, a revistara sistematicamente.
Mas, porqu? Thibault no tinha bens de valor para serem roubados. Uma
prvia vista de olhos pelo lugar confirmaria a ausncia de
190
valores. Para alm de a sala no conter qualquer aparelhagem
electrnica, o segundo quarto estava vazio e a diviso onde ele dormia
continha apenas a cama, a mesinha-de-cabeceira e o candeeiro. Tirando
os pratos e os utenslios, mais um abre-latas elctrico j antigo, a
cozinha tambm se encontrava vazia. Na despensa havia comida para ces,
um po e um frasco de manteiga de amendoim. Contudo, e por qualquer
motivo, algum perdera tempo a revistar a casa de alto a baixo,
incluindo a parte inferior do colcho. Algum revistara diligentemente
as gavetas e disfarara a busca.
Nenhum sinal de violncia por no encontrar valores. Sem frustrao
evidente por o assalto se ter revelado uma perda de tempo. Em vez
disso, o assaltante tinha tentado destruir todas as pistas.
Quem arrombara a porta da casa no viera para roubar, viera  procura
de qualquer coisa. De algo especfico. No levou muito tempo a
descobrir o que era e o nome do responsvel.
Keith Clayton queria a sua mquina fotogrfica. Ou, o que era mais
provvel, o disco. Talvez porque o carto continha fotografias que o
podiam comprometer. No era preciso um grande raciocnio para chegar a
essa concluso, tendo em conta o que Clayton andava a fazer quando se
tinham conhecido.
Muito bem, Clayton pretendera destruir as pistas. Mas havia ali mais
qualquer pormenor para alm dos que saltavam  vista. E tinha a ver com
Elizabeth.
No fazia qualquer sentido que ela no tivesse tido uma relao nos
ltimos dez anos. Mas tinha a ver com algo que ele ouvira quando estava
junto da mesa de bilhar, a mostrar a fotografia aos homens da terra. O
que  que um deles dissera? Precisara de algum tempo para se recordar
das palavras exactas e desejaria ter prestado mais ateno ao
comentrio. Estivera to empenhado em saber o nome de Elizabeth, que
ignorara o comentrio na altura. Um erro. Em retrospectiva, o
comentrio tinha uma ameaa implcita.
... digamos que ela no namora. O ex-marido no gostaria e, acredite,
no gostaria de se meter com ele.
Reviu o que sabia acerca de Keith Clayton. Pertencia a uma famlia
poderosa. Um rufia. Fcil de enfurecer. Em posio de abusar do poder.
Algum que pensava merecer tudo o que desejasse, sempre que lhe
apetecesse?
Thibault no podia ter a certeza acerca da ltima parte, mas tudo se
encaixava na fotografia.
Clayton no queria que Elizabeth conhecesse outros homens. Elizabeth
no tivera qualquer relao digna desse nome durante anos.
191
Por vezes interrogara-se sobre os motivos, mas nunca pensara existir
uma conexo entre o ex-marido e as relaes falhadas. Para Thibault,
parecia perfeitamente plausvel que Clayton andasse a manipular as
pessoas e os acontecimentos e, pelo menos num aspecto, a controlar a
vida da ex-mulher. Para saber se Elizabeth andava com algum, Clayton
andara a espi-la durante anos, tal como andava a espi-la agora.
No era difcil imaginar a forma como Clayton tinha feito abortar as
anteriores relaes, mas, por enquanto, mantivera as suas distncias no
que dizia respeito a Thibault e a Elizabeth. At agora no o detectara
a espi-los de longe, no notara qualquer pormenor fora do comum. Em
vez disso, Clayton entrara-lhe em casa em busca do disco da mquina,
quando sabia que ele estava no emprego.
Para matar dois coelhos de uma s cajadada?
Provavelmente. Mas a questo era: com que finalidade? Pelo menos para
correr com Thibault da cidade. No entanto, Thibault no conseguia
afastar a sensao de que no seria esse o objectivo. Como Victor
dissera, havia mais.
Queria partilhar com Elizabeth aquilo que sabia acerca do ex-marido,
mas no podia contar-lhe directamente os comentrios que escutara no
salo de bilhar. Significaria ter de falar da fotografia e ainda no o
podia fazer. Em vez disso, queria apontar-lhe a direco certa,
esperando que ela prpria estabelecesse as conexes. Juntos, uma vez
que ambos soubessem at onde Clayton era capaz de ir para sabotar as
relaes dela, seriam capazes de escolher o que teriam de fazer.
Amavam-se. Saberiam o que haveria a esperar. Tudo se resolveria.
Fora aquela a razo da sua vinda? Para se apaixonar por Elizabeth e
para construir uma vida a dois? Seria aquele o seu destino?
Por qualquer razo, no lhe parecia que assim fosse. As palavras de
Victor pareciam confirmar as dvidas dele. Havia outra razo para a
vinda dele. Apaixonar-se por Elizabeth poderia ser parte do esquema.
Mas no era tudo. Iria acontecer algo mais.
H mais.
Thibault dormiu o resto da noite sem acordar, como sempre acontecia
desde que chegara  Carolina do Norte. Uma regra militar, ou, mais
exactamente, uma regra de combate, algo que aprendera por necessidade.
Soldados cansados cometem erros. Fora o pai quem lho dissera. Todos os
oficiais que conhecera lhe haviam dito o mesmo. A sua experincia do
tempo de guerra s confirmara a justeza da afirmao. Aprendera a
dormir quando tinha de dormir, por mais catico que fosse o ambiente,
confiante de que dormindo se sentiria melhor no dia seguinte.
192
Tirando o breve perodo que se seguira  morte de Victor, o sono nunca
fora um problema. Gostava de dormir e gostava da forma como os seus
pensamentos pareciam assentar enquanto sonhava. No domingo, ao acordar,
deu consigo a imaginar uma roda com raios que partiam do centro. No
soube porqu mas, uns minutos depois, quando passeava Zeus no exterior,
foi subitamente atingido pela ideia de que Elizabeth no era o centro
da roda, como ele assumira subconscientemente. Em vez disso, apercebia-
se agora, tudo o que acontecera depois que chegara a Hampton parecia
girar  volta de Keith Clayton.
Afinal, Clayton fora a primeira pessoa que ele conhecera na cidade.
Tirara a mquina fotogrfica de Clayton. Clayton e Elizabeth tinham
sido casados. Clayton era o pai de Ben. Clayton sabotara as relaes de
Elizabeth. Clayton descobrira-os quando passavam o sero juntos, quando
trouxera Ben a casa com um olho negro; por outras palavras, fora o
primeiro a saber o que se passava entre eles. Clayton assaltara-lhe a
casa. Clayton fora a razo que o trouxera a Hampton, e no Elizabeth.
L longe, ouviu-se o trovo, profundo e ameaador. Vinha uma tempestade
a caminho e o ar pesado fazia pensar numa das grandes.
Para alm do que Elizabeth lhe contara acerca de Clayton, apercebeu-se
de que sabia muito pouco sobre o ex-marido dela. A queda dos primeiros
pingos obrigou-o a refugiar-se em casa. Mais tarde, iria fazer uma
visita  biblioteca. Se quisesse conhecer melhor Hampton e o papel que
os Clayton ali desempenhavam, tinha pela frente um pequeno trabalho de
investigao.
BETH
- No me surpreende - resmungou Nana. - Nada me espantaria com o teu
antigo marido.
- Nana, ele ainda no morreu.
Nana suspirou. - A esperana  a ltima coisa a morrer.
Beth bebeu um pequeno gole de caf. Era domingo e acabavam de regressar
da igreja. Pela primeira vez, desde que sofrera o acidente vascular,
Nana cantara um pequeno solo de uma das peas musicais e Beth no a
queria perturbar. Sabia o que o coro significava para a av.
- No me ests a ajudar - lamentou Beth.
- A ajudar em qu?
- Eu s estava a dizer...
Nana inclinou-se sobre a mesa. - Sei o que ests a dizer. J me
contaste, recordas-te? E se ests a perguntar se acho que Keith se
introduziu em casa de Thibault, estou apenas a dizer-te que tal no me
surpreenderia. Nunca gostei daquele homem.
- A quem o dizes!
- No h razes para seres insolente. ?? ?
- No estou a ser insolente.
Nana no pareceu ouvi-la. - Pareces cansada. Queres mais caf? E que me
dizes a uma tosta com canela?
Beth acenou com a cabea. - No tenho fome.
- Ainda assim, no podes deixar de comer. No  saudvel saltar
refeies e sei que no tomaste o pequeno-almoo - sentenciou ao
levantar-se da mesa. - vou preparar a tosta.
Beth sabia que no valia a pena protestar. Se Nana tomasse uma deciso,
no havia forma de a dissuadir.
- E quanto  outra parte? Acerca de Keith ter algo a ver com... - no
conseguiu continuar.
194
Nana encolheu os ombros e ps duas fatias de po na torradeira.
- Sobre ser ele a correr com os outros homens? Nesse homem nada me
surpreende. E parece explicar muitas coisas, no  verdade?
- Mas no faz sentido. Posso nomear pelo menos meia dzia de mulheres
com quem ele tem andado, alm de nunca me ter dado a entender que quer
voltar para mim. Por que havia de se importar com quem eu namoro?
- Porque no passa de uma criana mimada - adiantou Nana. Ps dois
pedaos de manteiga numa frigideira e acendeu o fogo. Uma pequena
chama azulada apareceu. - Foste o brinquedo dele, e mesmo tendo
conseguido arranjar novos brinquedos, isso no quer dizer que ele goste
que algum brinque com os brinquedos mais antigos.
Beth remexeu-se na cadeira. - No acho que essa analogia me agrade.
- No interessa se te agrada ou no. Interessa  saber se  verdade.
- E pensas que ?
- No foi isso que eu disse. Disse que no me surpreenderia. E no
venhas tambm dizer-me que ficaste surpreendida. Tenho reparado na
maneira como ele te analisa da cabea aos ps. Provoca-me calafrios e,
acredita, fao o que posso para no lhe bater com a p de apanhar a
trampa.
A neta sorriu, mas o sorriso durou apenas um instante. Quando as
torradas saltaram, Nana apanhou as duas fatias e colocou-as num prato.
Espalhou molho de manteiga por cima delas, depois acrescentou acar e
canela. Pegou no prato e colocou-o em frente de Beth.
- A tens. Come. Hoje em dia pareces um esqueleto.
- Tenho o mesmo peso de sempre.
- Que no  suficiente. Nunca foi suficiente. Se no tomas cuidado, s
levada pela tempestade - sentenciou, apontando para a janela.
- Vai ser das grandes. O que  bom. Precisamos da chuva. Espero que no
tenhamos uivadores no canil.
Os uivadores eram ces que se assustavam com as tempestades e tornavam
a vida difcil aos outros ces. Beth reconheceu na mudana de conversa
uma oportunidade para mudar de assunto. Nana quase sempre oferecia uma
sada mas, ao dar a primeira dentada na torrada, Beth deu-se conta de
que queria discutir uma outra questo.
- No julgo que se tenham conhecido antes - acabou por dizer.
- Quem? Thibault e o tarado?
Beth ergueu as mos. - Por favor, no lhe chames isso. Sei que no
gostas dele, mas no deixa de ser o pai do Ben e no quero que cries o
hbito de lhe chamar isso quando Ben pode ouvir. Bem sei que no est
aqui de momento...
195
Nana sorriu sem vontade. - Tens razo - admitiu. - Peo desculpa. No
volto a dizer isso. Mas, estavas a perguntar-me o qu?
- Recordas-te da noite em que Keith trouxe o Ben a casa com um olho
negro? Estavas em casa da tua irm. interrompeu a frase para que Nana
se lembrasse. - Na noite passada, dei comigo a pensar nisso. Na altura
no liguei, mas quando Keith viu Logan, no perguntou quem ele era. Em
vez disso, foi como se lhe tivessem carregado num interruptor, ficou
subitamente furioso. Disse algo assim: O que  que est a fazer aqui?
- E ento? - perguntou Nana com ar ausente.
- Foi a maneira como fez a pergunta. No pareceu l muito surpreendido
por encontrar um homem aqui em casa, o que o surpreendeu especialmente
foi tratar-se de Logan. Como se Logan fosse a pessoa que esperava
encontrar.
- O que  que Thibault diz quanto a isso?
- Nada. Mas faz sentido, no achas? Que os caminhos de ambos se tenham
cruzado? Pois ele pensa que Keith lhe revistou a casa.
- Talvez - concordou Nana, mas logo a seguir abanou a cabea.
- No sei. O Thibault mencionou aquilo de que o teu ex-marido andaria 
procura?
- No, no falou nisso. Apenas disse que no havia muito que encontrar.
- Uma maneira de responder  pergunta sem realmente te esclarecer.
- Hum - anuiu Beth. Deu nova dentada na tosta, a pensar que no
conseguiria com-la toda.
Nana inclinou-se para ela. - E isso tambm te preocupa?
- Um pouco - concordou Beth com ligeiro aceno.
- Por pensares que ele te esconde qualquer facto?
Como Beth no respondesse, Nana estendeu o brao por cima da mesa e
pegou na mo da neta. - Julgo que neste caso ests a preocupar-te com o
que no interessa. Talvez o teu ex-marido tenha revistado a casa de
Thibault, ou pode no o ter feito. Talvez tenha havido um encontro
anterior, ou talvez no se conhecessem. Mas nada disso  to importante
como descobrir se o teu ex-marido tem andado a actuar em segredo contra
ti. Se fosse eu, era com isso que me preocuparia, era isso que
procuraria saber, pois essa  a parte que te afecta mais - sugeriu. Fez
uma pausa para deixar que as ideias assentassem.
- Digo isso por vos ter visto juntos, tu e Thibault, e salta  vista
quanto ele se interessa por ti. E julgo que o motivo que o levou a
dizer-te isso  tentar evitar que lhe suceda o mesmo que sucedeu aos
outros homens que namoraste.
196
- Portanto, julgas que Logan tem razo?
- Julgo que sim. E tu, no?
Beth levou muito tempo a responder. - Tambm penso o mesmo.
Uma coisa era pensar, outra era ter a certeza. Depois da conversa com a
av, vestiu calas de ganga, pegou na gabardina e seguiu de carro para
a cidade. A chuva comeara a cair em fora umas horas antes, um dilvio
alimentado por uma tempestade tropical que, vinda da Gergia, atingira
a Carolina do Norte. Os prognsticos apontavam para a queda de 20
centmetros de gua nas prximas 24 horas, com possibilidades de o mau
tempo se manter. Mais duas tempestades vindas do Golfo do Mxico tinham
atingido terra firme em dias recentes e receava-se que pudessem tambm
atravessar a regio, trazendo consigo ainda mais chuva. O Vero quente
e seco chegava oficialmente ao fim.
Mesmo com o limpa-vidros na velocidade mxima, Beth mal conseguia ver o
que tinha pela frente. Os esgotos comeavam a transbordar e enquanto ia
a caminho da cidade viu diversos turbilhes de gua que se dirigiam
para o rio. O nvel das guas ainda no subira, mas iria subir: o rio
era alimentado por quase todos os tributrios existentes num raio de 80
quilmetros, levando-a a suspeitar que a cheia do rio no viria longe.
A cidade sabia lidar com inundaes; tempestades de tal fora faziam
parte da vida corrente naquela regio do pas e muitas das empresas
encontravam-se suficientemente afastadas das margens para evitar os
efeitos, mesmo tratando-se de inundaes excepcionais. Na estrada que
conduzia ao canil, por correr paralela ao rio, a situao era
diferente. Durante tempestades violentas, especialmente quando havia
tufes, o rio inundava-a, tornando aquele percurso perigoso. No seria
um problema de hoje, colocar-se-ia durante a semana, pois suspeitava
que a situao iria tornar-se bem pior.
Enquanto conduzia continuava a reflectir sobre a conversa com Nana. Na
manh do dia anterior as coisas tinham parecido bastante mais simples,
mas agora no conseguia pr de lado as questes que lhe atormentavam a
mente. No s em relao a Keith, mas tambm acerca de Logan. Se fosse
verdade que Logan e Keith j se conheciam, por que motivo Logan nunca
se referira a isso? E que procuraria Keith em casa de Logan? Como
polcia, Keith tinha acesso a todos os gneros de informaes sobre
pessoas, podendo, portanto, tratar-se de algo desse tipo. O que seria,
ento? No conseguia fazer ideia do que poderia ser. . VMJ-:
E se Nana e Logan tivessem razo? E partindo do princpio de que a
tinham, porque depois de pensar um pouco no assunto sentia
intuitivamente que eles estavam dentro da razo, como pudera ela no
dar por nada?
Era duro ter de admitir que poderia t-lo julgado mal. Lidava com o
homem h mais de dez anos e, embora nunca o tivesse considerado um
modelo de virtudes, a ideia de ele andar a sabotar a vida pessoal dela
nunca lhe ocorrera. Quem faria uma coisa daquelas? E porqu? A ideia de
Nana, a de que ele pensava nela como um brinquedo pessoal que no
desejava partilhar, tinha uma aura de verdade que lhe tornava o pescoo
tenso enquanto conduzia.
O que mais a surpreendia era que naquela pequena terra, onde se tornava
quase impossvel manter segredos, ela nunca tivesse sequer suspeitado
do que estava a acontecer. F-la duvidar dos amigos e dos vizinhos,
mas, acima de tudo, f-la suspeitar dos homens que a tinham cortejado.
Por que motivo no tinham, pura e simplesmente, mandado Clayton tratar
da vida dele?
Porque, recordou-se, ele era um Clayton. E aqueles homens no puseram
objeces pela mesma razo que a levavam a no pressionar Keith quando
se tratava de Ben. Por vezes, no levantar ondas era o melhor que havia
a fazer.
Odiava realmente aquela famlia.
Estava,  claro, a exceder-se. Lembrou a si mesma que o simples facto
de Logan e Nana suspeitarem de que Keith fizera algo que no devia, no
tornava a acusao verdadeira. Motivo que a levara a empreender aquela
viagem.
Virou  esquerda no cruzamento principal, dirigindo-se para um bairro
antigo, onde dominavam as casas de estilos elaborados e alpendres
compridos e espaosos. As ruas eram ladeadas por rvores de grande
porte e lembrava-se de aquele ser o seu bairro preferido, quando era
criana. As famlias dali mantinham a tradio das esplendorosas
decoraes exteriores das casas durante as festas, o que dava ao local
um ar pitoresco e alegre.
A casa ficava a meio da rua e ela avistou o carro dele no lugar
reservado a estacionamento. Havia outro carro estacionado atrs do
dele, e embora isso significasse que estava acompanhado, no sentiu
necessidade de voltar para trs. Depois de parar em frente da casa,
levantou o capuz da gabardina, saiu do carro e enfrentou a tempestade.
Fez esparrinhar a gua que se acumulara em poas baixas no caminho e
subiu os degraus do alpendre. Atravs das cortinas, viu um candeeiro
aceso no canto da sala; ao lado, um televisor estava a transmitir
198
a ltima corrida NASCAR. O visitante deveria ter insistido nisso, pois
o dono da casa nunca ligaria o televisor para ver tal transmisso.
Sabia como o homem odiava a NASCAR.
Tocou a campainha e deu um pequeno passo atrs. Quando o rosto dele se
mostrou na fresta aberta na porta, reconheceu-a de imediato. Na sua
expresso, Beth reconheceu uma mistura de surpresa e curiosidade, bem
como um sinal de qualquer coisa que no esperava encontrar: medo.
Olhou rapidamente para os dois lados da rua, antes de fixar o olhar
nela.
- Beth, o que  que ests a fazer aqui?
Ela sorriu. - Ol, Adam. Estava a pensar se me poderias dispensar uns
minutos. Gostava muito de falar contigo.
- Estou acompanhado - explicou, em voz baixa. - No  a melhor altura.
Nem por acaso, ouviu-se uma voz de mulher, vinda de um ponto qualquer
atrs dele. - Quem ?
- Por favor? - pediu Beth.
Ele pareceu debater a questo de lhe fechar ou no a porta na cara, mas
acabou por suspirar. -  uma amiga - respondeu, agora em voz alta.
Voltou-se. - Ds-me um minuto, est bem?
Uma mulher apareceu por cima do ombro dele; vestia calas de ganga e
uma T-shirt um pouco apertada, alm de empunhar uma cerveja. Beth
reconheceu-a como a secretria do escritrio de Adam. Chamava-se
Noelle, ou algo semelhante.
- O que  que ela quer? - inquiriu Noelle. Pelo tom de voz, era
evidente que o reconhecimento fora recproco.
- No sei - respondeu Adam. - Apareceu de repente, est bem?
Noelle fez beicinho, passando um brao protectoramente  volta do peito
dele. - Mas eu quero ver a corrida.
- Eu sei - anuiu Adam. - Mas no demoramos - hesitou ao ver a expresso
de Noelle. - Prometo.
Beth ficou a pensar se aquele tom choramingas sempre existira e, a ser
verdade, perguntou-se por que no reparara nele antes. Ou ele tentara
escond-lo ou ela pretendera ignor-lo. Suspeitou que a segunda
hiptese seria a verdadeira, um pensamento que a fez ficar pouco
satisfeita consigo mesma.
Adam saiu e fechou a porta. Quando ele ficou de frente para ela, Beth
no saberia dizer se o homem estava cheio de medo ou zangado. Ou ambas
as coisas.
199
- O que h de to importante? - perguntou Adam. Parecia um adolescente.
- Nada importante - contraps Beth. - Vim c s para te fazer uma
pergunta.
- Acerca de qu?
Beth quis que ele olhasse para ela. - Quero saber o motivo que te levou
a deixares de me telefonar depois do nosso jantar.
- O qu? - perguntou, a mudar o peso de um p para o outro, a fazer-lhe
lembrar um cavalo assustadio. - Deves estar a brincar.
- No estou.
- S no voltei a telefonar-te, pois no? No correu como devia.  por
isso que ests aqui? Queres um pedido de desculpas?
A pergunta soou como um queixume e deixou-a a interrogar-se sobre o que
alguma vez a levara a sair com ele.
- No, no estou aqui para que peas desculpa.
- Ento, por que ? Escuta, estou acompanhado - lembrou, a apontar por
cima do ombro com o polegar. - Tenho de ir para dentro.
Logo que ela fizera a pergunta, ele voltara a olhar a rua nos dois
sentidos, no deixando a Beth dvidas sobre o que se passara.
- Tiveste medo dele, no foi?
Embora ele tentasse disfarar, Beth soube que lhe tocara num ponto
fraco. - De quem? Do que  que ests a falar?
- De Keith Clayton, do meu ex-marido.
Adam abriu a boca para dizer qualquer coisa, mas as palavras no
saram. Em vez disso, engoliu outra vez em seco e fez nova tentativa de
negar. - No sei do que ests a falar.
Ela avanou um passo. - O que  que ele fez? Ameaou-te? Meteu-te medo?
- No! No quero falar disso - defendeu-se. Voltou-se para a porta e
pegou no puxador. Beth agarrou-o por um brao e obrigou-o a parar,
aproximando o rosto do dele. Adam contraiu os msculos e a seguir
descontraiu-se.
Ela pressionou. - Foi o que ele fez, no foi? - No posso falar disso -
hesitou. - Ele...
Embora suspeitasse de que Nana e Logan tinham razo, e a sua prpria
intuio a tivesse levado at ali, sentiu que qualquer coisa se
desmoronava dentro de si quando ouviu a confirmao de Adam.
- O que  que ele fez?
- No posso dizer-te. Devias ser a primeira pessoa a compreender isso.
Sabes como ele . Ele... .;;:
200
A voz faltou-lhe, como se subitamente se apercebesse de que tinha
falado de mais.
- Ele o qu?
Adam abanou a cabea. - Nada. No vai fazer o que quer que seja -
disse, endireitando-se um pouco. - As coisas no correram bem entre
ns. Fiquemos por a.
Abriu a porta. Fez uma pausa, respirou fundo e ela ainda pensou se ele
iria mudar de ideias.
- Por favor, no voltes aqui - pediu.
Beth estava sentada no banco do alpendre, a olhar a parede de gua que
vinha do cu, com as roupas ainda molhadas. Na maior parte do tempo, a
av deixara-a sozinha com os seus pensamentos, s a interrompendo para
lhe entregar uma chvena de ch quente e um bolo caseiro, ainda morno,
mas, contra o que era costume, fizera tudo sem proferir palavra.
Beth engoliu o ch antes de se aperceber de que no lhe apetecia. No
sentia frio; apesar do dilvio incessante, o ar estava quente e ela
conseguia ver pedaos de nvoa dispersos pela terra.  distncia, o
desvio de acesso parecia engolido por uma nvoa cinzenta.
O seu ex-marido no tardaria a chegar. Keith Clayton. De vez em quando
proferia o nome em voz baixa, fazendo-o soar quase como um palavro.
No conseguia acreditar. No, asneira. Conseguia, e queria, acreditar.
Mesmo que lhe tivesse apetecido esbofetear Adam por se ter mostrado to
medroso com a situao, sabia que no podia realmente culp-lo. Era bom
rapaz, mas no se podia dizer que fosse, nem alguma vez fora, o gnero
de homem que se escolhe em primeiro lugar para um jogo de basquetebol
ou de beisebol. No havia qualquer possibilidade de ele enfrentar o ex-
marido dela.
S gostaria que Adam tivesse revelado o que Keith lhe fizera. Era fcil
de imaginar; no tinha dvidas de que Adam alugara o escritrio 
famlia Clayton. Quase todas as empresas do centro o faziam. Teria
Keith jogado a carta da renda? Ou seria a carta podemos tornar-lhe a
vida difcil? Ou teria jogado a carta da aplicao da lei? At onde
estaria o homem disposto a ir?
Depois que se sentara no alpendre, tentara calcular exactamente quantas
vezes ocorrera o mesmo. No eram muitas, talvez cinco ou seis, pensou,
que tinham terminado da mesma forma sbita e inexplicvel, como
acontecera com Adam. Estava a contar com Frank; quando fora? H sete
anos? Andaria ele a espi-la h tanto tempo? A revelao provocou-lhe
um n no estmago.
201
O que  que tinham todos os homens que escolhia se cada um deles se
encolhia, a fingir-se morto, no momento em que Keith resolvia intervir?
Claro, os Clayton eram uma famlia poderosa e, alm disso, Keith era
polcia, mas que mal havia em reagir como um homem? Em mand-lo meter-
se na vida dele? E por que  que, no mnimo, no vinham contar-lhe o
que estava a acontecer? Em vez disso, escapuliam-se de rabo entre as
pernas. Entre eles e Keith, no podia dizer que tivesse sorte com os
homens. Como  que era o ditado? Diabos te levem por me enganares na
primeira vez, diabos me levem por me deixar enganar na segunda. A culpa
seria dela por escolher homens to decepcionantes?
Talvez, admitia. No entanto, o problema no era esse. O problema era
que Keith andara a trabalhar nos bastidores para manter a situao
exactamente como ele queria. Como se fosse o dono dela.
A ideia provocou-lhe um novo n no estmago e pensou que gostaria de
ter Logan ali consigo. No por que faltasse pouco para Keith vir
entregar o filho. No precisava de Logan para isso. O ex-marido no lhe
metia medo. Nunca tivera medo dele por saber que, no fundo, ele no
passava de um fanfarro, e os fanfarres recuam sempre que algum lhes
faz frente. Nana nunca tivera medo de Keith, pela mesma razo. Drake
apercebera-se do mesmo e ela sabia que a presena do irmo punha sempre
Keith nervoso.
No, gostaria de ter Logan ali por ele ser um bom ouvinte, por saber
que ele no lhe interromperia a tagarelice, nem tentaria resolver o
problema dela, ou mostrar-se aborrecido se ela dissesse uma centena de
vezes: no posso acreditar que ele fosse realmente capaz de fazer uma
coisa dessas. Deixaria que ela desabafasse.
Contudo, pensou, a ltima coisa que quereria era falar at libertar a
fria do seu sistema. Era muito melhor deix-la ferver em lume brando.
Precisava da fria para quando tivesse de enfrentar Keith; a fria
mant-la-ia desperta, mas no queria perder o domnio da situao. Se
ela comeasse aos gritos, Keith limitar-se-ia a negar tudo e a sair
dali para fora. Porm, a nica coisa que ela queria era manter Keith
fora da sua vida privada, especialmente agora que Logan entrara na
fotografia, sem tornar os fins-de-semana de Ben ainda piores do que j
eram.
No, era melhor que Logan no estivesse l. Keith poderia reagir com
violncia se tornasse a encontrar Logan, poderia at provoc-lo e lev-
lo a reagir, criando-se um novo problema. Se Logan tocasse no ex-marido
dela, teria de passar um longo, muito longo, perodo na cadeia.
Precisava de falar do assunto a Logan, para ter a certeza de que
202
ele ficava a saber como funcionavam aquelas coisas em Hampton. Contudo,
por agora, tinha de tratar do seu pequeno problema.
Surgiram luzes de faris ao longe e o carro pareceu primeiro
liquefazer-se, para depois voltar ao estado slido quando se aproximou
da casa. Viu Nana a espreitar por entre as cortinas e retirar-se logo
de seguida. Beth levantou-se do banco e foi para a beira do alpendre
quando se abriu a porta do passageiro. Ben saltou de l juntamente com
a mochila e meteu os ps numa poa, encharcando os sapatos. No pareceu
reparar ao trotar para os degraus e subir para o alpendre.
- Boa noite, mam - saudou. Abraaram-se ainda antes de ele olhar para
a me. - Podemos ter esparguete ao jantar?
-  claro que sim, meu querido. Como  que foi o fim-de-semana? Ben
encolheu os ombros. - Tu sabes.
- Pois sei. Por que no vais mudar de roupa? Acho que a Nana fez bolos.
E tira os sapatos, est bem?
- No vens?
- Dentro de minutos. Primeiro, quero falar com o teu pai.
- Porqu?
- No te preocupes. No tem nada a ver contigo.
Ben tentou perceber o que se passava atravs da expresso da me e ela
ps-lhe a mo no ombro. - Vai. A Nana est  espera.
Ben entrou enquanto Keith abriu a janela apenas uns centmetros.
- Passmos um excelente fim-de-semana! No o deixes dizer o contrrio.
Disse aquilo num tom de alegre confiana, Provavelmente, pensou Beth,
por Logan no estar presente.
Ela deu mais um passo em frente. - Podes dispensar-me uns minutos?
Keith olhou-a pela fresta da janela, arrumou o carro e desligou o
motor. Abriu a porta, saiu e correu para os degraus. Uma vez no
alpendre, abanou a cabea, fazendo voar uns quantos pingos, antes de
sorrir para Beth. Provavelmente a pensar que ela parecia excitante.
- O que  que se passa? - indagou. - Como eu disse, passmos um grande
fim-de-semana.
- Obrigaste-o a limpar a cozinha outra vez? O sorriso desapareceu. - O
que  que tu queres, Beth?
- No te irrites. S te fiz uma pergunta. Keith continuou a olhar para
ela, a tentar perceber onde Beth
queria chegar. - No te digo o que deves fazer com o Ben quando ele
est contigo, pelo que espero a mesma cortesia. Ora bem, qual  O
aSSUntO? ?;;-,-? .;
203
Apesar da tristeza que sentia, Beth forou-se a sorrir e apontou para o
banco do alpendre. - Na verdade, so meia dzia de pequenas coisas. No
queres sentar-te?
Pareceu surpreendido. - com certeza. Mas no posso demorar-me muito.
Tenho planos para o sero.
 claro que tens, pensou Beth. Ou tens ou queres levar-me a pensar que
os tens. Uma histria que se tornara habitual desde o divrcio.
Sentaram-se no banco de balouo. Depois de sentado, fez o banco ir para
diante e para trs, para depois se recostar de braos abertos.
- Isto  agradvel. Foste tu que o montaste?
Ela tentou manter a maior distncia entre eles. - Foi o Logan que o
montou.
- Logan?
- Logan Thibault. Est a trabalhar para a Nana, no canil. Recordas-te?
J o conheces.
Keith coou o queixo. - O tipo que estava aqui na outra noite? Como se
no soubesses. - Sim, esse.
- E no se importa de limpar jaulas e de carregar com a trampa? -
perguntou.
Beth ignorou a inteno bvia.
Ele expirou fundo e abanou a cabea. - Antes ele do que eu comentou,
voltando-se para ela com um encolher de ombros. - Ento, o que  que se
passa?
Beth mediu as palavras cautelosamente. - -me difcil falar disto... -
comeou e interrompeu-se, sabendo que assim o faria interessar-se mais.
- O que ?
Beth sentou-se mais direita. - H dias, a falar com uma das minhas
amigas, ela disse-me uma coisa que no me caiu bem.
Keith inclinou-se para ela, alerta. - O que  que ela disse?
- Bem antes de te contar, quero dizer que se tratou de um desses
rumores. A amiga de uma amiga de outra amiga ouviu qualquer coisa, at
que o rumor chegou at mim. Diz-te respeito.
Ele mostrou-se curioso. - Tens toda a minha ateno.
- O que ela disse foi... - hesitou. - Disse que no passado, costumavas
espiar as minhas sadas. E que disseste a alguns dos meus namorados que
no os querias ver comigo.
Decidira no olhar directamente para ele, mas pelo canto do olho notou-
lhe a expresso gelada. Uma expresso de choque, mas tambm de culpa.
Beth cerrou os lbios com fora para no explodir.
204
A expresso de Keith descontraiu-se. - Nem quero acreditar
- comentou, a tamborilar com os dedos na coxa. - Quem  que disse isso?
- No  importante - comentou fazendo um gesto de desdm.
- No a conheces.
Ele pressionou. - Questo de curiosidade.
- No  importante - repetiu Beth. - No  verdade, pois no?
-  claro que no. Como pudeste imaginar uma coisa dessas?
Mentiroso!, gritou Beth interiormente, esforando-se para no falar.
No silncio que se seguiu, ele abanou a cabea.
- Parece-me que tens de comear a escolher melhor as tuas amigas. E,
para te ser franco, sinto-me um pouco magoado s pelo facto de termos
esta conversa.
Beth forou-se a sorrir. - Eu disse-lhe que no era verdade.
- Mas quiseste ter a certeza e por isso interrogaste-me pessoalmente.
Notou uma nota de fria na voz dele e recordou-se de que tinha de ser
cuidadosa.
- Estavas aqui - observou, tentando mostrar desinteresse.
- E, alm disso, conhecemo-nos h tempo suficiente para podermos falar
como adultos - explicou, encarando-o de olhos bem abertos, como vtima
inocente de um erro. - Ficaste aborrecido por eu ter perguntado?
- No, mas ainda assim, s de pensar nisso... - no completou a frase,
limitando-se a erguer as mos.
- No pensei. Mas quis informar-te por julgar que estarias interessado
em saber o que as pessoas dizem nas tuas costas. No gosto de ouvir
falar assim do pai de Ben; e fiz-lhes sentir isso.
Aquelas palavras surtiram o efeito desejado. Keith encheu o peito de
virtuoso orgulho.
- Obrigado por me defenderes.
- No h nada a defender. Sabes como so os mexericos.  o lixo txico
das terras pequenas - comentou, abanando a cabea. - Ento, como vai o
resto? O trabalho corre bem?
- O mesmo de sempre. Como  a tua turma deste ano?
-  um grupo bastante bom de midos. At agora, pelo menos.
- bom - disse Keith, ao apontar para o jardim. - Uma tempestade das
grandes, hum? Mal conseguia ver a estrada.
- Estava a pensar o mesmo quando vi aparecer o carro.  uma loucura.
Ontem, a praia estava maravilhosa. ????? ;1.. ]
- Estiveste na praia?
205
Beth assentiu. - O Logan foi comigo. Andamos juntos h j algum tempo.
- Ah! Parece que o caso est a ficar srio - comentou Keith. Beth
olhou-o de relance. - No me digas que aquela mulher
estava a falar verdade acerca de ti.
- No,  claro que no.
Ela conseguiu um sorriso matreiro. - Eu sei. Estava apenas a provocar-
te. E no, o nosso caso ainda no  srio, mas estamos a falar de um
homem estupendo.
Keith juntou as mos. - O que  que a Nana pensa disso?
- Que interessa o que ela pensa?
Ele mexeu-se no assento. - Estou apenas a dizer que uma situao dessas
se pode tornar complicada.
- De que  que ests a falar?
- Ele trabalha aqui. E sabes como os tribunais actuam nos dias que
correm. Ests a expor-te a um gravoso processo de assdio sexual.
- Ele nunca poderia fazer isso...
Keith discorreu com pacincia, como quem se dirige a uma pessoa muito
mais jovem. - Acredita em mim. Isso  o que toda a gente diz. Contudo,
pensa no assunto. Ele no tem ligaes na comunidade, trabalha para a
Nana, duvido que tenha muito dinheiro. Sem ofensa. Mas, lembra-te, a
tua famlia tem uma grande propriedade - insinuou, encolhendo os
ombros. - Estou apenas a dizer que deves ter o mximo cuidado.
Mostrava-se persuasivo e, apesar de ela saber que no era assim,
preocupado com ela. Um amigo que geralmente se preocupava com o bem-
estar dela. O homem devia ter sido actor, pensava Beth.
- Nana  a proprietria das terras e da casa. No sou eu. G: - Sabes
como os advogados podem actuar.
Ela pensou que sabia exactamente como. Lembrou-se do que o advogado
dele fizera na audincia sobre a tutela do filho. - No julgo que seja
um problema. Mas discutirei o assunto com a Nana - agradeceu Beth.
Keith mostrou-se presumido. - Ser provavelmente uma boa ideia.
- Estou mesmo satisfeita por ter pensado bem acerca de ti. -- O que 
que pretendes dizer?
- Tu sabes, o facto de no veres problemas por eu namorar algum como
Logan. Para alm da preocupao com o assdio sexual. Gosto realmente
dele.
Keith descruzou as pernas. - No disse que no havia problemas
com iSSO.
206
- Mas acabaste de dizer...
- Disse que no me interessa com quem tu namoras, e  verdade. Mas
importa-me saber quem  a pessoa que vai passar a fazer parte da vida
do meu filho, o que me preocupa  o meu filho.
- Como  teu dever. Mas o que  que isso tem a ver com tudo o resto? -
protestou Beth.
- Pensa nisso, Beth... no vs coisas que eu sou obrigado a ver. No teu
trabalho, quero eu dizer. Mas eu estou constantemente a assistir a
coisas horrveis, da preocupar-me com algum que ir passar muito
tempo junto de Ben. Gostaria de saber se  violento ou se  algum
pervertido...
- Isso no  - interrompeu Beth. A despeito dos esforos que estava a
fazer, Beth sentiu-se enrubescer. - Investigmos os antecedentes dele.
- Podem ser falseados. No  difcil conseguir uma nova identidade.
Como  que sabes se Logan  o verdadeiro nome dele? No  um pormenor
que possas perguntar a algum daqui. Falaste com algum acerca do
passado dele? Ou da sua famlia?
- No...
- A est. S estou a recomendar-te cuidado - sugeriu. Encolheu os
ombros: - E no estou a falar disto s por causa de Ben.  tambm por
ti. Existem pessoas ms neste mundo, que s no esto na cadeia por
terem aprendido a mascarar os seus crimes.
- Da maneira como falas, pareces julg-lo um criminoso!
- No estou a tentar julg-lo. Pode tratar-se do mais virtuoso e
responsvel dos homens. Estou apenas a dizer que no sabes quem ele 
realmente. E enquanto no o souberes  melhor jogares pelo seguro, para
no teres de arrepender-te. Ls jornais e vs os noticirios. No estou
a dizer-te nada que ainda no saibas. S no quero que suceda algum mal
ao Ben. E no gostaria de te ver magoada.
Beth abriu a boca para dizer qualquer coisa mas, pela primeira vez
desde que se sentara naquele banco com o ex-marido, no conseguiu dizer
fosse o que fosse.
Clayton sentou-se ao volante do carro, a sentir-se bastante satisfeito
consigo mesmo.
Tivera de alinhar rapidamente umas ideias, mas tudo correra melhor do
que ele poderia esperar, especialmente se tivesse em conta a forma como
a conversa comeara. Algum o atraioara e, enquanto conduzia, tentava
imaginar quem poderia ter sido. Regra geral, em terras pequenas no
existem segredos, mas o caso dele era o que mais se aproximava disso.
Os nicos que sabiam eram os poucos homens com quem tivera aquelas
pequenas conversas e, claro, ele prprio.
Calculou que pudesse ter sido um deles, mas, por qualquer razo,
duvidava. Eram uns vermes, sem excepo, e todos se tinham retirado do
caminho. No tinham motivos para falar do caso. At o imbecil do Adam
arranjara uma nova namorada, sendo improvvel que tivesse agora
decidido falar.
Poderia, uma vez mais, tratar-se de um simples rumor. Era provvel que
algum alimentasse suspeitas sobre o que ele fizera, bastando-lhe
atender ao resultado. Uma mulher bonita a ser sucessivamente rejeitada
sem motivo aparente... e, pensando melhor, era possvel que tivesse
mencionado qualquer pormenor sobre Beth a Moore, ou at a Tony, e que
algum estivesse a escutar a conversa; mas nunca fora parvo, ou
estivera suficientemente bbado, para revelar pormenores especficos.
Sabia os problemas que aquilo lhe podia trazer com o pai, especialmente
por que o seu trabalho devia representar a conteno das ameaas ao
cumprimento da lei. Mas algum contara qualquer coisa a Beth.
No dava muito crdito ao facto de Beth ter afirmado que a informao
lhe fora dada por uma amiga. Podia ter alterado esse pequeno pormenor
para o despistar. Poderia ter sido um homem ou uma
208
mulher; o que lhe parecia mais certo era que Beth s recentemente
tomara conhecimento do facto. Conhecendo-a como a conhecia, sabia que
ela no guardaria algo de semelhante durante muito tempo.
Era aqui que tudo se tornava confuso. Fora buscar Ben no sbado de
manh; ela no falara em nada. Ela prpria admitira ter estado na praia
no sbado, com Thibolt. No domingo, vira-a na igreja, mas estava em
casa no final da tarde.
Ento, quem poderia ter-lhe dito? E quando?
Pensou que poderia ter sido Nana. A mulher sempre fora um espinho
cravado no flanco dele. Tal como Gramps, que passara os ltimos quatro
ou cinco anos a tentar convencer Nana a vender-lhe a propriedade para
ele a poder urbanizar. A propriedade no tinha apenas uma valiosa
frente para o rio, pois os riachos eram tambm muito valorizados. As
pessoas que se mudavam do Norte adoravam as casas com frente para o
rio. Por qualquer motivo, Gramps gostava de Nana e tolerava
benevolamente as rejeies das propostas de venda. Talvez fosse por
frequentarem a mesma igreja, um pormenor que parecia no ter qualquer
importncia para Nana quanto  opinio que tinha do seu antigo genro,
que tambm frequentava a mesma igreja.
No entanto, aquela parecia ser o gnero de complicao que poderia ser
iniciada por Thibolt. Mas como diabo poderia ele saber? S se tinham
encontrado duas vezes e no havia qualquer possibilidade de Thibolt
poder ter deduzido a verdade a partir desses dois encontros. E quanto
ao assalto  casa? Clayton pensou nisso mas rejeitou a ideia. Entrara e
sara num espao de vinte minutos e no tivera de arrombar a fechadura,
pois o tipo nem se dera ao trabalho de fechar a porta da frente 
chave. E no faltando o que quer que fosse, por que iria Thibolt
suspeitar que algum lhe entrara em casa? E mesmo que adivinhasse que
algum l entrara, como  que poderia relacionar o assalto com Clayton?
No tinha resposta satisfatria para qualquer das perguntas, mas a
teoria de que Thibolt tinha alguma coisa a ver com aquele pequeno
problema parecia ajustar-se. Desde que Thibolt chegara os dissabores
de Clayton no tinham fim. Portanto, Thibolt teria um lugar
proeminente na sua lista de pessoas que provavelmente deviam preocupar-
se apenas com a sua prpria vida. O que lhe fornecia uma razo mais
para finalmente causar uma encrenca ao tipo.
Mas no ia agora deixar-se prender demasiado com aquilo. Ainda se
sentia bastante satisfeito pela forma como se tinha safado na conversa
com Beth, que bem poderia ter redundado num fiasco. Quando a ex-mulher
o convidara a subir ao alpendre nunca lhe passaria pela
209
cabea que ela pretendesse fazer-lhe perguntas acerca do envolvimento
dele nas relaes dela com os namorados anteriores. Mas resolvera bem a
situao. No s conseguira arquitectar uma negativa aceitvel como
ainda a levara a pensar duas vezes acerca da relao com Thibolt.
Pela expresso de Beth, conseguiu ver que levantara uma srie de
questes que ela ainda no tivera em considerao no relacionamento com
Thibolt... e, melhor ainda, conseguira convenc-la de que fazia tudo
para defender os interesses de Ben. Quem sabe? Talvez Beth se
descartasse dele e Thibolt tivesse de sair da cidade. No seria
interessante? No s estaria terminada mais uma das relaes de Beth,
Thibolt seria tambm obrigado a sair da fotografia.
Conduzia lentamente, apostado em saborear o gosto da vitria. Pensou se
deveria ir a qualquer lado beber uma cerveja para celebrar, mas decidiu
que no. No estava em condies de falar do que acontecera. Antes de
mais, falar poderia ser o suficiente para se meter em sarilhos.
Depois de virar para a rua onde morava, passou por um conjunto de casas
grandes e bem preservadas, cada uma delas a ocupar meio hectare. Ele
vivia no fundo do beco; tinha por vizinhos um mdico e um advogado.
Como diria para si prprio, no se sara nada mal.
S quando entrou no desvio para casa  que notou um vulto no passeio em
frente da casa. Quando abrandou, viu o co ao lado dele e deu uma
sapatada no travo. O carro parou. Apesar da chuva, saltou do carro e
dirigiu-se directamente a Thibolt.
Quando Zeus comeou a avanar, Clayton parou. Thibolt levantou a mo
e o co imobilizou-se.
- Que raio est voc a fazer aqui? - bradou, fazendo-se ouvir apesar da
chuva.
- Estava  sua espera - respondeu o outro. - Acho que chegou a altura
de conversarmos,
- Por que diabo havia de querer falar consigo? - respondeu como se
cuspisse as palavras.
- Julgo que sabe.
Clayton no gostou do som do que ouviu, mas no estava disposto a
deixar-se intimidar por aquele tipo. Nem naquele momento, nem nunca.
- O que eu sei  que anda a vadiar. Neste pas  considerado um crime.
- No me vai prender.
Em parte, apetecia-lhe fazer isso mesmo. - No esteja to certo
disso. ?? ?" : ?-?- . . ., -- ? " .vf ;j -u - .
210
Thigh-bolt continuou a encar-lo como se quisesse obrig-lo a provar a
bazfia. Clayton gostaria de arrancar aquela expresso da cara de
Thibolt com um bom murro. Mas o diabo do co, sempre presente, estava
ali.
- O que  que quer?
- Como disse, chegou a altura de conversarmos - disse Thibault num tom
calmo e firme.
- No tenho nada a dizer-lhe - vociferou Clayton. Abanou a cabea. -
vou entrar. Se ainda aqui estiver quando eu chegar ao alpendre, prendo-
o por ameaar um polcia com uma arma letal.
Virou-se e comeou a caminhar para a porta.
- No encontrou o disco - insinuou Thigh-bolt e
Clayton parou e voltou-se. - O qu?
- O disco - repetiu Thibault. - Era o que procurava quando entrou em
minha casa. Quando revistou as gavetas, espreitou para debaixo do
colcho, esquadrinhou os armrios.
- No entrei na sua casa - retorquiu, encarando Thibolt de olhos
semicerrados.
-  claro que entrou. Na ltima segunda-feira, quando eu estava a
trabalhar.
- Tem provas?
- J disponho de todas as provas de que necessito. O detector de
movimentos que instalei na lareira ligou o gravador de vdeo. Estava
escondido na lareira. Sabia que um dia tentaria encontrar o disco e
nunca se lembraria de procur-lo ali.
Clayton sentia o estmago s voltas enquanto tentava descobrir se
Thibolt estaria a fazer bluff. Podia estar ou no. Como poderia ele
saber?
- Est a mentir.
- Ento, v para casa. Terei todo o gosto em ir agora mesmo entregar o
vdeo no jornal e no departamento do xerife.
- O que  que pretende?
- J lhe disse, pensei que era chegada a altura de termos esta pequena
conversa.
- Acerca de qu?
- Acerca do saco de esterco que voc  - insinuou, deixando as palavras
rolarem lentamente. - Tirar fotografias porcas a estudantes? O que 
que o seu av pensar disso? Gostaria de saber o que aconteceria se ele
descobrisse, ou o que o jornal poder publicar. Ou o que o seu pai, que
creio ser o xerife deste distrito, pensar do filho que assaltou a
minha casa.
211
Clayton sentiu o estmago dar outro salto doloroso. No havia maneira
de o tipo saber aquelas coisas... mas ele sabia-as. - O que  que quer?
- indagou de novo. Por muito que se esforasse, sabia que o tom em que
falara o fizera perder pontos.
Thibolt continuava direito em frente dele, a olh-lo fixamente.
Clayton podia jurar que o homem nunca pestanejou.
- Quero que se torne uma pessoa melhor - sugeriu.
- No sei do que  que est a falar.
- De trs coisas. Vamos comear por esta: no se meta na vida de
Elizabeth.
Clayton pestanejou. - Quem  a Elizabeth?
- A sua ex-mulher.
?- Est a falar da Beth?
- Tem andado a destruir-lhe as relaes desde que se divorciaram. Voc
sabe isso e eu tambm sei. E agora ela tambm sabe. No vai voltar a
acontecer. Nunca. Estamos entendidos?
Clayton no respondeu.
- Nmero dois: no se meta nos meus assuntos. Isto inclui a minha casa,
o emprego, a minha vida. Percebeu?
O polcia manteve o silncio.
- E nmero trs. Este  muito importante - insinuou, erguendo a mo
aberta como quem pronuncia uma espcie de juramento. - Se transferir a
raiva que me tem para o Ben, ter de responder perante mim.
Clayton sentiu os plos da nuca eriados. - Isso  uma ameaa?
- No - retorquiu Thibolt. -  a verdade. Cumpra estas trs condies
e no lhe provocarei qualquer problema. Ningum saber o que tem andado
a fazer.
Clayton contraiu os maxilares.
Em silncio, Thibolt aproximou-se de Clayton. Zeus manteve-se em
posio, evidentemente frustrado por ser deixado para trs. Thibolt
aproximou-se at ficarem face a face. A voz dele manteve-se to calma
como no incio.
- Quero que saiba isto: nunca encontrou pela frente algum como eu.
Voc no me quer para seu inimigo.
Dito isto, Thibolt girou sobre os calcanhares e comeou a percorrer o
passeio. Zeus continuou de olhos postos em Clayton at ouvir a ordem de
ir-se embora. Depois, trotou para Thibolt, deixando Clayton especado
 chuva, a tentar perceber como  que uma situao que parecia perfeita
se tornara subitamente to difcil.
212
THIBAULT
- Julgo que quero ser astronauta - anunciou Ben. Thibault estava a
jogar xadrez com ele no alpendre das traseiras
e tentava decidir a sua jogada seguinte. Tinha de ganhar um jogo e,
ainda que no tivesse a certeza absoluta, o facto de Ben ter comeado a
falar pareceu-lhe um mau sinal. Ultimamente tinham jogado muito xadrez,
pois no houvera um nico dia sem chuva grossa desde que o ms de
Outubro comeara, dez dias antes. A parte oriental do estado j estava
alagada e todos os dias havia outros rios a transbordar.
- Parece-me bem.
- Astronauta ou bombeiro.
Thibault assentiu. - Conheci uns quantos bombeiros.
- Ou mdico.
- Hum - murmurou Thibault. Comeou a colocar a mo sobre o bispo.
- Eu no faria isso - insinuou Ben. Thibault ergueu os olhos do
tabuleiro.
- Sei o que est a pensar que deve fazer - acrescentou Ben.
- Isso no resulta.
- O que  que hei-de fazer?
- Isso no. Thibault susteve o movimento da mo. Uma coisa era perder,
perder continuamente era outra. Pior, ele no parecia estar a diminuir
o fosso que os separava. A haver alguma diferena, teria de reconhecer
que Ben estava a progredir mais depressa do que ele. O jogo anterior
tinha exigido trinta e uma jogadas.
- Gostaria de ver a minha casa da rvore? - perguntou Ben.
-  realmente gira. Tem um grande patamar suspenso por cima do riacho e
uma ponte que oscila. .,;........ ?,..,. ....
213
- Adorarei v-la.
- Agora no. Num outro dia, quero eu dizer.
- Parece-me uma ideia excelente - anuiu Thbault. Estendera a mo para
a torre.
- Tambm no mexeria na torre.
Thibault enrugou a testa ao ver Ben recostar-se. ? -
- S estou a avis-lo - acrescentou. Encolheu os ombros, sem fazer
esquecer que era um mido de dez
anos. - Como quiser.
- Excepto mover o bispo ou a torre?
Ben apontou para outra pea. - E o outro bispo. Conhecendo-o, sei que 
o que vai tentar a seguir, pois est a tentar arranjar sada para o
cavalo. Mas tambm no vai resultar, pois eu sacrificarei o bispo pelo
meu e moverei a rainha de forma a comer aquele peo. Isso liberta a sua
rainha e depois encastelo o meu rei. Movo o cavalo para l. Duas
jogadas depois, fao-lhe xeque-mate.
Thibault levou a mo ao queixo. - Ainda tenho alguma possibilidade
neste jogo?
- No.
- Quantas jogadas me restam?
- Entre trs e sete.
?- Nesse caso, talvez devssemos comear de novo. Ben puxou os culos
para cima do nariz. - Talvez.
- Podias ter-me avisado antes.
- Parecia encarar o jogo to a srio. No quis aborrec-lo.
O jogo seguinte no correu melhor. Talvez at tenha corrido pior, pois
Elizabeth decidira juntar-se a eles e a conversa entre os jogadores
continuou. Thibault notava as tentativas de Elizabeth para sorrir.
Durante a ltima semana e meia tinham estabelecido uma rotina. Depois
do trabalho, com o dilvio a fustig-los continuamente, Thibault vinha
para casa, jogava umas quantas partidas de xadrez com Ben e jantava; os
quatro juntavam-se  mesa e conversavam amistosamente. A seguir, Ben
subia ao andar de cima para tomar duche e Nana expulsava-os para o
alpendre, enquanto ela ficava a arrumar e a limpar a cozinha, dizendo
coisas do gnero para mim, fazer limpezas  o mesmo que andar nu, para
um macaco.
Thibault sabia que Nana desejava que eles passassem algum tempo a ss,
antes de ele ir para casa. Continuava a surpreender-se como ela,
terminado o dia de trabalho, conseguia passar do papel de patroa para
214
o de av da mulher que ele namorava. Pensava que no haveria muitas
pessoas capazes daquele gnero de transio.
Estava a fazer-se tarde e Thibault sabia que chegara a altura de ir-se
embora. Nana estava a falar ao telefone. Elizabeth fora ajeitar os
cobertores de Ben e ele ficara no alpendre, a sentir a exausto pesar-
lhe sobre os ombros. No andara a dormir muito desde a confrontao com
Clayton. Nessa noite, sem certezas quanto  maneira como Clayton
reagiria, fora para casa e fizera tudo para parecer que planeara passar
um sero caseiro normal. Em vez disso, uma vez apagadas as luzes,
saltara pela janela do quarto, nas traseiras da casa, e dirigira-se
para o bosque, com Zeus a seu lado. Apesar da chuva, ficara fora de
casa durante a maior parte da noite,  espreita de Clayton. Na noite
seguinte, ficou a observar Elizabeth; na terceira noite, alternara
entre a casa dele e a dela. A chuva interminvel no os preocupava
minimamente, a ele ou a Zeus, pois adaptara trajes camuflados que os
mantinham secos. A parte difcil do esquema era trabalhar depois de
dormir apenas as ltimas horas que precedem o nascer do dia. A partir
de certa altura comeara a vigiar apenas em noites alternadas, mas
continuava a dormir pouco para conseguir recuperar.
Mas no tencionava parar. O homem era imprevisvel e procurava sinais
da presena de Clayton, quer estivesse no emprego ou a tratar de
qualquer assunto na cidade. A noite escolhia caminhos diferentes para
regressar a casa, atalhava por zonas arborizadas em corrida, parando
depois a observar a estrada para ter a certeza de no estar a ser
seguido por Clayton. No tinha medo do homem, mas tambm no era
estpido. Clayton no era apenas um dos membros da famlia mais
importante do Distrito de Hampton, era tambm um defensor da lei, sendo
esta segunda caracterstica a que mais preocupava Thibault. Seria assim
to difcil colocar qualquer coisa em casa dele: drogas, objectos
roubados, at uma arma que tivesse sido usada para cometer um crime? Ou
afirmar que ele as tinha em sua posse e fabricar provas da sua
descoberta? Nada difcil. Thibault tinha a certeza de que qualquer jri
daquele distrito aceitaria o testemunho de um agente da autoridade e
desdenharia a defesa do estranho, por mais frgeis que as provas fossem
e por mais genuno que fosse o seu libi. Se acrescentarmos a isso os
fundos bolsos e a influncia dos Clayton, no seria difcil arranjar
testemunhas que apontassem Thibault como autor de um certo nmero de
crimes.
A parte mais assustadora era ele poder imaginar Clayton a tomar
qualquer uma daquelas atitudes; antes de mais, fora isso que o levara a
falar com ele acerca do disco e do vdeo. Embora no tivesse em seu
215
poder qualquer das coisas, uma vez que o disco tinha sido partido e
atirado fora quando se apoderara da mquina fotogrfica, enquanto o
vdeo de vigilncia no passara de mera inveno, o engano fora a nica
opo que lhe permitira ganhar tempo para planear o passo seguinte. A
animosidade que Clayton lhe demonstrava era perigosa e imprevisvel. Se
ele estivesse a pensar assaltar a casa de Thibault, se tivesse
manipulado a vida pessoal de Elizabeth, era provvel que o homem
fizesse tudo o que julgasse necessrio para se ver livre de Thibault.
As outras ameaas, acerca do jornal e do xerife, a insinuao de
informar o av, serviram apenas para reforo do engano. Sabia que
Clayton procurava o disco por acreditar que Thibault o podia utilizar
contra ele. Seria por sua causa ou por causa da famlia; umas quantas
horas da tarde de domingo a investigar a histria da ilustre famlia na
biblioteca foram suficientes para Thibault se convencer de que
provavelmente ambas os motivos eram vlidos.
Mas o problema com qualquer bluff era ser eficaz s durante um certo
tempo. Durante quanto tempo  que Clayton iria aceitar a situao? Mais
umas semanas? Um ms? Mais do que isso? E o que  que Clayton poderia
fazer? Quem arriscaria adivinhar tal coisa? De momento, Clayton estava
convencido de que Thibault possua todos os trunfos e este no tinha
dvidas de que o facto s concorria para enfurecer Clayton ainda mais.
com o tempo, a fria conseguiria sobrepor-se e Clayton iria reagir,
contra ele, Elizabeth ou Ben. Se Thibault no concretizasse a ameaa de
exibir o disco, Clayton ficaria de mos livres para agir como bem
entendesse.
Thibault ainda no sabia o que fazer nessa situao. No conseguia
imaginar-se a deixar Elizabeth... ou Ben e Nana por causa de Clayton.
Quanto mais tempo passava em Hampton, mais sentia que pertencia quele
lugar, o que significava no s ter de observar Clayton mas tambm
evitar, na medida do possvel, encontrar-se com ele. Supunha que a sua
nica esperana era que, passado o tempo suficiente, Clayton acabasse
por aceitar a situao. Sabia que seria pouco provvel, mas, por agora,
era tudo o que tinha.
- Ests outra vez com ar absorto - avisou Elizabeth, que acabara de
abrir a porta de rede por detrs dele.
Thibault abanou a cabea. - Estou apenas cansado por esta semana de
trabalho. Achei o calor difcil de suportar, mas desse ainda eu podia
em parte defender-me. Quanto  chuva, no h defesa possvel.
Elizabeth sentou-se ao lado dele no banco de balouo do alpendre.
- No gostas de te sentir encharcado?
- Digamos que no acho que seja estar propriamente de frias.
216
- Lamento.
- No faz mal. No estou a queixar-me. Na verdade, no me preocupo a
maior parte das vezes; e  melhor que seja eu a molhar-me em vez da
Nana. E amanh  sexta-feira, no ?
Ela sorriu. - Esta noite levo-te a casa. Desta vez no aceito objeces.
- Muito bem.
Elizabeth espreitou pela janela antes de voltar a dar ateno a
Thibault. - No estavas a mentir quando disseste que tocavas piano,
pois no?
- Sei tocar.
- Quando  que tocaste pela ltima vez?
Encolheu os ombros, a tentar recordar-se. - H dois ou trs anos.
- No Iraque?
Ele assentiu. - Um dos oficiais do comando fazia anos. Ele adorava
Willie Smith, que foi um dos grandes pianistas de jazz das dcadas de
1940 e 1950. Quando se soube que eu sabia tocar, fui obrigado a exibir-
me.
- No Iraque - repetiu Elizabeth, sem esconder o espanto.
- At os marines precisam de se descontrair.
Ela prendeu uma madeixa atrs da orelha. - Presumo que sabes ler msica.
-  claro que sim. Porqu? Queres que ensine o Ben? No pareceu ouvi-
lo. - E quanto  igreja? Costumas l ir? Foi a primeira vez que olhou
para ela.
- Tenho a sensao de que esta conversa no est a servir apenas para
que nos conheamos melhor.
- Quando estive l dentro, ouvi a Nana a falar ao telefone. Sabes
quanto a Nana adora o coro, no sabes? E que ela voltou a executar
solos?
Thibault pensou na resposta, suspeitoso do que viria a seguir e no se
preocupou em escond-lo. - Eu sei.
- No prximo domingo o solo dela  ainda mais longo. Ests to excitada
com a ideia.
- E tu no ests?
- Mais ou menos - suspirou, com uma expresso triste. - Acontece que
ontem a Abigail partiu o pulso.  sobre isso que Nana tem estado a
falar ao telefone.
- Quem  a Abigail?
- A pianista da igreja. Acompanha o coro todos os domingos
- esclareceu Elizabeth, comeando a balouar o banco e a observar
217
o temporal. - De qualquer forma, a Nana disse que encontraria um
substituto. Na realidade, prometeu.
- Oh?
- Tambm disse que j tinha pensado quem seria. Percebo.
Elizabeth encolheu os ombros. - Apenas pensei que gostarias de saber.
Tenho quase a certeza de que Nana falar contigo daqui a minutos, mas
no quis que ela te apanhasse desprevenido. Achei melhor ser eu a
falar-te do assunto.
- Fico-te agradecido.
Durante muito tempo Thibault manteve-se calado. A tentar quebrar o
silncio, Elizabeth ps-lhe a mo no joelho.
- No que  que pensas?
- Estou a ficar com a sensao de que no tenho escolha.
-  claro que tens escolha. Nana no te vai forar a aceitar.
- Mesmo depois de ter prometido?
- Era provvel que compreendesse. Eventualmente - insinuou, colocando a
mo sobre o corao. - Logo que o seu corao ferido sarasse, tenho a
certeza de que te perdoaria.
- Ah!
- E o mais provvel  que tambm no lhe fosse prejudicial  sade.
Mesmo com o acidente vascular cerebral e o desapontamento que sentiria.
Tenho a certeza de que teria de se meter na cama.
Thibault esboou um sorriso. - No achas que ests a exagerar? Os olhos
de Elizabeth brilharam de malcia.  possvel. Mas a questo mantm-se.
Vais tocar?
- Suponho que sim.
- ptimo. E sabes que tens de ensaiar amanh. - Est bem.
- O ensaio pode ser demorado. Todos os ensaios de sexta-feira so
demorados. Eles gostam realmente de msica, entendes?
Thibault acenou que sim e respirou fundo. - Excelente.
- Analisa a questo segundo este ponto de vista: no vais ter de
trabalhar  chuva durante todo o dia.
- Excelente - repetiu Thibault.
Recebeu um beijo na face. - s um bom homem. Do meu lugar, vou
aplaudir-te em silncio.
- Obrigado!
- Oh, e quando Nana sair, no lhe ds a entender que eu te disse.
- No lhe direi.
218
- E tenta mostrar-te entusiasmado. Honrado, at. Como se nunca pudesses
imaginar que ela te oferecesse uma to maravilhosa oportunidade.
- No posso limitar-me a dizer que sim?
- No. Nana querer ver-te excitado. Como te disse, significa muito
para ela.
- Ah! - repetiu ele. Thibault apertou as mos dela entre as suas.
- Tu percebes que podias ter-te limitado a pedir-me. No precisava de
toda essa introduo para me sentir culpado se recusasse.
- Eu sei. Mas a pergunta feita assim teve muito mais piada.
Como se estivessem combinadas, Nana apareceu  porta. Presenteou-os com
um breve sorriso, foi at ao corrimo e voltou-se para ele.
- Ainda toca piano? - perguntou.
Thibault fez o que pde para evitar uma gargalhada.
Thibault conheceu a directora musical na tarde do dia seguinte, e a
despeito da desconfiana inicial por causa das calas de ganga, da T-
shirt e dos cabelos compridos, a senhora no tardou a reconhecer que
Thibault, para alm de tocar piano, era um msico completo. Aps um
ligeiro aquecimento, cometeu muito poucos erros, embora fosse ajudado
pelo facto de as peas escolhidas no serem tremendamente difceis.
Depois do ensaio, foi-lhe explicado todo o servio religioso para ele
saber exactamente o que o esperava.
Entretanto, Nana olhava-o com prazer, que alternava com a tagarelice
com as amigas, explicando que Thibault trabalhava no canil e se
entretinha com Beth. Thibault conseguia sentir os olhares das mulheres
cravados nele, denotando um pouco mais do que simples interesse, com
sinais de aprovao.
Quando iam a sair, Nana deu-lhe o brao. - Voc foi melhor do que um
pato na ponta de um pau - concluiu. ?
Sem perceber patavina, ele agradeceu. - Obrigado.
- Est disposto a passear um pouco?
- Aonde?
- Wilmington. Se formos agora, penso que poderei traz-lo de volta a
tempo de levar Beth a jantar. Eu tomo conta do Ben.
- O que  que vou comprar?
- Um casaco desportivo e calas de algodo. Uma camisa mais elegante.
No me importo de o ver de calas de ganga, mas se vai tocar piano
durante o servio religioso de domingo, tem de ir bem vestido.
219
- Ah! - comentou, reconhecendo de imediato que no tinha voto na
matria.
Nessa noite, enquanto jantavam na Cantina, o nico restaurante mexicano
da baixa, Elizabeth observava Thibault por cima do seu copo de
margarita.
-  bom que saibas que agora tens o estatuto de Flynn - insinuou.
- Para a Nana?
- No conseguiu parar de dizer quanto eras bom, de como foste delicado
com as amigas dela e quo respeitoso te mostraste quando o pastor
apareceu.
- Quem te ouvir h-de pensar que ela me julgava um troglodita.
Elizabeth riu-se. - Talvez julgasse. Ouvi dizer que estavas coberto de
lama antes de sarem.
- Tomei um chuveiro e mudei de roupa.
- Eu sei. Tambm me informou disso.
- O que  que ela te contou?
- Que as outras mulheres do coro estiveram prestes a desmaiar.
- Ela disse isso?
- No. No precisou de o dizer, mas via-se-lhe na cara. Foi verdade.
No  todos os dias que um estranho jovem e bonito aparece na igreja
para as acompanhar ao piano. Como podiam no estar aflitas?
- Acho provvel que estejas a exagerar um pouco.
- Pois eu penso - comeou Elizabeth, ao fazer deslizar um dedo pelo
bordo do copo e saboreando o gosto. - Penso que ainda tens muito que
aprender sobre o que significa viver numa terra pequena do Sul. Tratou-
se de uma grande notcia. H quinze anos que aquele piano  tocado pela
Abigail.
- No vou roubar-lhe o lugar.  uma soluo temporria.
- Melhor ainda. Isso dar s pessoas a oportunidade de tomar partido.
Falaro disto durante anos.
-  isso que as pessoas fazem por aqui?
- Absolutamente. E, a propsito, no existe um caminho mais rpido para
ser aceite por estas bandas.
- S preciso de ser aceite por ti.
Ela sorriu. - Sempre adulador. Ora bem, e que me dizes a isto? O Keith
vai dar em doido.
- Porqu?
220
- Por ser membro da igreja. De facto, estar acompanhado de Ben quando
te vir. Ficar desesperado ao ver como toda a gente apreciou a forma
como te dispuseste a ajudar.
- No tenho a certeza de o querer mais zangado comigo. J ando
preocupado a pensar no que ele poder fazer.
- No pode fazer seja o que for. Eu sei o que ele tem andado a fazer.
- Eu no teria tantas certezas.
- Por que dizes isso?
Thibault reparou nas mesas todas ocupadas que os rodeavam. Ela pareceu
ler-lhe a mente e deslizou do lado dela para se ir sentar ao lado dele.
- Sabes de qualquer coisa que no me queres dizer - sussurrou. - O que
?
Thibault bebeu um gole de cerveja. Depois de pousar a garrafa
descreveu-lhe os seus encontros com o ex-marido dela. Enquanto ele ia
contando a histria, a expresso dela tambm foi mudando: de desgostosa
passou a divertida, para acabar em algo que podia classificar-se como
preocupao.
- Devias ter-me contado antes - repreendeu, de testa franzida.
- No me preocupei at saber que ele me revistou a casa.
- E julgas que ser capaz de te armar uma ratoeira?
- Conhece-lo melhor do que eu.
Elizabeth reconheceu que j no estava zangada. - Pensei que conhecia.
Como Ben estava com o pai, uma situao que lhes parecia algo
surrealista dadas as circunstncias, Thibault e Elizabeth foram a
Raleigh no sbado, o que tornou mais fcil no pensarem naquilo que
Keith Clayton poderia fazer ou no fazer. Almoaram na esplanada de um
caf da baixa e visitaram o Museu de Histria Natural; na tarde de
domingo, foram at Chapel Hill. A Carolina do Norte jogava contra
Clemson e o jogo estava a ser transmitido no canal ESPN. Embora o jogo
se realizasse na Carolina do Sul, os bares do centro da cidade estavam
repletos de estudantes que viam o jogo em ecrs gigantes. Ao ouvi-los
ora a aplaudir, ora a vaiar, como se o futuro do mundo dependesse do
resultado de um jogo, deu consigo a pensar em midos daquelas idades a
combater no Iraque e ps-se a imaginar o que poderia ser feito daqueles
estudantes universitrios.
No ficaram muito tempo. Elizabeth estava pronta a partir passada uma
hora. No caminho de regresso ao carro, quando caminhavam abraados um
ao outro, ela descansou a cabea no ombro dele.
221
- Teve a sua piada. Mas havia tanto barulho ali dentro.
- Dizes isso por estares a ficar velha.
Elizabeth apertou-o pela cintura, notando que ali havia apenas pele e
msculo. - Cuidado, camarada, ou talvez no tenhas sorte esta noite.
- Camarada? - repetiu ele.
-  um termo afectuoso. Uso-o com todos os homens que namoro.
- com todos?
- Claro. At com estranhos. E se me cedem o lugar no autocarro, poderei
agradecer com um Obrigado, camarada.
- Julgava que devia sentir-me especial.
- E no te esqueas disso.
Passearam em Franklin Street por entre a multido de estudantes,
espreitando pelas montras e absorvendo toda aquela energia. Para
Thibault, fazia sentido que ela tivesse querido vir ali. Era uma
experincia que Beth no vivera por causa de Ben. No entanto, o que
mais o impressionou foi o facto de ela estar obviamente a divertir-se,
mas sem parecer melanclica ou amarga a pensar no que tinha perdido.
Parecia comportar-se mais como o antroplogo atento, decidido a estudar
culturas de descoberta recente. Quando ele a descreveu nestes termos,
Elizabeth esbugalhou os olhos.
- No me estragues a tarde. Acredita, os meus pensamentos no atingem
essa profundidade. S pretendi sair da cidade e divertir-me um pouco.
Foram para casa de Thibault e ficaram acordados at tarde; conversaram,
beijaram-se e fizeram amor at a noite ir avanada. De manh, ao
acordar, Thibault encontrou Elizabeth deitada a seu lado, a analisar-
lhe a cara.
- O que  que ests a fazer? - murmurou, ainda ensonado. Estou a
observar-te.
- Porqu?
- Porque me apetece.
Thibault sorriu e fez um dedo deslizar-lhe pelo brao, sentindo uma
enorme gratido pela presena dela na sua vida. - s uma mulher
impressionante, Elizabeth.
- Eu sei.
- S isso? Vais limitar-te a dizer eu sei? - perguntou, fingindo-se
ofendido.
- No te armes em carente comigo. Detesto homens carentes.
- E eu no tenho a certeza de gostar de mulheres que escondem o que
sentem.
222
Elizabeth sorriu, inclinando-se para o beijar. - Ontem tive um dia
fantstico.
- Eu tambm.
- No estou a exagerar. Estas ltimas semanas, as que tenho passado
contigo, foram as melhores da minha vida. E ontem, s por estar
contigo... no fazes ideia de como me senti. Senti-me apenas... mulher.
Nem me, nem professora, nem neta. Apenas eu. H muito tempo que no
tinha esse sentimento.
- J tnhamos sado antes.
- Eu sei. Mas agora  diferente.
Thibault sabia que ela falava do futuro, um futuro que adquirira uma
clareza e um propsito que no existiam antes. S de olhar para ela
percebeu exactamente o que Elizabeth tinha em mente.
- Ento, o que h a seguir? - perguntou em tom grave.
Ela voltou a beij-lo, a faz-lo sentir o calor e a humidade dos seus
lbios. - A seguir, vamos levantar-nos. Tens de estar na igreja dentro
de um par de horas - concluiu ao aplicar-lhe uma palmada no rabo.
- Ainda falta muito tempo.
- Para ti, talvez. Mas eu estou aqui e tenho as roupas em casa. Tens de
te levantar e de te preparar, de modo a que eu tambm tenha tempo de me
arranjar.
- Esta questo da igreja  difcil.
- Pois . Mas no me parece que possas escapar. E, a propsito? -
pegou-lhe na mo antes de concluir. - Logan, tu tambm s bastante
impressionante.
223
BETH
- Gosto realmente dele - dizia Beth.
Encontrava-se na casa de banho, s voltas com o ferro de frisar, embora
suspeitasse de que, com a chuva, estava a esforar-se para nada. Aps
uma breve pausa no dia anterior, aguardava-se a chegada  regio da
primeira de duas tempestades tropicais.
- Penso chegada a altura de seres honesta comigo. No se trata apenas
de gostares dele. Pensas que ele  o Especial.
- No me parece assim to evidente - contraps Beth, sem querer
acreditar.
-  claro que sim. Bem poderias estar sentada no alpendre a desfolhar
as ptalas de uma margarida.
Beth sorriu. - Creias ou no, na verdade compreendi essa metfora.
Nana fez um gesto de enfado. - Os acidentes acontecem. O que interessa
 o seguinte: sei que gostas dele. A dvida  outra: ser que ele gosta
de ti?
- Gosta, Nana.
- J te perguntaste o que isso quer dizer?
- Sei o que quer dizer.
- S quis ter a certeza - retorquiu Nana. Deu uma olhadela ao espelho e
ajeitou o cabelo. - Porque eu tambm gosto dele.
Seguiu com Nana para casa de Thibault, preocupada com os limpa-vidros
que no conseguiam expulsar toda gua do pra-brisas. Os temporais que
pareciam no ter fim tinham feito crescer o rio; embora a gua ainda
no chegasse  rua, j comeava a lamber-lhe um dos lados. Uns dias
mais assim, pensou, as estradas teriam de comear a ser fechadas ao
trnsito. As empresas mais prximas das
224
margens no tardariam a defender-se com sacos de areia, na tentativa de
evitar que a gua deteriorasse as mercadorias colocadas mais perto do
cho.
- Duvido que as pessoas consigam chegar  igreja num dia destes -
comentou Beth. - Mal consigo ver o que est para l da janela.
- Um pouco de chuva no ser suficiente para afastar os crentes do
Senhor - sentenciou Nana.
-  mais do que um pouco de chuva. J reparaste no rio?
- J vi. Est definitivamente zangado.
- Se subir um pouco mais, poderemos no conseguir chegar  cidade.
- Vai tudo correr bem - declarou Nana. ? ? Beth olhou-a de relance. -
Ests hoje muito bem-disposta.
- E tu? Se at passaste a noite fora?
- Nana - protestou Beth.
- No estou a julgar-te. S menciono o facto. J s adulta e a vida 
tua.
De h muito que se habituara s sentenas da av. - Obrigada.
- Portanto, est a correr bem? Mesmo com o teu ex-marido a tentar
arranjar sarilhos?
- Acho que sim.
- Julgas que dar um bom marido?
- Julgo que ainda  cedo para pensar nisso. Ainda estamos a tentar
compreender-nos mutuamente.
Nana inclinou-se para diante e limpou a condensao que se formara no
pra-brisas. Embora a humidade desaparecesse por momentos, ficaram l
gravadas as marcas dos dedos. - Eu soube de imediato que o teu av era
o Especial.
- Ele disse-me que namoraram seis meses antes de te pedir em casamento.
- Pois foi. Mas isso no invalida o que eu disse antes. Passados poucos
dias j sabia que ele fora feito para mim. Sei que parece maluquice.
Mas, desde o incio, estar com ele foi como tosta com manteiga.
Recordou tudo com um sorriso tranquilo e olhos semicerrados.
- Estava sentada com ele no parque. Devia ser a segunda ou a terceira
vez que nos encontrvamos sozinhos, estvamos a falar de pssaros
quando um jovem, obviamente de fora da cidade, se aproximou para ouvir.
Cara suja, no tinha sapatos e as roupas, para alm de rotas, no
pareciam servir-lhe. O teu av sorriu-lhe e continuou a falar, como se
quisesse indicar ao rapaz que era bem-vindo  nossa companhia e o
225
mido esboou uma espcie de sorriso. Sensibilizou-me o facto de ele
no ter julgado o rapaz pelo aspecto. O teu av continuou a falar.
Devia saber o nome de todas as aves desta parte do pas. Sabia as
alturas em que migravam, onde nidificavam e os sons com que cada
espcie comunicava entre si. Passado algum tempo, o rapazinho sentou-se
e limitava-se a olhar quando o teu av emitia qualquer som... digamos
que estava encantado. E no era s o rapazinho. Acontecia o mesmo
comigo. O teu av tinha aquela voz tranquilizante, prpria para canes
de embalar e, enquanto ele falava, tive a sensao de que era o gnero
de pessoa que no poderia estar zangado mais do que uns minutos, a
clera no se enquadrava com ele. Nunca daria lugar a ressentimento ou
amargura e, logo ali, decidi que era o gnero de homem que se manteria
casado para sempre. E decidi, ali e naquele momento, que eu seria a
mulher que casaria com ele.
Apesar de conhecer as histrias de Nana, Beth sentiu-se comovida.
- Que histria maravilhosa!
- Era um homem maravilhoso. E quando um homem  assim to especial,
nota-se mais depressa do que se julgaria possvel. Reconhece-se
instintivamente e tem-se a certeza de que, acontea o que acontecer,
nunca se encontrar outro como ele.
Na altura, Beth chegara  alameda coberta de gravilha que conduzia 
casa de Logan; ao aproximar-se, aos solavancos e a esparrinhar lama,
viu-o no alpendre, de p e vestido com o que lhe pareceu um casaco novo
de desporto e um par de calas de algodo acabadas de engomar.
Quando ele lhe acenou, Beth no pde evitar um sorriso de orelha a
orelha.
O servio comeou e acabou com msica. O solo de Nana foi recebido com
grandes aplausos, e o pastor distinguiu tanto Logan como Nana,
agradecendo ao pianista a sua disponibilidade e a Nana por demonstrar
as maravilhas operadas pela graa de Deus quando  necessrio superar
obstculos.
O sermo foi informativo, interessante e proferido com o humilde
reconhecimento de que os misteriosos caminhos de Deus nem sempre so
compreendidos; Beth reconheceu que a qualidade do pastor era uma das
razes por que a congregao continuava a crescer.
Do seu lugar no balco superior, via facilmente Nana e Logan. Sempre
que Ben passava o fim-de-semana com o pai, gostava de se sentar naquele
lugar, de maneira que Ben soubesse sempre onde a encontrar.
Habitualmente, olhavam um para o outro duas ou trs vezes
226
durante o servio; hoje, ele voltava-se constantemente, partilhando do
espanto de serem amigos de uma pessoa to dotada.
Mas Beth manteve a distncia em relao ao ex-marido. No por causa do
que soubera acerca dele nos ltimos tempos, embora essa j fosse uma
razo suficiente, mas para tornar as coisas mais fceis para Ben.
Apesar dos impulsos lascivos de Keith, na igreja ele comportava-se como
se visse na presena dela uma fora destruidora capaz de perturbar o
seu cl. Gramps sentava-se no meio da primeira fila, com a famlia
colocada de ambos os lados e no banco atrs dele. Do seu lugar, Beth
conseguia v-lo a ler as passagens da Bblia, a tomar notas e a ouvir
atentamente a prdica do pastor. Cantava cada palavra de cada um dos
hinos. De toda a famlia, era a pessoa de quem Beth mais gostava;
sempre fora justo com ela e extremamente delicado, ao contrrio de
muitos dos outros. Se acontecesse encontrarem-se depois do servio
religioso, nunca deixava de fazer notar que ela estava com bom aspecto
e de lhe agradecer o admirvel trabalho que ela estava a fazer com a
educao de Ben.
Havia honestidade na maneira como falava com ela, mas havia tambm uma
linha de demarcao: Beth compreendia que no podia fazer ondas. Gramps
sabia que ela era muito melhor do que Keith para criar o neto dele, que
este se estava a transformar num excelente jovem graas a ela, mas tal
conhecimento no a podia fazer esquecer que Ben era, e sempre seria, um
Clayton.
No entanto, gostava dele, a despeito de Keith, a despeito da linha de
demarcao. Ben tambm gostava do av e, muitas vezes, ela tinha a
sensao de que Gramps exigia que Keith aparecesse com Ben para poupar
ao garoto a desgraa de passar todo o fim-de-semana na companhia do pai.
Todas aquelas realidades estavam bem longe da cabea dela enquanto via
Logan a tocar piano. No soubera o que esperar. Quantas pessoas tm
lies? Quantas pessoas se afirmam capazes de tocar bem? No levou
muito tempo a perceber que Logan era excepcionalmente competente, que
estava muito acima do nvel que ela esperava. Os dedos dele percorriam
o teclado sem esforo e com movimentos fluidos; nem parecia olhar para
a pauta que tinha  frente. Em vez disso, enquanto Nana cantava, focou
a ateno nela, nunca deixando de manter o ritmo e o andamento, mais
interessado na actuao dela do que na sua.
Ao v-lo continuar a tocar, no conseguiu deixar de pensar na histria
que Nana lhe contara no carro. Sem pensar no servio religioso, deu
consigo a recordar conversas anteriores com Logan, a sensao
transmitida pelo seu slido abrao, a forma natural de lidar com Ben.
227
Admitia que existiam muitas lacunas no conhecimento que tinha dele, mas
uma coisa sabia: Logan completava-a de uma forma que nunca julgara
possvel. O conhecimento no  tudo, disse para si mesma, e ficou ento
a saber que, usando as palavras da av, ele era a tosta da manteiga
dela.
Depois do servio religioso, Beth ficou de lado, divertida com a ideia
de que Logan estava a ser tratado como uma estrela de rock. bom, uma
estrela com fs que viviam dos cheques da Segurana Social, mas, tanto
quanto lhe era dado perceber, Logan parecia to vaidoso quanto
envergonhado com a inesperada ateno.
Notou o olhar dele, um pedido silencioso para o libertar do cerco. Mas
Beth limitou-se a sorrir e a encolher os ombros. No queria intrometer-
se. Quando o pastor veio agradecer-lhe uma segunda vez, sugeriu que
Logan poderia continuar a tocar mesmo depois de o pulso de Abigail
estar curado. - Estou certo de que poderemos encontrar uma soluo -
concluiu o pastor.
Ficou mais surpreendida quando Gramps, com Ben a seu lado, abriu tambm
caminho at Logan. Como Moiss a abrir as guas do Mar Vermelho, Gramps
no precisava de esperar entre a multido para apresentar os seus
cumprimentos.  distncia notou a expresso de Keith, uma mistura de
fria e desgosto.
- Excelente trabalho, jovem - elogiou Gramps, oferecendo a mo. - Toca
como se tivesse sido abenoado.
Pela expresso de Logan, Beth notou que ele reconhecera o homem, embora
no fizesse ideia de como tal poderia ter acontecido. Viu-o apertar a
mo de Gramps.
- Obrigado, senhor.
- Ele trabalha no canil com a Nana - informou Ben. - E acho que ele e a
mam so namorados.
Dito aquilo, o silncio caiu sobre a multido de admiradores, s
quebrado por umas tossidelas embaraadas.
Gramps olhou para Logan, embora Beth no conseguisse adivinhar-lhe a
reaco. -  verdade? - indagou.
-  sim, senhor - respondeu Logan. Gramps ficou calado.
- E tambm esteve nos marines - acrescentou Ben, sem conscincia das
correntes sociais que faziam remoinhos  sua volta. Quando Gramps se
mostrou surpreendido, Logan assentiu.
- Servi com o 5 Batalho, do 5 Regimento, sediado em Pendleton.
,v:: ; ?:" ??-??"? , . ? -.:-."?.??: .?
228
Aps uma pausa significativa, Gramps acrescentou: - Ento, tambm tenho
de lhe agradecer o servio prestado ao nosso pas. Hoje, fez um
trabalho maravilhoso.
- Obrigado, senhor - repetiu Logan.
- Foste to delicado - observou Beth depois de regressarem a casa. No
falara do sucedido at Nana estar longe e no a poder ouvir. L fora, o
relvado comeava a parecer um lago e a chuva continuava a cair. Tinham
ido buscar Zeus no caminho de regresso e o co repousava agora aos ps
deles.
- Por que no havia de o ser? Ela fez uma careta. - Sabes porqu. -
Logan encolheu os ombros. - Ele no  o teu ex-marido. Duvido que faa
alguma ideia do que o teu ex-marido anda a fazer. Porqu? Julgas que
deveria t-lo tratado mal.
-  evidente que no.
- No pensei que devesse. Mas acontece que olhei para o teu ex-marido
enquanto falava com o av dele. Estava com o aspecto de quem tinha
engolido uma minhoca.
- Tambm reparaste? At achei uma certa piada.
- Mas ele no vai ficar contente.
- Ento, pode juntar-se ao clube - sugeriu Beth. - Depois do que fez,
bem merece engolir uma minhoca.
Logan assentiu e ela aninhou-se nele. Thibault levantou um brao e
apertou-a contra si.
- Enquanto tocavas parecias muito bonito.
- Ah, sim?
- Sei que no deveria estar a pensar assim na igreja, mas foi mais
forte do que eu. Devias usar blazer mais vezes.
- O meu tipo de emprego no o exige.
- Mas talvez o teu gnero de namorada o merea.
Thibault fingiu-se surpreendido. - Eu tenho uma namorada?
Beth acotovelou-o por brincadeira e ergueu os olhos para ele. Beijou-o
na face. - Obrigada por teres vindo para Hampton. E por teres decidido
ficar.
Ele sorriu. - No tive escolha.
Duas horas depois, mesmo antes do jantar, Beth viu o carro de Keith a
abrir sulcos nas poas de gua, a avanar no desvio de acesso  casa.
Ben saltou do carro. Keith tinha a marcha atrs engatada e j ia a
afastar-se quando Ben chegou junto da escada do alpendre.
229
- Boa noite, mam! Boa noite, Thibault.
Logan cumprimentou-o com um aceno e Beth ps-se de p. - Boa noite,
querido. Passaste um bom fm-de-semana? - perguntou depois de o abraar.
- No tive de limpar a cozinha. Nem de despejar o lixo.
- ptimo.
-E sabes uma coisa?
- O que ? ?
Ben sacudiu a chuva da gabardina. - Acho que quero aprender a tocar
piano.
Beth sorriu, a pensar, por que  que o desejo do filho no a
surpreendia.
- Eh, Thibault?
Logan ergueu o queixo. - O que ?
- Quer ver a minha casa da rvore? ? Beth interrompeu-o. - Querido...
com um temporal destes, no
me parece que seja uma boa ideia.
-  ptima. Foi construda pelo av. Estive l h poucos dias.
-  provvel que a gua esteja mais alta.
- Por favor! No nos demoramos. E Thibault estar sempre comigo.
Embora lhe parecesse um erro, Beth concordou.
CLAYTON
Clayton nem queria acreditar, mas Gramps fora mesmo cumprimentar
Thibalt depois do servio religioso. Apertara-lhe a mo, como se ele
fosse uma espcie de heri, enquanto Ben admirava Thibolt com olhos
de cachorrinho.
A nica maneira de passar sem tomar o pequeno-almoo foi abrir uma
cerveja; e depois de deixar Ben em casa da me j bebera quatro. Tinha
a certeza de que iria acabar a embalagem de doze antes de voltar a
casa. Nas ltimas duas semanas bebera muita cerveja. Sabia que andava a
abusar, mas era a nica coisa que evitava que estoirasse depois do
ltimo encontro com Thibolt.
Atrs dele, o telefone tocou. Outra vez. A quarta nas duas ltimas
horas, mas no estava com disposio para atender.
Pronto, tinha de o admitir. Subestimara o homem. Thibolt andara
sempre um passo  frente dele, desde o princpio. Costumava pensar que
Ben sabia os botes em que devia carregar para o irritar, mas este tipo
lanava bombas. No, pensou Clayton subitamente, no lanava bombas.
Enviava msseis de cruzeiro que atingiam os alvos com preciso, todos
eles programados para a destruio da vida de Clayton. E, pior ainda,
Clayton no os detectara. Nem uma vez.
Era uma frustrao sem fim, especialmente porque a situao parecia
estar a agravar-se. Agora, Thibolt dizia-lhe o que ele devia fazer.
Dava-lhe ordens, como se ele fosse um lacaio a quem pagasse e, por mais
que espremesse os miolos, Clayton no via qualquer sada. Queria crer
que Thibolt fizera bluffao afirmar que filmara a invaso da casa.
Tinha de estar a fazer bluff, ningum era assim to esperto. Mas, e se
fosse verdade?
Clayton dirigiu-se ao frigorfico e abriu outra cerveja, sabendo que
no poderia arriscar-se. Quem poderia saber o que o tipo andaria
231
a preparar? Bebeu um grande trago, a desejar que o entorpecimento do
lcool no tardasse.
A situao deveria ter sido fcil de resolver. Ele era ajudante do
xerife e o tipo era novo na terra. Clayton deveria ter estado sempre na
m de cima, mas, em vez disso, estava para ali sentado numa cozinha
suja e desarrumada, porque no quisera pedir a Ben que a limpasse com
medo de que o mido fosse contar a Thibolt, o que poderia significar o
fim da vida de Clayton, tal como ele a encarava.
O que  que o tipo tinha contra ele? Era o que Clayton desejaria saber.
No se podia dizer que fosse Clayton quem causara os problemas. Quem
tornava as coisas difceis era Thibolt; e como quem pe sal numa
ferida aberta, o tipo tambm andava a dormir com Beth.
Bebeu mais um gole, a magicar como  que a sua vida pudera tornar-se
aquela porcaria em to pouco tempo. Afundado naquela miservel
tristeza, mal ouviu o som de algum que batia  porta da frente.
Levantou-se da cadeira e passou aos tropees pela sala. Ao abrir a
porta deu com Tony no alpendre, mais parecendo uma ratazana afogada.
Como se no tivesse preocupaes suficientes, ainda lhe aparecia aquele
verme.
Tony recuou um pequeno passo. - Caramba, amigo. Ests bem? Pelo cheiro
parece que estiveste a beber.
Clayton no estava com pacincia para o aturar. - Tony, o que  que tu
queres?
- Tenho estado a tentar ligar-te, mas no atendes o telefone.
- Diz l o que queres.
- No te tenho visto ultimamente.
- Tenho andado ocupado. E como estou agora ocupado, vai-te embora -
mandou, comeando a fechar a porta, mas Tony ergueu a mo.
- Espera! Tenho uma informao para ti - choramingou.
-  importante.
- O que ?
- Lembras-te de te ter telefonado? No me recordo bem, deve ter sido h
uns dois meses?
- No.
- Tu lembras-te. Telefonei-te do Decker sobre aquele tipo que andava a
mostrar uma fotografia da Beth?
- E?
Tony afastou uma madeixa de cabelo engordurado que estava a tapar-lhe
os olhos. -  o que quero dizer-te. Hoje voltei a v-lo. E vi-o a falar
com a Beth.
232
- De quem  que ests a falar?
- Depois da igreja. Estava a falar com a Beth e com o teu av. Foi o
gajo que hoje tocou o piano.
Apesar do excesso de lcool, Clayton sentiu a cabea comear a
desanuviar-se. Recordou-se vagamente, a princpio, depois mais
nitidamente. Fora no fim-de-semana em que Thibolt lhe ficara com a
mquina e com o disco.
- Tens a certeza?
-  claro que tenho. Lembrar-me-ia daquele gajo onde quer que fosse.
- Ele tinha a fotografia de Beth?
- J te disse isso. Eu vi-a. Apenas achei esquisito, percebes?
E hoje vi-os juntos. Pensei que gostarias de saber.
? Clayton digeriu as novidades trazidas por Tony. - Quero que me contes
tudo aquilo de que te lembrares acerca dessa fotografia.
Tony, o verme, era senhor de uma excelente memria e no tardou muito
que Clayton ficasse a conhecer a histria toda. A fotografia j tinha
uns anos e fora tirada na feira. Que Thibolt no sabia o nome dela.
Que Thibolt andava  procura de Beth. Depois de Tony sair, Clayton
continuou a reflectir sobre o que acabara de saber. No havia qualquer
hiptese de Thibolt ter estado em Hampton cinco anos antes e depois
esquecer-se do nome dela. Assim sendo, como arranjara a fotografia?
Tinha atravessado o pas para a procurar? E, dadas as circunstncias, o
que  que isso queria dizer? Que ele a perseguira? Ainda no tinha a
certeza, mas havia qualquer pormenor que no se ajustava. E Beth,
ingnua como era seu hbito, no s o admitira na cama dela, mas tambm
na vida de Ben.
Enrugou a testa. No estava a gostar daquilo. No estava a gostar mesmo
nada e tinha quase a certeza de que Beth tambm no iria gostar.
233
THIBAULT
- Ento,  isto?
Apesar do abrigo proporcionado pelas rvores, Thibault estava
encharcado na altura em que ele e Ben chegaram junto da casa da rvore,
A gua pingava da gabardina que ele vestia e as calas novas j estavam
encharcadas at aos joelhos. Por dentro das botas as pegas emitiam
sons desagradveis. Ben, por sua vez, ia enfaixado dos ps  cabea num
fato para a chuva; nos ps, levava as botas de borracha de Nana. Para
alm do rosto, Thibault duvidava que ele notasse qualquer pingo de
chuva.
-  por aqui que chegamos  casa. Espantoso, no acha? - comentava Ben,
apontando para um carvalho na margem do riacho. Uma srie de tbuas
pregadas permitiam a subida por um dos lados do tronco. S tem de subir
a escada da rvore e depois atravessar a ponte.
Thibault notou com apreenso que o caudal do riacho j era o dobro do
normal e que a gua corria com grande velocidade.
Voltando a ateno para a pequena ponte, reparou que era composta por
trs partes: uma ponte feita de corda esfiapada estava presa entre o
carvalho da margem mais prxima e um patamar no centro do riacho, que
era suportado por quatro pilares inclinados; este patamar encontrava-se
ligado por outra seco da ponte de corda  plataforma onde assentava a
casa da rvore. Thibault no deixou de reparar nos detritos acumulados
pelo caudal de gua  volta dos pilares. Embora no tivesse
inspeccionado a ponte previamente, suspeitava que os temporais
contnuos e a rpida corrente de gua tivessem enfraquecido os suportes
do patamar. Antes que pudesse dizer o que pensava, Ben j escalara a
escada para a ponte.
L de cima, Ben sorriu-se para ele. - Suba! De que  que est  espera?
234
Thibault ergueu um brao para se proteger da chuva, sentindo uma sbita
sensao de medo. - No me parece boa ideia...
- Medroso! - zombou Ben. Iniciou a travessia, com a ponte a oscilar de
um lado ao outro enquanto ele corria.
- Espera! - gritou Thibault, sem resultado. Ben j atingira o patamar
central.
Subiu a escada da rvore e, cautelosamente, assentou um p na ponte
suspensa. As tbuas encharcadas cederam sob o seu peso. Logo que Ben
viu que Thibault ia atrs dele, percorreu o resto do caminho at  casa
da rvore. Thibault suspendeu a respirao quando Ben saltou para a
plataforma da casa, que se curvou com o peso do rapaz, mas aguentou-se.
Ben voltou-se, mostrando um sorriso rasgado.
- Volta para trs! - gritou Thibault. - No creio que a ponte aguente o
meu peso.
- Aguenta. Foi o meu av que a construiu! .
- Ben, por favor. Ben zombou de novo: - Medroso!
Era bvio que Ben considerava tudo aquilo parte de um jogo. Thibault
olhou de novo para a ponte e concluiu que, se fosse devagar, talvez ela
se aguentasse. Ben correra, provocando tores e presses de impacto.
Conseguiria a ponte suportar o peso de Thibault?
Assim que deu o primeiro passo, as tbuas, velhas e encharcadas,
cederam ao peso dele. Estavam, sem dvida, atacadas por fungos.
Pensou na fotografia que trazia na algibeira. O riacho redemoinhava e
espumava, a torrente logo abaixo dos ps dele.
No havia tempo a perder. Caminhou lentamente e chegou ao patamar
central, para depois comear a percorrer o resto da ponte suspensa. Ao
notar a oscilao da plataforma, duvidou que ela suportasse o peso
total dos dois. Na algibeira a fotografia parecia queimar.
- vou ter contigo l dentro - observou Thibault, tentando falar com
descontraco. - No tens de estar  chuva,  espera de um velho como
eu.
Felizmente, Ben riu-se e enfiou-se na casa da rvore. Aliviado,
Thibault respirou fundo e levantou-se na plataforma bamboleante. Deu
uma passada comprida para evitar a plataforma e caiu dentro da casa.
-  aqui que guardo as minhas cartas do Pokmon - informou- Ben,
ignorando a forma como Thibault entrara e apontando para as caixas de
folha num canto. - Tenho um Charizard. E um Mewtwo.
Thibault enxugou a cara, recomps-se e sentou-se no cho. - Fantstico!
- exclamou, vendo a gua a escorrer da gabardina e a formar poas  sua
volta.
235
Olhou  volta do pequeno espao. Havia brinquedos empilhados nos cantos
e uma janela aberta expunha boa parte do interior aos elementos,
encharcando as tbuas por pintar desde o incio. A nica pea de
moblia era uma cadeira de lona colocada a um canto.
- Este  o meu esconderijo - esclareceu Ben ao deixar-se cair na
cadeira.
- Ah, sim?
- Venho para aqui quando estou zangado. Como acontece quando os midos
da escola me chateiam.
Thibault recostou-se contra a parede, enquanto ia sacudindo a gua das
mangas. - O que  que eles fazem?
Ben encolheu os ombros. - Coisas. Voc sabe. Gozam-me pela maneira como
jogo basquetebol, ou como pontapeio a bola, ou por usar culos.
- Deve ser duro.
- No me importo.
Ben no pareceu notar a contradio e Thibault continuou.
- O que  que aprecias mais quando aqui ests?
- O silncio - respondeu Ben. - Quando aqui estou, ningum me faz
perguntas, no me mandam fazer coisas. Posso ficar aqui sentado, a
pensar.
Thibault assentiu. - Faz sentido - comentou. Atravs da janela notou
que o vento obrigava a chuva a cair de lado. O temporal estava a
agravar-se.
- E pensas em qu?
Ben deu de ombros. - Como  crescer e coisas assim. Em ficar mais velho
- acrescentou e fez uma pausa. - Gostava de ser mais alto.
- Porqu?
- Na minha turma h um mido que se mete sempre comigo.  um malvado.
Ontem, na cafetaria, atirou-me ao cho.
A casa da rvore abanou com uma rajada de vento. Uma vez mais, a
fotografia pareceu queim-lo e, sem dar por isso, Thibault procurou-a
no bolso. No percebeu a compulso mas, antes de perceber o que estava
a fazer, tirou-a do bolso.
L fora, o vento continuava a uivar e ouviam-se ramos das rvores a
bater na estrutura. Sabia que a chuva ia engrossando o riacho a cada
minuto que passava. De sbito, viu mentalmente o colapso da plataforma
onde assentava a casa, com Ben encurralado, com o riacho enraivecido
por baixo dele.
- Quero dar-te um presente - disse Thibault, com as palavras a sarem
ainda antes de tomar conscincia delas. - Julgo que vai resolver o teu
problema. ?
236
- O que ?
Thibault engoliu em seco. -  uma fotografia da tua me.
Ben pegou na foto e olhou-a, curioso. - O que  que fao com ela?
Thibault inclinou-se para diante e tocou um canto da fotografia.
- Basta que a tragas contigo. O meu amigo Victor dizia que era um
talism. Dizia que ela me mantivera vivo no Iraque.
- De verdade?
Pois, a  que est o problema, no ? Depois de uma longa pausa,
Thibault assentiu. - Palavra de honra.
- Fixe!
- Fazes-me um favor? - pediu Thibault.
- O que ?
- s capaz de fazer disto um segredo entre ns os dois? E prometer
conserv-la contigo? ...?
Ben reflectiu. - Posso dobr-la?
- No vejo que faa diferena.
O garoto voltou a reflectir. - Sem dvida, acabou por concordar,
dobrando a fotografia e metendo-a no bolso. - Obrigado.
Era a primeira vez, em cinco anos, que a fotografia ficava mais longe
que a distncia que ia do chuveiro ou do lavatrio ao bolso dele; e a
sensao de perda desorientou-o. De qualquer forma, Thibault no
esperara sentir a ausncia dela de forma to aguda. Ao ver Ben
atravessar a ponte e ao olhar o riacho enfurecido, a sensao tornou-se
ainda mais intensa. Quando Ben lhe acenou do outro lado do riacho e
comeou a descer a escada da madeira, Thibault ps um p relutante na
plataforma, antes de atravessar a ponte o mais depressa que pde.
Sentiu-se exposto ao cruzar a ponte passo a passo, ignorando a certeza
de que tudo ia cair no riacho, ignorando o facto de j no ter a
fotografia consigo. Quando chegou ao carvalho que ficava na outra
margem, respirou fundo, trmulo mas aliviado. Ainda assim, ao descer,
sentiu uma premonio incmoda: a de que o que viera fazer ali, fosse o
que fosse, ainda no acabara; que estava, de facto, apenas a comear.
BETH
Na quarta-feira, Beth encontrava-se a olhar pela janela da sala de
aulas durante o intervalo para almoo. Nunca vira nada de semelhante:
tufes e ventos de nordeste no eram nada quando comparados com a srie
de temporais que haviam recentemente atingido o distrito de Hampton,
bem como todas as terras situadas entre Raleigh e a costa. O problema
era que, ao contrrio do que sucedia com a maioria das tempestades
tropicais, estas no passavam por ali rapidamente, a caminho do mar.
Pelo contrrio, permaneciam, cada dia mais medonho que o anterior,
levando quase todos os rios da parte oriental do estado a provocarem
inundaes. Nas pequenas vilas ao longo dos rios de Pimlico, de Neuse e
de Cape Fear j se andava com gua pelos joelhos e Hampton estava perto
disso. com mais um ou dois dias de chuva, os estabelecimentos
comerciais do centro s poderiam ser alcanados de barco.
As autoridades haviam decidido fechar as escolas at ao final da
semana, pois os autocarros escolares j no conseguiam percorrer os
trajectos habituais e apenas um pouco mais de metade dos professores
tinha conseguido chegar  escola. E claro que Ben estava entusiasmado
com a ideia de ficar em casa e de brincar nas poas de gua com Zeus,
mas Beth mostrava-se um pouco mais receosa. Tanto os jornais como os
noticirios locais informavam que, conquanto o South River j tivesse
atingido nveis perigosos, antes de melhorar, a situao s poderia
piorar na medida em que os riachos e os tributrios continuavam a
alimentar a cheia do rio principal. Os dois riachos que rodeavam o
canil, habitualmente afastados uns 400 metros, podiam agora ser vistos
das janelas da casa; Logan estava mesmo a manter Zeus recolhido por
causa dos detritos transportados pelo dilvio.
Estar fechado em casa era duro para as crianas, uma das razes que a
levara a permanecer na sala de aulas. Depois ao almoo, regressariam
238
s salas de aulas, onde, em teoria, podiam desenhar ou pintar
calmamente, em vez de andarem l por fora aos pontaps  bola ou a
jogar basquetebol. Na realidade, as crianas precisavam de libertar as
energias e ela sabia-o. H anos que vinha a propor que, em dias como
aquele, se limitassem a fechar as mesas da cafetaria para permitir que
as crianas conseguissem correr ou brincar durante vinte minutos, de
modo a poderem concentrar-se quando regressassem s salas de aulas. No
podia ser, disseram-lhe, por questes regulamentares, questes de
responsabilidade civil, questes do sindicato do pessoal auxiliar e
questes de sade e segurana. Quando perguntara o que tudo aquilo
queria dizer, deram-lhe uma longa explicao, mas, para ela, tudo se
resumia s batatas fritas. Por exemplo: No podemos permitir que as
crianas escorreguem nas batatas fritas, ou, se efectivamente
escorregarem nas batatas fritas, o distrito escolar ser demandado em
tribunal, ou, o sindicato do pessoal auxiliar teria de renegociar o
contrato se no limpassem as batatas fritas cadas na cafetaria no
tempo que estava destinado a esse servio, e, finalmente, se
escorregassem numa batata frita cada no cho, as crianas poderiam
ficar expostas a agentes patognicos perniciosos.
Bem-vindos ao mundo dos advogados, pensou. Afinal, os advogados no
tinham de ensinar as crianas depois de elas terem sido mantidas dentro
de uma sala de aulas durante um dia inteiro, sem qualquer recreio.
Habitualmente, ter-se-ia retirado para a sala de professores a fim de
almoar, mas com to pouco tempo para preparar as actividades da turma,
decidira ficar na sala de aulas e preparar tudo. Estava num canto, a
instalar um jogo que era guardado no armrio justamente para aquelas
emergncias, quando notou um movimento junto  porta da sala. Voltou-se
e levou algum tempo a perceber o que era. Tinha os ombros do uniforme
molhados e caram-lhe alguns pingos do cinto onde segurava a pistola.
Trazia um envelope de manilha na mo.
- Boa tarde, Beth - cumprimentou, com voz calma. - Dispensas-me um
minuto?
- De que se trata, Keith - perguntou Beth ao levantar-se.
- Vim pedir desculpa - comeou ele. Juntou as mos  frente em sinal de
contrio. - Sei que no dispes de muito tempo, mas quero falar
contigo enquanto ests s. Arrisquei a vinda aqui, mas se no for a
altura adequada, talvez possamos marcar outra altura mais conveniente
para ti.
Beth consultou o relgio. - Disponho de cinco minutos. Keith entrou na
sala e comeou a fechar a porta. A meio, parou, e pediu-lhe
autorizao. Ela assentiu, desejosa de despachar o assunto
239
que o trouxera ali. Keith dirigiu-se para ela, parando a uma distncia
respeitosa.
- Como disse, vim aqui para te pedir desculpa.
- Desculpa de qu?
?- Acerca dos rumores que ouviste. No fui completamente verdadeiro
contigo.
Beth cruzou os braos. - Por outras palavras, mentiste - concluiu.
- Menti.
- Mentiste-me na cara.
Menti.
?- Acerca de qu?
- Perguntaste se eu corri com alguns dos tipos que namoraste no
passado. No penso que o tenha feito, mas no te disse que, na
realidade, falei com alguns deles.
- Falaste com eles.
- Falei.
Beth fez o que pde para controlar a fria que sentia. - E... como ?
Ests a pedir desculpa pelo que fizeste ou por teres mentido?
- Por ambas as razes. Peo desculpa pelo que fiz e peo desculpa por
ter mentido. No devia ter agido assim - rematou. Depois de uma pausa,
prosseguiu: - Sei que a nossa relao depois do divrcio no foi a
melhor, e tambm sei que tu achas que cometeste um erro ao casar
comigo. Tens toda a razo. No devamos ter-nos casado e aceito isso.
Mas entre ns os dois, e para ser honesto, o teu papel tem sido muito
mais importante que o meu, existe um filho fantstico. Podes no me
julgar o melhor dos pais do mundo, mas nunca lamentei o facto de Ben
ter nascido, ou de ele viver contigo durante a maior parte do tempo.
Beth no sabia o que dizer. com ela calada, Keith prosseguiu.
- Mas continuo a preocupar-me, e preocupar-me-ei sempre. Como te disse,
preocupo-me com a pessoa que fizer parte da vida do Ben, sejam amigos,
conhecidos, ou mesmo pessoas que tu lhe apresentes. Sei que no  justo
e que provavelmente consideras que estou a imiscuir-me na tua vida
privada, mas  assim que eu sou. E, para te ser franco, no sei se
algum dia mudarei.
- Portanto, ests a dizer que vais continuar a perseguir-me eternamente?
- No - apressou-se Keith a dizer. - No voltarei a faz-lo. S estou a
explicar por que o fiz antes. E acredita em mim, no ameacei aqueles
tipos, nem tentei intimid-los. Conversei com eles. Expliquei-lhes
240
que Ben significava muito para mim e que ter sido pai dele fora o
acontecimento mais importante da minha vida. Podes nem sempre concordar
com a maneira como me dou com ele, mas, se recuares uns anos, nem
sempre foi assim. Ele costumava apreciar o tempo que passava em minha
casa. Agora no aprecia. Mas eu no mudei, quem mudou foi ele. A
mudana no foi m, crescer  normal e, no fundo,  o que tem andado a
fazer. E talvez eu tenha necessidade de perceber e aceitar o facto de
ele estar a ficar mais velho.
Ela no respondeu. Sempre a observ-la, Keith respirou fundo.
- Tambm disse queles homens que no queria ver-te magoada. Sei que
isto pode dar a entender que eu estava a mostrar-me possessivo, mas no
estava. Disse-o como o diria um irmo. Como o Drake o teria dito. Mais
ou menos assim: se gosta dela, se a respeita, nunca se esquea de a
tratar bem. Foi tudo o que lhes disse - insinuou. Encolheu os ombros. -
No sei. Mas talvez alguns deles me tenham entendido mal por eu ser
polcia ou por causa do meu apelido, mas isso so pormenores que no
posso evitar. Acredita-me, a ltima coisa que desejaria era ver-te
infeliz. As coisas podem no ter corrido bem entre ns, mas s a me do
meu filho e nunca deixars de o ser.
Keith baixou a cabea e mexeu os ps. - Tens todas as razes para
estares zangada comigo. Agi mal.
Beth permaneceu no mesmo stio, de braos cruzados. - Pois agiste.
- Como j disse, peo desculpa e juro que no voltar a acontecer. Ela
no respondeu de imediato. Finalmente, disse: - Muito bem.
vou verificar se cumpres a promessa.
Keith sorriu ligeiramente, um sorriso de quase derrota. - Acho justo.
- E  tudo? - indagou, a preparar-se para tirar o resto das peas do
jogo do armrio.
- Na verdade, tambm queria falar contigo acerca de Logan Thibault. H
um facto de que deves tomar conhecimento.
Beth ergueu as mos para faz-lo parar. - No te metas nisso.
No conseguiu dissuadi-lo. Pelo contrrio, Keith deu um passo em
frente, levando a mo  aba do chapu. - No falarei com ele a menos
que queiras que converse com ele. Quero que isto fique claro. Acredita-
me, Beth. Isto  srio. No estaria aqui se no fosse. Estou aqui por
me preocupar contigo.
Um atrevimento de cortar a respirao. - Esperas sinceramente que eu
acredite que levas a peito os meus melhores interesses, depois de
admitires que andaste a espiar-me durante anos? E que foste responsvel
por eu no conseguir encontrar algum com quem me relacionar?
241
- Isto no tem nada a ver com essas coisas.
- Deixa-me adivinhar... pensas que ele  viciado em drogas, certo?
- No fao ideia. Contudo, devo avisar-te de que ele no tem sido
honesto contigo.
- No fazes ideia se ele foi ou no honesto comigo. Agora, sai. No
quero falar contigo. No desejo ouvir o que tens para me dizer...
- Ento, faz-lhe tu a pergunta. - interrompeu Clayton. - Pergunta-lhe
se ele veio at Hampton para te procurar.
- Estou farta - declarou Beth, a dirigir-se para a porta. - E se
ousares tocar-me quando eu sair, gritarei por socorro.
Passou por ele e quando ela estava prestes a passar pela porta, Keith
suspirou pesadamente.
- Pergunta-lhe pela fotografia - sugeriu.
O comentrio obrigou-a a deter-se. - O qu? A expresso de Keith era a
mais sria que ela alguma vez lhe vira.
- A fotografia que tirou ao Drake.
CLAYTON
Pela expresso dela, Clayton viu que conseguira despertar a ateno de
Beth, embora no tivesse a certeza de que ela compreendera as
implicaes, e prosseguiu:
- Ele tinha uma fotografia tua. Quando chegou  cidade mostrou-a no
salo de bilhar do Decker. Tony estava l nessa noite e viu-a. Na
realidade, telefonou-me imediatamente porque achou que o tipo estava a
contar uma histria esquisita, mas no lhe liguei importncia. Contudo,
na semana passada, Tony veio ter comigo para me dizer que reconhecera
Thibault quando ele tocava piano na igreja.
Beth continuou a olhar para ele.
- No sei se Drake lhe deu a fotografia, ou se ele a roubou ao Drake.
Mas acho que  a nica coisa que faz sentido. Ambos estiveram nos
fuzileiros navais e, segundo Tony, a fotografia era antiga, fora tirada
h uns anos.
Hesitou. - Sei que o que te contei sobre o meu comportamento anterior
pode dar a ideia de que quero correr com ele, mas no vou falar com o
homem. No entanto, penso que o deves interrogar e no digo isto por ser
o teu ex-marido. Estou a falar na minha qualidade de ajudante do xerife.
Beth queria sair dali mas pareceu no conseguir reunir a vontade para
mexer as pernas.
- Pensa nisso. Ele tem uma fotografia tua; foi com base nela que
percorreu metade do pas  tua procura. No sei por qu, mas posso dar-
te uma explicao razovel. Estava obcecado por ti, embora nunca se
tivessem encontrado, como aqueles que criam obsesses em relao s
estrelas de cinema. E o que  que fez? Comeou a procurar-te, mas ver-
te de longe, ou simplesmente conhecer-te, no era suficiente. Tinha de
ir mais alm, de fazer parte da tua vida. Beth,  assim que actuam os
assediadores perigosos.
243
Falava em tom calmo e profissional, o que servia apenas para
intensificar o temor que ela comeara a sentir.
- Pela tua expresso, verifico que tudo isto  uma novidade para ti.
Ests a reflectir se estarei a falar verdade, ou se estarei a mentir,
alm de que o meu currculo no  perfeito. Mas, por favor, para bem do
nosso filho, e para o teu prprio bem, interroga-o sobre isso. Posso
estar presente se assim o decidires, posso at mandar outro ajudante do
xerife se preferires. Ou podes falar com qualquer outra pessoa, com a
tua amiga Melody, por exemplo. S pretendo que percebas a gravidade do
assunto. At que ponto... isto  arrepiante e esquisito. Mete medo. E
no consigo demonstrar-te quanto  importante que consideres que se
trata de um caso grave.
A boca dele era apenas uma linha estreita quando pousou o sobrescrito
com o processo na carteira que estava mais prxima. - Tens a
informaes gerais sobre Logan Thibault. No tive tempo para
averiguaes mais aprofundadas; posso meter-me em grandes sarilhos por
te deixar ver isto, pois no sei o que mais  que ele te contou... -
interrompeu-se e voltou a olhar para ela.
- Pensa no que te disse. E tem cuidado, est bem?
244
BETH
Mal conseguia ver atravs do pra-brisas, mas desta vez era mais por
falta de concentrao do que por causa da chuva. Depois de Keith ter
sado, continuara confusa, a olhar para o processo, a tentar encontrar
algum sentido em tudo o que acabara de ouvir.
Logan tinha a fotografia do Drake... Logan tinha ficado obcecado por
ela... Logan tinha decidido procur-la... Logan andara  caa dela.
Sentira dificuldades respiratrias e mal conseguira chegar ao gabinete
do director para o informar de que tinha de ir para casa. Depois de lhe
analisar o rosto, o director concordara, oferecendo-se para a
substituir durante o resto da tarde. Beth informou-o de que Nana iria
buscar Ben  escola.
Durante a viagem para casa as imagens sucediam-se-lhe na cabea, um
caleidoscpio de vises, de sons e de cheiros. Tentava convencer-se de
que Keith mentira, procurava racionalizar a notcia. Era possvel,
especialmente se tivesse em conta a maneira como mentira no passado, e,
no entanto...
Keith falara srio. Revelara uma postura mais profissional do que
pessoal, para alm de lhe ter dito coisas que ela poderia verificar
pessoalmente. Sabia que ela no deixaria de questionar Logan sobre o
assunto... queria que ela questionasse Logan... o que significava...
Beth apertou o volante, presa de uma necessidade febril de falar com
Logan. Ele poderia esclarecer tudo. Tinha de ser capaz de a esclarecer.
A gua do rio j se estendera  estrada mas, preocupada como ia, s se
apercebeu disso quando o carro entrou pela gua dentro. Sentiu-se
atirada para a frente quando o carro quase parou. O rio flua  volta
dela e pensou que o motor poderia ser atingido e parar, mas o carro
continuou a rolar em frente e cada vez mais fundo, antes de finalmente
conseguir chegar a uma zona com gua mais baixa.
245
Ao chegar a casa, e para alm do estado de confuso que se apoderara
dela, no sabia o que pensar. Ora se sentia furiosa, atraioada e
manipulada, ora se convencia de que aquilo no poderia ser verdade, que
Keith lhe mentira uma vez mais.
Ao entrar no desvio de acesso  casa procurou vislumbrar Logan nos
campos alagados.
Mais adiante, atravs da nvoa baixa, conseguiu ver luzes em casa.
Pensou ir falar com Nana, aproveitar a clareza de raciocnio da av, o
seu bom senso, para esclarecer tudo. Contudo, ao ver luzes no
escritrio e notar que a porta estava aberta, sentiu um aperto na
garganta. Virou o volante na direco do escritrio, dizendo a si mesma
que Logan no tinha a fotografia, que tudo aquilo no passava de um
erro. Saltou por cima de poas de lama, com a chuva a cair com tal
fora que as escovas pra-brisas no conseguiam cumprir o seu papel. No
alpendre do escritrio, viu Zeus deitado perto da porta, de cabea
erguida.
Travou em frente da porta e correu para o alpendre, com a chuva a
picar-lhe a cara. Zeus aproximou-se, pondo o nariz perto da mo dela,
mas Beth ignorou-o e entrou, esperando encontrar Logan sentado 
secretria.
Ele no se encontrava ali. A porta que dava para o canil estava aberta.
Parada no meio do escritrio, encheu-se de coragem e observou as
sombras do corredor escurecido. Esperou que Logan chegasse  zona
iluminada.
- Ol, Elizabeth - cumprimentou Logan. - No te esperava...
- mas no continuou. - O que  que aconteceu?
Ao olhar para ele, Beth sentiu-se prestes a explodir. De sbito, notou
que tinha a boca seca, como se fosse de papel, no sabia como comear
nem o que dizer. Pressentindo o estado dela, Logan manteve-se calado.
Ela fechou os olhos, sentindo-se prestes a chorar, a seguir inspirou
lentamente. - Por que  que te mudaste para Hampton? - acabou por
perguntar. - Desta vez exijo a verdade.
Logan no se mexeu. - Contei-te a verdade.
- Contaste-me tudo? ele hesitou durante uma fraco de segundo.
- Nunca te menti - respondeu com voz tranquila.
- No foi isso que perguntei - redarguiu Beth. - Perguntei-te se
andaste a esconder algum pormenor!
Logan analisou-a cuidadosamente. - De onde  que isso veio?
- No interessa! - respondeu e desta vez ele notou a clera na voz
dela. - S pretendo saber por que  que vieste para Hampton!
246
- Eu disse-te...
- Tens uma fotografia minha?
Logan no respondeu.
- Responde  pergunta! - exclamou Beth ao dar um passo em
direco a ele, a falar de dentes cerrados. - Tens uma fotografia minha?
No sabia como iria ele reagir, mas para alm de um ligeiro suspiro,
Logan no vacilou. ?
- Tenho.
- A que eu dei ao Drake?
Sim.
com aquela resposta, ela sentiu que todo o seu mundo se desmoronava
como uma carreira de domins. De repente, tudo fazia sentido: a maneira
como ficara a olhar para ela no primeiro encontro, o motivo de ele
querer trabalhar a ganhar o salrio mnimo, as razes que o levaram a
tornar-se amigo de Nana e de Ben, toda aquela conversa acerca do
destino...
Ele tinha a fotografia. Viera at Hampton  procura dela. Perseguira-a
como se ela fosse uma pea de caa. De sbito, sentiu que mal conseguia
respirar.
- Oh, meu Deus!
- No  nada do que ests a pensar...
Estendeu a mo na direco dela que, de ar absorto, ficou a v-la
aproximar-se at finalmente se aperceber do que estava a passar-se.
Deu um salto para trs, desesperada para conseguir alargar o espao que
os separava. Afinal, fora tudo uma mentira...
- No me toques!
- Elizabeth...
- O meu nome  Beth!
Olhou para ele como se ali estivesse um estranho, at que Logan baixou
o brao.
A voz dele era apenas um sussurro quando tentou de novo. - Posso
explicar...
- Explicar o qu? - inquiriu Beth. - Que roubaste a fotografia ao meu
irmo? Que atravessaste o pas a p para me encontrar? Que te
apaixonaste por uma imagem...
- No foi nada disso - retorquiu Logan, a abanar a cabea.
Beth no o ouvia. Tudo o que conseguia era encar-lo, a tentar
descobrir se ele dissera alguma verdade.
- Perseguiste-me... - insinuou, como se falasse consigo mesma.
Mentiste-me. Usaste-me.
247
- No compreendes...
- Compreender? Tu queres que eu compreenda?
- No roubei a fotografia - contraps. A voz dele mantinha-se firme e
calma. - Achei a fotografia no Kuwait e coloquei-a no quadro, onde
pensei que algum a fosse reclamar. Mas ningum apareceu a reclam-la.
Beth abanou a cabea, sem querer acreditar no que ouvia. - E por
isso... meteste-a no bolso? Porqu? Por alimentares alguma ideia
doentia e retorcida acerca de mim?
- No! - exclamou Logan, levantando a voz pela primeira vez. O tom
sobressaltou-a, obrigou-a a pensar mais devagar, pelo menos por
instantes. - Vim at aqui por estar em dvida contigo.
Ela pestanejou. - Estavas em dvida comigo? O que  que isso poder
querer dizer?
- A fotografia... salvou-me.
Embora o tivesse ouvido perfeitamente, no conseguiu perceber o
significado das palavras. Esperou que ele continuasse, mas, no silncio
que se instalou entre eles, apercebeu-se de que as achava... algo
assustadoras. Sentiu que os plos dos braos se lhe eriavam e deu mais
um passo para trs. - Quem s tu? - sussurrou. - O que  que pretendes
de mim?
- No pretendo nada. E sabes quem eu sou.
- No, no sei! No sei o que quer que seja acerca de ti!
- Deixa-me explicar...
- Ento, explica por que razes, sendo tudo assim to puro e
verdadeiro, no me falaste da fotografia quando chegaste aqui! -
gritou, Beth, com a voz a ecoar pela sala. Mentalmente reviu todos os
pormenores da noite em que a fotografia foi tirada. Apontou-lhe um dedo.
- Por que no disseste: Achei esta fotografia no Iraque e calculei que
poderias gostar de a reaver? Por que no me disseste quando
conversmos sobre o Drake?
- No sei...
- No devias conservar uma fotografia que no te pertencia! No
entendes isso? No te fora destinada? Era para o meu irmo, no era
para ti! Era dele e no tinhas o direito de no ma entregares!
A voz de Logan era quase um sussurro. - No queria magoar-te. Os olhos
de Beth fixaram-se nele, penetrando-o com toda a fora da raiva que
sentia.
- Tudo isto  uma trapaa, no  verdade? Achaste a fotografia e
inventaste uma qualquer... fantasia retorcida, em que podias
desempenhar o papel principal. Usaste-me desde o momento em que nos
248
conhecemos! Tiveste tempo para me dares a entender que eras o homem
perfeito para mim. E pensaste que por estares obcecado por mim, podias
enganar-me e levar-me a apaixonar-me por ti.
Viu Logan encolher-se ao ouvir as palavras dela, pelo que resolveu
continuar.
- Planeaste tudo desde o primeiro momento!  doentio,  um engano e nem
quero crer que ca na esparrela.
Logan vacilou um pouco sobre os calcanhares, espantado pelas palavras
dela.
- Admito que queria encontrar-te, mas ests enganada quanto ao motivo.
No vim at c para te enganar e levar-te a apaixonares-te por mim. Sei
que soa a loucura, mas vim por acreditar que a fotografia me salvou e
que... de certa maneira, estava em dvida para contigo, embora no
soubesse o que isso queria dizer, ou o que viria a suceder. Contudo,
depois de c estar, no fiz planos. Aceitei o emprego e a seguir
apaixonei-me por ti.
A expresso de Beth no se suavizou enquanto ele falava. Em vez disso,
comeou a abanar lentamente a cabea.
- Ser que consegues ouvir o que tu prprio ests a dizer?
- Sabia que no acreditarias. Foi esse o motivo por que no te disse...
- No tentes justificar as tuas mentiras! Foste apanhado numa fantasia
doentia e nem isso queres admitir.
- Acaba com isso da fantasia doentia! - gritou Logan. - Quem no est a
ouvir s tu. Nem sequer tentas perceber o que eu estou a explicar!
- Por que motivo deveria tentar compreender? Andas a mentir-me desde o
incio. Andas a usar-me desde o incio.
- No te usei - contraps, endireitando as costas, retomando a
compostura. - E no menti acerca da fotografia. No te falei dela por
no saber o que havia de dizer-te sem te levar a considerares-me maluco.
Beth ergueu as mos. - Nem penses em atirar as culpas para cima de mim.
Quem mentiu foste tu! Quem manteve segredos foste tu! Eu contei-te
tudo! Abri o corao! Deixei que o meu filho se ligasse a ti! - gritou.
Quando continuou, a voz baixou de tom e sentiu que as lgrimas no
tardariam. - Fui contigo para a cama por te considerar um homem em quem
podia confiar. Mas agora sei que no posso. Consegues imaginar como
isso me faz sentir? Saber que tudo isto no passou de uma espcie de
pantomima?
A voz dele era suave. - Por favor, Elizabeth... Beth... ouve-me.
249
- No te quero ouvir! J ouvi mentiras que cheguem.
- No sejas assim.
- Queres que eu oua! - gritou. - Para ouvir o qu? Que ficaste
obcecado por uma fotografia e vieste  minha procura por acreditares
que eu te salvei a vida!  uma loucura, tanto mais perturbadora por no
conseguires reconhecer que essa explicao te faz parecer um doente
mental.
Logan encarou-a e ela viu o queixo dele contrair-se.
Sentiu-se percorrida por um arrepio. Estava farta daquilo. Farta dele.
- Quero-a de volta - gritou. -? Quero a fotografia que dei ao Drake!
Como ele no respondesse, Beth estendeu a mo para o parapeito da
janela, pegou num pequeno vaso de flores e atirou-o  cabea dele,
gritando: - Onde  que est? Quero-a!
Logan baixou a cabea quando o vaso passou a voar por perto, indo
estampar-se na parede atrs dele. Confuso, Zeus ladrou pela primeira
vez.
- No  tua! - gritou Beth.
Logan endireitou-se de novo. - No a tenho.
- Aonde  que est? - exigiu ela.
Uma pausa antes de obter resposta. - Dei-a ao Ben - admitiu Logan.
Ela semicerrou os olhos. - Rua!
Logan hesitou mas finalmente dirigiu-se para a porta. Beth desviou-se,
mantendo-se distante dele. Zeus rodou a cabea de Logan para Beth e
novamente na direco de Logan, antes de decidir segui-lo.
 porta, Logan parou e voltou-se para ela.
- Juro pela minha vida que no vim aqui para me apaixonar por ti, ou
para tentar que te apaixonasses por mim. Mas aconteceu.
Beth olhou-o nos olhos. - J te mandei embora e repito. com isto, Logan
voltou-se e caminhou ao encontro da tempestade.
THIBAULT
Apesar da chuva, Thibault no conseguiu imaginar-se a regressar a casa.
Queria ficar ali por fora, no lhe parecia justo sentir-se quente e
seco. Queria purgar-se de tudo que tinha feito, de todas as mentiras
que tinha dito.
Beth tivera razo; no fora honesto com ela. Apesar de se sentir
magoado por algumas das coisas que ela dissera e por se negar a ouvi-
lo, encontrava justificao para o facto de se ter sentido trada. Mas
como explicar-lhe? No compreendia inteiramente as razes por que tinha
vindo, mesmo quando tentava express-las por palavras. compreendia os
motivos que a levavam a interpretar os actos dele como os de um louco.
E, era evidente que estava obcecado, mas no da maneira que ela
imaginava.
Devia ter-lhe contado a histria da fotografia logo  chegada e lutava
para encontrar as razes que o levaram a no a contar. Na pior das
hipteses, ela ter-se-ia mostrado surpreendida e feito algumas
perguntas, mas o assunto teria morrido ali. Suspeitava que Nana o teria
contratado, fosse como fosse; e nada disto teria acontecido.
Mais do que tudo, queria voltar atrs e ir falar com ela. Queria
explicar-lhe, narrar-lhe a histria toda, desde o incio.
Porm, no ia fazer nada disso. Beth precisava de ficar s por um
tempo, ou pelo menos longe dele. Tempo para recuperar e talvez, apenas
talvez, compreender que o Thibault que ela aprendera a amar era o nico
Thibault que existia. Gostaria de imaginar que, s por si, o tempo
seria suficiente para ela lhe perdoar.
Thibault caminhava pela lama; notava que os carros passavam lentamente
por ele e que a gua lhes chegava aos eixos. Mais adiante, viu que o
rio alagara a estrada. Decidiu atalhar pelo bosque. Talvez fosse a
ltima vez que fazia aquela caminhada. Provavelmente, era chegada a
hora de regressar ao Colorado. :l
- ? 251
Continuou a avanar. A folhagem do Outono, ainda parcialmente nas
rvores, proporcionava alguma cobertura da chuva, e, quanto mais se
embrenhava no bosque, sentia que ia aumentando a distncia que o
separava dela.
252
BETH
Acabada de sair do chuveiro, Beth estava na casa de banho, metida numa
T-shirt enorme, quando Nana enfiou a cabea pela porta.
- Queres falar do assunto? - perguntou, a apontar a janela com o
polegar. - Telefonaram da escola a dizer que vinhas a caminho de casa.
O director pareceu-me bastante preocupado contigo e depois vi-te entrar
no escritrio. Calculei que tu e ele estivessem a brigar.
- Nana, foi mais do que uma briga - esclareceu Beth, com uma expresso
de cansao.
- Isso percebi dado o facto de ele ter sado. E porque depois ficaste
muito tempo no alpendre.
Beth assentiu.
- Foi sobre o Ben? Ele no o magoou, pois no? Ou a ti?
- No, nada disso.
- bom. Pois trata-se da nica coisa que no poderia ser remediada.
- Tambm no tenho a certeza de que esta possa.
Nana olhou pela janela, antes de soltar um profundo suspiro. - Segundo
parece, tenho de ser eu a alimentar os ces esta noite, no  verdade?
Beth encarou-a com ar aborrecido. - Obrigada por te mostrares to
compreensiva.
- Gatinhos e pltanos - disse Nana, fazendo um gesto com a mo.
A neta pensou um pouco, antes de expressar a sua frustrao num
murmrio.
- O que queres dizer com isso?
- No tem qualquer significado, mas, por um instante, consegui que
ficasses to exasperada que at te esqueceste de ter pena de ti mesma.
253
- Tu no compreendes...
- Pe-me  prova! - sugeriu Nana.
Beth ergueu a cabea. - Ele andou a caar-me, Nana. Durante cinco anos,
para depois atravessar o pas a p para me procurar. Estava obcecado.
Contra o costume, a av mostrou-se pouco faladora. - E se comeasses
pelo princpio - sugeriu ao sentar-se na cama de Beth.
A neta no tinha a certeza de querer falar do assunto, mas calculou que
seria melhor resolver a questo de uma vez. Comeou por narrar a visita
de Keith  sala de aulas e durante os vinte minutos seguintes falou-lhe
da partida  pressa da escola, da incerteza excruciante, e acabou por
descrever a confrontao com Logan. Quando a neta acabou, Nana juntou
as mos no colo.
- Resumindo. Thibault admitiu que tinha a fotografia? E, segundo as
tuas palavras, embrulhou-se a dizer que se tratava de um talism, que
viera at c por julgar que tinha uma dvida para contigo ou coisa do
gnero?
Beth assentiu. - Mais ou menos isso.
- E por que  que ele chegou  concluso de que tinha um talism?
- No sei.
- No lhe perguntaste?
- No me interessou, Nana. Toda a histria ... arrepiante e esquisita.
Quem faria uma coisa destas?
Nana fez as sobrancelhas juntarem-se. - Posso admitir que parece
estranho, mas acho que deverias ter procurado saber por que motivo ele
via na fotografia um talism.
- Por que  que isso interessa?
- Por que no estiveste l - enfatizou. - No passaste pelo que ele
passou. Talvez ele estivesse a dizer a verdade.
Beth estremeceu. - A fotografia no  um talism.  uma loucura.
- Pode ser - respondeu Nana. - Mas j ando por c h muito tempo para
saber que na guerra sucedem coisas estranhas. Os soldados acabam por
aceitar todos os tipos de crenas; e se julgam que elas os mantm
vivos, onde  que est o mal?
Beth respirou fundo. - Uma coisa  acreditar.  inteiramente diferente
de ficar obcecado com uma fotografia e perseguir a fotografada,
Nana ps a mo no joelho de Beth. - Por vezes, qualquer pessoa pode
agir como se fosse maluca.
- Mas no desta forma - insistiu Beth. - H algo de medonho em tudo
isto.
254
Nana ficou calada por momentos. Depois suspirou e encolheu os ombros. -
 possvel que tenhas razo.
Beth observou o rosto de Nana, subitamente vencida pela exausto.
- Fazes-me um favor?
- Que favor?
- Telefona ao director e pede-lhe que traga o Ben a casa depois das
aulas? No quero que vs conduzir com um tempo destes, mas no me
considero em condies de ir busc-lo. 255
CLAYTON
Clayton tentou, e no conseguiu, ultrapassar o lago que se tinha
formado em frente da casa de Beth, com as botas a desaparecerem
enterradas na lama. Aproveitou a situao para proferir um rosrio de
palavres. Conseguia ver as janelas abertas perto da porta principal e
sabia que Nana o ouviria. Apesar da idade, a mulher tinha o ouvido de
uma coruja, e a ltima coisa que ele queria era causar m impresso. A
mulher j o detestava suficientemente.
Subiu a escada e bateu  porta. Pensou ouvir movimento dentro de casa,
viu o rosto de Beth assomar  janela e finalmente viu que lhe abriam a
porta.
- Keith? O que fazes aqui?
- Estava preocupado. Quis ter a certeza de que tudo estava bem.
- Est tudo bem.
- Ele ainda c est? Queres que fale com ele?
- No. Foi-se embora. No sei onde se encontra.
Clayton mexeu os ps, tentando mostrar-se contrito. - Lamento o que se
passou e detesto-me por ter de ser eu a dar-te a notcia. Sei que
gostavas realmente dele.
Beth assentiu, de lbios cerrados.
- Tambm queria dizer-te que no te atribuas muitas culpas. Como te
disse antes, as pessoas deste tipo... bem, aprenderam a disfarar-se.
So indivduos mentalmente perturbados; no tinhas maneira de o
reconhecer.
Beth cruzou os braos. - No quero falar do assunto.
Clayton ergueu ambas as mos, sabendo que a pressionara demasiado e
sabendo que tinha de recuar. - Calculei que no. Tens razo. O meu
lugar no  esse, especialmente pela forma nojenta como te tratei no
passado - reconheceu. Enfiou o polegar no cinturo e forou um sorriso.
- S quis ter a certeza de que estavas bem.
256
- Estou ptima. E obrigada.
Clayton rodou para ir-se embora, mas parou. - Quero que saibas que,
pelo que Ben me contou, Thibault parecia ser bom tipo. Ela olhou-o,
surpreendida.
- S queria dizer isto, pois, se assim no fosse, se alguma coisa
acontecesse ao Ben, Thibault ter-se-ia arrependido de ter nascido. Eu
morreria antes de deixar que acontecesse qualquer percalo ao meu
filho. E sei que sentes o mesmo.  por isso que s uma me fantstica.
Nesta minha vida em que cometi uma tonelada de erros, uma das melhores
decises que tomei foi deixar que ele fosse educado por ti.
Beth assentiu, a tentar conter as lgrimas, e voltou-lhe as costas.
Depois de ela limpar os olhos Clayton aproximou-se mais um passo e
falou-lhe com voz suave:
- Ento. Sei que no queres falar disto neste momento, mas, acredita,
tomaste a deciso certa. E, com o tempo, acabars por encontrar algum;
e tenho a certeza de que ser o melhor dos homens. Como tu mereces.
Beth desatou a soluar e ele estendeu-lhe os braos. Instintivamente,
encostou-se a ele. - Est tudo bem - sussurrou Clayton. Ficaram muito
tempo no alpendre, com ele a abra-la, de corpos unidos.
Clayton no se demorou. No havia necessidade, pensou. Conseguira o que
se propusera fazer. Agora Beth considerava-o um amigo, amvel,
cauteloso e caritativo, que se arrependera dos seus pecados. O abrao
fora justamente a cereja em cima do bolo, nada que ele tivesse
planeado, mas uma agradvel concluso daquele encontro.
No tencionava pression-la. Seria um erro. Ela precisava de tempo para
esquecer Thibolt. Mesmo que ele fosse um manaco, mesmo que o tipo
sasse da cidade, no existem interruptores para ligar e desligar os
sentimentos. Mas estes apagar-se-iam com o tempo, to certo como a
chuva ir continuar a cair. O prximo passo era ter a certeza de que
Thibolt ia a caminho do Colorado.
E depois? Fazer o papel de bom rapaz. Talvez convidasse Beth quando ele
e Ben estivessem a fazer qualquer coisa, pedir-lhe-ia que ficasse para
um barbecue. Agir, de incio, como se no houvesse qualquer inteno,
no lhe provocar suspeitas, para depois sugerir qualquer coisa com Ben
noutro dia da semana. O essencial era manter tudo longe dos olhares
perscrutadores de Nana, o que significava no se aproximar dela. Embora
soubesse que Beth estaria incapaz de pensar normalmente pelo menos
durante umas semanas, o mesmo no aconteceria
257
com Nana; a ltima coisa que desejaria era dar a Nana qualquer pretexto
para convencer a neta daquilo que ele andaria a preparar.
Depois disso, quando voltassem a habituar-se novamente um ao outro,
talvez pudessem tomar umas cervejas juntos, depois de Ben ter sido
mandado para a cama e a situao pudesse ser vista como um impulso do
momento. Talvez temperando a cerveja dela com um pouco de vodca, de
maneira a que ela no pudesse conduzir at casa. Oferecer-lhe-ia a cama
e diria que ia dormir no sof. Conduzir-se como um perfeito cavalheiro,
mas mantendo a cerveja a correr. Falar dos velhos tempos, dos bons
tempos, e deix-la chorar a perda de Thibolt. Deixar que as emoes
flussem e pr-lhe um brao  volta dos ombros, apenas para a confortar.
Sorriu ao pr o carro em andamento, perfeitamente convencido do que
aconteceria em seguida.
258
Beth no dormiu bem e acordou exausta. .r.
A tempestade aumentara de intensidade durante a noite, com ventos
fortes e chuva em quantidades descomunais, tornando proporcionalmente
pequeno o dilvio do dia anterior. Um dia antes no imaginaria que os
lenis de gua pudessem tornar-se mais profundos mas, ao olhar pela
janela, o escritrio parecia uma ilha isolada no meio do oceano. Na
noite anterior arrumara o carro num terreno mais elevado, perto da
magnlia; boa ideia, pensava agora. O carro tambm se encontrava numa
pequena ilha, enquanto a gua j quase atingia o fundo da caixa de
carga da carrinha de Nana. A carrinha sempre se portara bem durante as
cheias, mas era bom que os traves tivessem sido reparados. De outra
forma, teriam ficado fora de servio.
Na noite anterior fora at  cidade para comprar leite e outros
produtos essenciais, mas a viagem revelara-se intil. Encontrou tudo
fechado e os nicos veculos com que cruzou na estrada eram carrinhas
utilitrias e SUV, conduzidos por pessoal do departamento do xerife.
Metade da cidade estava sem electricidade, mas, at ao momento, a casa
dela no fora afectada. Havia apenas uma boa novidade: as reportagens
da TV e da rdio previam que os ltimos temporais iriam dispersar-se
naquele dia; esperava-se que o nvel das guas comeasse a descer no
dia seguinte.
Sentou-se no alpendre, enquanto Nana e Ben ficavam dentro de casa a
jogar gin rummy na mesa da cozinha. Era o nico jogo em que se
equivaliam e assim evitavam que Ben se aborrecesse. Mais tarde, pensava
deix-lo brincar nas poas formadas em frente da casa, enquanto ela ia
verificar como estavam os ces. Era provvel que desistisse de qualquer
tentativa de manter o filho seco e podia deix-lo
259
usar apenas o fato de banho; quando, logo pela manh, fora distribuir
comida aos ces, a gabardina revelara-se intil.
Ao ouvir o som constante da chuva a cair no telhado, deu consigo a
pensar em Drake. Desejou, pela milsima vez, poder falar com ele e ps-
se a pensar o que  que ele poderia dizer acerca da fotografia. Tambm
ele teria acreditado no seu poder como talism? Drake nunca fora
especialmente supersticioso, mas Beth sentia um baque no peito sempre
que recordava o pnico inexplicvel do irmo quanto  perda da
fotografia.
Nana tinha razo. No sabia aquilo por que Drake passara l longe, da
mesma forma que no sabia o que Logan sofrera. Por mais informada que
procurasse estar, nada daquilo lhe parecia real. Tentava imaginar o
stress que sentiriam, a milhares de quilmetros de casa, carregando
coletes  prova de bala, a viver entre pessoas que falavam uma lngua
estranha, tentando manter-se vivos. Era impossvel acreditar que algum
deles se deixasse prender por qualquer coisa que cria poder mant-lo
so e salvo?
No, decidiu. No havia qualquer diferena entre trazer consigo uma
imagem de S. Cristvo ou uma pata de coelho. A completa ausncia de
lgica da deciso no interessava. Como tambm no interessava a crena
absoluta em poderes mgicos. Se assim se sentiam mais resguardados,
tanto melhor para eles.
Mas procur-la? Persegui-la?
Era ali que terminava para Beth a vontade de compreender. Por mais
cptica que estivesse quanto s verdadeiras intenes de Keith, ou at
com a tentativa de ele parecer genuinamente preocupado com o bem-estar
dela, tinha de admitir que a situao a fizera sentir-se extremamente
vulnervel.
O que  que Logan dissera? Algo sobre uma dvida para com ela? Por lhe
dever a vida, mas como?
Abanou a cabea, esgotada pelas ideias que lhe passavam sem cessar pela
cabea. Ergueu os olhos quando notou que a porta se abria.
- bom dia, mam.
- bom dia, meu querido. Ben avanou e sentou-se ao lado dela. - Onde
est o Thibault?
Ainda no o vi.
- No vem - respondeu Beth.
- Por causa da tempestade? Ainda no o informara, nem estava pronta
para isso. - Tinha umas coisas a fazer - improvisou.
- Est bem - anuiu Ben. Olhou para o jardim. - J nem se consegue ver a
relva. ,:
260
- Eu sei. Mas pensa-se que a chuva vai parar dentro em pouco.
- J tinha acontecido assim alguma vez? Quando eras pequena?
- Umas quantas vezes. Mas sempre com um tufo.
Ben assentiu e puxou os culos para cima. A me passou-lhe a mo pelo
cabelo.
- Ouvi dizer que o Logan te deu um presente.
- No devo falar nisso - insinuou Ben, com ar srio. -  um segredo. .?
.? ?
- Podes contar  mam. Sou boa a guardar segredos.
- Boa tentativa - zombou Ben. - No caio nessa.
Beth sorriu e recostou-se, pondo o banco em movimento com os ps. - No
faz mal. J sei da fotografia.
Ben encarou a me, a tentar descobrir o que ela sabia.
- Como sabes - acrescentou Beth - serve para proteco. Ben deixou
descair os ombros. - Ele contou-te?
- Claro.
- Oh! - exclamou, visivelmente desapontado. - Pediu-me para manter o
segredo entre ns os dois.
- Tens a fotografia contigo? Se tens, gostaria de a ver.
Ben hesitou, mas acabou por meter a mo na algibeira. Tirou uma
fotografia dobrada e entregou-a  me. Beth abriu a fotografia e ficou
a olh-la, sentindo-se invadida por uma onda de recordaes: o ltimo
fim-de-semana passado com Drake e o que conversaram, a viso da grande
roda, a estrela cadente.
- Disse-te alguma coisa quando te deu a fotografia? - perguntou, ao
devolv-la. - Para alm de ser segredo, quero eu dizer?
- Contou que o seu amigo Victor dizia que era um talism, que o salvara
no Iraque.
Sentiu que a pulsao aumentava de ritmo e aproximou mais o rosto do de
Ben.
- Disseste que Victor lhe chamava um talism? - Disse - assentiu Ben. -
Foi o que ele disse. -Tens a certeza. - E claro que tenho a certeza.
Beth ficou a olhar para o filho, sentindo-se em guerra consigo prpria.
Thibault carregou a mochila com as poucas provises que tinha em casa.
O vento uivava e continuava a chover a cntaros, mas j caminhara com
tempo pior. No entanto, parecia no conseguir reunir a energia
necessria para sair de casa.
Uma coisa fora caminhar at ali; era diferente ir-se embora. Sara do
Colorado a sentir-se mais s do que alguma vez se sentira; naquele
lugar, a sua vida parecia cheia, completa.
Ou fora, at ao dia anterior.
Zeus acabara por se instalar no canto. Passara a maior parte do dia a
trotar pela casa sem descanso, pois Thibault no o levara a dar o
passeio dirio. De cada vez que Thibault se levantava para ir buscar um
copo de gua, Zeus punha-se de p, excitado por ver chegada a hora de
sair.
Estavam a meio da tarde, mas o cu nublado, a ameaar chuva, tornava o
dia mais escuro. A tempestade continuava a fustigar a casa, mas ele
sentia que se encontrava na fase final; como um peixe acabado de pescar
e deixado aos saltos no convs, o temporal no ia morrer pacificamente.
Passara a maior parte do dia a tentar no reflectir sobre o que
acontecera ou como o que acontecera poderia ter sido evitado: era um
jogo de tontos. Tinha estragado tudo, to simples quanto isso, e o
passado no podia ser refeito. Sempre tentara viver a sua vida sem
fazer coisas que tivesse de fazer de novo, mas desta vez era diferente.
No tinha a certeza de conseguir esquec-la.
Ao mesmo tempo, no conseguia afastar a sensao de que no estava tudo
terminado, de que algo ficara por acabar. S faltava a concluso? No,
era mais do que isso; a sua experincia do tempo de guerra ensinara-lhe
a confiar nos instintos, mesmo que nunca chegasse
262
a saber de onde eles vinham. Considerando que tinha de sair de Hampton,
pelo menos para se afastar o mais possvel de Keith Clayton, pois no
alimentava iluses de Clayton alguma vez lhe perdoar ou se esquecer,
no conseguia decidir-se a sair porta fora.
Clayton era o eixo da roda, Clayton - e Ben e Elizabeth - era a razo
por que ele viera. S no conseguia descobrir porqu ou o que se lhe
exigia que fizesse.
Zeus levantou-se do canto e dirigiu-se para a janela. Thibault virou-se
para ele no preciso momento em que ouviu bater  porta. Sentiu-se
tenso, mas Zeus comeou a abanar a cauda logo que espreitara pela
janela.
Quando Thibault abriu a porta viu Elizabeth  sua frente. Sentiu-se
gelar. Por momentos, limitaram-se a observar-se mutuamente.
Foi ela quem falou primeiro. - Ol, Logan.
- Ol, Elizabeth.
Um sorriso tmido, to rpido como se no tivesse existido, passou pelo
rosto dela.
- Posso entrar?
Thibault desviou-se, a observ-la enquanto ela tirava a capa para a
chuva, fazendo saltar o cabelo louro do capuz. Ficou sem saber o que
fazer da capa e Thibault tirou-lha da mo. Pendurou-a no fecho da porta
da frente e encarou-a.
- Estou contente por teres vindo - observou.
Ela assentiu. Zeus cheirou-lhe a mo e Beth deu-lhe palmadinhas atrs
das orelhas, antes de voltar a prestar ateno a Thibault.
- Podemos falar? - perguntou.
- Se te apetecer - insinuou, apontando para o sof. Elizabeth sentou-se
numa das pontas. Ele sentou-se na outra.
- Por que  que deste a fotografia ao Ben? - perguntou sem qualquer
prembulo.
Thibault estudou a parede mais distante, a tentar explicar-se sem
complicar ainda mais a situao. Por onde comear?
- Diz-me em dez palavras, ou menos - sugeriu Beth ao notar as
reticncias dele. - Ser o nosso ponto de partida.
Ele massajou a testa com um dedo antes de respirar fundo e olhar para
ela. - Por pensar que o poria a salvo.
- A salvo?
- Fora da casa da rvore. A tempestade enfraquecera toda a estrutura,
incluindo a ponte. Ben no deve l voltar. Est prestes a desmoronar-se.
O olhar dela era intenso, nem pestanejava. - Por que no a conservaste?
.- i..,.?,?- v . .
263
- Porque me pareceu que Ben poderia precisar mais dela do que eu.
- Porque o manteria a salvo? Thibault assentiu. - Exactamente.
Elizabeth observou o sof, antes de se voltar novamente para ele.
- Portanto, acreditas sinceramente no que disseste? Que a fotografia 
um talism?
Zeus caminhou na direco de Thibault e deitou-se aos ps dele.
- Talvez - limitou-se a responder.
Elizabeth inclinou-se para diante. - Porque  que no me contas a
histria toda?
Ele fixou os olhos no cho, a descansar os cotovelos em cima dos
joelhos, e comeou, hesitante, a contar-lhe toda a saga da fotografia.
Comeou pelos jogos de pquer no Kuwait, passou para o RPG que o deixou
inconsciente e para o combate em Fallujah. Pormenorizou a aco dos
carros-bomba e dos IEDS a que sobreviveu em Ramadi, incluindo aquele em
que Victor afirmou que a fotografia salvara a vida deles os dois.
Falou-lhe da reaco dos outros marines e do fardo que representou a
desconfiana deles.
Fez uma pausa e depois olhou-a nos olhos.
- Mas mesmo depois de tudo isto, continuei a no acreditar. Mas Victor
acreditava. Sempre acreditara. Cria nesse gnero de coisas e eu gozava-
o por serem to importantes para ele. Contudo, nunca acreditei, pelo
menos conscientemente - insinuou. Juntou as mos e a voz tornou-se-lhe
mais suave. - No ltimo fim-de-semana que passmos juntos, Victor
disse-me que eu estava em dbito para com a mulher da fotografia,
porque a foto me mantivera so e salvo; se no pagasse a minha dvida,
no haveria equilbrio. O meu destino era encontr-la, repetiu. Uns
minutos depois Victor estava morto, mas eu escapara sem uma
beliscadura. Nem ento acreditei. No entanto, a partir da comecei a
ver o fantasma dele.
Em voz hesitante, falou-lhe dos encontros, a sentir relutncia em olhar
para ela, com medo de ver nela uma descrena absoluta. No final, abanou
a cabea e respirou fundo. - Depois disso, o resto  exactamente como
te contei. Sentia-me confuso, por isso parti. Sim, fui  tua procura,
no por me sentir obcecado por ti. No por que te amasse ou desejasse
que me amasses. Fi-lo por Victor ter afirmado que esse era o meu
destino e continuei a ver o fantasma dele. No sabia o que esperar
quando chegasse aqui. E, ento, num qualquer ponto do percurso, tornou-
se um desafio: na hiptese de te encontrar, quanto tempo levaria.
Quando finalmente cheguei ao canil e vi o anncio de emprego, pensei
que essa seria uma forma de liquidar o dbito. Candidatar-me
264
ao lugar pareceu-me a deciso certa. Tal como me pareceu que tomei a
deciso certa ao dar a fotografia a Ben, quando ele e eu estvamos na
casa da rvore. Mas no tenho a certeza de conseguir explicar estas
coisas, por mais que tente.
- Deste a fotografia ao Ben para o salvares - repetiu Elizabeth.
- Dei. Por mais maluca que a deciso possa parecer.
Em silncio, Elizabeth reflectiu sobre o que acabara de ouvir. - Por
que no me contaste tudo logo de incio?
- Devia ter contado - admitiu. - A nica coisa que posso pensar  que
trouxe a fotografia comigo durante cinco anos e no queria desistir
dela sem perceber qual seria o desgnio.
- Julgas que agora j o percebes?
Antes de responder, inclinou-se para acariciar Zeus. Olhou directamente
para ela. - No tenho a certeza. O que posso dizer  que o que
aconteceu entre ns, tudo o que aconteceu, no comeou quando encontrei
a fotografia. Comeou quando entrei no canil. S ento  que te
tornaste verdadeira para mim, e quanto melhor te conhecia, mais genuno
eu me sentia. Mais feliz e mais vivo do que me sentia desde h muito,
muito tempo. Como tu e eu merecamos ser.
Elizabeth ergueu uma sobrancelha. - O teu destino?
- No... no  assim. No tem nada a ver com a fotografia, ou com a
caminhada at aqui, ou com qualquer afirmao do Victor. Acontece
apenas que nunca encontrara algum como tu, e estou convencido de que
no voltarei a encontrar. Amo-te, Elizabeth... e mais do que isso,
gosto de ti. Gosto de estar contigo.
Ela analisou-o com uma expresso indefinvel. Quando falou, f-lo numa
voz normal. - Compreendes que continua a ser uma histria maluca, que
te faz parecer um maluco?
Thibault anuiu. - Eu sei. Acredita que at ao falar com os meus botes
me sinto um excntrico.
Elizabeth resolveu p-lo  prova: - E se eu te dissesse que sasses de
Hampton e no voltasses a contactar-me?
- Ento, ir-me-ia embora e nunca mais terias notcias minhas. O
comentrio ficou a pairar entre eles, cheio de significado. Ela mudou
de posio no sof, voltando-se, aparentemente desgostosa, antes de se
virar de novo para ele.
- Nem uma simples chamada telefnica ! Depois de tudo o que passmos? -
fungou. - No posso acreditar.
Thibault sentiu um grande alvio ao aperceber-se de que ela estava a
troar dele. Respirou profundamente, s ento reparando que estivera a
reter a respirao, e sorriu.
265
- Se tal for necessrio para te convencer de que no sou um psicopata.
- Acho que  pattico. Um homem devia pelo menos telefonar. Thibault
moveu-se imperceptivelmente no sof. - No me vou
esquecer da sugesto.
- Ests consciente de que no poders contar essa histria se tiveres a
inteno de viver aqui?
Ele deslizou um pouco mais, de forma evidente. - No  questo que me
preocupe.
- E se esperas um aumento s por namorares a neta da patroa, tambm
podes pr a ideia de lado.
- C me arranjarei.
- No sei como. Nem sequer tens carro.
 Por esta altura, Thibault j estava junto dela, que se voltara de
novo para ele, com o cabelo a varrer-lhe o ombro. Thibault inclinou-se
e beijou-lhe o pescoo. - Pensarei numa soluo - sussurrou, antes de
esmagar os lbios de encontro aos dela.
Beijaram-se no sof durante muito tempo. Quando finalmente ele a
conduziu para o quarto, fizeram amor, os corpos juntos como um s. O
intercmbio foi apaixonado, raivoso e indulgente, to rude e terno como
as emoes de ambos. Depois, Thibault ficou deitado de lado, a admirar
Elizabeth. Afagou-lhe a face com um dedo e ela beijou-lho.
- Acho que podes ficar - sussurrou Elizabeth.
266
CLAYTON
Clayton olhou a casa de olhos esbugalhados, sem querer acreditar, a
agarrar o volante com tanta fora que os ns dos dedos ficaram brancos.
Pestanejou repetidamente para ver bem, mas continuou a ver as mesmas
coisas. O carro de Beth na alameda, o casal a beijar-se no sof.
Thibolt a lev-la para o quarto.
Beth e Thibolt juntos. A cada minuto que passava, sentia ondas cada
vez mais poderosas de fria a rebentarem dentro dele. Os seus planos
perfeitos, todos eles, a esfumarem-se. E Thibolt t-lo-ia para sempre
na mira.
Cerrou os lbios at formarem uma linha estreita. Sentiu-se tentado a
entrar por ali dentro, mas pensou no maldito do co. Outra vez. J fora
suficientemente duro segui-los atravs dos binculos, sem sair do carro
e sem ser detectado.
Thibolt. O co. Beth.
Vingou-se no volante. Como  que aquilo acontecera? Beth no ouvira o
que ele lhe dissera? No percebera o perigo que corria? No se
importava com Ben?
No era possvel que aquele psicopata passasse a fazer parte da vida do
filho dele.
De forma alguma,
No com ele vivo.
Devia ter calculado que aquilo ia acontecer. J devia saber at que
ponto Beth conseguia ser estpida. Poderia estar a caminho dos trinta,
mas tinha o raciocnio de uma criana. Deveria saber que ela vira em
Thibolt tudo o que quisera ver e ignorara o bvio.
Mas aquilo teria de conhecer um fim. Antes cedo do que tarde. Ele
obrig-la-ia a ver a luz, custasse o que custasse.
267
Depois de acompanhar Elizabeth  porta e de se despedir dela com um
beijo, Thibault deixou-se cair no sof, sentindo-se simultaneamente
esgotado e aliviado. Deleitava-o saber que Elizabeth lhe perdoara. Que
tentara compreender e dar um sentido  complicada viagem que ele
empreendera para chegar at ali, uma cadeia de acontecimentos com um
resultado quase milagroso. Aceitara-o, com defeitos e tudo, algo que
ele nunca julgara possvel.
Antes de ir para casa convidara-o para jantar e, embora tivesse
aceitado o convite de imediato, planeara descansar antes de sair. De
outra forma, duvidava que conseguisse reunir energias para conversar.
Antes da sesta, sabia que tinha de levar Zeus, a passear, nem que fosse
por pouco tempo. Foi at ao alpendre das traseiras e pegou no fato da
chuva. Zeus acompanhou-o, a observ-lo com interesse.
- Pois , vamos sair - anunciou. - Deixa que me vista primeiro.
Zeus ladrou e saltou de excitao, como se fosse uma gazela aos pulos.
Correu para a porta e voltou, ainda a correr, para junto de Thibault.
- Estou a ir o mais depressa que posso. Calma. O co continuou a andar
e a dar saltos  volta dele.
- Calma - repetiu. Zeus fixou nele um olhar suplicante mas acabou por
se sentar, embora com relutncia.
Thibault vestiu o fato que usava para a chuva, calou as botas e abriu
a porta de rede. Zeus lanou-se porta fora, enfrentando a chuva, mas
atolou-se de imediato no terreno lamacento. Ao contrrio da casa de
Nana, a moradia de Thibault estava situada numa ligeira elevao; a
gua juntava-se a uns 400 metros dali. Mais  frente, Zeus virou para a
floresta, para regressar de novo  zona aberta, depois circulou  volta
da alameda
268
coberta de gravilha, correndo e saltando de pura alegria. Thibault
sorria, a pensar que sabia exactamente como o co se sentia.
Ficaram uns minutos c fora, vagueando no meio da tempestade. O cu
tornara-se cor de carvo, coberto de nuvens carregadas de chuva. O
vento tornara a aumentar de intensidade; Thibault sentia a chuva a
picar-lhe o rosto de lado. No tinha importncia, pois, pela primeira
vez em vrios anos, sentia-se verdadeiramente livre.
Reparou que as marcas dos pneus do carro de Elizabeth j mal se notavam
no incio da alameda. Mais uns minutos, e a chuva f-las-ia desaparecer
por completo. Houve qualquer coisa que lhe chamou a ateno e tentou
perceber o que estava a ver. Comeou por pensar que os pneus que tinham
deixado as marcas eram demasiado largos.
Aproximou-se para ver o trilho mais de perto, raciocinando que o
conjunto de marcas deixadas pelos pneus  partida se tinha sobreposto
ao conjunto de marcas deixadas  chegada. S se apercebeu do erro
quando chegou  ponta da alameda. Havia dois conjuntos de marcas, ambos
com entrada e sada. Dois veculos. A princpio, achou que no fazia
sentido.
O crebro comeou a fazer rpidos cliques enquanto as peas do quebra-
cabeas se iam ajustando nos seus lugares. Estivera ali mais algum. O
que no fazia sentido, a menos que...
Olhou de relance para o carreiro que atravessava a floresta at ao
canil. Nesse momento, o vento e a chuva mostraram toda a sua fria;
semicerrou os olhos antes de sentir a respirao difcil. De sbito,
desatou a correr, fazendo o possvel por manter o ritmo da passada. A
mente tambm corria, calculando o tempo que levaria a chegar l.
Esperava conseguir chegar a tempo.
269
BETH
Como se o destino assim o quisesse, Nana encontrava-se no canil quando
Keith irrompeu por ali dentro e fechou a porta, agindo como se fosse o
dono da casa. Mesmo da cozinha, Beth conseguiu ver-lhe as veias do
pescoo salientes. Cerrou os punhos assim que a encarou.
Quando ele atravessou a sala, Beth sentiu um vcuo dentro de si, que a
seguir foi ocupado pelo medo. Nunca o vira assim, recuou, seguindo as
arestas dos armrios. Keith surpreendeu-a ao parar  entrada da
cozinha. Sorriu, mas tinha uma expresso vazia, uma caricatura demente
do que era o seu normal.
- Desculpa a entrada intempestiva - comeou, com exagerada cortesia. -
Mas precisamos de conversar.
- O que  que ests a fazer aqui? No podes entrar por aqui dentro...
- Ests, ento, a fazer o jantar? Recordo-me de quando cozinhavas para
mim.
- Sai, Keith - mandou Beth, com voz spera.
- No vou aonde quer que seja - ripostou Keith, olhando para Beth como
se ela no soubesse do que estava a falar. Apontou para uma cadeira. -
Por que no te sentas?
- No quero sentar-me - sussurrou, detestando-se por se mostrar to
assustada. - Quero que te vs embora.
- Isso no vai acontecer - contraps Keith. Voltou a sorrir, mas a
segunda tentativa no saiu melhor do que a primeira. Havia um vazio no
olhar dele que nunca lhe vira antes. Sentiu a acelerao do batimento
cardaco.
- Por favor, arranjas-me uma cerveja? - pediu Keith. - Tive um dia
difcil, se percebes o que quero dizer.
Beth engoliu em seco, receosa de desviar o olhar da figura dele.
- Acabou-se a cerveja. .
270
Ele assentiu, olhando  volta da cozinha antes de fixar novamente os
olhos nela. Apontou: - Vejo uma ali, junto do fogo. Teta de havei
outra algures. Importas-te que veja no frigorfico? - perguntou, mas
no esperou pela resposta. Dirigiu-se ao frigorfico, abriu a porta e
estendeu a mo para a prateleira do fundo. - Achei uma - gabou-se.
Olhou para ela enquanto abria a garrafa. - Acho que estavas enganada,
no estavas? - zombou. Bebeu um grande gole e piscou-lhe o olho.
Beth esforou-se por se manter calma. - Keith, o que  que tu queres?
- Oh, tu sabes. S quero actualizar-me. Ver se h qualquer novidade que
eu deva saber.
- Saber? Acerca de qu? - indagou, a sentir um n no estmago.
- Acerca do Thibolt.
Beth ignorou a distoro do nome - No sei do que ests a falar.
Ele bebeu mais um gole, a bochechar com a cerveja enquanto acenava com
a cabea. Engoliu com fora e rudo. - Ao vir para c, pensei que me
irias perguntar isso - comentou, num tom quase coloquial. - Mas sei
mais do que tu pensas - insinuou a apontar para ela com a garrafa. -
Houve um tempo em que no sabia se te conhecia, mas isso mudou durante
os ltimos anos. Criar um filho juntos cria laos entre um casal, no
achas?
No obteve resposta.
-  por isso que estou aqui, como sabes. Por causa de Ben. Por querer o
que for melhor para ele e, de momento, no sei se ests a analisar a
situao com clareza.
Caminhou para ela e bebeu outro grande trago de cerveja. A garrafa
ficou quase vazia. Limpou a boca com as costas da mo e prosseguiu:
- Escuta, tenho estado a pensar que eu e tu nem sempre tivemos a melhor
das relaes. Isso no  bom para o nosso filho. Ben precisa de saber
que nos entendemos. Que ainda somos amigos ntimos. No achas que  uma
lio importante para ele? Pensar que, apesar de os pais estarem
divorciados, conseguem continuar a ser bons amigos?
Beth no estava a gostar do som daquele monlogo errtico, mas tinha
medo de o interromper. Aquele era um Keith Clayton diferente... e
perigoso.
- Julgo que  importante - prosseguiu. Deu mais um passo na direco
dela. - Nos ltimos dois dias no tens pensado com a clareza necessria.
Keith aproximava-se e Beth ia deslizando ao longo da bancada, tentando
manter-se de frente para ele.
271
- No te aproximes mais. Estou a avisar-te.
Ele continuou a encurtar a distncia, encarando-a com aquele olhar
ausente. - Vs o que quero dizer? Ests a agir como se pensasses que
vou bater-te. Nunca te bati.  uma coisa que devias saber a meu
respeito.
- Ests maluco.
- No, no estou. Um pouco zangado, talvez, mas no maluco
- redarguiu. Quando voltou a sorrir o ar ausente desvanecera-se e o
estmago de Beth deu um salto. Keith continuou. - Queres crer que,
depois de tudo o que me obrigaste a fazer, ainda te julgo bonita?
Beth no estava a gostar do evoluir da situao. De modo nenhum. J
chegara ao canto, no tinha mais para onde fugir. - Vai-te embora, est
bem? O Ben est l em cima e a Nana no tarda a aparecer...
- S quero um beijo.  um pedido assim to importante?
No tinha a certeza de o ter ouvido bem. - Um beijo? - repetiu.
- Por agora - insinuou Keith. -  tudo. Em nome dos velhos tempos.
Depois, saio. Saio porta fora. Prometo.
Beth redarguiu com espanto. - No quero beijar-te.
Agora, ele estava mesmo  frente dela. - Mas vais faz-lo. E ainda
fars outras coisas, mais tarde. Mas, por agora, um beijo  suficiente.
Beth dobrou-se para trs, a tentar manter-se afastada. - Keith, por
favor. No quero isto. No quero beijar-te.
- Isso passa-te - insinuou. Quando ele se debruou, Beth voltou-se. E
ele agarrou-a pelos braos. Quando viu os lbios dele a aproximarem-se,
Beth sentiu o corao comear a bater apressado.
- Ests a magoar-me!
- A questo  a seguinte, Beth - sussurrou. Ela sentia o calor da
respirao dele no pescoo. - Se no queres beijar-me, tudo bem.
Aceito. Mas decidi que desejo que sejamos mais do que simples amigos.
- Sai! - sibilou Beth e, soltando uma gargalhada, Keith largou-a.
- com certeza - anuiu, recuando um passo. - No h problema. Eu saio.
Mas devo informar-te do que vai acontecer se no encontramos uma
soluo.
- Vai-te embora! - gritou Beth.
- Julgo que devamos... sair de vez em quando. E no aceito um no como
resposta.
A maneira como ele disse sair provocou-lhe arrepios. Beth nem queria
acreditar no que estava a ouvir.
- Afinal, eu avisei-te acerca do Thibolt - acrescentou Keith. - Mas
onde  que estiveste hoje? Em casa dele - concluiu,
272
a abanar a cabea. - Cometeste um grande erro. Como sabes, para mim 
bastante fcil process-lo por te ter perseguido e demonstrar que ele 
um manaco. Ambas as acusaes fazem dele um indivduo perigoso, mas tu
ests obviamente a ignorar a situao. E pes em perigo o Ben, por ser
obrigado a viver contigo.
Falava com voz neutra. Beth ficara paralisada pelas palavras dele.
- Odiarei ter de ir ao tribunal declarar o que andas a fazer, mas  o
que farei. E tenho a certeza de que desta vez conseguirei a custdia
total.
- No farias isso - disse Beth em tom sibilante.
- Fao. A menos que... - insinuou. A evidente satisfao com que ele
falou, tornou a sugesto muito mais horripilante. A seguir fez uma
pausa, deixando a ameaa assentar, para voltar a falar com ar de
professor. - Vamos ver se compreendeste. Primeiro, informas o Thibolt
de que no queres voltar a v-lo. A seguir, dizes-lhe que tem de
abandonar a cidade. E, depois disso, passamos a sair. Em nome dos
velhos tempos. E isso, ou o Ben vai passar a viver comigo.
- No vou viver contigo! - ouviu-se uma voz fraca, vinda da porta da
cozinha.
Beth olhou para l de Keith e viu a expresso de horror do filho. Ben
comeou a recuar. - No vou fazer isso!
Depois, voltou-se e desatou a correr, bateu com a porta e desapareceu
no meio da tempestade.
273
CLAYTON
Beth tentou passar por Clayton, mas ele voltou a agarrar-lhe o brao.
- Ainda no acabmos - resmungou. No ia deix-la ir-se embora sem ter
a certeza de que ela compreendera.
- Ele correu l para fora!
- No haver problemas. Quero ter a certeza de que percebeste como as
coisas se vo passar entre ns.
Beth no hesitou, pregou-lhe uma bofetada na cara com a mo livre e ele
encolheu-se. Ao ver-se livre, e ao verificar que ele ainda no
recuperara o equilbrio, empurrou-o para trs com quanta fora tinha.
- Sai daqui e vai para o diabo! - gritou. Logo que ele se equilibrou,
tornou a bater-lhe no peito. - Estou mais do que farta que tu e a tua
famlia me digam o que devo e o que no devo fazer, e no vou tolerar
esta situao!
-  pena - contraps Keith, a falar com toda a naturalidade.
- No tens escolha. No vou deixar que Ben fique por perto desse teu
namorado.
Em vez de responder, como se estivesse cansada de o ouvir, empurrou-o
para o lado e seguiu em frente.
- Aonde  que vais? - perguntou ele. - Ainda no acabmos. Beth correu
pela sala. - vou  procura do Ben.
-  apenas chuva!
? - H uma cheia, caso ainda no tenhas dado por isso.
Ficou a v-la correr para o alpendre, onde certamente encontraria Ben,
mas, por qualquer razo, viu-a olhar em todas as direces e
desaparecer da vista dele. Um raio iluminou a noite, seguido logo
depois pelo trovo. Perto. Demasiado perto. Clayton deslocou-se at 
porta
274
e reparou que Beth se dirigira para o lado mais afastado e observava o
jardim. Nesse preciso momento, viu Nana aproximar-se protegida pelo
chapu-de-chuva.
De sbito, ouviu Beth interrog-la. - Viste o Ben?
- No - respondeu a av, parecendo confusa, com a gua a escorrer 
volta dela. - Acabo de chegar. O que  que se passa? - perguntou, mas
calou-se, ao ver Clayton. - O que  que ele faz aqui? - indagou.
- O Ben no passou por ti? - perguntou Beth, que comeara a correr para
a escada.
- Nada de importante - respondeu Clayton, sabendo que tinha de acabar a
conversa com Beth. - Ele volta...
Beth parou subitamente e enfrentou-o. De repente, Clayton notou que a
clera dela fora substituda por uma sensao quase de terror. O uivar
da tempestade pareceu-lhe de sbito muito longnquo.
- O que foi? - inquiriu.
- A casa da rvore...
S precisou de uma fraco de segundo para perceber, para Clayton
sentir aquela presso no peito.
Segundos depois corriam ambos direitos ao bosque.
THIBAULT, BETH E CLAYTON 
com as botas encharcadas e pesadas, Thibault conseguiu finalmente
chegar ao desvio para o canil. Zeus manteve-se sempre ao lado dele, s
abrandando quando a gua chegara aos joelhos do dono. Mais adiante, viu
o carro e a carrinha, bem como um SUV. Ao aproximar-se reparou nas
luzes do tejadilho e soube que Clayton andava por ali.
Apesar de exausto, correu para a frente, a esparrinhar lama. Zeus
passava pela gua como um golfinho a saltar por cima das ondas. Quanto
mais Thibault corria, maior lhe parecia a distncia, mas, finalmente,
passou pelo escritrio do canil e virou em direco  casa. S ento
reparou que Nana estava no alpendre, dirigindo o foco da lanterna para
o bosque.
Mesmo de longe pareceu-lhe em pnico.
- Nana! - chamou, mas a tempestade no deixou que o som da voz dele
chegasse ao destino. Deve t-lo ouvido instantes depois, pois voltou a
lanterna na direco dele e iluminou-o.
- Thibault?
Thibault fez um esforo para dar os ltimos passos. A chuva chicoteava-
o de todos os lados e a luz fraca no lhe permitia ver. Abrandou o
passo, tentou recuperar o flego.
- O que  que aconteceu? - gritou.
- Ben desapareceu - gritou Nana em resposta.
- O que  que quer dizer com isso? O que  que aconteceu?
- No sei! - gritou Nana. - Clayton estava c e Beth saiu de casa 
procura de Ben... e depois os dois comearam a correr em direco ao
riacho. Pareceu-me ouvir falar da casa da rvore.
Instantes depois, tambm Thibault corria em direco ao bosque, com
Zeus a seu lado.
276
A chuva e o vento fustigavam os ramos de ambos os lados do carreiro,
golpeando caras e mos. O carreiro fora bloqueado por dezenas de ramos
cados, forando Beth e Keith a afastar arbustos e vides para poderem
passar. Beth tropeou e caiu por duas vezes e tambm ouviu Keith cair.
A lama era espessa e viscosa; a meio caminho da casa da rvore, Beth
perdeu um sapato, mas no parou.
A casa da rvore. A ponte. A inundao. S a adrenalina e o medo a
impediam de vomitar. Via mentalmente o filho na ponte que desabava de
um momento para o outro.
No escuro, voltou a tropear num tronco de rvore meio carcomido e
sentiu uma dor excruciante num p. Levantou-se o mais depressa que
pde, tentando ignorar a dor, mas logo que assentou o p no cho voltou
a cair. Na altura, Keith j estava ao lado dela e levantou-a sem dizer
palavra. Segurando-a pela cintura arrastou-a para a frente.
Ambos sabiam que Ben corria perigo.
Clayton teve de se esforar por no ceder ao pnico. Dizia a si mesmo
que Ben era inteligente, que seria capaz de avaliar o perigo, que no
foraria a sorte. Ben era o mais valente dos midos. Pela primeira, e
nica, vez na sua vida sentiu-se agradecido por isso.
Mesmo enquanto lutava com os arbustos rasteiros, com Beth a coxear ao
lado dele, Clayton no conseguia ignorar o que estava  vista. Muito
para l das margens, quase aos ps deles, viu o riacho que corria mais
largo, mais violento e mais rpido do que alguma vez o vira.
Thibault tinha corrido muito, abrira caminho atravs da lama e da gua,
forando-se a no abrandar, mas notava que a cada passada se lhe
tornava mais difcil manter aquele ritmo desesperado. Ramos e vides
batiam-lhe no rosto e nos braos, provocando cortes que nem sentia ao
passar por eles a correr.
Enquanto corria libertou-se da gabardina e depois da camisa. Dizia para
si mesmo que estava perto, que j faltava pouco. E no fundo dos
escaninhos da memria, ouvia o eco da voz de Victor: H mais.
A cada passada, Beth sentia os ossos do p a roarem-se uns contra os
outros, enviando ondas de fogo para toda a parte inferior do corpo, mas
recusava-se a gritar ou a chorar.
Ao aproximarem-se da casa da rvore, o riacho alargava-se ainda mais,
com a corrente a formar constantes redemoinhos. gua suja formava
277
pequenas ondas  volta de montes de ramos cados ao longo das margens,
que as guas iam ocultando. A corrente turbulenta arrastava detritos em
quantidade suficiente para abater quem quer que fosse e deix-lo
inconsciente.
A chuva caa em torrentes. O vento partia mais um ramo que ia cair a
uns metros de distncia deles. A lama parecia sugar as energias de
ambos.
Mas ela soube quando chegaram  casa da rvore; atravs do dilvio,
conseguiu vislumbrar a ponta de corda, que mais parecia o mastro
delapidado de um navio finalmente avistado num porto coberto de
neblina. Os olhos dela saltaram da escada para a ponte de corda, para o
patamar central... As guas do riacho passavam-lhe por cima, os
detritos juntavam-se  volta da estrutura. O olhar dela viajou da ponte
de corda para a plataforma da casa da rvore, notando o ngulo estranho
da oscilao da ponte. No estava a mais de trinta centmetros da gua
porque a plataforma fora quase separada do antigo apoio estrutural da
casa da rvore, claramente prestes a desmoronar-se.
Como num pesadelo, subitamente avistou Ben no meio do riacho caudaloso,
agarrado  ponte de corda por baixo da plataforma da casa da rvore. S
ento se permitiu gritar.
Clayton sentiu o medo percorrer-lhe as veias logo que viu Ben agarrado
s pontas esgaadas da corda da ponte. Tentou freneticamente pensar
numa soluo.
A outra margem ficava demasiado longe para ser alcanada a nado, alm
de no haver tempo.
- Fica a! - gritou para Beth ao correr para a escada do tronco.
Escalou-a e lanou-se em corrida por cima da ponte, desesperado por
chegar at Ben. Via a plataforma da casa a afundar-se. Seria desfeita
logo que a fora da corrente a apanhasse.
 terceira passada, a tbua carcomida partiu-se e Clayton sentiu-se
cair atravs do patamar central, quebrando as costelas ao passar pelo
buraco em queda livre para o riacho. Ao chegar s guas revoltas, tudo
o que conseguiu foi agarrar a ponta da corda. Esforou-se para se
agarrar melhor quando mergulhou, a sentir-se arrastado para baixo pela
roupa. Sentiu-se empurrado pela corrente e deu pela corda a esticar-se.
Aguentou-se, tentando pr a cabea acima da gua com batimentos
desesperados das pernas.
Veio  superfcie a arfar; as costelas partidas provocaram-lhe uma
exploso de dor, tornando tudo negro por momentos. Em pnico, estendeu
a outra mo para a corda, apostado em lutar contra a corrente.
278
Enquanto se mantinha agarrado, ignorando as dores, os ramos soltos
batiam-lhe no corpo e seguiam, num rodopio selvagem. A corrente batia-
lhe na cara, obscurecia-lhe a viso, tornando-lhe difcil pensar fosse
no que fosse, a no ser na sobrevivncia. Na sua luta, no reparou que
os pilares que suportavam o patamar central, mais o peso do corpo dele,
comeavam a inclinar-se ante a fora da corrente.
Beth mexeu-se e tentou andar, mesmo a coxear. Deu trs passos e voltou
a cair. Ps as mos em concha  volta da boca e gritou para o filho.
- Avana ao longo da corda, Ben! Afasta-te da plataforma! Tu consegues!
No tinha a certeza de que ele a ouvisse, mas segundos depois viu-o
comear a tentar sair de debaixo da plataforma, em direco  zona onde
a corrente era mais forte. Na direco do pai...
Keith debatia-se, mal conseguia aguentar-se...
Tudo parecia apressar-se e abrandar ao mesmo tempo quando ela notou um
sbito movimento  distncia, um pouco a montante da corrente. Pelo
canto do olho, avistou Logan a descalar as botas e a descartar-se da
roupa.
Instantes depois mergulhou na corrente, seguido de Zeus.
Clayton sabia que no poderia aguentar muito mais tempo. As dores nas
costelas eram insuportveis e a corrente continuava a zurzi-lo. S
conseguia inspiraes curtas, lutava contra a morte que sabia iminente.
Implacvel, a corrente arrastava Thibault um metro, por cada meio metro
que ele conseguia nadar para o outro lado. Sabia que podia voltar para
trs por terra, desde que conseguisse chegar  margem oposta, mas no
dispunha de muito tempo. De olhos postos em Ben, nadou com quanta fora
tinha.
Um grande ramo foi chocar com ele, fazendo-o afundar-se por instantes.
Quando voltou  superfcie viu Zeus atrs dele, a nadar com toda a
fora. Recomps-se e recomeou a nadar num esforo redobrado. com
desespero, viu que nem sequer chegara ao meio do riacho.
Beth viu Ben avanar ao longo da ponte de corda a desfazer-se e
arrastou-se para mais perto da borda da gua.
- Continua! - gritou, agora j a soluar. - Tu consegues! Aguenta-te,
querido!
279
No meio de uma braada Thibault colidiu com o patamar central da ponte.
Rolou na gua, descontrolou-se e, instantes depois, foi chocar com
Clayton. Em pnico, Clayton agarrou-o com a mo livre e arrastou-o para
o fundo. Thibault rodopiou e tentou agarrar a corda, conseguindo
apert-la quando Clayton o libertou. Clayton preferiu agarrar-se a
Thibault, trepando para cima dele num esforo frentico para conseguir
respirar.
Thibault lutou debaixo de gua. agarrando a corda com uma das mos, mas
incapaz de se libertar de Clayton. Sentiu os pulmes prestes a rebentar
e o pnico comear a apoderar-se dele.
Naquele preciso momento, devido ao peso combinado de Clayton e
Thibault, a somar-se  fora da corrente, os pilares abanaram de novo;
com um som de algo a rasgar-se, o patamar central cedeu por completo.
Beth viu Keith e Thibault momentos antes de as cordas que restavam do
patamar central terem cedido. Do outro lado, a plataforma da casa da
rvore mergulhou no riacho, provocando uma enorme erupo de gua e Ben
foi levado pela corrente. Horrorizada, viu que ele continuava agarrado
 corda ligada  plataforma central que tinha ficado suspensa.
Zeus estava perto de Logan e Keith quando o patamar central foi
arremessado como uma concha empurrada pelas ondas, desfazendo-se. Zeus
desapareceu da vista.
Tudo estava a acontecer com demasiada rapidez, Beth j no via Logan
nem Keith e s depois de uma busca frentica por toda a superfcie da
gua conseguiu avistar a cabea de Ben, uma simples mancha entre os
detritos.
Ouviu os gritos agudos de Ben e viu-o lutar por manter a cabea  tona
da gua. Voltou a levantar-se e arrastou-se para a frente, tentando
desesperadamente no o perder de vista.
E ento, como num sonho tornado realidade, viu uma cabea escura,
afilada, a mover-se directamente em direco ao filho.
Zeus.
Ouviu Ben chamar o co e subitamente sentiu o corao aliviado.
Coxeou e caiu, voltou a levantar-se e tornou a cair. Por fim, comeou a
rastejar, a tentar ver o que estava a passar-se. Usou os ramos para se
arrastar para diante. Zeus e Ben iam ficando mais pequenos  medida que
eram levados pela corrente, mas Zeus estava cada vez mais perto.
Ento, de repente, as duas figuras emergiram e Zeus virou-se
subitamente, dirigindo-se para a margem do riacho. Ben vinha logo
atrs, agarrado  cauda do co.
280
- Bate as pernas, querido! Bate! - gritou.
Coxeou, saltou e rebolou para diante, a tentar, sem o conseguir,
acompanhar a corrente. Ben e Zeus iam ficando mais afastados a cada
segundo que passava. Endireitou-se para conseguir acompanh-los com os
olhos; tinham chegado ao centro do riacho... no, j tinham passado o
centro.
Continuou a avanar, lutando com toda a fora que lhe restava para no
os perder de vista, tentando chegar mais  frente, o instinto a levar a
melhor. Em vez da dor do p, sentia o corao a bater com mais fora a
cada passo.
S um tero da largura do riacho at  margem... a corrente a ficar
mais fraca... agora um quarto...
Continuou a arrastar-se, agarrando-se a ramos e deslizando para diante.
Perdeu-os de vista devido  folhagem e, s passados momentos de agonia,
conseguiu descobri-los de novo.
Quase l... um relativo alvio a infiltrar-se... s um pouco mais..,
Por favor, meu Deus... s mais um pouco...
E ali estavam eles. Ben foi o primeiro a pr os ps em terra e largou o
co. Zeus avanou um pouco mais e tambm conseguiu assentar as patas em
terra. Beth arremessou-se na direco deles, quando Zeus e Ben saam da
gua, ambos ainda assustados.
Zeus caiu esgotado logo que se achara em terra firme. Ben seguiu-lhe o
exemplo pouco depois. Quando Beth conseguiu chegar ao p deles, Zeus j
estava de p, mas as pernas tremiam-lhe de exausto, estava molhado e
tossia.
Beth deixou-se cair no cho ao lado do filho e f-lo sentar-se quando
ele comeou a tossir como Zeus.
- Ests bem? - soluou.
- Estou bem - respondeu, a ofegar. Voltou a tossir e limpou a gua do
rosto. - Tive medo, mas tinha a fotografia no bolso. Thibault garantiu
que ela me manteria so e salvo. Assoou-se e perguntou:
- Onde est o pap? E o Thibault?
Feitas as perguntas, ambos comearam a chorar.
281
Beth olhou pelo retrovisor e sorriu ao ver Zeus de p na caixa de carga
da carrinha, de nariz virado ao vento. Ben ia sentado ao lado dela,
mais magro depois do salto de crescimento recente, mas ainda sem altura
suficiente para descansar o brao confortavelmente na janela.
Era o primeiro dia quente depois de semanas daquele tempo miservel; o
Natal no tardava, faltavam menos de duas semanas. O calor e as
tempestades de Outubro eram j uma memria distante. As inundaes
tinham tido honras de figurar nos noticirios a nvel nacional. O
centro de Hampton fora inundado, como sucedera em muitas outras cidades
da regio; no total, seis pessoas perderam a vida.
Apesar do pesadelo que todos tinham vivido, Beth apercebera-se de que,
at onde lhe chegava a memria, sentia pela primeira vez uma espcie
de... paz. Depois do funeral, debatera os extraordinrios
acontecimentos que tinham conduzido quele dia fatal. Sabia que muitas
pessoas da cidade duvidavam da justeza das escolhas que ela fizera. Uma
vez por outra, ouvia sussurros, mas, na maior parte dos casos,
ignorava-os. Se Logan lhe ensinara alguma coisa, era que s podia
contar com a f em si mesma e com os seus instintos.
Felizmente, Nana continuava a melhorar; nos dias e semanas que se
seguiram ao acidente, como ela lhe chamava, Beth, e especialmente
Ben, tinham-se valido da qualidade da sabedoria e do seu apoio sem
desfalecimentos. Cantava regularmente no coro, arranjava tempo para
tratar dos ces e j conseguia usar as duas mos, s coxeando
ocasionalmente, quando mais cansada. Na realidade, um par de semanas
antes, houvera um perodo em que ambas caminhavam exactamente da mesma
maneira. S h dois dias  que Beth tirara o gesso; partira quatro
ossos do p e tivera de andar com o p engessado durante cinco
282
semanas e Nana zombara dela, gozando com a ideia de que havia outra
invlida na famlia.
Ben mudara muito desde ento; algumas das mudanas preocupavam-na,
enquanto outras a deixavam orgulhosa. Sobreviver quela provao tinha
dado a Ben uma certa autoconfiana que ele transportava consigo para a
escola. Ou, pelo menos, ela gostava de pensar que assim sucedia. Por
vezes, punha-se a pensar se seria por causa da fotografia que ele
levava na algibeira. As lminas de plastificao estavam gastas e
comeavam a separar-se, mas no se separava dela, trazendo-a sempre
consigo. com o tempo, presumia Beth, talvez abandonasse a ideia, mas
quem poderia garantir isso? Era o legado de Logan para Ben e, como tal,
tinha um significado especial para ele.
A perda fora, sem dvida, difcil de suportar por Ben. Embora raramente
se referisse ao assunto, Beth sabia que ele se considerava de certa
forma culpado. E continuava a ter pesadelos uma vez por outra, em que
umas vezes chamava por Keith e outras vezes por Logan. Quando Beth o
abanava para que acordasse, o sonho era sempre o mesmo. Debatia-se no
rio, prestes a afogar-se, quando via Zeus a dirigir-se para ele. Porm,
no sonho, ele tentava agarrar a cauda do co, mas no o conseguia.
Chegava perto e no conseguia, uma e outra vez, acabando por verificar
que Zeus j no tinha cauda e Ben ficava a ver-se, como se estivesse a
observar a cena de lado, a afundar-se lentamente no rio.
Ao chegar ao cemitrio, Beth arrumou o carro no lugar habitual. Trazia
dois vasos de flores. Primeiro, como sempre fazia quando vinha quele
lugar, dirigiu-se ao lugar onde Drake fora sepultado e quedou-se um
momento a record-lo; depois, arrancou as ervas que encontrou  volta
da pedra tumular e deixou o vaso das flores. A seguir dirigiu-se 
outra sepultura. Guardara o arranjo floral maior para esta. Era o
aniversrio dele e queria ter a certeza de que ele seria recordado.
Zeus vagueava por ali, a cheirar e a explorar tudo, como fazia
habitualmente. Ben vinha mais atrs, como passara a suceder desde a
chegada de Zeus. Ben sempre adorara o co, mas depois de ter sido salvo
por ele no rio, tornara-se impossvel separ-los. Zeus parecia
reconhecer o que tinha feito ou, pelo menos, era essa a explicao que
Ben dava; e na cabea do co eram agora inseparveis.  noite, Zeus
dormia no corredor,  porta do quarto de Ben. Caminhando aos tropees
para a casa de banho a meio da noite, Beth avistava muitas vezes o co
perto da cama de Ben, a guardar o seu adorado companheiro enquanto ele
dormia.
283
A perda fora complicada e tanto ela como Ben tinham lutado com as suas
repercusses. Por vezes, ela sentia que as suas memrias entravam em
conflito, pois, a despeito do herosmo que assinalara o fim dele, as
reminiscncias nem sempre eram felizes. Porm, tudo dito e feito, Keith
Clayton seria recordado por ela com inequvoca gratido. Nunca poderia
esquecer como ele carregara com ela depois da queda daquele dia. Ou
que, no final, morrera a tentar salvar o filho de ambos.
Esse gesto contava alguma coisa. Contava muito e, apesar das suas
outras falhas, era por ele que Beth escolhera record-lo para sempre.
Esperava que, para o prprio bem do filho, Ben o recordasse tambm
assim, sem sentimentos de culpa e sabendo que Keith o amava, embora em
vida no o tivesse revelado.
Quanto a ela, Logan estaria  sua espera quando regressasse a casa.
Oferecera-se para a acompanhar ao cemitrio, mas, de qualquer forma,
ela sabia que ele no queria realmente ir. Estavam no fim-de-semana e
ele preferia percorrer as instalaes sozinho, a reparar coisas e a
trabalhar na nova casa de rvore para Ben, situada no jardim das
traseiras. Mais tarde, tencionavam decorar a rvore de Natal. Beth
comeava a habituar-se aos ritmos e aos humores dele, a reconhecer os
imperceptveis sinais que demonstravam como ele era. bom e mau, com
virtudes e defeitos, seria dela para sempre.
Ao parar no desvio, viu Logan a descer a escada e acenou-lhe.
Ela, imperfeita como era, tambm seria dele para sempre. Era pegar ou
largar, pensou. Ela era quem era.
Logan caminhou para ela, a sorrir como se conseguisse ler-lhe o
pensamento, e abriu os braos.
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Coleco Grandes Narrativas:

1. O Mundo de Sofia, JOSTEIN GAARDER
2. Os Filhos do Graal, PETER BERLING
3. Outrora Agora, AUGUSTO ABELAIRA
4. O Riso de Deus, ANTNIO ALADA BAPTISTA
5. O Xang de Baker Street, J SOARES
6. Crnica Esquecida d'El Rei D. Joo II, SEOMARA DA VEIGA FERREIRA
7. Priso Maior, GUILHERME PEREIRA
8. Vai Aonde Te Leva o Corao, SUSANNA TAMARO
9. O Mistrio do Jogo das Pacincias, JOSTEIN GAARDER
10. Os Ns e os Laos, ANTNIO ALADA BAPTISTA
11. No  o Fim do Mundo, ANA NOBRE DE GUSMO
12. O Perfume, PATRICK SSKIND
13. Um Amor Feliz, DAVID MOURO-FERREIRA
14. A Desordem do Teu Nome, JUAN JOS MILLAS
15. Com a Cabea nas Nuvens, SUSANNA TAMARO
16. Os Cem Sentidos Secretos, AMY TAN
17. A Histria Interminvel, MICHAEL ENDE
18. A Pele do Tambor, ARTURO PREZ-REVERTE
19. Concerto no Fim da Viagem, ERIK FOSNES HANSEN
20. Persuaso, JANE AUSTEN
21. Neandertal, JOHN DARNTON
22. Cidadela, ANTOINE DE SAINT-EXUPRY
23. Gaivotas em Terra, DAVID MOURO-FERREIRA
24. A Voz de Lila, CHIMO
25. A Alma do Mundo, SUSANNA TAMARO
26. Higiene do Assassino, AMLIE NOTHOMB
27. Enseada Amena, AUGUSTO ABELAIRA
28. Mr. Vertigo, PAUL AUSTER
29. A Repblica dos Sonhos, NLIDA PION
30. Os Pioneiros, LUSA BELTRO
31. O Enigma e o Espelho, JOSTEIN GAARDER
32. Benjamim, CHICO BUARQUE
33. Os Impetuosos, LUSA BELTRO
34. Os Bem-Aventurados, LUSA BELTRO
35. Os Mal-Amados, LUSA BELTRO
36. Territrio Comanche, ARTURO PREZ-REVERTE
37. O Grande Gatsby, F. SCOTT FITZGERALD
38. A Msica do Acaso, PAUL AUSTER
39. Para Uma Voz S, SUSANNA TAMARO
40. A Homenagem a Vnus, AMADEU LOPES SABINO
41. Malena  Um Nome de Tango, ALMUDENA GRANDES
42. As Cinzas de Angela, FRANK McCOURT
43. O Sangue dos Reis, PETER BERLING
44. Peas em Fuga, ANNE MICHAELS
45. Crnicas de Um Portuense Arrependido, ALBANO ESTRELA
46. Leviathan, PAUL AUSTER
47. A Filha do Canibal, ROSA MONTERO
48. A Pesca  Linha - Algumas Memrias, ANTNIO ALADA BAPTISTA
49. O Fogo Interior, CARLOS CASTANEDA
50. Pedro e Paula, HELDER MACEDO
51. Dia da Independncia, RICHARD FORD
52. A Memria das Pedras, CAROL SHIELDS
53. Querida Mathilda, SUSANNA TAMARO
54. Palcio da Lua, PAUL AUSTER
55. A Tragdia do Titanic, WALTER LORD
56. A Carta de Amor, CATHLEEN SCHINE
57. Profundo como o Mar, JACQUELYN MITCHARD
58. O Dirio de Bridget Jones, HELEN FIELDING
59. As Filhas de Hanna, MARIANNE FREDRIKSSON
60. Leonor Teles ou o Canto da Salamandra, SEOMARA DA VEIGA FERREIRA
61. Uma Longa Histria, GNTER GRASS
62. Educao para a Tristeza, LUSA COSTA GOMES
63. Histrias do Paranormal - I Volume, Direco de RIC ALeXANDER
64. Sete Mulheres, ALMUDENA GRANDES
65. O Anatomista, FEDERICO ANDAHAZI
66. A Vida  Breve, JOSTEIN GAARDER
67. Memrias de Uma Gueixa, ARTHUR GOLDEN
68. As Contadoras de Histrias, FERNANDA BOTELHO
69. O Dirio da Nossa Paixo, NICHOLAS SPARKS
70. Histrias do Paranormal - II Volume, Direco de RIC ALEXANDER
71. Peregrinao Interior - I Volume, ANTNIO ALADA BAPTISTA
72. O Jogo de Morte, PAOLO MAURENSIG
73. Amantes e Inimigos, ROSA MONTERO
74. As Palavras Que Nunca Te Direi, NICHOLAS SPARKS
75. Alexandre, O Grande - O Filho do Sonho, VALERIO MASSIMO MANFREDI
76. Peregrinao Interior - II Volume ANTNIO ALADA BAPTISTA
77. Este  o Teu Reino, ABLIO ESTVEZ
78. O Homem Que Matou Getlio Vargas, J SOARES
79. As Piedosas, FEDERICO ANDAHAZI
80. A Evoluo de Jane, CATHLEEN SCHINE
81. Alexandre, O Grande - O Segredo do Orculo, VALERIO MASSIMO MANFREDI
82. Um Ms com Montalbano, ANDREA CAMILLERI
83. O Tecido do Outono, ANTNIO ALADA BAPTISTA
84. O Violinista, PAOLO MAURENSIG
85. As Vises de Simo, MARIANNE FREDRIKSSON
86. As Desventuras de Margaret, CATHLEEN SCHINE
87. Terra de Lobos, NICHOLAS EVANS
88. Manual de Caa e Pesca para Raparigas, MELISSA BANK
89. Alexandre, o Grande - No Fim do Mundo, VALERIO MASSIMO MANFREDI
90. Atlas de Geografia Humana, ALMUDENA GRANDES
91. Um Momento Inesquecvel, NICHOLAS SPARKS
92. O ltimo Dia, GLENN KLEIER
93. O Crculo Mgico, KATHERINE NEVILLE
94. Receitas de Amor para Mulheres Tristes, HCTOR ABAD FACIOLINCE
95. Todos Vulnerveis, LUSA BELTRO
96. A Concesso do Telefone, ANDREA CAMILLERI
97. Doce Companhia, LAURA RESTREPO
98. A Namorada dos Meus Sonhos, MIKE GAYLE
99. A Mais Amada, JACQUELYN MITCHARD
100. Ricos, Famosos e Benemritos, HELEN FIELDING
101. As Bailarinas Mortas, ANTNIO SLER
102. Paixes, ROSA MONTERO
103. As Casas da Celeste, THERESA SCHEDEL
104. A Cidadela Branca, ORHAN PAMUK
105. Esta  a Minha Terra, FRANK McCOURT
106. Simplesmente Divina, WENDY HOLDEN
107. Uma Proposta de Casamento, MIKE GAYLE
108. O Novo Dirio de Bridget Jones, HELEN FIELDING
109. Crazy - A Histria de Um Jovem, BENJAMIN LEBERT 142.
110. Finalmente Juntos, JOSIE LLOYD E EMLYN REES
111. Os Pssaros da Morte, MO HAYDER
112. A Papisa Joana, DONNA WOOLFOLK CROSS
113. O Aloendro Branco, JANET FITCH
114. O Terceiro Servo, JOEL NETO
115. O Tempo nas Palavras, ANTNIO ALADA BAPTISTA
116. Vcios e Virtudes, HELDER MACEDO
117. Uma Histria de Famlia, SOFIA MARRECAS FERREIRA 150.
118. Almas  Deriva, RICHARD MASON
119. Coraes em Silncio, NICHOLAS SPARKS 152.
120. O Casamento de Amanda, JENNY COLGAN
121. Enquanto Estiveres A, MARC LEVY
122. Um Olhar Mil Abismos, MARIA TERESA LOUREIRO
123. A Marca do Anjo, NANCY HUSTON
124. O Quarto do Plen, 156. ZO JENNY
125. Responde-me, SUSANNA TAMARO
126. O Convidado de Alberta, BIRGIT VNDERBEKE
127. A Outra Metade da Laranja, JOANA MIRANDA
128. Uma Viagem Espiritual, BILLY MILLS e NICHOLAS SPARKS
129. Fragmentos de Amor Furtivo, HCTOR ABAD FACIOLINCE
130. Os Homens So como Chocolate, TINA GRUBE
131. Para Ti, Uma Vida Nova, TIAGO REBELO
132. Manuela, PHILIPPE LABRO
133. A Ilha Dcima, MARIA LUSA SOARES
134. Maya, JOSTEIN GAARDER
135. Amor  Uma Palavra de Quatro Letras, CLAIRE CALMAN
136. Em Memria de Mary, JULIE PARSONS
137. Lua-de-Mel, AMY JENKINS
138. NOVAMENTE JUNTOS, JOSIE LLOYD E EMLYN REES
139. Ao Virar dos Trinta, MIKE GAYLE
140. o Marido Infiel, BRIAN GALLAGHER
141. O QUE SIGNIFICA AMAR, DAVID BADDIEL .
142. A CASA DA LOUCURA, PATRICK McGRATH .
143. Quatro Amigos, DAVID TRUEBA.
144. Estou-me nas Tintas para os Homens Bonitos, TINA GRUBE
145. Eu at Sei Voar, PAOLA MASTROCOLA
146. O Homem Que Sabia Contar, MALBA TAHAN
147. A poca da Caa, ANDREA CAMILLERI
148. No Vou Chorar o Passado, TIAGO REBELO
149. Vida Amorosa de Uma Mulher, ZERUYA SHALEV
150. Danny Boy, Jo-ANN GDWIN
151. Uma Promessa para Toda a Vida, NICHOLAS SPARKS
152. o Romance de Nostradamus
- O Pressgio, VALERIO EVANGELISTI
153. Cenas da Vida de Um Pai Solteiro, TONY PARSONS
154. Aquele Momento, ANDREA DE CARLO
155. Renascimento Privado, MARIA BELLONCI
156. A Morte de Uma Senhora, THERESA SCHEDEL
157. O Leopardo ao Sol, LAURA RESTREPO
158. Os Rapazes da Minha Vida, BEVERLY DONOFRIO
159. O Romance de Nostradamus - O Engano, VALERIO EVANGELISTI
160. Uma Mulher Desobediente, JANE HAMILTON
161. Duas Mulheres, Um Destino, MARIANNE FREDRIKSSON
162. Sem Lgrimas Nem Risos, JOANA MIRANDA
163. Uma Promessa de Amor, TIAGO REBELO
164. O Jovem da Porta ao Lado, JOSIE LLOYD & EMLYN REES
165. 14,99 - A Outra Face da Moeda, FRDRIC BEIGBEDER
166. Precisa-se de Homem Nu, TINA GRUBE
167. O Prncipe Siddharta - Fuga do Palcio, PATRiCIA CHENDI
168. O Romance de Nostradamus - O Abismo, VALERIO EVANGELISTI
169. O Citroen Que Escrevia Novelas Mexicanas, JOEL NETO
170. Antnio Vieira - O Fogo e a Rosa, SEOMARA DA VEIGA FERREIRA
171. Jantar a Dois, MIKE GAYLE
172. Um Bom Partido - I Volume, VIKRAM SETH
173. Um Encontro Inesperado, RAMIRO MARQUES
174. No Me Esquecerei de Ti, TONY PARSONS
175. O Prncipe Siddharta - As Quatro Verdades, PATRCIA CHENDI
176. O Claustro do Silncio, LUS ROSA
177. Um Bom Partido - II Volume, VIKRAM SETH
178. As Confisses de Uma Adolescente, CAMILLA GIBB
179. Bons na Cama, JENNIFER WEINER
180. Spider, PATRICK McGRATH
181. O Prncipe Siddharta - O Sorriso do Buda, PATRCIA CHENDI
182. O Palcio das Lgrimas, ALEV LYTLE CROUTIER
183. Apenas Amigos, ROBYN SISMAN
184. O Fogo e o Vento, SUSANNA TAMARO
185.Henry & June, ANAS NIN
186. Um Bom Partido - III Volume, VIKRAM SETH
187. Um Olhar  Nossa Volta, ANTNIO ALADA BAPTISTA
188. O Sorriso das Estrelas, NICHOLAS SPARKS
189. O Espelho da Lua, JOANA MIRANDA
190. Quatro Amigas e Um Par de Calas, ANN BRASHARES
191. O Pianista, WLADYSLAW SZPILMAN
192. A Rosa de Alexandria, MARIA LUCLIA MELEIRO
193. Um Pai muito Especial, JACQUELYN MITCHARD
194. A Filha do Curandeiro, AMY TAN
195. Comear de Novo, ANDREW MARK
196. A Casa das Velas, K. C. McKINNON
197. ltimas Notcias do Paraso, CLARA SNCHEZ
198. O Corao do Trtaro, ROSA MONTERO
199. Um Pas para L do Azul do Cu, SUSANNATAMARO
200. As Ligaes Culinrias, ANDREAS STAKOS
201. De Mos Dadas com a Perfeio, SOFIA BRAGANA BUCHHOLZ
202. O Vendedor de Histrias, JOSTEIN GAARDER
203. Dirio de Uma Me, JAMES PATTERSON
204. Nao Prozac, ELIZABETH WURTZEL
205. Uma Questo de Confiana, TIAGO REBELO
206. Sem Destino, IMRE KERTSZ
207. Laos Que Perduram, NICHOLAS SPARKS
208. Um Vero Inesperado, KITTY ALDRIDGE
209. D'Acordo, MARIA JOO LEHNING
210. Um Casamento Feliz, ANDREW KLAVAN
211. A Viagem da Minha Vida - Pela ndia de Mochila s Costas, WILLIAM
SUTCLIFFE
212. Gritos da Minha Dana, FERNANDA BOTELHO
213. O ltimo Homem Disponvel, CINDY BLAKE
214. Solteira, Independente E Bem Acompanhada, LUCIANA LITTIZZETTO
215. O Estranho Caso do Co Morto, MARK HADDON
216. O Segundo Vero das Quatro Amigas e Um Par de Calas, aNN BRASHARES
217. No Sei como  Que Ela Consegue, ALLISON PEARSON
218. Marido e Mulher, TONY PARSONS
219. Ins de Castro,
MARIA PILAR QUERALT HIERRO
220. No Me Olhes nos Olhos, TINA GRUBE
221. O Mosteiro e a Coroa, THERESA SCHEDEL
222. A Rapariga das Laranjas, JOSTEIN GAARDER
223. A Recusa, IMRE KERTSZ
224. A Alquimia do Amor, NICHOLAS SPARKS
225. A Cor dos Dias - Memrias e Peregrinaes, ANTNIO ALADA BAPTISTA
226. A Esperana Reencontrada, ANDREW MARK
227. Eu e as Mulheres da Minha Vida, JOO TOMS BELO
228. O Golpe Milionrio, BRAD MELTZER
229. A Noiva Prometida, BAPSI SIDHWA
230. Jack, o Estripador - Retrato de Um Assassino, PATRCIA CORNWELL
231. O Livreiro de Cabul, SNE SEIERSTAD
232. Ali e Nino - Uma Histria de Amor, KURBAN SAID
233. A Rapariga de Pequim, CHUN SHU
234. No Se Escolhe Quem Se Ama, JOANA MIRANDA
235. s Duas por Trs, CECLIA CALADO
236. Mulheres, Namorados, Maridos e Sogras, LUCIANA LITTIZZETTO
237. Estranho Encontro, BENJAMIN LEBERT
238. Pai ao Domingo, CLAIRE CALMAN
239. Perdas e Ganhos, LYA LUFT
240. Sete Casas, ALEV LYTLE CROUTIER
241. A Noiva Obscura, LAURA RESTREPO
242. Santo Desejo, PEDRO ALADA BAPTISTA
243. Uma Me quase Perfeita, PAOLA MASTROCOLA
244. Romance em Amesterdo, TIAGO REBELO
245. Nem S Mas Tambm, AUGUSTO ABELAIRA
246. Ao Sabor do Vento, RAMIRO MARQUES
247. A Agncia n 1 de Mulheres Detectives, ALEXANDER McCALL SMITH
248. Os Homens em Geral Agradam-me Muito, VERONIQUE OVALD
249. Os Jardins da Memria, ORHAN PAMUK
250. Trs Semanas com o Meu Irmo, NICHOLAS SPARKS e MICAH SPARKS
251. Nunca  Tarde para Recomear, CATHERINE DUNNE
252. A Cidade das Flores, AUGUSTO ABELAIRA
253. Kaddish para Uma Criana Que No Vai Nascer, IMRE KERTSZ
254. 101 Dias em Bagdad, SNE SEIERSTAD
255. Uma Famlia Diferente, THERESA SCHEDEL
256. Depois de Tu Partires, MAGGIE O'FARRELL
257. Homem em Fria, A. J. QUINNELL
258. Uma Segunda Oportunidade, KRISTIN HANNAH
259. A Regra de Quatro, IAN CALDWELL e DUSTIN THOMASON
260. As Lgrimas da Girafa, ALEXANDER McCALL SMITH
261. Lcia, Lcia, ADRIANA TRIGIANI
262. A Mulher do Viajante no Tempo, AUDREY NIFFENEGGER
263. Abre o Teu Corao, JAMES PATTERSON
264. Um Natal Que no Esquecemos, JACQUELYN MITCHARD
265. Imprimatur - O Segredo do Papa, FRANCESCO SORTI e RITA MONALDI
266. A Vida em Stereo, PEDRO DE FREITAS BRANCO
267. O Terramoto de Lisboa e a Inveno do Mundo, LUS ROSA
268. Filhas Rebeldes, Manju Kapur.
269. Bolor, Augusto Abelaira.
270. Profecia da Curandeira, Hermn Huarache Mamani.
271. O Cdice Secreto, Lev Grossman.
272. Olhando o Nosso Cu, Maria Lusa Soares.
273. Moralidade e Raparigas Bonitas, Alexander McCall Smith.
274. Sem Nome, Hlder Macedo.
275. Quimera, Valerio Maximo Manfredi.
276. Uma Outra Maneira de Ser, Elizabeth Moon.
277. Encontro em Jerusalm, Tiago Rebelo.
278. Lucrcia e o Papa Alexandre Vi, John Founce.
279. Me e Filha, Marianne Frederiksson.
280. O Segredo dos Conclaves, Atto Melani.
281. Contigo Esta Noite, Joana Miranda.
282. Dante e os Crimes do Mosaico, de Giulio Leoni.
283. A Bela Angevina, Jos-Augusto Frana.
284. O Segredo da ltima Ceia, Javier Sierra.
285. Est uma Noite Quente de Vero, Isabel Ramos.
286. O Terceiro Vero das Quatro Amigas e um par de Calas, Ann
Brashares.
287. Quem Ama Acredita, Nicholas Sparks.
288. O melhor que um homem pode Ter, John O'Farrell.
289. A gata e a fbula, Fernanda Botelho.
290. Incertezas do corao, Naggie O'Farrell.
291. Crepsculo fatal, Nelson Demille.
292. Como da primeira vez, Mike Gayle.
293. A Inconstncia dos Teus Caprichos, CRISTINA FLORA
294. A Year in the Merde - Um Ano em Frana, STEPHEN CLARKE
295. A ltima Legio, VALERIO MASSIMO MANFREDI
296. As Horas Nuas, LYGiA FAGUNDES TELLES
297. O cone Sagrado, NEIl OLSON
298. Na Sua Pele, JENNIFER WEINER
299. O Mistrio da Atlntida, DAVID GIBBINS
300. O Amor Infinito de Pedro e Ins, LUS ROSA
301. Uma Rapariga Cheia de Sonhos, STEVE MARTIN
302. As Meninas, LYGIA FAGUNDES TELLES
303. Jesus e Maria Madalena, MARIANNE FREDRIKSSON
304. s o Meu Segredo, TIAGO REBELO
305. O Enigma Vivaldi, PETER HARRIS
306. A Vingana de Uma Mulher de Meia-Idade, ELIZABETH BUCHAN
307. Jogos de Vida e Morte, BEN RICHARDS
308. A Mulher Que Viveu por Um Sonho, MARIA ROSA CUTRUFELLI
309. Um Amor Irresistvel - Gordon, EDITH TEMPLETON
310. Parania, JOSeF PHINDER
311.  Primeira Vista, NICHOLAS SPARKS
312. Nas Asas de Um Anjo, MIGUEL VILA
313. Vero no Aqurio, LYGIA FAGUNDES TELLES
314. Scriptum - O Manuscrito Secreto, RAYMOND KHOURY
315. Jos e os Outros - Almada e Pessoa Romance dos Anos 20, JOS-
AUGUSTO FRANA
316. O Espio de Deus, JUAN GMEZ-JURADO
317. As Mulheres de Mozart, STEPHANIE COWELL
318. O Esprito do Amor, BEN SHERWOOD
319. O Segredo dos Beatles, PEDRO DE FREITAS BRANCO
320. Sete Mulheres, Sete Histrias, MERCEDES BALSEMO, VERA DESLANDES
PINTO BASTO, VERA PINTO BASTO, MARIA JOO BORDALLO, TERESA AVILLEZ
PEREIRA, MARIA HELENA MAIA, MARIA TERESA SALEMA
321. Os Nossos Dias ao Ritmo do Rock, MIKAEL NIEMI
322. A Histria Secreta de A Noiva Judia, LUIGI GUARNIERI
323. Atraco Perigosa, DOUGLAS KENNEDY
324. Em Nome do Amor, MEG ROSOFF
325. O Leque Secreto, LISA SEE
326. O Que Faz Bater o Corao dos Homens?, LUCIANA LITTIZZETTO
327. Erasmus de Salnica, ANTNIO PAISANA
328. Trs Metros Acima do Cu, FEDERICO MOCCIA
329. Assassinatos na Academia Brasileira de Letras, J SOARES
330. O Fabuloso Teatro do Gigante, DAVID MACHADO
331. De Mos Dadas com o Amor, JAN GOLDSTEIN
332. A Outra Face do Amor, CATHERINE DUNNE
333. Escuta a Minha Voz, SUSANNA TAMARO
334. As Naves de Calgula, Maria Grazia Siliato.
335. Juntos ao Luar, Nicholas Sparks.
336. A Vida Nova, ORHAN PAMUK
337. A Chave Mestra, AGUSTN SNCHEZ VIDAL
338. A Obra-Prima Desaparecida, JONATHAN HARR
339. O Tempo dos Amores Perfeitos, TIAGO REBELO
340. Imperium, ROBERT HARRIS
341. Os Amantes e Outros Contos, DAVID MOURO-FERREIRA
342. Amanh Ser Melhor, FAIZA GUNE
343. A Criana Que no Queria Falar, TOREY HADEN
344. Bocage - A Vida Apaixonada de Um Genial Libertino, LUS ROSA
345. Um Novo Sentido Para a Vida, LOLLY WINSTON
346. O Elogio do Fracasso, JOO TEIXEIRA FREIRE
347. Dirio de Um Escndalo, ZOE HELLER
348. A Medida do Mundo, DANIEL KEHLMANN
349. Ins de Castro - A Estalagem dos Assombros, SEOMARA DA VEIGA
FERREIRA
350. Uma Vida em Mil Pedaos, JAMES FREY
351. O Dcimo Terceiro Conto, DIANE SETTERFIELD
352. O Pescador de Girassis, ANTNIO SANTOS
353. O Manuscrito de Deus, JUAN RAMN BIEDMA
354. A Mulher de Mrmore, JOANA MIRANDA
355. Os Cisnes de Leonardo, KAREN ESSEX
356. Contos do Desaforo, JOS ANTNIO BARREIROS
357. O Dirio Perdido de D. Juan, DOUGLAS CARLTON ABRAMS
358. As Runas, SCOTT SMITH
359. Zen e a Arte da Manuteno de Motocicletas, ROBERT M. PIRSIG
360. A Histria de Dave, DAVE PELZER
361. Os Bastidores da OPA, MANUEL LEITO
362. Os Pilares da Terra - Volume I, KEN FOLLETT
363. Memrias de Agripina, SEOMARA DA VEIGA FERREIRA
364. A Menina Que Nunca Chorava, TOREY HAYDEN
365. To Longe de Casa, CURTIS SITTENFELD
366. Foi Assim Que Aconteceu, TERESA FONT
367. A Estrela de Joana, PAULO PEREIRA CRISTVO
368. Os Pilares da Terra - Volume II, KEN FOLLETT
369. Fui Roubada aos Meus Pais, CLINE GIRAUD
370. O Meu Nome  Vermelho, ORHAN PAMUK
371. Um Pequeno Inconveniente, MARK HADDON
372. Os Filhos do Afecto, TOREY HAYDEN
373. Uma Escolha por Amor, NICHOLAS SPARKS
374. Elizabeth - A Idade de Ouro, TASHA ALEXANDER
375. O Sonho Mais Doce, DORIS LESSING
376. O Homem Que Viveu Duas Vezes, CARLOS MACHADO
377. Tenho 13 Anos, Fui Vendida, PATRCIA McCORMICK
378. A ltima Estao, JAY PARINI
379. O Charme Discreto da Vida Conjugal, DOUGLAS KENNEDY
380. Ricardo Corao de Leo, JOS-AUGUSTO FRANA
381. Cartas de Uma Me, CATHERINE DUNNE
382. O Ouro dos Cruzados, DAVID GIBBINS
383. O Lado Selvagem, JON KRAKAUER
384. Uma Criana em Perigo, TOREY HAYDEN
385. A Rapariga Que Roubava Livros, MARTCUS ZUSAK
386. Mil Sis Resplandecentes,  KHALED HOSSEINI
387. Neve, ORHAN PAMUK
388. A Estrela de Madeleine, PAULO PEREIRA CRISTVO
389. O ltimo Ano em Luanda, TIAGO REBELO
390. Um Companheiro Inesquecvel, SUSANNA TAMARO
391. Tropa de Elite, LUIZ EDUARDO SOARES, ANDR BATISTA, RODRIGO
PIMENTEL
392. A ltima Cartada, BEN MEZRICH
393. A Fenda, DORIS LESSING
394. Filhos do Abandono, TOREY HAYDEN
395. Amo-te Filha! - O Caso Esmeralda, PATRCIA SILVA
396. As Fogueiras da Inquisio, ANA CRISTINA SILVA
397. A Ilha dos Amores Infinitos, DANA CHAVIANO
398. Ciranda de Pedra, LYGIA FAGUNDES TELLES
399. O Menino Que Sonhava Chegar  Lua, SALLY NICHOLLS
400. A Minha Vida com George, JUpITH SUMMERS
401. Dirio de Uma Dona de Casa Desesperada, SUE KAUFMAN
402. O Quarto Vero das Quatro Amigas e Um Par de Calas, ANN BRASHARES
403. Entre o Cu e a Montanha, WILL NORTH
404. Infncia Perdida, CATHY GLASS
405. Gerao Mil Euros, ANTNIO INCORVAIA
e ALESSANDRo RIMASSA
406. A Casa do Silncio, ORHAM PAMUK
407. As Avs - E Outras Histrias, DORIS LESSING
408. Um Mundo Sem Fim - Volume I, KEN FOLLETT
409. A Fora dos Afectos, TOREY HAYDEN
410. Um Mundo Sem Fim - Volume II, KEN FOLLETT
411. Um Homem com Sorte, NICHOLAS SPARKS

Fim
